CNTE cobra revogação de decreto que permite militarização das escolas e ataque à educação pública

A militarização das escolas públicas que se acentuou a partir da década de 1990, recebeu um fundamental incentivo em fevereiro de 2019, quando o presidente derrotado nas últimas eleições, Jair Bolsonaro (PL)  lançou o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (PECIM). Em defesa da escola pública, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e demais entidades do Fórum Nacional Popular da Educação (FNPE) cobram do governo a revogação do programa.

O objetivo do projeto bolsonarista era implementar 216 escolas de educação básica no modelo cívico-militar. O número não foi atingido, mas o país já possui 128 escolas com essa estrutura, considerada de alto custo, elitista e em desrespeito à Constituição Federal e à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que define e organiza todo o sistema educacional brasileiro.

“Quando se militariza uma escola, ela começa a funcionar a partir dos valores da área de segurança que a gerência. O regime próprio que as norteia garante autonomia para que exista desde a exigência de bater continência até a definição de quais conteúdos podem ser trabalhados. Quando se limita o aprendizado ao desejo de um grupo específico, se fere princípios constitucionais e da LDB, além do direito do sujeito da educação, que é o estudante, que tem direito de vivenciar as suas características, a sua cultura e a sua diversidade”, explica a professora da Universidade de Brasília e Doutora em educação, Catarina de Almeida Santos. 

 Leia também: 200 entidades pedem a Lula desmilitarização da educação e da vida

Na próxima quarta-feira (12), o ministro da Educação, Camilo Santana, vai participar da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados para falar sobre o plano de atuação e as prioridades da pasta. A continuidade das escolas cívico-militares, criadas no governo passado, também serão temas do debate. 

 Pela revogação do decreto e escolas democráticas

Enquanto a Constituição aponta que a educação tem como finalidade formar plenamente cada sujeito a partir das suas características, identidades e realidades para viver em uma sociedade diversa, os colégios cívico-militares funcionam a partir de um regime próprio e de regras que atendam a interesses do grupo responsável por dirigir a unidade. Nesse caso, os militares, que recebem autonomia para definir a estrutura pedagógica.

Já as escolas públicas precisam seguir princípios de igualdade, permanência, de liberdade de ensinar e aprender, de pluralismo e concepções pedagógicas e a valorização dos profissionais da educação que, segundo a LDB, devem participar da construção do projeto político e pedagógico da escola.

Com regras próprias de funcionamento, os colégios cívico-militares, portanto, representam uma quebra de compromisso com um modelo de educação pensado para o país, conforme explica a professora Catarina.

 Entre os problemas estruturais identificados nesse formato de colégio, está o custo por aluno. Enquanto a rede pública investe R$ 6 mil, o Exército gastou R$ 19 mil ao ano por estudante.

O recurso aproximado para ter um colégio militar em cada capital do país, como desejava o governo de Jair Bolsonaro (PL), seria de R$ 300 milhões. O montante é referente apenas à gestão e administração, sem considerar a construção, é superior aos R$ 200 milhões aplicados pelo ex-presidente na formação de todos os professores do país em 2022.

Não bastasse isso, os colégios cívico-militares, mesmo financiados por recursos públicos, são excludentes: a maior patê dos estudantes são filhos de militares e os demais precisam prestar provas para ingressar em espaços nos quais a concorrência chega a 270 alunos por vaga.

A revogação do PECIM, ressalta a Secretária de Assuntos Educacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), Guelda Cristina de Oliveira Andrade, é um tema prioritário para entidade, que promoverá uma live no dia 28 de abril para debater a questão. Em nota de 2019, a CNTE já apontava que a escola sob tutela militar violava ao menos cinco princípios constitucionais.

“O que vemos é um perfil excludente que impede vivenciar a liberdade de expressão, no qual os profissionais da educação não podem fazer diálogo franco e aberto a respeito do que acontece na sociedade”, explica.

Escolas públicas em risco

Na avaliação de Catarina, o PECIM deveria ter sido revogado no 1º dia de governo, no ato revogatório dos decretos, porque não contribui para o processo formativo e se torna referência para estados e municípios que defendem a militarização e a terceirização do ensino.

Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 56/23, de autoria dos deputados Rogério Correia (PT-MG) e Fernando Mineiro (PT-RN), que revoga o decreto, está em tramitação na Câmara dos Deputados. Ao contrário disso, a manutenção do programa, segundo a professora, é um risco para a própria educação pública.

“Essa proteção do programa só favorece a expansão da militarização. Vemos cada vez mais a aprovação de leis ou baixando decretos para militarização das escolas, muitas vezes, com base no próprio PECIM. Além de revogar, o governo precisa construir uma agenda de desmilitarização das escolas brasileiras”, afirma a professora.

Ela ressalta que “o que está em risco com o PCIM é a própria escola pública, porque a militarização são os governos rifando as instituições escolares para colocá-las nas mãos de determinadas categorias profissionais, que atuam a partir de crenças e interesses das forças de segurança e não mais a partir da lógica da escola pública que precisa seguir princípios constitucionais construídos coletivamente com participação social”,  explica.

Combate ao extremismo

Catarina ressalta ainda, que o combate ao extremismo, responsável por promover o crescimento dos ataques às escolas, demanda que um modelo o mais distante possível do autoritarismo presente nos colégios cívico-militares.

“O não desenvolvimento da função da escola irá atingir toda a sociedade. Vivenciamos esse processo no Brasil, não só no ataque às escolas, mas por meio do extremismo espalhado para todos os lados. A escola que irá reverter esse cenário será aquela pautada no diálogo que debate os temas candentes da nossa sociedade que estão alimentando o extremismo. Na escola militarizada você não debaterá o racismo, o machismo, as questões de orientação sexual, de gênero. A lógica hierárquica da escola militarizada não possibilita que as questões da sociedade, da vida do estudante não possam ser debatidas lá. Porque no quartel não se faz isso e a lógica que passa a ser implementada é a lógica do quartel”, critica.

Resistência 

A lógica da truculência atinge também os setores democráticos que se opõem ao projeto nos estados. No Mato Grosso, a proposta de militarização gerou protestos e em Goiás, a aplicação do modelo tem gerado denúncias de sofrimento e medo a partir da gestão implementada.

