Escolha para quem? Novo Ensino Médio aprofunda abismo entre redes pública e privada

Ao ser apresentado, em 2016, no início do governo de Michel Temer (MDB), o Novo Ensino Médio prometia ser uma oportunidade ao alunos, permitindo escolher quais disciplinas iriam cursar ao longo dos três últimos anos de sua vida escolar. Na prática, o que se viu quando os novos currículos entraram em vigor, neste ano de 2022, foi um abismo crescente entre estudantes das redes pública e privada. Expressões como “autonomia” e “flexibilidade”, usadas pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc) para descrever o novo currículo, parecem, na realidade, omitir a ausência de diretrizes e recurso ofertados às escolas públicas, enquanto instituições privadas aproveitam a oportunidade para garantir ensino de excelência, mas acessível a pouquíssimos.

A matriz curricular implementada pela Seduc para o Novo Ensino Médio estabelece que os estudantes terão, ao longo dos três anos da etapa, 1.800 horas de Formação Geral Básica — composta pelas disciplinas das áreas de conhecimento tradicionais — e 1.200 horas de currículo diversificado, onde entram os chamados Itinerários Formativos.

Estes itinerários são divididos em componentes obrigatórios (as disciplinas de Projeto de Vida, Mundo do Trabalho, Cultura e Tecnologias Digitais e Iniciação Científica), trilhas de aprofundamento curricular (divididas em duas áreas de conhecimento e um componente de formação técnica e profissional) e disciplinas eletivas.

O aprofundamento curricular consiste em priorização de disciplinas em duas das quatro áreas de conhecimento oferecidas na rede: Ciências da Natureza e suas Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias, Linguagens e suas Tecnologias e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. O estudante também terá disciplinas de educação profissional, que inicialmente serão oferecidas pela rede estadual em quatro áreas: Informática, Administração, Eletrotécnica e Agropecuária.

A principal escolha a ser feita pelos alunos está justamente no aprofundamento curricular. De acordo com a matriz curricular, cada área de conhecimento é dividida em duas temáticas. Com isso, ao menos em tese, os estudantes da rede pública poderiam optar por realizar o aprofundamento curricular em oito áreas: Cidadania e Relações Interpessoais, Empreendedorismo, Expressão Corporal, Expressões Culturais, Sustentabilidade, Saúde, Educação Financeira e Tecnologia. Na prática, o que se viu nas 264 escolas-piloto, onde o Novo Ensino Médio começou a ser implantando em 2020, é que cada instituição oferecia duas opções de aprofundamento para os alunos.

Marcio Koehn de Freitas é diretor da Escola Estadual de Educação Básica Presidente Roosevelt, de Porto Alegre, uma das escolas-piloto que implementaram o modelo do Novo Ensino Médio em 2020 e, em 2022, tem as primeiras turmas concluindo o novo formato. Ele conta que, inicialmente, a Secretaria de Educação demonstrou interesse na construção conjunta dos currículos com a comunidade escolar. No entanto, ele avalia que o processo de participação ficou muito aquém do ideal. “Fizeram uma escuta da comunidade, mas muito pouco divulgada, depois enviaram questionários para as escolas, também muito em cima da hora, poucos alunos entregaram, querendo saber quais eram os interesses, como se isso fosse servir de base para uma organização curricular nova”, diz.

Segundo Marcio, a Seduc realizou uma gincana na escola, com alunos do 9º ano do Ensino Médio ao 3º ano do Ensino Médio. “Os alunos se dividiram por áreas de interesse sugeridas pela Seduc, não lembro de todas as 10, mas tinha áreas culturais, áreas voltadas para a saúde, áreas voltadas para o empreendedorismo, que por sinal não foi muito bem votado, e agora tá sendo imposto. Aqui na Roosevelt, o que tirou o primeiro lugar foi a parte da Expressão Corporal, esporte, dança, teatro. A Seduc não gostou nada porque não estava nos planos deles que isso aparecesse, mas, como era o piloto, o coordenador da época estava de acordo com o que a comunidade escolheu”, relata.

Em 2020, a primeira turma de Expressão Corporal teve início. Então, de acordo com o diretor, a Seduc enviou um comunicado expressando a necessidade de que a escola disponibilizasse outro itinerário formativo. Após nova votação com os alunos, foi definido então que esse novo itinerário seria Empreendedorismo. No entanto, Marcio avalia que a implantação concomitante dos dois itinerários exigiria da escola realizar um novo processo de matrícula com o ano já em andamento. “A logística é absurda, como fazer uma rematrícula.”

Ainda assim, foram implementados entre o final de fevereiro e o início de março de 2020. Semanas depois as aulas foram suspensas em razão da pandemia de covid-19, retornando posteriormente apenas no formato a distância.

Márcio avalia que, na prática, os alunos da Presidente Roosevelt não tiveram ao longo dos três anos do Novo Ensino Médio liberdade de escolha de disciplinas eletivas e do itinerário. “Teve um papo que teria escolha, que o aluno poderia escolher, poderia optar, inclusive ele poderia se matricular aqui, mas cursar as eletivas em outras escolas se ele quisesse um itinerário que a escola não atende. Os itinerários agora são impostos e essa questão da troca, eles dizem que o aluno vai poder optar, mas já vai acabar o primeiro semestre e eles não dizem como vai ser esse processo de opção e de troca. Por enquanto, o que efetivamente existe é que o aluno se matricula onde tem vaga. E ele aceita o itinerário que está sendo ofertado naquela turma”, diz o diretor.

Além disso, ele pontua que mesmo a escola fazendo parte do projeto piloto e tendo recebido da Seduc a definição de qual itinerário deveria ofertar aos estudantes, não houve repasse algum de materiais didáticos para os professores, que também não foram direcionados a nenhuma disciplina específica, nem ocorreram novas contratações ou concursos para a nova carga horária. “Só criaram as disciplinas e o professor se vira para buscar o conteúdo, para buscar as estratégias para dar em aula, é o que tem acontecido ultimamente. Os professores não sabem o que tratar em aula. Fica mais ou menos no senso comum. Por exemplo, tem Legislação e Cidadania, professores de História e de Geografia trabalham dando esse itinerário no entendimento deles, eles buscam matérias para tratar em sala de aula.”

A professora Mariângela Bairros, coordenadora do Grupo de Estudos em Políticas Públicas para o Ensino Médio (Geppem) da Faculdade de Educação (Faced) da UFRGS, que estuda a implantação do Novo Ensino Médio no Estado, avalia que um dos problemas mais graves do formato é justamente o fato de ter delegado às escolas a responsabilidade de organizar os itinerários formativos.

“A secretária Raquel Teixeira vem falando amplamente que basta o aluno querer, basta o aluno sonhar. Mas é um crime contra a juventude o que está ocorrendo hoje no Rio Grande do Sul, porque tudo isso que nós estamos falando é do ponto de vista da proposta, da implementação, mas nós vamos para as escolas e não temos laboratórios de informática, não temos laboratórios de ciências, não temos a infraestrutura. Nós temos professores com baixos salários, até recentemente com salários atrasados, falta de professores, inclusive de Português e Matemática. Isso não é dito nesta reforma. Não há um objetivo de recuperar a estrutura das escolas, mas coloca sobre os jovens que basta eles escolherem”, diz.

Mariângela avalia que, quando a reforma foi proposta, criou-se uma ilusão de que o aluno poderia, de fato, escolher o que iria cursar a partir de seus interesses. Poderia, por exemplo, cursar “Design de Games”, como no caso do Farroupilha, mas essa realidade está longe de se materializar na rede pública estadual, onde a oferta de disciplinas é voltada, basicamente, para uma proposta de Empreendedorismo. “Neste momento, eu digo, sem medo de errar, a partir das pesquisas que nós temos acompanhado nas escolas, que o futuro dos jovens está comprometido. O empreendedorismo é o menino subir na sua bicicleta, ser entregador. Esse é o empreendedorismo em vigor neste momento”, diz.

No privado, múltiplas escolhas

Por sua vez, a realidade na rede privada parece ser bem diferente. Daiane Modelski, coordenadora de ensino no Colégio Farroupilha, conta que a instituição começou a construir a proposta inicial de implementação do Novo Ensino Médio anos antes do novo currículo entrar em vigor. Uma das etapas de construção foi uma consulta aos estudantes realizada ao longo do ano de 2021 para identificar quais as áreas de interesse deles, o que ajudaria a moldar os itinerários formativos e as eletivas a serem oferecidos pela escola.

A ideia, diz, era de que os alunos se sentissem “pertencentes” ao novo modelo e que não fosse algo desconhecido. A partir das conversas, o Farroupilha optou por trabalhar, em 2022, a Formação Geral Básica, isto é, o currículo comum que todos os estudantes devem cursar, e deixar a escolha dos itinerários formativos para 2023, quando os primeiros estudantes do Novo Ensino Médio estiverem começando o segundo ano. Contudo, para já preparar os alunos para o momento de “fazer escolhas”, o colégio implantou em seu currículo a necessidade deles cursarem duas disciplinas eletivas ao longo deste ano.

“A partir do próximo ano, na segunda e terceira série, além das eletivas, eles fazem a escolha do itinerário de aprofundamento, que é um pouco mais direcionada. Mas, como é uma novidade para o aluno fazer uma escolha, a escola também se preocupou em preparar o estudante de forma gradativa para isso”, explica Daiane, acrescentando que as escolas privadas têm autonomia para escolherem os componentes flexíveis do novo currículo.

O Farroupilha disponibilizou, então, dez eletivas para os estudantes escolherem quais cursar no primeiro semestre: Estatística aplicada à pesquisa científica; Comunicação e expressão; Ateliê de linguagens visuais; Escape Room: atualidades por meio da gamificação; Ciência forense; Cultura maker e prototipagem digital; Programação e desenvolvimento de web+games; Inovação e Saúde; Escrita criativa; e Poder e território: a construção da sociedade ocidental.

Para o segundo semestre, a grade de eletivas sofreu algumas modificações. Foram oferecidas: Ciência forense; Comida de verdade; Comunicação digital e redes sociais; Comunicação e expressão; Desenvolvimento mobile; Estatística aplicada à pesquisa científica; Inovação e saúde; Lógica: mentes humanas vs. inteligência artificial (ministrada em inglês); e Poder e território: a construção da sociedade ocidental.

Daiane explica que a maioria das disciplinas são ministradas por professores que já faziam parte do quadro de funcionários da escola e receberam treinamento para elas. Porém, há algumas disciplinas que são ministradas em parceria com instituições de ensino superior, como é o caso de Inovação e Saúde, oferecida em parceria com a Unisinos.

A ideia do Farroupilha é aumentar gradativamente o número de disciplinas oferecidas e, a partir do segundo ano, adotar a configuração multisseriada, com o aprofundamento em uma mesma área. Por exemplo, oferecendo Ciência forense II.

“As eletivas têm dois objetivos. Um deles é que os alunos tenham a possibilidade de desenvolver habilidades específicas e ampliar suas possibilidades. Por exemplo, eu quero Medicina, mas vou fazer uma disciplina de Comunicação e expressão, porque talvez ele entenda que precisa se desenvolver nessa área. Então, ele pode buscar algumas eletivas para aprimoramento de algumas habilidades ou para conhecer a área. Não é um único objetivo profissional, não”, diz Daiane.

Ela avalia que a implementação do Novo Ensino Médio no Colégio Farroupilha tem sido “muito positiva”. “Eu acho que especialmente a parte flexível do currículo é muito importante para a gente trabalhar o protagonismo estudantil, a autonomia do estudante, que era algo que a gente buscava muito. E, agora, com essa flexibilidade do currículo, isso está permitindo que as escola possam personalizar melhor as trajetórias dos estudantes. Então, eu vejo de forma muito positiva, minha única preocupação é que as escolas públicas também tenham essas mesmas possibilidades de personalização, para que todos tenham acesso a isso.”

Além de uma ampla oferta de disciplinas, os estudantes do Farroupilha têm à disposição laboratórios e salas de aula multimídia adequadas para os novos componentes curriculares, com notebooks de última geração. Já a escola estadual Presidente Roosevelt conta com um único laboratório de informática, cujos computadores foram doados em 2008 e não acompanham as necessidades do Novo Ensino Médio.

Outro tradicional colégio particular de Porto Alegre, o Anchieta ofereceu em seu novo currículo em 2022 o que chamou de quatro Trilhas dos Itinerários, cada uma delas dividida em dois temas. São elas: Inovação, Tecnologias e Pesquisa Científica (dividida em Inteligência financeira e Ciência e tecnologia); Saúde e Bem-Estar Social (dividida em Saúde individual e coletiva e Química do cotidiano); Humanidades e Desenvolvimento Pessoal (dividida em Política, direito e sociedade e Cidadania global em inglês); e Processos Criativos (Linguagens artísticas e Pensamento computacional).

Além das trilhas, o Anchieta ofereceu nesta ano as disciplinas eletivas de Cinema e História; Esportes/práticas corporais; Teatro; Música e neurociência; Jogos digitais; Dança e saúde mental; e Geopolítica.

Na escola escola Tuiuti, de Gravataí, não há oferta de disciplinas eletivas para o primeiro ano do Novo Ensino Médio. O currículo prevê a implementação de matérias que os alunos poderão escolher a partir do segundo ano, mas a diretora Geovana Rosa Affeldt avalia que, hoje, a escola não tem condições de oferecê-las. “Essa questão dos alunos poderem optar por áreas não têm como acontecer aqui, porque nós não temos professor, não temos espaço para isso”, diz a diretora.

Geovana aponta ainda que a formação oferecida aos professores pela Seduc consistiu na disponibilização de conteúdos em plataformas digitais, como o projeto Aprende Mais. Contudo, ela enxerga que os professores não têm nenhum incentivo para buscarem essa formação ou sequer tem tempo para isso.

“O professor faz 16 períodos de 50 minutos a cada 20 horas. O que sobra para a formação, para que ele assista um vídeo? Não tem, a carga horária do professor é praticamente toda ocupada em sala de aula, não existe espaço para fazer uma construção, para fazer uma análise, para fazer uma crítica, porque é tudo ocupado com sala de aula”, diz.

A respeito dos itinerários formativos e das eletivas, a professora Marina Vargas, da Escola Estadual Walter Jobim, de Viamão, pontua que as escolas se prepararam para uma “realidade que não está acontecendo”. Ela esperava por exemplo que, pelo fato de a cidade de Viamão ter uma vocação agrícola importante, escolas localizadas em bairros de perfil mais rural pudessem oferecer aos alunos itinerários voltados para a questão agroecológica. O mesmo para a região de Itapuã, que poderia, por exemplo, tratar da temática indígena, e assim por diante. “Só que isso não está acontecendo, porque a gente não consegue nem ter professor para dar o principal, que dirá dividir em eletivo”, diz. “O que a gente vê na privada é que eles já estão preparados, já estão organizados”, complementa.

Marina conta que a coordenadoria de educação que atende a região solicitou que a escola fizesse um levantamento de currículos, em que fossem elencadas, além das graduações e pós-graduações, a experiência profissional dos professores. A ideia seria organizar os itinerários, que começarão na escola em 2023, a partir dessa experiência.