Em São Paulo, uma ação do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP) resultou na suspensão imediata da instalação de escolas cívico-militares na rede estadual de ensino e estabeleceu uma importante referência de combate a esse modelo. 

CNTE lança abaixo-assinado para pressionar governo por um Projeto de Lei que regulamente os direitos dos/as trabalhadores/as da educação

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Preocupada com os direitos da categoria e em defesa da educação pública com a valorização de seus profissionais, a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) lançou um abaixo-assinado para pressionar o Ministério da Educação (MEC) para enviar, de forma urgente, um Projeto de Lei sobre o Piso Salarial e as Diretrizes Nacionais de Carreira dos Profissionais. Assine agora a petição da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação CLICANDO AQUI.

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Estados e municípios são obrigados a seguir piso salarial dos professores? Entenda a polêmica.

A ideia é que pais/mães, responsáveis, estudantes, professoras/es e funcionários/as da educação, familiares próximos e todos/as que defendem a educação pública como direito de todo o povo brasileiro assinem o manifesto que pede o Piso e Diretrizes de Carreira dos/as Profissionais da Educação Pública.

O que a entidade destaca é que as fragilidades na lei acabam permitindo que prefeitos/as e governadores/as ataquem os planos de carreira nos Estados e Municípios, prejudicando trabalhadores e trabalhadoras da educação. O abaixo-assinado será protocolado no MEC no próximo dia 24 de abril.

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Luta pela aplicação do piso na carreira continua e greve nacional está prevista.

Fonte: CNTE

24ª Semana Nacional em Defesa e Promoção da Educação Pública De 24 a 28 de abril de 2023

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A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) realiza, de 24 a 28/4, a 24ª Semana Nacional em Defesa e Promoção da Educação Pública, que terá como tema “Soberania se faz com educação pública e participação social”. A ideia é aproveitar o espaço para denunciar o descaso e o sucateamento da educação pública.

Ao longo da semana, serão transmitidas lives a partir da página da CNTE (leia a programação abaixo) com o objetivo de discutir a importância de revogar o Novo Ensino Médio (NEM) e estabelecer espaços democráticos para construção de um novo modelo.

Está programada, para o primeiro dia (24), a entrega de um Abaixo-Assinado, ao Ministério da Educação (MEC), pela revogação do NEM, e a deflagração, no dia 26, de Greve Nacional da categoria, pela aplicação do reajuste do piso salarial inicial e na carreira, a profissionais da educação, e pela revogação da reforma.

Durante a semana, um debate entre trabalhadoras/es da educação discutirá, entre outros temas, as contradições do “projeto educacional” em vigor; a recomposição do FNE e os novos desafios; financiamento e valorização do Piso e da Carreira da Educação; Revogação do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (PECIM); o novo PNE; o SNE e a soberania do povo brasileiro.

Além disso, entre as atividades já programadas, haverá debate com os estudantes e/ou pais/mães/responsáveis; gravação de relatos dos/as estudantes; panfletagem nas praças da cidade, com uma síntese conceituando valorização profissional dos/as trabalhadores/as da educação; Campanha de arrecadação de alimentos para doação no próprio bairro ou em outro espaço. Para finalizar, um passeio ciclístico ou caminhada pela cidade, com a comunidade escolar e a sociedade, para divulgar a importância do Novo Plano Nacional de Educação.

Por uma educação pública de qualidade

A 24ª Semana Nacional em Defesa e Promoção da Educação Pública terá um caráter mobilizador e será um espaço de denúncia, principalmente voltado a mostrar as falhas, gargalos e retrocessos impostos pela reforma do Ensino Médio, implementada pelo governo Michel Temer (MDB) por meio da Lei 13.415/2017

A revogação da medida depende de uma lei enviada ao Congresso Nacional pelo Governo Federal e, para isso, a confederação defende a recomposição do Fórum Nacional da Educação, com as entidades presentes em 2016, antes do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff (PT). Para que a União, o setor público e o privado possam abrir um debate e estabelecer um grupo de trabalho com o objetivo de elaborar uma proposta a ser defendida pelo MEC. 

Saiba mais:  FNPE sobre a reforma do Ensino Médio

A Secretária de Assuntos Educacionais da CNTE, Guelda de Oliveira Andrade, defende a necessidade de as escolas, e os estudantes, denunciarem problemas como a falta de professores e a ausência de aulas ou disciplinas ministradas em formato remoto. Além das matérias inadequadas, que alunos e alunas têm tido, e que afetam diretamente o desenvolvimento nessa etapa da educação básica fundamental para a formação e para que cheguem à universidade.

“Essa é uma semana para que, no dia 26, tenhamos grandes atos país afora e consigamos dar um recado à sociedade. Fazer com que compreendam que esse ensino médio não agrega conhecimento e que estamos diante de um crime com a negação ao direito à educação de qualidade para nossa juventude”, desabafa a dirigente.

Democracia, direito inegociável

A discussão sobre as relações democráticas no ambiente escolar será pauta em dois dos encontros. E isso demonstra a importância do tema para a comunidade escolar.

Guelda explica que o aprofundamento do tema não é aleatório e declara que não é possível fazer educação de qualidade sem o movimento da prática no espaço da escola. “Não se trata apenas de eleição de diretor ou constituição do conselho deliberativo da comunidade escolar. Mas o amplo debate sobre a organização curricular, a garantia da educação pública de qualidade, o investimento e financiamento para garantir a qualidade da educação, o debate sobre a segurança alimentar na escola. São vários elementos, que precisamos dialogar e construir de forma coletiva, envolvendo as famílias e os estudantes, para avançarmos na democratização do acesso à educação, que se resume à garantia da matrícula do estudante, mas também em garantir condições de permanecer numa escola com educação de qualidade”, explica.

Segundo a Secretária, a CNTE avalia que, ao diminuir espaços para disciplinas fundamentais à formação, e não atender às necessidades de adequação ao mundo do trabalho, o Novo Ensino Médio aumenta a dificuldade de jovens que encontram o desafio de terminar a educação básica num período da vida em que muitas vezes são pressionados a largar os estudos para trabalhar e ajudar a família. Também por não perceberem na escola um espaço significativo para aprendizagem voltada à vida.