“Tem um colega que teve uma loja, que foi administrador e trabalhou um tempo, ele vai entrar no itinerário da Administração, mas não está acontecendo ainda”, diz. “A gente tem na Walter Jobim um professor que é perito criminal. Poderia aproveitar esta experiência dele, mas aí vai depender da escola que vai ter um professor, entendeu?”, diz.

Questionada pela reportagem sobre como pretendia equiparar a oferta de conteúdos entre as redes pública e privada, a Seduc respondeu, por meio de nota, que cada rede de educação do sistema estadual de Ensino possui autonomia para a definição dos seus Itinerários Formativos a partir das diretrizes estabelecidas. “No caso da Rede Estadual de Educação do RS, serão ofertados 29 Itinerários Formativos, sendo 24 Trilhas de Aprofundamento Propedêuticas, contemplando as quatro áreas de conhecimento (Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, Ciências da Natureza e suas Tecnologias, Linguagens e suas Tecnologias e Matemática e suas Tecnologias) e 5 Trilhas de Formação Técnica, Profissional e Profissionalizante. Isso significa um impacto de, aproximadamente, 190 novos componentes curriculares”, diz apenas a resposta da Seduc.

A secretaria pontuou ainda que a experiência das escolas-piloto é relevante para o processo de construção das Trilhas de Aprofundamento que serão ofertadas em toda a rede estadual. “Com as experiências compartilhadas pelas 264 escolas-piloto, aprendemos a trabalhar o planejamento pedagógico de forma integrada e por área de conhecimento, identificando assim os aspectos necessários de melhoria”, diz a nota.

Presidente interino do Cpers, Alex Saratt avalia que, na prática, o que está se vendo é a composição de um “ensino dualista”. Isto é, há dois modelos de ensino que são concomitantemente aplicados no Brasil. “Uma escola de excelência acessível para poucos, a gente sabe quem são esses poucos. E uma escola de uma formação geral muito básica, no sentido digamos pejorativo da palavra básica, muito supérflua, sem aprofundamento, sem criticidade, condicionando apenas a formação do trabalhador obediente e submisso, não do cidadão ativo, compromissado e consciente”, diz.

Ele pontua que essa separação entre uma escola de excelência, a ser aplicada na rede privada e em algumas poucas unidades da educação pública, e uma escola básica para a maioria dos estudantes, já havia sido discutida, mas derrotada, nos anos 1990, quando se tratou da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Apesar de existir um abismo entre as redes, garantiu-se, então, que a proposta de escola privada e pública seria a mesma. Com o Novo Ensino Médio, diz, abriram-se novamente as portas para a diferenciação.

“O que nós temos hoje com o Novo Ensino Médio é justamente um sistema onde as escolas públicas são vistas como gasto dentro da lógica do ajuste fiscal, dentro da lógica da austeridade, dentro da lógica da precarização do serviço do público, uma lógica que contrasta com o que o movimento educacional brasileiro vem dizendo há décadas”, diz Saratt.

Saratt avalia que, por trás da reforma, está uma proposta de que a escola pública deve formar apenas profissionais, enquanto ele acredita que a sociedade atual exige uma formação polivalente, que abranja vários temas, a fim de preparar os estudantes para um mundo do trabalho constantemente impactado por revoluções tecnológicas. No entanto, ele crê que o Novo Ensino Médio, até o momento, não está apto para preparar os estudantes “nem para uma coisa, nem para outra”, no Rio Grande do Sul.

Marcio Freitas conta que a recepção dos estudantes que estão concluindo o terceiro ano do Novo Ensino Médio na escola Presidente Roosevelt é negativa e que as reclamações giram em torno da falta de preparação para o Enem e para vestibulares, em razão da redução da carga horária de disciplinas como Química, Física e Biologia. “Os alunos, em geral, não gostam, eles prefeririam ter o Ensino Médio tradicional. Então eles aceitam, a gente fala que não é uma coisa da escola, que todas as escolas agora a partir de 2022 estão implantando e que se quiserem trocar de escola vai ser igual, mas eles não gostam, é mau humor, apatia bastante grande. Eles sentem que perdem disciplinas para inclusão do itinerário que, no ponto de vista imediatista do aluno, não vai ter função nenhuma, porque eles querem o Enem e o vestibular da UFRGS. Os professores não têm culpa de não saber o que dar de matéria, muitos acabam fazendo algum projeto extracurricular que não foi aprovado pela secretaria.”

Marina Vargas pontua que um complicador da avaliação do Novo Ensino Médio é que os alunos não sabem dizer se preferem este modelo ou o anterior, pelo fato óbvio de que não passaram pela etapa anteriormente. Ela diz que chegou a fazer essa pergunta em sala de aula e ouviu como resposta que, no caso de sua disciplina, achavam interessante o fato de ela estar permanente tentando trazer conteúdos novos, mas, ao mesmo tempo, se sentem perdidos em outras cadeiras.

“Um menino que veio transferido de outra escola e chegou agora, ele disse assim: ‘pois é, professora, isso que a senhora fala em Mundo do Trabalho, da inteligência artificial, eu já tive toda a história até chegar nisso em Cultura e Tecnologias Digitais’. Só que aqui na nossa escola, o pessoal não teve nada dessa disciplina ainda, então fica completamente desparelho. Uma coisa que é para ser padronizado, dar um caminho, não tem conexão uma escola com a outra, isso dentro do mesmo município”, diz.

A diretora Geovana Affeldt, da escola estadual Tuiuti, avalia que, neste cenário, falar em melhoria do Ensino Médio seria uma “falácia”, pois os alunos não estão recebendo a formação adequada nas novas disciplinas ao mesmo tempo em que perderam qualidade nas disciplinas antigas que tiveram redução de carga horária.

“Aqui, na prática, no chão da escola, a fala do Novo Ensino Médio de mudança para atender melhor os alunos é uma falácia. Não existe a menor possibilidade de ter nenhuma melhoria se algo mais básico não for resolvido. Sem falar da questão da ideologia das disciplinas que poderiam preparar melhor os alunos para ascender numa carreira, para fazer uma faculdade, e isso está sendo destruído com o novo Ensino Médio, que incorpora esses novos componentes curriculares que nós não temos pessoas especializadas para dar. A base está sendo destruída. Eles não vão ter base e também não vão ter essas novas disciplinas de qualidade, porque nós não vamos ter quem as dê”, diz.

Contudo, Geovana ressalta que não é contrária à ideia do Novo Ensino Médio em absoluto, o que ela lamenta é que não foram oferecidas condições à escola de colocar em prática a nova matriz curricular de forma adequada. “A gente não tem a possibilidade de colocar em prática o Novo Ensino Médio para ver se ele vai dar certo, a gente não consegue chegar lá.”

Ela ainda pondera que a nova matriz curricular não foi pensada para se adaptar a questões básicas da realidade dos alunos da rede pública, como a ampliação do horário que levou à antecipação do início das aulas noturnas para o final da tarde. “Eu tenho muitos alunos que vão para a escola direto do trabalho. Com o aumento da carga horária, como os alunos vão fazer para cumprir?”, questiona. “Não tem como. Já tive aluno que me disse que não tem como. ‘Meu horário já era queimadinho às 19h, como é que eu vou chegar às cinco e pouco’”, relata a diretora.

Na prática, a alternativa encontrada pelos professores para lidar com estes alunos foi deixar atividades em plataforma digital, como leituras, para que conteúdos ministrados no início do turno possam ser recuperados. “O Novo Ensino Médio não contempla a realidade das escolas públicas. Ele não foi feito para as escolas públicas, talvez as escolas particulares sim. Mas todas as escolas públicas que eu tenho contato, ninguém está conseguindo cumprir minimamente as mudanças em função da falta de condições”, diz Geovana.