“O que aprende na escola precisa ter sentido, e o estudante precisa ser despertado para a criticidade, para que, a partir da construção do conhecimento, no espaço da escola, que não apenas transmite, mas ajuda a construir o conhecimento, encontre condições para pesquisar, buscar, e recriar sua história de vida, contribuindo para a formação de uma sociedade diferente”, afirma.

Confira abaixo a programação das lives da 24ª Semana Nacional em Defesa e Promoção da Educação Pública:

Dia 24 de abril (segunda-feira)

LIVE às 19h – horário de Brasília | Transmissão: youtube.com/cntebrasil

Tema: As contradições do “projeto educacional” em vigor

Sugestão de atividade: Debate com os estudantes e/ou pais/mães/responsáveis, gravar relatos dos/as estudantes no formato de vídeo de até um minuto e/ou textos de no máximo duas laudas para publicação.

Dia 25 de abril

LIVE às 19h – horário de Brasília | Transmissão: youtube.com/cntebrasil

Tema: A recomposição do FNE e os novos desafios

Sugestão de atividade: Debate com os estudantes e/ou pais/mães/responsáveis, gravar relatos dos/as estudantes no formato de vídeo de até um minuto e/ou textos de no máximo duas laudas para publicação.

Dia 26 de abril

LIVE às 19h – horário de Brasília | Transmissão: youtube.com/cntebrasil

Tema: Financiamento e valorização do Piso e da Carreira da Educação

Sugestão de atividade: Panfletagem nas praças da cidade com uma síntese conceituando valorização profissional dos/as trabalhadores/as da educação.

Dia 27 de abril

LIVE às 19h – horário de Brasília | Transmissão: youtube.com/cntebrasil

Tema: Gestão democrática com segurança alimentar

Sugestão de atividade: Campanha de arrecadação de alimentos durante a 24ª Semana para doação no próprio bairro ou em outro espaço.

Dia 28 de abril

LIVE às 10h00 – horário de Brasília | Transmissão: youtube.com/cntebrasil

Tema: Revogação do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (PECIM)

LIVE às 19h – horário de Brasília | Transmissão: youtube.com/cntebrasil

Tema: A democracia, o novo PNE, o SNE e a soberania do povo brasileiro

Sugestão de atividade: Promover um passeio ciclístico, ou uma caminhada pela cidade com a comunidade escolar e a sociedade, que divulgue a importância do Novo Plano Nacional de Educação.

Fonte: CNTE

Feridas abertas pela ditadura influenciam – e redes sociais potencializam – violência nas escolas

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 Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
 
 
Discurso de ódio, contra a democracia e desprezo pelos direitos humanos são também resultado da impunidade. Escola pode ser instrumento de combate à intolerância e ao ódio
 
Os ataques às escolas vêm crescendo, no último período, e tem sido motivo de preocupação para pais, mães, especialistas e trabalhadores/as da educação, entre outros atores. A origem dessa violência ainda não é bem definida. As feridas abertas pela ditadura, bem como as redes sociais, são apontadas como dois dos motivos que influenciam e potencializam atos de violência contra a comunidade escolar.
 
No último dia 31, enquanto o Clube Militar, no Rio de Janeiro, celebrava os 59 anos da ditadura no Brasil – período que deixou um rastro de mortes e retrocessos, inclusive na educação – ignorando orientação do Ministério da Defesa para não fazer menção à data, o país discutia como frear o avanço da extrema-direita nas escolas brasileiras.
 
Apenas quatro dias antes, em 27 de março, a professora Elisabete Tenreiro, de 71 anos, teve uma parada cardíaca e morreu após ser atacada a facadas, por um aluno de 13 anos, numa escola da Zona Sul de São Paulo, onde voltara a lecionar por amor ao magistério. Lamentavelmente, outro atentado chocou o país, nesta quarta-feira (5), quando um homem de 25 anos invadiu a creche Cantinho Bom Pastor, em Blumenau (SC), e assassinou ao menos quatro crianças a golpes de machado
 
 
Saiba mais
 
Casos de violência em escolas expõem sucateamento da educação no país e escalada do extremismo de direita. Somente em quatros meses de 2022, o país teve ao menos oito ataques em escolas; nos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Ceará e São Paulo, e especialistas apontam, como um dos principais fatores, a exposição dos jovens aos discursos de ódio, combustível do governo de Jair Bolsonaro (PL), o candidato derrotado nas últimas eleições, e de seus apoiadores.
 
“A suscetibilidade dos jovens a aderirem a ideias extremistas, faz dos espaços, onde frequentam, importantes aliados na prevenção e formação de um perfil capaz de conviver com a diversidade”, analisa a professora e doutora em Ciências da Educação, Sandra Petit. “Porém, a capacidade de compreender a pluralidade como parte de uma rotina não é o suficiente se não houver justiça”, aponta.
 
 
Silenciosa, a ditadura continua
 
Ela destaca que o fortalecimento da extrema-direita, impulsionado pelo vácuo deixado a partir do golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016, permitiu a instalação de uma concepção menos aberta para questões sociais e de equidade racial e de gênero. Esse novo cenário, aliado à impunidade dos criminosos, durante o período da ditadura militar, acende um alerta, pois cria uma falsa ideia de que a violência é um caminho viável e produtivo.
 
“Os torturadores e as forças militares, no comando durante a ditadura, não foram encarados com o devido senso de justiça. Não foram julgadas e não precisaram responder por crimes contra a democracia. Não houve cura contra a ditadura e a arbitrariedade sobreviveu ao fim dela. Basta ver quantos militares, que atuaram durante esse período, continuam agindo hoje e estiveram envolvidos nos atos terroristas de 8 de janeiro. Não há uma real ruptura com o modelo arbitrário de segurança pública”, avalia Sandra.
 
 
Ataques potencializados
 
Segundo análise da professora, a chegada de Bolsonaro ao poder, fortalecido pelas redes sociais, encontrou nova forma de fazer política, que se mantém por fake news e atinge milhões de pessoas com informações deturpadas e conteúdo de apologia ao ódio, à violência e à intolerância. Com maior liberdade e um filtro menor para separar mentira e verdade, o ambiente digital se torna um espaço para semear e organizar os futuros atores, que promoverão ações de violência.
 