Por Luíz Gomes – Sul21 (02/08/2022)

MATÉRIA EM LIBRAS

Pesquisa escancara desigualdade educacional e aponta que falta de investimento na pandemia prejudicou a educação

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Foto: Divulgação/Agência Brasil

Menos da metade dos estudantes brasileiros (39%) tiveram acesso as aulas de reforço durante o isolamento provocado pela pandemia de Covid-19, o que aumentou a desigualdade educacional.

Os dados são da pesquisa “Educação na perspectiva dos estudantes e suas famílias”, realizada pelo Datafolha, que traça os desafios na recomposição da educação básica com a volta das aulas presenciais no Brasil e mostra que falta de investimento na pandemia prejudicou a educação.

Segundo o levantamento, 34% dos alunos do ensino médio receberam apoio psicológico, outros 28% estão fortemente inclinados a abandonar os estudos. No Norte e Nordeste a situação é ainda pior, sobretudo em unidades das redes municipais.

Para a professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Dra. Marilda Gonçalves Dias Facci, o resultado da pesquisa reflete a falta de investimento na educação pública brasileira, sobretudo durante a pandemia de Covid-19. Para ela, os professores se sentem amedrontados, desvalorizados, por conta do pouco investimento na educação pública. “Vivemos uma situação de exploração da classe trabalhadora em relação ao seu trabalho”, diz.

“Temos que trabalhar com política de valorização do trabalho do professor, dar estrutura física, ou seja, uma infraestrutura na escola para que os professores e alunos possam ter um ambiente adequado, o docente para ensinar e o discente aprender”, continua a professora.

Após dois anos de pandemia, professores/as e estudantes ainda lidam diariamente com diversos desafios como a ausência de estrutura em salas de aulas, dificuldade de adaptação ao ensino remoto, perda da convivência com o meio escolar, falta de estudo adequado para o Enem, e até a falta de merenda escolar, que é uma das poucas refeições nutritivas feitas no dia.

Omissão do governo

De acordo com um relatório aprovado no mês passado pela Comissão de Educação da Câmara, o governo de Jair Bolsonaro foi omisso nas ações para reduzir os impactos negativos da pandemia na educação.

Muitas escolas foram fechadas, muitos alunos ficaram sem internet e sem conseguir ter acesso às lições, o que resultou nos efeitos negativos na educação básica. O relatório concluiu ainda que o Ministério da Educação teve um desempenho precário e falhou na coordenação de políticas educacionais, deixando estados e municípios desamparados.

O pesquisador de políticas educacionais e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Fernando Cássio, afirma que o governo federal aprofundou a desigualdade educacional no Brasil, que teve início com o governo de Michel Temer (MDB).

“O governo do Bolsonaro aprofundou uma série de coisas com agendas educacionais reacionárias que são relacionadas ao retrocesso. O MEC está mais preocupado em fazer balcão de negócios, loteamento e enfiar políticas contra raça, gênero, etc.”, afirma.

Pais relataram dificuldade

A pandemia impactou na rotina da casa e muitos pais se sentiram sobrecarregados e relataram dificuldade de conciliar o trabalho com aulas online dos filhos. Para a maioria dos pais, a falta de equipamentos adequados em casa, como computadores e celulares, foi um dos principais problemas enfrentados durante a suspensão das aulas presenciais.

De acordo com dados da UNICEF, para se ter uma ideia do impacto devastador da Covid-19 na educação, mais de 137 milhões de crianças e adolescentes ficaram sem atividades escolares na América Latina e no Caribe. Se contarmos apenas o Brasil, são 4 milhões de estudantes do ensino fundamental sem acesso a nenhuma atividade escolar.

Segundo Marilda, além dessas dificuldades, há muitos professores e professoras afastados da sala de aula por adoecimento – houve um acirramento da precarização do trabalho.
“Com a pandemia as condições de trabalho só pioraram porque o professor ou a professora teve que trabalhar por conta própria, utilizar os seus recursos e equipamentos e sua própria casa para dar aula”, reitera.

Fonte: CNTE

Veja nova programação da Celebração do Centenário de Paulo Freire, entre os dias 17 e 20 de setembro, no Recife (PE)

Centenário Paulo Freire Recife

Neste ano de 2022, com a vacinação e todas as medidas de segurança sanitárias, a celebração do Centenário de Paulo Freire será realizada presencialmente de 17 a 20 de setembro em Recife (PE). Inclusive teve alteração do local do ato político e show cultural que terá no dia 18. [veja abaixo a programação completa]

A programação contará com plenárias e encontros durante os quatro dias de atividades. Será uma jornada com muita alegria e cultura popular para celebrar o legado e os ensinamentos do pedagogo, filósofo e educador do povo. Celebrar Paulo Freire é celebrar a luta em defesa da Educação como instrumento de transformação da nossa realidade, é celebrar a construção de uma sociedade mais justa e solidária!

17/09 – 09h às 18h
Encontro Rede de Mulheres Trabalhadoras da Educação da América Latina – RED
Local: Mar Hotel Conventions – Rua Barão de Souza Leão, 451 – Boa Viagem- Recife -PE

18/09 – 09h às 12h
Encontro Rede de Mulheres Trabalhadoras da Educação da América Latina – RED
Local: Mar Hotel Convention – Rua Barão de Souza Leão, 451 – Boa Viagem- Recife -PE

14h – Ato Público Político-Cultural
Show com Chico César, Lia de Itamaracá, Silvério Pessoa e Grupo Y Somos Todas (Costa Rica)
Local: – Praia do PINA, Recife-PE

19/09 – 09h
Plenária Popular Mundial da Educação Universidade Federal de Pernambuco – Concha Acústica Paulo Freire – Universidade Federal de Pernambuco

19/09 e 20/09
Movimento Pedagógico Latino-Americano – MPLA
Local: Mar Hotel Conventions – Rua Barão de Souza Leão, 451 – Boa Viagem- Recife -PE

Fonte: CNTE

Ato em defesa do processo eleitoral e contra a violência política será realizado nesta terça (2) no Senado Federal

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Foto: Roque de Sá/Agência Senado

Para garantir as eleições seguras e transparentes diante dos inúmeros ataques do presidente da república a democracia, a Coalizão em Defesa do Sistema Eleitoral convoca ato em defesa do processo eleitoral e contra a violência política no dia 2 de agosto, às 10h, no Senado Federal. Assista a transmissão do ato ao vivo pela página da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) pelo Facebook – fb.com/cntebrasil.

Carta em defesa da democracia já tem quase um milhão de adesões

Faltam poucos dias para a Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito completar 1 milhão de adesões, isso porque em apenas seis dias no ar já tem quase 650 mil assinaturas. [Saiba abaixo como assinar]

O documento, que será lido será lido em um evento na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), na quinta-feira da semana que vem, dia 11 de agosto, foi publicado dias após Jair Bolsonaro mais uma vez atentar contra a democracia. A nova edição da Carta aos Brasileiros não cita nomes, mas é considerada uma resposta às ameaças de Bolsonaro, que ataca as urnas eletrônicas, os ministros do STF e ameaça não aceitar o resultado das eleições.

Uma iniciativa da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, também em São Paulo, a Carta está hospedada no site Estado de Direito e pode ser assinada por qualquer pessoa interessada em defender a democracia brasileira.

>> Como assinar:

Acesse: https://estadodedireitosempre.com/

Depois leia a carta e se concordar assine o documento no fim do texto com nome, CPF, e-mail e Ocupação/atividade e dar ok. Pronto, você será mais uma pessoa na luta em defesa da democracia.