Os números confirmam a avaliação de Sandra Petit. Até 2018, foram oito registros de violência extrema em escolas. Entre 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, e 2023, os casos quase dobraram e subiram para 14
 
Os responsáveis pelos ataques compartilham um perfil. De acordo com pesquisa do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp, há um recorte racial nas ações, já que a maioria dos autores dos atentados são jovens, brancos e do gênero masculino. De acordo com a pesquisa, eles utilizam as redes sociais, geralmente são frequentadores de fóruns e jogos online e a maior parte utilizou arma de fogo – metade deles convivia com o armamento em casa – e buscaram vingança e reconhecimento
pela ação.
 
 
Escola combate a intolerância
 
Em dezembro de 2022, um grupo de estudiosos, que há anos se debruça sobre as causas da violência nas escolas, entregou ao então presidente recém-eleito,Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o relatório “Ultraconservadorismo e Extremismo de Direita entre Adolescentes e Jovens no Brasil” , encaminhado ao grupo de transição da área de educação do governo.
 
O documento associa o crescimento de atos de violência à escalada do ultraconservadorismo e do extremismo de direita no país, e à falta de controle e criminalização desses discursos e práticas. Segundo o levantamento, ao longo dos anos 2000, ocorreram 16 ataques em escolas brasileiras, que mataram 35 pessoas e deixaram 72 feridas.
 
As comunidades escolares, portanto, alvos de ataques também são frentes de resistência. Porém, na opinião do professor Daniel Cara, dirigente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE) e um dos organizadores do estudo, a sociedade brasileira lida com o problema de forma superficial e efêmera. Para ele, as comunidades escolares permanecem desamparadas. A opinião é compartilhada por Sandra Petit, que enxerga no país um déficit de conhecimento mais politizado.A escola não tem sido instrumento de valores democráticos, não tem conseguido ajudar mais pessoas a construírem conhecimento sobre si mesmas. Por isso o investimento e um olhar atencioso à formação é fundamental neste momento em que vivemos”, defende a educadora.
 
 
Educação antirracista para combater o ódio
 
Para além disso, a educomunicadora e analista de comunicação do Instituto Palavra Aberta, Elisa Tobias, defendeu em artigo no portal Geledés, a necessidade de uma educação antirracista para enfrentar os casos de nazismo. “Sendo assim, abordar as relações étnico-raciais é fundamental para que educadores e instituições revejam sua postura e comecem a atuar de forma pedagógica, para combater o ódio”, aponta. “A legislação brasileira garante isso, desde janeiro de 2003, por meio da Lei 10.639, que obriga as escolas de ensino fundamental e médio a discutirem, em sala de aula, a história e cultura afro-brasileira”, complementa.
 
 
Resposta do governo
 
Nesta segunda-feira (3), 10 homens apontados por neonazismo em Santa Catarina, estado onde ocorreu o atentado à creche, foram presos. Eles eram responsáveis pelo recrutamento de jovens já radicalizados e buscavam futuros integrantes na internet ou em encontros entre células brasileiras. De acordo com a antropóloga Adriana Dias, que pesquisa o neonazismo no Brasil desde 2002, os grupos vem crescendo no Brasil 270%, desde 2019, e há ao menos 530 núcleos extremistas, um universo que pode reunir até 10 mil pessoas.
Como resposta ao ataque desta quarta-feira (5), o Ministério da Educação (MEC) informou que articula um decreto interministerial para instalação de um grupo de trabalho, com o objetivo de elaborar uma política nacional de combate à violência nas escolas.

Segundo dia da reunião do Coletivo de Comunicação da CNTE promove troca de experiências

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Foto: Renato Braga

Realizado na manhã desta terça-feira (4), em Brasília, o segundo dia de reunião do Coletivo de Comunicação da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) foi marcado pelas apresentações das experiências dos sindicatos filiados.

Os seguintes sindicatos apresentaram estratégias de comunicação para a mobilização da categoria: Sinpro/DF, Cpers, App/Sindicato, Sindiupes, Sinteal, Sintese, Sindiute, Sinproja, Sinte-PI, Sintep/PB, Sintepe/PE, Sintep/MT, Sinte/RN e Sintero. Ao longo das apresentações foram apontados o crescimento do investimento em comunicação e da presença nas redes sociais digitais.

O presidente da CNTE, Heleno Araújo, afirma que investir nessa área é um tema que ainda traz muitos desafios. “Às vezes o financiamento dessa prioridade não acontece e nos perdemos. Todos esses anos de golpe desde 2016 passando pelos ataques do Bolsonaro nos remete a dois desafios muito grandes: um é a questão da comunicação, como vamos cuidar desse processo, e outro é a formação política”, enumera.

 

Na avaliação de Heleno Araújo, é preciso um trabalho articulado em que a comunicação possa contribuir na formação política. “A gente tem muita dificuldade de integrar. No dia a dia a gente sente essa dificuldade”, pontua.

A secretária geral da CNTE, Fátima Silva, destacou a necessidade de ampliar o número de associados. “Sindicatos internacionais estão filiando até estudantes. Esse ponto a gente precisa discutir e a comunicação tem esse papel de acolher os novos trabalhadores, e manter os antigos. A uberização chegou no setor público e a gente precisa saber lidar”, reflete.

Agenda de lutas

– 24 a 28 de abril – Semana Nacional em Defesa e Promoção da Educação Pública
– 24 de abril – Entrega das assinaturas dos/as parlamentares pela revogação do novo ensino médio
– 26 de abril – Greve Nacional dos/as trabalhadores/as em educação
– 5 de outubro – Dia da Marcha da Educação em Brasília

> Acesse as fotos no Facebook da CNTE

Fonte: CNTE

CNTE apoia a suspensão da implementação do Novo Ensino Médio e afirma que vai manter o debate sobre as alterações na Lei 13.415/2017

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Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Nessa segunda-feira (3), a informação de que o Ministério da Educação (MEC) pretende suspender temporariamente a implementação do Novo Ensino Médio (NEM) foi motivo de celebração por parte das organizações em defesa da educação pública e de qualidade, mas também de fortalecimento das mobilizações e do debate pela revogação total do NEM .

A medida foi reforçada nesta terça-feira (4) na imprensa. O ministro da educação, Camilo Santana, anunciou a suspensão do cronograma da Reforma do Ensino Médio e a publicação de uma portaria que pretende interromper mudanças previstas para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2004. 

O presidente da CNTE, Heleno Araújo, aponta que a entidade lutará para que o grupo de coordenação que discute o ensino médio intensifique o trabalho nos próximos 90 dias e pense em um novo projeto para ser enviado ao Congresso Nacional que resulte na extinção da reforma.

“Para revogar a Lei 13.415 será necessário um novo projeto enviado pelo governo federal. Nossa expectativa agora é de que tenhamos a recomposição do Fórum Nacional da Educação, com as entidades de 2016, antes do golpe, conforme compromisso do governo Lula. Nesse espaço onde está o governo, o setor público e o privado, podemos abrir debate e fazer um grupo de trabalho temporário para elaborar uma proposta que o MEC possa assumir e enviar ao parlamento”, explicou.

Sem remendos, revoga já!

Heleno faz a ressalva de que a expectativa de apresentação da portaria não foi atendida durante a reunião que ocorreu nesta segunda-feira (3) com o grupo de coordenação da consulta sobre as mudanças necessárias para melhorar o ensino médio. O dirigente esteve presente no encontro como representante do Fórum Nacional Popular da Educação (FNDE) e apontou que a secretária-executiva do MEC, Izolda Cela, se mostrou surpresa com a notícia sobre a mudança.

Mesmo que ocorra a suspensão, ainda não é suficiente para atender as reivindicações dos trabalhadores e trabalhadoras da educação, aponta a secretária de finanças da CNTE, Rosilene Corrêa Lima.

“O modelo que aí está não permite remendos e por isso a revogação é necessária. O que for definido tem de ser algo para melhorar e não este retrocesso que assistimos. Não dá para dizer se irá nos contemplar porque o MEC não anunciou ainda o que pretende para além desta consulta”, explica.

A secretária de assuntos educacionais da confederação, Guelda de Oliveira Andrade, ressalta que não há espaço de negociação sobre o novo modelo do ensino médio, que não é capaz de atender a qualquer necessidade, seja dos estudantes, dos trabalhadores da educação ou do país.

“A educação básica tem o papel de oferecer as condições para que os estudantes comecem a construir o conhecimento. O papel da escola é dar condições e o novo ensino médio não corresponde a nada das expectativas da nossa juventude, muito menos da soberania de um povo. Temos de trabalhar em cima do velho modelo para aprimorar, não colocar no lugar dele outro que não atende em nada as necessidades”, crítica.

O que dizem os/as estudantes

Em nota, a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) apontou que “frear a implementação do Novo Ensino Médio é um passo importante para os estudantes e professores que estão sofrendo os impactos de uma medida aprovada sem o amplo debate e o aperfeiçoamento de quem vive a escola diariamente além de possibilitar a construção de uma nova proposta para o Ensino Médio brasileiro.”

Mas, destacou que “defende que o calendário de implementação seja “congelado” até a revogação e não por um prazo de 90 dias, para evitar ainda mais danos à essa geração e construir uma nova proposta de Reforma para etapa de ensino.”

A entidade afirma ainda que apresentará uma nota técnica ao MEC, com recomendações para o ensino médio.

Também em nota, a União Nacional dos Estudantes (UNE) destacou que a “possibilidade de suspensão da implementação do Novo Ensino Médio representa uma grande vitória para os estudantes, professores e, sobretudo para a sociedade, que correria o risco de ampliar abismos educacionais e impactar na democratização do acesso ao ensino superior”.

A UNE diz esperar “que aconteça, sim, uma reforma no ensino médio, mas que seja debatida amplamente com todo o setor educacional e acompanhada de investimentos em tecnologia e estrutura.”

Mobilização continua

Diante do atual cenário, a confederação mantém o calendário de lutas que se estenderá por todo o mês de abril e defende a importância de manter a mobilização e a luta contra o retrocesso.

Na semana que se inicia em 23 de abril, a entidade organizará a 24ª Semana Nacional em Defesa e Promoção da Educação Pública, com coleta de assinaturas de parlamentares ao Manifesto da CNTE pela Revogação do Novo Ensino Médio e a criação de Comitês de Luta pela Revogação.

Em 24 de abril, haverá a entrega do manifesto no MEC sobre a revogação NEM e pelas Diretrizes Nacionais da Carreira, com a presença de parlamentares.

No dia 26 de abril, a comunidade escolar promoverá uma Greve Nacional da Educação pela aplicação do reajuste do piso no salário inicial e na carreira para todos os profissionais da educação.

Por fim, no dia 28 de abril haverá uma live nacional pela revogação do Programa Escola Cívico-Militares.

Além dessas datas, a CNTE também participará da mobilização dos estudantes pela revogação total e imediata do ENEM no formato proposta originalmente a partir da reforma no próximo dia 19 de abril. 

> Leia também: Combater a evasão escolar demanda investimento na educação pública e o fim do Novo Ensino Médio 

Fonte: CNTE

Cresce apoio à mobilização da CNTE em defesa do Piso Nacional da Educação

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Foto: Sinproja

Em janeiro deste ano, o Ministério da Educação (MEC) anunciou o reajuste do piso salarial dos professores e professoras em 14,95%. Medida é responsável por elevar o pagamento de R$ 3.845,63 para R$ 4.420,55 à profissionais que lecionam na rede pública e mantém jornada máxima de 40 horas semanais.

Desde então, a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) e as entidades filiadas têm travado uma luta junto a prefeitos, prefeitas, governadores e governadoras para que a lei seja respeitada. Em vários estados do país a mobilização tem crescido todos os dias. É greve, paralisação, caminhada, entre vários tipos de atos de reivindicações [veja abaixo os locais que estão em luta pelo piso]

A atualização dos vencimentos é garantida pela Lei nº 11.738, de 2008, e o cálculo sobre o valor a ser aplicado é realizado pelo governo federal e pago pelos governos estaduais e prefeituras com recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).