Calendário de mobilizações pela democracia

11/8 – 1ª Mobilização Nacional em Defesa da Democracia e por Eleições Livres
07/9 – Grito dos Excluídos
10/9 – 2ª Mobilização Nacional em Defesa da Democracia e por Eleições Livres

Fonte: CNTE

Sem merenda nas férias escolares, fome pode aumentar e desenvolvimento das crianças corre risco

Escassez de merenda

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 28,9% da população enfrenta a insegurança alimentar moderada ou grave no Brasil. As crianças podem ser as mais atingidas pela fome crescente no país e sem merenda nas férias escolares isso pode piorar, inclusive o desenvolvimento dos alunos corre risco.

Uma merendeira de escola pública em São Paulo, que não quis se identificar, disse que trabalha numa comunidade onde mais de 60% das crianças frequentam regularmente a escola só para se alimentar e que neste recesso escolar não sabe como estas crianças estão se alimentando.

“Trabalho numa comunidade muito carente e, como na maioria das escolas, 60% dos alunos se alimentam nas unidades de ensino porque é uma comida boa, de qualidade e bem temperada. As crianças brigam por isso, comem e repetem, e se pudesse levariam para casa. Agora nas férias era para ter um projeto de merenda, mas não foi pra frente. Não sabemos como estas crianças estão se alimentando”, afirmou a merendeira.

Ela contou que a escola está abrindo normalmente todos os dias em horário comercial e as funcionárias vão lá cumprir o horário, mas que um projeto de servir marmita, por exemplo, como aconteceu na pandemia, seria de muita importância.

De acordo com estudos da Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca), entre 2014 e 2019 os investimentos no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) foram reduzidos em R$ 924 milhões, ou seja, 18,9%. E entre 2018 e 2019, houve uma queda de R$ 200 milhões nas despesas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) com o PNAE.

Diante do cenário de fome crescente no país, especialistas consultados pela BBC News Brasil apontam que as crianças podem ser as mais atingidas. Durante os primeiros anos de vida, a evolução do cérebro acontece a uma velocidade incrível — a 1 milhão de conexões entre neurônios por segundo. E a desnutrição pode impactar diretamente no fornecimento de nutrientes necessários para esse desenvolvimento.

A presidenta da CUT São Paulo, que é professora de educação artística e dirigente na Apeoesp, Telma Aparecida Andrade Victor, disse que neste momento no de recesso escolar e com tanta gente passando dificuldade, seria papel do Estado manter a merenda e a alimentação para as mães de crianças, jovens e adolescentes para que tem mais necessidades e precisam.

“Um governador consciente do seu papel de ajudar a população, sabendo da dificuldade que estamos passando neste país, onde Bolsonaro conseguiu colocar milhões de brasileiros e brasileiras na extrema pobreza, deveria viabilizar esta assistência porque são as escolas públicas que atende o povo sem distinção e na sua plenitude”, afirmou ela.

Segundo o banco de dados DataSUS, do Ministério da Saúde, 13,78% das crianças de até 5 anos atendidas pelo SUS de janeiro a setembro de 2021 apresentavam peso inadequado.
Para a professora é preciso “continuar lutando para que a população tenha o direito básico, que é de se alimentar porquê de barriga vazia ninguém aprende. A escola pública, gratuita, inclusiva, laica e de qualidade é com crianças alimentadas, para que elas tenham uma aprendizagem de verdade”.

Projeto para combater a fome

Vindo na contramão da realidade atual, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) apresentou o Projeto de Lei (PL) 1.901/2022, que prevê que alunos de escolas públicas poderão ter direito de se alimentar pelo menos duas vezes ao dia com a quantidade ideal de nutrientes para a idade.

No artigo da lei que determina que “alimentação escolar é direito dos alunos da educação básica pública e dever do Estado”, a proposta adiciona um parágrafo para estabelecer que esse direito “compreende a efetiva disponibilização aos alunos de pelo menos duas refeições diárias completas, atendendo-se, integralmente, à ingestão diária recomendada de proteína, vitaminas e minerais para cada faixa etária”.
Em Belo Horizonte, segundo reportagem do G1, o projeto “Fome nas Férias” tem o objetivo de arrecadar alimentos e entregá-los para famílias da comunidade Helena Greco, no bairro Zilah Spósito, na Região Norte da capital mineira.

“A merenda é a garantia de refeição balanceada no dia a dia de 100 mil famílias que se encontram em extrema pobreza. Para essas crianças, nos períodos sem aulas é que a fome enfrentada pela família fica visível e se torna uma realidade a ser encarada” , diz a Associação Comida que Abraça. 

 

Fonte: CNTE

Nota de repúdio às declarações golpistas de Bolsonaro contra o sistema eleitoral brasileiro

Bozo

Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, entidade representativa de aproximadamente 4,5 milhões de profissionais da educação básica pública brasileira, repudia com veemência as mais recentes declarações antidemocráticas do presidente Jair Bolsonaro contra o sistema eleitoral brasileiro, desta vez, em encontro com embaixadores de diferentes países, no último dia 19.

Além de demonstrar o desespero do presidente com a possível derrota nas urnas -inclusive em primeiro turno – e com sua consequente prisão e de familiares próximos por diversos crimes, as declarações golpistas do Chefe do Executivo federal constituem crime contra o Estado Democrático de Direito e a Tripartição dos Poderes, princípios que fundamentam a Constituição Cidadã de 1988.

É passada a hora de os poderes constituídos tomarem as medidas cabíveis para coibir os rompantes golpistas de Bolsonaro, sobretudo sua estratégia de desqualificar – sem provas – as urnas eletrônicas e todo o sistema eleitoral do país, que serve de referência para diversas nações. O próprio atual presidente foi eleito pelas urnas eletrônicas, que constituem um importante instrumento antifraude eleitoral.

Neste sentido, cabe ao Congresso Nacional – especialmente ao presidente da Câmara dos Deputados – e ao Procurador-Geral da República se pronunciarem e agirem nos termos e em defesa da Constituição Federal, abrindo processo de impedimento contra o Presidente da República. Os crimes de Bolsonaro se acumulam desde o início de seu governo, estando engavetados na mesa do presidente da Câmara Federal, dep. Arthur Lira, mais de uma centena de pedidos de impeachment por diferentes crimes de responsabilidade, o que é outra afronta à democracia brasileira.

As instituições, a democracia e o povo brasileiro precisam ser respeitados e defendidos contra medidas golpistas que querem reinstaurar a intolerável ditatura vigente no Brasil entre 1964 e 1985.

Não ao golpe contra a democracia!

Pelo impeachment imediato de Jair Bolsonaro!

 

Brasília, 20 de julho de 2022
Diretoria da CNTE

Fonte: CNTE

Projeto altera Pnae e inclui segunda refeição para alunos das escolas públicas

Alimentação Escolar

Foto: Arlesson Sicsú/Semcom

Alunos de escolas públicas poderão ter o direito de se alimentar pelo menos duas vezes ao dia com a quantidade ideal de nutrientes para a idade. Isso é o que prevê o Projeto de Lei (PL) 1.901/2022, apresentado pelo senador Rogério Carvalho (PT-SE).

A proposta altera a Lei 11.947, de 2009, que regulamenta o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

No artigo da lei que determina que “alimentação escolar é direito dos alunos da educação básica pública e dever do Estado”, a proposta adiciona um parágrafo para estabelecer que esse direito “compreende a efetiva disponibilização aos alunos de pelo menos duas refeições diárias completas, atendendo-se, integralmente, à ingestão diária recomendada de proteína, vitaminas e minerais para cada faixa etária”.

Qualificar o Pnae

O autor do projeto explica que, de acordo com o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19, o Brasil retornou aos maiores patamares da fome, desde 1990. Por isso, é preciso qualificar o Pnae para o atual cenário, argumenta.

Carvalho acrescenta que contribuíram para esse resultado o desmonte das políticas públicas pelo atual governo federal e o agravamento da crise econômica. Realidade que atingiu “de forma particularmente cruel” as crianças em idade escolar, que não tiveram suas necessidades supridas durante a pandemia.