O índice leva em conta a variação dos dois anos anteriores à data da atualização, válido após julgamento de ação no Supremo Tribunal Federal (STF) em 2021.

Unificar luta

Ainda assim, organizações como a Confederação Nacional dos Municípios (CNM) têm buscado formas para burlar o pagamento e orientando prefeitos e prefeitas, os mesmos que durante as campanhas eleitorais se comprometem em investir na educação, a adotar a estratégia de ingressar com ações em todo Brasil contra o critério de atualização.

A resposta da classe trabalhadora tem sido contundente e por meio de mobilizações e ações judiciais garantido o cumprimento da lei a partir de muita mobilização.

O presidente da CNTE, Heleno Araújo, aponta que a entidade orienta as federações e sindicatos a buscarem o campo jurídico onde o diálogo não dá conta. Mas destaca que a pressão sobre os gestores deve continuar a partir das manifestações populares.

“Fizemos em 22 de março um dia nacional de luta pela implantação do piso e da aplicação desse percentual na carreira e em abril já temos uma greve nacional da educação marcada para o dia 26. Uma forma de unificar nossa luta nacionalmente”, explica.

Promessas não cumpridas

Heleno lembra ainda que em reunião com o MEC no dia 15 de fevereiro, entre as pautas que a CNTE apresentou ao ministro Camilo Santana estava a reivindicação de o ministério fazer um parecer mais detalhado e contundente com informações das deliberações já encaminhadas do Supremo. Uma forma de evitar movimentos como o encampado pela CNME para não cumprimento do piso.

Até o momento, a pasta não editou a orientação e nem realizou as reuniões que se comprometeu a organizar antes do dia 27 de março.

“O ministro Camilo Santana disse que até essa data haveria um encontro do fórum permanente que discute o piso e é composto pelo próprio MEC, Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação) e CNTE. Também que haveria outra reunião que envolveria a CNM, a Frente Nacional dos Prefeitos e as comissões de Educação da Câmara e do Senado. Mas, infelizmente, não tivemos nenhuma dessas atividades propostas”, recorda.

Governo Federal não está ajudando

A diretoria da CNTE publicou uma nota, na última sexta-feira, no qual fala sobre o diagnóstico do MEC sobre o piso e denuncia que a tese do governo tem prejudicado o pagamento do piso pelos gestores.

A entidade conta que em pronunciamento na Marcha de Prefeitos, em Brasília, o Ministro da Educação Camilo Santana disse que o atual critério de atualização do piso salarial profissional nacional do magistério público da educação básica não confere as melhores condições de segurança orçamentária a Prefeitos e Governadores, e propôs um amplo debate para revisar o dispositivo da Lei nº 11.738 que trata do assunto.

Segundo a CNTE, muito há que se fazer para melhorar a educação pública brasileira e a valorização de seus profissionais, que continuam a receber os menores vencimentos entre os países pesquisados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE – veja nota completa.

Atos pelo país

Enquanto isso, a luta dos trabalhadores e trabalhadoras da educação por uma educação pública de qualidade segue em todo o país.

Em Goiás, mobilizações em frente às Coordenadorias Regionais de Educação (CRE) na última quarta-feira (30) cobraram que o Piso do Magistério seja aplicado na carreira, e que o pagamento da data-base e o novo plano de carreira dos administrativos seja realidade.

No Recife, professores e professoras da rede municipal aprovaram proposta de continuidade da greve nessa quarta-feira (29) para cobrar o pagamento do reajuste salarial. Com muitas prefeituras, na capital de Pernambuco a proposta é incorporar apenas 7,5% ao salário e pagar os outros 7,45% em forma de abono, manobra considera ilegal e imoral.

Também em Campina Grande, capital da Paraíba, a assembleia do magistério, em 7 de fevereiro, aprovou indicativo de greve para o dia 1º de março. No Rio Grande do Norte, o movimento grevista segue desde o dia 7 de março em defesa do reajuste integral garantido pelo MEC e pela implementação do Plano de Cargos, Carreira e Remuneração (PCCR) dos Funcionários, além de outras pautas.

As manifestações não param por aí. No último dia 27, trabalhadores e trabalhadoras da educação de Marcelândia, cidade ao Norte de Cuiabá, no Mato Grosso, cruzaram os braços para cobrar o cumprimento da lei. No Paraná, um ato no último dia 22 em frente à Prefeitura de Araucária, reuniu professores da rede municipal, estudantes da rede estadual e sindicatos em defesa do piso. E em São Bernardo eles estão em greve desde o dia 27 pela aplicação do piso. Com os salários defasados desde 2017, as auxiliares de limpeza trabalham 44 horas semanais e recebem absurdos 900 reais, menos de um salário mínimo. Além do reajuste salarial e do vale-transporte que atualmente é de 88 reais por mês, lutam por melhores condições de trabalho e denunciam a falta de profissionais.

>> Saiba mais – Prefeitura recusa negociação e provoca greve de servidores em São Bernardo

Se acreditar na educação, tem que pagar!

Com o crescimento da mobilização, organizações aliadas da educação pública têm se posicionado de maneira solidária e definindo ações para oferecer apoio ao enfrentamento a gestores irresponsáveis.

Como é o caso da Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal (Confetam), que decidiu oferecer assessoria jurídica para contribuir nas ações que contestam a recusa a pagar o que os profissionais da educação merecem.

A secretária de Assuntos Jurídicos da Confetam, Silvana Piroli, aponta que o apoio se dará por meio da oferta de informações e estudos que deem argumentos para pagamento do piso às entidades filiadas nos estados e municípios e na discussão com as assessorias jurídicas locais sobre quais encaminhamentos necessários.

“Discutir melhorias na educação sem discutir valorização dos trabalhadores e trabalhadoras envolvidas com ela não é possível. Vemos em muitos estados um verdadeiro apagão na educação, fazem concurso, mas não aparecem candidatos, porque a profissão deixou de ser atraente, porque não consegue pagar nem o básico para a sobrevivência. A verdade é que quem acredita na educação, paga o piso”, defende Silvana.

> Leia também: Estados e municípios são obrigados a seguir piso salarial dos professores? Entenda a polêmica

Fonte: CNTE

Reunião do Coletivo de Comunicação da CNTE debate estratégias para a defesa da educação pública de qualidade

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Fotos: Renato Braga

 

Nesta segunda-feira (3), a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) realizou em Brasília (DF) a reunião do seu Coletivo de Comunicação, com a participação de representantes de sindicatos filiados. A jornalista e especialista em marketing político, Nicole Briones, que é Superintendente de Comunicação Digital e Mídias Sociais na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), fez uma palestra sobre a comunicação no campo progressista.

Na avaliação da Nicole Briones, Lula é um ator político há quase 50 anos e ainda sim há dificuldade de reproduzir o que ele fala. “As pessoas se uniram para derrotar o Bolsonaro, que o viam como uma figura nociva, e agora esse período acabou. Chegamos ao governo e o desafio está colocado”, relata.

A especialista em marketing lembra que saímos das últimas eleições com uma margem muito pequena de diferença com o candidato derrotado e a educação é um campo importante de disputa de narrativa. Ela recomenda que as entidades sindicais precisam ouvir todos os atores envolvidos, estudantes, professores e os pais. “São os pais que estão cooptados pelo bolsonarismo. Então precisamos pensar em como conquistar essas pessoas que podem sim mudar de posicionamento, com muita escuta”, pontua.

A secretária geral da CNTE, Fátima Silva, explicou que há um diálogo da CNTE com pais e estudantes. “A Ubes tem se posicionado pela revogação do novo ensino médio. Por parte dos pais o debate que muitos trazem é sobre os filhos não poderem ficar em horário integral porque eles poderiam trabalhar pra ajudar em casa”, relatou.

Fátima Silva também criticou a nomeação de gestores bolsonaristas em áreas estratégicas dentro do Ministério da Educação (MEC): “Colocaram os mesmos gestores que forjaram o golpe. Hoje vão rever e revogar, porque a pressão de educadores e educadoras que fez o governo voltar atrás”.

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Fake News

A assessora de comunicação da CNTE, Ana Paula Messeder, apresentou um relatório da Net Lab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que aponta o crescimento das chamadas fake News nas plataformas sociais, que se acentuou nos últimos dois anos.

O secretário de comunicação da CNTE, Luiz Carlos Vieira, avalia que a falta de sindicalização pode ser atribuída em parte a esse cenário de disseminação de conteúdo falso e que os sindicatos precisam reavaliar suas expectativas e estratégias: “Publicamos um chamado nas redes e pode até ter bastante compartilhamento mas isso não se reflete em resultados, em pessoas comparecendo às ações ou se sindicalizando”.

A reunião será retomada nesta terça (4), com a troca de experiências entre as comunicações dos sindicatos.

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Fonte: CNTE

Igualdade | Lei 10.639: Após 20 anos, história de combate ao racismo resiste no ambiente escolar

Em 2023, o Brasil comemora 20 anos da Lei 10.639, que alterou a Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional, e estabeleceu a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana na Educação Básica. A norma é considerada um marco na educação brasileira, no sentido da transformação social, e caminha junto ao pensamento de uma das lideranças mais importante da história do mundo que combateu o racismo, Nelson Mandela: “a educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”

A Lei é resultado da luta do movimento negro e nasceu com o objetivo de levar para as salas de aula mais conhecimento com diretrizes para valorizar e ressaltar a presença africana na sociedade, além de ser um instrumento contra a discriminação e o preconceito racial. As diretrizes estipularam as formas de como as questões étnico-raciais deveriam ser trabalhadas na educação. Uma das orientações foi reconhecer e valorizar as raízes africanas da nação brasileira, ao lado de outras como indígenas, europeias e asiáticas. Outro ponto que deveria ser explorado é a participação de negros em diferentes áreas do conhecimento, de atuação profissional, de criação tecnológica, artística e de luta social. 

Com a abrangência desse dispositivo, a responsabilidade do combate ao racismo nas escolas passou a ser dividida entre diretores de escola, coordenadores pedagógicos, professores, reitores, merendeiras, vigias e outros funcionários, incluindo a comunidade escolar. Segundo Iêda Leal, Secretária de Combate ao Racismo da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), ativista integrante do Movimento Negro Unificado (MNU) e agora secretária de Gestão do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial, pasta do Ministério da Igualdade Racial no governo Lula, a Lei 10.639 é de grande importância para ensinar à juventude e às crianças uma versão da História que não foi contada da maneira correta, com a recuperação da visão do negro como protagonista dessa narrativa.

“É sabido que houve um processo de invisibilidade dos negros ao longo dos anos, e a Lei traz a possibilidade e a responsabilidade de a escola compreender a importância de falarmos sobre todos nós de uma forma positiva. Nós temos uma história e uma cultura muito ricas; nosso dever, enquanto trabalhadoras e trabalhadores da Educação, é que essa narrativa seja contada em todos os cantos do país”, afirma.

Desafios e efetivação

Apesar da vitória da implementação da norma, não existem análises públicas recentes para avaliar, oficialmente, a implementação da Lei nos estados brasileiros, nem sua efetividade. Entretanto, há consenso entre trabalhadoras e trabalhadores da Educação quanto a importância de se falar sobre o racismo dentro da sala de aula e que a resistência contra esse tipo de crime é forte dentro do ambiente escolar. De acordo com a supervisora escolar Elisabeth Fernandes de Sousa, a Lei tem sido trabalhada de forma dialética: em alguns momentos com avanços; em outros, com retrocessos, a depender do momento histórico. Mas, segundo ela, o fato de a norma existir traz
impacto positivo e mobiliza governos a estabelecerem políticas públicas nesse sentido.

“A educação antirracista, desde então, é trabalhada em diversas formas na sala de aula, mas, em geral, por professores negros que tem afinidade com a discussão racial ou professores brancos com posturas antirracistas com princípio de educar para a Igualdade racial”, afirma. Para Elisabeth, o papel de todos os trabalhadores negros e brancos é mostrar para a sociedade que é preciso estarmos atentos a outros padrões de afeto, de beleza, de cultura e de participação, além de não pensarmos em seres humanos em espaços pré-definidos.