“Nessa fase da vida, o não atendimento às suas demandas alimentares causa inegável comprometimento às suas potencialidades e ao seu futuro. Sob essa perspectiva, é preciso que pensemos no papel da escola como local onde podem ser supridas as carências alimentares de nossas crianças. Para muitas delas, o ambiente escolar é onde farão a única refeição do dia”, ressalta.

 

Por Redação – Extra Classe (19/07/2022)

Fonte: CNTE

Trabalhadoras e trabalhadores aprovam compromisso coletivo em defesa da educação pública no último dia da Conape da ‘esperança’

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Fotos: Jordana Mercado

No último dia da II Conferência Nacional Popular de Educação (Conape) 2022, neste domingo (17), na capital do Rio Grande do Norte (Natal), trabalhadoras e trabalhadores de todo país aprovam a Carta de Natal. O documento registra o compromisso coletivo em defesa da educação pública de qualidade, laica, democrática e inclusiva para todas, todos e todes. A atividade, que aconteceu pela manhã, foi referenciada em plenário como “Conape da esperança”. A Conape 2022 é organizada pelo Fórum Nacional Popular da Educação (FNPE).

>> Veja Playlist CONAPE 2022 (todos os vídeos) no Youtube da CNTE

A Carta, como diz o presidente em exercício da CNTE, Roberto Leão, é um resumo do Documento final da etapa nacional da Conape (que serão divulgados em breve) no qual aponta as reivindicações do ramo da educação e as pautas do movimento rumo à reconstrução do país.

“Para isso propomos uma plataforma em defesa do Estado democrático de direito, em defesa das instituições republicanas, da vida e da soberania popular, dos direitos sociais e da educação, que mobilize ainda mais o amplo setor da sociedade”, diz trecho da Carta ao citar as principais pautas das entidades que compõem o FNPE e que assinam o compromisso.

Algumas das bandeiras de lutas das trabalhadoras e trabalhadores da educação: A revogação da Emenda Constitucional 95 de 2016, que limita investimentos da saúde e educação, e demais medidas e renuncia fiscal que fragilizem as políticas sociais, retomada de investimento na educação pública e nas áreas sociais, fim do congelamento dos recursos primários associados ao poder executivo, revogação do ensino médio, entre outras.

>> Veja a seguir o vídeo da leitura da Carta de Natal

“A Conape é resultado de um esforço solidário, que mostra que nós somos capazes de nos organizarmos e fazermos tudo que for necessário. A Conape está na disputa da educação pública deste país. Tenho certeza de que cada um e cada uma daqui sai fortalecido para as próximas lutas”, disse o presidente interino da CNTE, Roberto Leão.

>> Sob ataque, Conferência Nacional Popular de Educação (CONAPE) vai debater futuro da educação no Brasil

Homenagem Marcelo Arruda

Ainda durante a plenária final da Conape, as trabalhadoras e os trabalhadores da educação, fizeram uma homenagem a Marcelo Arruda, tesoureiro do PT que foi assassinato no seu aniversário de 50 anos com decoração do partido, pelo policial penal federal Jorge José da Rocha Guaranho em Foz do Iguaçu (PR), há um mês.

A manifestação que pede paz e justiça por Marcelo Arruda aconteceu também em diversas cidades brasileiras. Veja a seguir o vídeo da homenagem ao Marcelo Arruda.

Participação internacional

Yamile Socolovsky, secretária de Relações Internacionais da Federação Nacional dos Docentes Universitários (CONADU), Combertty Rodriguez, coordenador Regional Principal da Internacional da Educação na América Latina e Eduardo Pereyra, secretário de Relações Internacionais da Central de Trabalhadores da Educação da República Argentina– CTERA, Argentina, falaram no encerramento sobre a importância da Conape e do Brasil para as trabalhadoras e os trabalhadores da educação para América Latina.

> Veja o vídeo da Yamile Socolovsky

> Veja o vídeo do Comberetty Rodriguez

> Veja o vídeo de Eduardo Pereyra

Saiba mais sobre os outros dias da Conape

>> Comemorando 15 anos, nova edição da Revista Retratos da Escola da CNTE é lançada na Conape 2022

>> Nas ruas de Natal, mais de 5 mil pessoas participam da marcha política e cultural de abertura da Conape 2022

As fotos da CONAPE 2022 estão publicadas na página da CNTE no Facebook.

>> Veja aqui as fotos do dia 15 de julho

>> Veja aqui as fotos do dia 16 de julho

>> Veja aqui as imagens do dia 17 de julho

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Fonte: CNTE

Defensores do homeschooling no Brasil recomendam castigos físicos de crianças

Homeschooling

 

Agência Pública (18/07/2022)  selonovo

Por Alice de Souza, Clarissa Levy, Mariama Correia, Diana Cariboni  

https://apublica.org/

Treinamento oferecido pelo maior grupo de promoção da educação domiciliar (homeschooling) no Brasil encoraja pais a bater em suas crianças “calma e pacientemente” como forma de educar, revela uma investigação da Agência Pública e da openDemocracy.

Livros, sites e vídeos consultados pela reportagem dão dicas aos pais de como bater em crianças e contornar a lei – evitando lesões graves, marcas visíveis e humilhação pública. Materiais também afirmam que pais que não castigam os filhos com a “vara” não amam a Deus ou aos seus filhos.

O Senado Nacional pode votar ainda este ano o Projeto de Lei (PL) que busca regulamentar o homeschooling (educação domiciliar) no Brasil, que já foi aprovado pela Câmara dos Deputados, e é uma promessa assumida pelo presidente Jair Bolsonaro desde a campanha de 2018 – para preocupação da Unicef. A pauta é defendida há anos por grupos conservadores e membros do alto-escalão do governo, apesar de essa modalidade de ensino alcançar apenas 0,03% das crianças em idade escolar, segundo estimativas.

Desde 2014, os castigos físicos são proibidos na educação brasileira.

“É na escola que os abusos e violências são descobertos”, afirma a deputada federal e educadora Sâmia Bomfim, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). “Sem o acesso à escola, crianças que sofrem violência física ficam ainda mais vulneráveis.” 81% dos casos de violência física contra crianças acontecem em casa, completa.

No Brasil, há 46,7 milhões de estudantes matriculados na educação básica, de acordo com as estatísticas oficiais do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), enquanto 1,4 milhões de crianças estão fora da escola.

Enquanto isso, apenas 15 mil crianças são educadas em casa, segundo a Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED), principal promotora do homeschooling e defensora da legalização da modalidade por órgão federais, estaduais e municipais.

“Com tantas questões urgentes na educação, só um lobby muito poderoso explica a aprovação de um PL que interessa a um grupo de apenas 15 mil pessoas”, afirma Bomfim.

Castigar “calma e pacientemente”

Em um curso online, o ex-secretário nacional de Proteção Global do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), Alexandre Magno Fernandes Moreira, diz aos pais: “O castigo físico sempre tem de ter uma finalidade (…) é algo que deve ser feito com calma, paciência e dentro de situações específicas.”

O castigo “não pode colocar em risco a vida ou a saúde da criança e do adolescente (…) não pode provocar constrangimento, humilhação ou qualquer tipo de vexação para a criança”, acrescenta.

Moreira, que foi secretário nacional no MMFDH de Bolsonaro em 2019 e 2020, e diretor jurídico da ANED de 2010 a 2019, ainda é consultor jurídico da associação.

Ele também é ligado ao grupo ultra-conservador estadunidense Home School Legal Defense Association (HSLDA, “Associação de Defesa Jurídica do Home School”) e foi conselheiro por oito anos da Global Home Education Exchange (GHEX, Intercâmbio Global de Educação Domiciliar), uma plataforma para as atividades internacionais da HSLDA.