Nesse sentido, a Lei 10.639 garantiu a possibilidade de deslocar as pessoas do lugar de objeto, de escravizado, as colocando no lugar de sujeitos detentores de conhecimento, de saberes, de técnicas que contribuíram para a formação da sociedade brasileira. Esse fato mostra o reconhecimento da importância dos povos africanos e afro-brasileiros para o Brasil e, consequentemente, atua diretamente no combate ao racismo.

Mesmo durante os últimos anos de negação ao racismo promovido pelo governo Bolsonaro, a luta antirracista sobreviveu e resistiu. “Nós temos uma produção intelectual grandiosa; precisamos continuar repartido essa produção com todas as pessoas da educação, já que se trata de uma grande parceira no compromisso com a luta antirracista”,
concluiu Elisabeth.

>> Acesse a Revista Mátria 2023 em PDF

Fonte: CNTE

MATÉRIA EM LIBRAS

CNTE defende retomada de programas do governo Lula para formação permanente

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Foto: Sinte/PI

Parte fundamental do processo de reconstrução da educação no país, após os últimos quatro anos de destruição do ensino público, a formação dos trabalhadores e trabalhadoras ainda é tema a ser tratado no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Para a Confederação dos Trabalhadores da Educação (CNTE), essa é uma das bandeiras principais para garantir qualidade das escolas, tanto a preparação inicial dos profissionais quanto o aprimoramento contínuo para quem lida diariamente com os estudantes.

A CNTE destaca que iniciativas já adotadas em governos anteriores do presidente Lula são alternativas eficientes para dar conta das demandas por conta da abrangência e de terem como base a abertura ao diálogo com a comunidade escolar.

O Profuncionário foi um programa criado em 2005 como política de formação continuada para atender aos profissionais da educação que não estão na sala de aula. Já aos professores e professoras, o segundo governo Lula consolidou a plataforma Freire para anteder tanto quanto quem lecionava na disciplina que tinha se formado quanto quem fazia formação de segunda licenciatura em outra área.

Segundo o presidente da CNTE, Heleno Araújo, qualquer programa que não respeite a diversidade regional de um país continental, como o Brasil, ou não ouça a demanda das escolas tende a falhar e não se efetivar como uma política eficaz.

“O MEC (Ministério da Educação) não pode aplicar uma medida única no país de ponta a ponta. Precisa respeitar as especificidades das regiões, demandas para o processo de formação continuada e dar apoio às secretarias estaduais, municipais e distrital. Espero que qualquer política leve em consideração essa metodologia de efetiva participação”, defende.

Conexões com a sala de aula

A necessidade de professores e professores estarem atualizados diariamente sobre as transformações das disciplinas e do mundo no qual os estudantes e as estudantes estão inseridos demanda uma formação cada vez mais dinâmica e sempre em adaptação.

Nesse sentido, aponta Heleno, o método de ambos os programas são efetivos por partirem de uma construção coletiva.

No caso da Plataforma Freire, fóruns criados nos estados, que envolviam universidades públicas, institutos federais, secretarias estaduais, municipais e distritais, além de sindicatos municipais e estaduais da categoria promoviam escutas nas escolas para saber qual formação os profissionais precisavam.

A partir da demanda levantada, o fórum preparava a interlocução com institutos federais, universidades públicas e com apoio das secretarias municipais, estaduais e distrital de educação, elaboravam um processo de formação capaz de atender as demandas apresentadas. Um método que tinha como base essencial o respeito à diversidade de desafios de trabalhadores e trabalhadoras da educação do Norte ao Sul do país.

Para a secretária de Formação da CNTE e responsável pelo curso que a confederação criará para sindicalistas se preparem contra o fascismo, Marta Vanelli, acredita que a formação precisa ocorrer em conexão com as instituições públicas e defende mais tempo para a atualização dos profissionais.

Segundo ela, a formação sólida, inicial e continuada deve se dar em bases, prioritariamente, presencial e em instituições públicas, de forma a combater o mercado estabelecido em torno desta demanda, combatendo a existência de cursos de baixa qualidade.

“As instituições públicas se justificam pela tríade ensino, pesquisa e extensão que exercem nas redes em que se situam, fazendo com que tenham estudos sobre a realidade local. Além disso, a formação ganha uma importância muito maior em função da velocidade das informações, das plataformas e aplicativos existentes”, afirma.

Marta também destaca que “é preciso garantir mais tempo de hora atividade para preparar melhor as aulas, ler mais e selecionar, dentre a grande quantidade de conteúdo que circula, o que é importante e estratégico para a formação do aluno, de acordo com o projeto político pedagógico da escola”.

A partir desse cenário, Marta lembra que a CNTE defende o papel da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) no processo formativo como algo provisório.

“Como existem poucas universidades públicas para formarem professores, a CAPES faz a formação para garantir que em todos os municípios tenham profissionais com formação de nível superior, que é a exigência legal hoje para começar a lecionar. Mas entendemos que essa política seja aplicada somente até que sejam ampliados os cursos de formação presencial. O governo federal pode estruturar cursos de formação inicial nos Institutos federais, que estão implantados em mais municípios do que as universidades”, pontua.

Investir e valorizar

A diretora da CNTE e secretária-adjunta de Formação da CUT Brasil, Sueli Veiga Melo, indica que não há formação qualificada sem financiamento público e diretrizes que garantam a valorização profissional, com salários adequados e ferramentas para a constante capacitação.

Para Sueli, não se pode desvincular a formação de questões como: o ingresso na carreira por meio de concurso público, o pagamento do Piso Salarial Profissional Nacional, ainda uma luta, a jornada de trabalho com um terço de horas para planejamento e a planos de cargos e carreira.

“O trabalho dos profissionais da educação está intimamente ligado à valorização profissional, que não se trata somente da remuneração, mas está associada a vários aspectos como identidade com a carreira e o trabalho, condição diferenciada pela relevância do trabalho na educação, condições adequadas de trabalho e saúde, perspectiva de estabilidade e crescimento ao longo da carreira, realização pessoal e profissional, dentre outros”, explica.

Fonte: CNTE

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