Seu curso, “O Direito da Família”, está disponível na plataforma audiovisual da Brasil Paralelo, produtora conhecida como a ‘Netflix da direita’.

No grupo de Moreira no Telegram, chamado “A família e seus direitos” – que tem mais de 10,8 mil inscritos -, uma enquete sobre castigos físicos foi lançada em maio de 2021; Das 664 respostas, 51% marcaram que “sim, eu uso castigo físico (p. ex. palmadas)”.

“Aqui em casa temos o corinho, sempre no bumbum, a vara da disciplina afasta a estulticia (sic) do coração. Eles precisam entender que o pecado gera consequências, a a (sic) vara limpa o coração”, escreveu uma mulher. “Sim eu uso somente a vara ,nada de mão, chinelo e cinto, A Bíblia não nos ensina a usar essas coisas ,mas sim a vara!!!”, compartilhou outra participante.

A Bíblia como justificativa
Fundada em 2010 e sediada em Brasília, a ANED faz lobby diretamente no Congresso, além de manter uma rede de representantes locais em diversos estados brasileiros.

A ANED não defende explicitamente o uso de violência contra crianças em suas comunicações oficiais, mas distribui materiais de apoio que o fazem – por meio do Clube ANED, um programa de descontos para membros com 25 empresas parceiras. Nossa investigação apurou que ao menos quatro dessas empresas oferecem livros ou materiais didáticos que promovem ou normalizam castigos físicos.

Uma dessas empresas é a “Família que Educa“, criada por Flávia Saraiva, representante da ANED na Bahia, que oferece livros e materiais didáticos sobre matérias como matemática, ciência e geografia com links para vídeos no YouTube e grupos de Telegram, incluindo o canal de Moreira.

Outra empresa parceira do Clube ANED, a Homeschoolarizando, mantém uma pasta aberta na nuvem, onde compartilha materiais didáticos gratuitamente. No meio desses materiais, são encontrados versículos da Bíblia como: “A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma envergonha a sua mãe”.

“Discipline sua criança em áreas onde as marcas não ficarão visíveis” – Simone Quaresma

A Kairós Consultoria Educacional – outra empresa parceira da ANED que vende treinamentos de educação domiciliar para famílias – divulga o trabalho da polêmica autora Simone Quaresma.

Seu livro, intitulado “O que toda mãe gostaria de saber sobre a disciplina bíblica”, teve a venda proibida em 2020 por defender o uso de castigos físicos. No livro, a autora orienta pais a usarem varas de silicone para bater em seus filhos em áreas não visíveis do corpo e diz que, tão logo o bebê consiga se manter sentado, “você terá que começar a dar leves tapinhas no seu bumbum ou na sua mãozinha (…) Logo, logo, porém, já será a hora de partir para o uso da vara propriamente dita.”

Apesar disso, o livro continuou a ser vendido pela plataforma de produtos e serviços do Simpósio Online de Educação Domiciliar, o Simeduc. A empresa pertence à ativista do homeschooling Gaba Costa, que ajudou a trazer o programa ultra-conservador cristão britânico Classical Conversations para o Brasil.

Outra parceira da ANED, a Comunidade Educação no Lar vende um curso online com dois módulos inteiros sobre autoridade, obediência e correção, que incluem trechos do livro de Simone Quaresma.

Além do livro, em palestras e textos, Simone Quaresma recomenda argumentos a serem ensinados às crianças para caso sejam questionadas sobre a questão da violência física em casa: por exemplo, que o uso de castigos físicos é um assunto privado.

Ela também dá a entender que “possuir alguma deficiência não seria motivo para isentar uma criança de castigos físicos”.

A decisão judicial de 2020, que proibiu a venda de seu livro, também ordenou que conteúdos sobre “disciplina bíblica” publicados por Quaresma em suas redes sociais e em seu site fossem tirados do ar. No entanto, um texto publicado após a decisão e outros artigos, datados de 2014, que descrevem como usar a vara, continuam disponíveis em seu site, Mulheres Piedosas. Quaresma apelou da decisão sem sucesso.

Quaresma disse à reportagem que não comentaria sobre seu livro, por estar “enfrentando uma ação fruto de uma denúncia do Ministério Público”. Ela afirma que o homeschooling é uma boa opção para famílias cristãs que não têm acesso a escolas cristãs adequadas, mas que “a disciplina que a Bíblia ensina não tem nada a ver com homeschooling. São duas coisas completamente diferentes.”

Uma tutora da comunidade Classical Conversations e mentora de famílias adeptas da educação domiciliar, que pediu para permanecer anônima, disse à reportagem que o castigo físico tem amparo bíblico.

“A Bíblia diz: ‘discipline seu filho, mas não discipline para matar’. A Bíblia tem versículos que nos orientam, sim, a usar a vara da correção. Mas quando a gente fala isso, as pessoas que vêm de fora pensam que é um massacre”.

“Tem pais que orientam os filhos tirando aquilo que eles gostam, outros usam a vara realmente batendo no filho”, acrescenta.

Violência contra crianças

A violência doméstica contra crianças é algo comum no Brasil. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com base em dados de 12 estados, mostrou que “maus tratos” foram a segunda forma de violência mais registrada (após estupro) contra menores de 18 anos entre 2019 e 2021. A maioria absoluta das vítimas (90%) tinha menos de 15 anos.

Define-se como maus tratos o uso de violência como forma de correção ou disciplina, de acordo com o Código Penal e o Estatuto da Criança e do Adolescente. O terceiro crime mais reportado foi o de lesão corporal em contexto de violência doméstica. O levantamento estima que, no total, mais de 137 crimes contra menores são registrados diariamente, com alta taxa de subnotificação.

Apenas três dos sete pais adeptos da educação domiciliar entrevistados para esta reportagem consideram que castigos físicos são cruéis ou inapropriados.

Uma das entrevistadas, que falou à reportagem em condição de anonimato, é uma mulher de 38 anos de Florianópolis. Ela iniciou a educação domiciliar de seus três filhos em 2018.

Ela conta que nunca bateu em seus filhos – mas mostra compreensão pelas “famílias que vão usar a vara da disciplina, no sentido de bater em suas crianças de forma agressiva”, algo que ela não vê como um problema.

“Todo tipo de pessoa, independente de crença religiosa, vai agir como achar melhor para educar seus filhos”, acrescenta.

Mas uma educadora evangélica defensora do homeschooling, que já falou contra os castigos físicos em vídeo no YouTube e conversou com a reportagem em condição de anonimato, defende que a Bíblia está sendo interpretada de maneira equivocada.

“[Se] o líder religioso diz que é para bater, então as pessoas creem que disciplina bíblica é bater”, afirma. Para ela, muitos cristãos “ouvem qualquer coisa antiquada”.

O contra argumento de quem usa ou defende o uso dos castigos físicos, para além da questão religiosa, é que as escolas também são espaços onde as crianças podem sofrer abusos, ainda que isso não seja permitido por lei.

“Infelizmente, hoje em dia, as escolas estão com a aprendizagem muito aquém do esperado. E principalmente com a pandemia”, argumenta uma mulher de 34 anos, formada em pedagogia e mãe de quatro filhos, ouvida pela reportagem em condição de anonimato. Ela também cita a “ideologia de gênero” e a violência nas escolas entre as razões pelas quais ela recorreu à educação domiciliar a partir de 2019.

O PL do Homeschooling

Desde 2010, a ANED tem desafiado a lei que tornou obrigatório que menores de 17 anos frequentem as escolas, pressionando por mudanças nas legislações estaduais e defendendo pais adeptos do homeschooling na justiça. Diversas cidades e dois estados, Santa Catarina e Paraná (2021), chegaram a aprovar legislações pró-ensino domiciliar, mas estas foram suspensas pelas cortes estaduais.

Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que os pais não poderiam tirar suas crianças da escola para ensinar em casa sem que uma legislação específica fosse aprovada pelo Congresso Nacional. 

Mas a eleição de Bolsonaro, no mesmo ano, foi decisiva para que a pauta da ANED ganhasse força, segundo o próprio site da associação. A legalização da educação domiciliar fazia parte das metas prioritárias para os cem primeiros dias do governo.

Bolsonaro não cumpriu a promessa, mas este ano o presidente voltou a dar atenção à pauta, como um aceno aos eleitores conservadores em sua busca pela reeleição. Em maio, um Projeto de Lei que busca alterar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e regulamentar a educação domiciliar no Brasil foi aprovado em uma votação relâmpago na Câmara dos Deputados. O PL agora tramita no Senado.

O texto tem como apensado o PL 2401/19, assinado por dois ex-ministros do governo Bolsonaro, o ex-ministro da educação Abraham Weintraub e a ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos e pastora evangélica Damares Alves.

“Homeschooling é um sonho e um direito da família”, escreveu Damares ao publicar um vídeo em sua conta do Twitter, no qual pede para que eleitores cobrem parlamentares pelo voto favorável ao PL.

A regulamentação proposta para a educação domiciliar determina que ao menos um dos responsáveis tenha diploma de ensino superior e que as crianças ensinadas em casa tenham que passar por avaliações anuais feitas por escolas regulares.

Mas a deputada Sâmia Bomfim, que votou contra o PL, observa: “Nós sabemos que as escolas não têm condições de cumprir essas tarefas”.

Ela explica que não há garantia de que os pais adeptos da educação domiciliar serão supervisionados ou de que as crianças serão testadas. “Não é viável (…) Não temos recursos materiais e humanos para realizar essas inspeções. Não temos professores treinados para acompanhar os alunos fora da escola.”

De volta à Idade Média

“No Brasil, o homeschooling se tornou uma das principais pautas de grupos conservadores religiosos”, explica Andrea Silveira de Souza, que pesquisa educação e religião na Universidade Federal de Juiz de Fora. “Sobretudo evangélicos, em oposição à laicidade e à proibição do proselitismo religioso, que são diretrizes estabelecidas pela Lei Geral de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que regulamenta o ensino no país desde 1996”.

As metodologias de ensino domiciliar adotadas no Brasil costumam vir do exterior. Dentre elas, as duas mais mencionadas pelos entrevistados são a Educação Clássica Cristã (Classical Conversations), originária dos Estados Unidos, e o método de Charlotte Mason, educadora britânica do século XIX. Ambas conectam o processo de aprendizagem com princípios bíblicos, e seus métodos de ensino têm origem na Idade Média.

Um dos livros mais compartilhados por pais e mães adeptos da educação domiciliar é o “Ensinando o Trivium”, do casal estadunidense Harvey e Laurie Bluedorn. Nele, os autores argumentam que a jurisdição sobre a educação dos filhos deve ser exclusiva dos pais e que as escolas são espaços de enfraquecimento dos vínculos familiares que criam “um intercâmbio de culturas fora de controle”. O Trivium – as “artes verbais” da gramática, da lógica e da retórica – é um componente essencial da educação clássica, originada na Grécia Antiga.

A influência da HSLDA

Mas a maior influência internacional no Brasil vem do grupo ultraconservador estadunidense HSLDA.

A própria ANED se gaba de seus vínculos com a HSLDA, que tem participado ativamente do lobby no Congresso Nacional.

O grupo foi fundado nos EUA em 1983 pelo advogado Michael Farris, presidente da Alliance Defending Freedom (ADF; Aliança em Defesa da Liberdade, em português) – organização de advocacy e treinamento envolvida em campanhas contra o aborto legal e direitos de pessoas LGBTQIA+ nos EUA e no mundo, considerada um “grupo de ódio” pelo Southern Poverty Law Center (SPLC, ou Centro de Direito da Pobreza do Sul).

A HSLDA teve sucesso em seu lobby pela desregulamentação da educação domiciliar em diferentes estados dos EUA, o que permitiu que pais passassem a controlar a educação de suas crianças sem supervisão do Estado. Desde então, diversos casos de negligência, violência e morte já foram reportados pela mídia e por pessoas egressas da educação domiciliar.

“Os castigos físicos são comuns nas comunidades de homeschooling dos EUA”, afirma Ryan Stollar, pesquisador e ativista pelas crianças e sobreviventes de abusos, ele mesmo egresso da educação domiciliar.

Ele diz que a HSLDA “acredita fortemente na ideia de que pais e mães têm esses direitos universais de poder educar suas crianças como bem entenderem. E o castigo físico é provavelmente um dos principais direitos parentais nos quais a HSLDA mais se foca.”

Contrariando a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, Chris Klicka, ex-advogado titular da HSLDA chegou a afirmar que: Se as crianças tiverem direitos, elas podem se recusar a ser educadas em casa, e isso também tira o direito dos pais de disciplinar seus filhos fisicamente.”

Além disso, o fundador da HSLDA, Michael Farris, escreveu em detalhes por que e como bater em seus filhos em seu livro “How a Man Prepares His Daughter for Life” (“Como um Homem Prepara sua Filha para a Vida”, em tradução livre).

 Agência Pública (18/07/2022)

Fonte: CNTE

ICMS: Congresso vota nesta quinta (14) vetos de Bolsonaro às emendas que garantem recursos para a educação

Os vetos do presidente Jair Bolsonaro ao PLP 18/2022, que deu origem à Lei Complementar nº 194 (desoneração do ICMS), acarretarão perdas de mais de R$ 20 bilhões apenas na área da educação pública. A votação desses vetos está prevista para esta quinta-feira (14), a partir das 10h.

O Sinpro-DF e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) estão mobilizados para pressionar senadores/as e deputados/as para que eles/as derrubem esses vetos do governo. Veja a seguir como fortalecer esse movimento.

1. Envie mensagens via Whats App, Facebook e Twitter pelo site NaPressão: https://bit.ly/napressao_educacao

2. Envie mensagens por e-mail
–  Baixe o card com texto do e-mail: https://bit.ly/msg_email_parlamentares
– Lista de e-mails dos/as senadores/as: https://bit.ly/emails_senadores_2022
–  Lista de e-mails dos/as deputados/as: https://bit.ly/emails_deputados

Saiba mais sobre a Lei Complementar 194

A Lei Complementar 194 limita a cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de combustíveis, energia elétrica, comunicações e transporte coletivo. O presidente Bolsonaro indeferiu itens que previam compensação financeira para os estados — que podem sofrer perda de arrecadação com a nova norma. A Lei Complementar 194, de 2022, é resultado de um projeto de lei complementar: o PLP 18/2022.

O efeito colateral da lei pode tirar até R$ 21 bilhões do ensino público de estados e municípios, segundo o jornal O Globo. Até agora, pelo menos 19 estados e o Distrito Federal já anunciaram a redução do imposto sobre ICMS. Alguns deles chegam a cobrar até 32% do imposto em determinados tipos de combustíveis.

“É evidente que essa perda anunciada não ameaça apenas aulas extras que tiveram que ser compensadas em razão da pandemia, mas também a expansão do tempo integral será prejudicada gravemente, as obras nas escolas e os salários dos professores”, afirma Carlos Abicalil, coordenador do NAPP Educação – Núcleo de Acompanhamento de Políticas Públicas de Educação da Fundação Perseu Abramo.

>> A votação dos vetos que tratam de pontos da Lei Complementar 194/2022 será transmitida pelo site do Senado – clique aqui para assistir.

DA CNTE com informações da Agência Senado

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