Como o Uruguai pode influenciar o Brasil no campo da educação digital

Com o objetivo claro de reduzir a desigualdade digital da população, o Uruguai foi o primeiro país da América Latina a entregar computadores portáteis para cada um dos 300 mil alunos de ensino fundamental e médio das 2,3 mil escolas públicas de seu território. Batizado de Plano Ceibal, a iniciativa surgiu em 2007, inspirada na proposta da ONG One Laptop per Child (Um Computador por Aluno), fundada pelo pesquisador do MITNicholas Negroponte. Todas as escolas têm conexão à internet , as máquinas são substituídas a cada quatro anos e o país vem aumentando a quantidade de centros comunitários de acesso ou wifi aberto.
 
Antes do Ceibal, somente 5% das famílias de baixa renda tinham acesso a computador e internet. Seis anos depois, esse índice subiu para 80%, praticamente o mesmo encontrado nas famílias mais ricas. Estudo das Nações Unidas aponta o vizinho sul-americano como o primeiro no rankingde inclusão digital e transparência governamental (a Lei de Acesso à Informação Pública foi promulgada em 2008). É também o mais bem posicionado do continente no Índice de Desenvolvimento de Tecnologias da Informação e Comunicação e o que oferece maior velocidade de banda larga por uma tarifa mais baixa.
 
Entre os dias 17e 19 de outubro de 2013, o Ministério da Educação uruguaio realizou em Montevidéu a segunda edição do Expo Aprende Ceibal, um encontro para compartilhar experiências educativas e debater os principais temas que desafiam o trabalho pedagógico com tecnologias digitais. Convidada como especialista em educação e cultura digital, já conhecia bem a iniciativa, mas mesmo assim me surpreendi com a qualidade do envolvimento de professores e alunos ali presentes, que não vieram só para ouvir, mas principalmente, para apresentar suas práticas e debater sobre elas.
 
No pátio central do belíssimo auditório Sodre, centenas de pôsteres de experiências com seus respectivos autores – professores e alunos – davam vida a um espaço que tradicionalmente nos congressos educacionais é ocupado por grandes estandes de empresas de tecnologia e companhias editoriais com seus produtos à venda.
 
Em sua fala, ao final do primeiro dia do evento, Miguel Brecher, presidente do Ceibal, foi breve e conciso: “A tecnologia mudou muito nossa vida, mas não mudou a educação. A tecnologia chegou na educação para atender o que os vendedores da tecnologia queriam e não o que nós, educadores, queríamos”. E completou: “O desafio não só do Uruguai, mas de todos os países do mundo é adaptar a tecnologia à educação – e educação não significa só absorver conteúdos, mas educar para a vida, para compartilhar nosso conhecimento com toda a sociedade”.
A concepção pedagógica de uso da tecnologia que sustenta o Ceibal é ousada e totalmente distante da visão tradicional. Não se trata de substituir os materiais analógicos pelos dispositivos digitais para favorecer a transmissão de conteúdos curriculares e, com isso, subir no ranking dos exames educacionais oficiais. O que se quer é introduzir a cultura digital no ambiente educativo e, dessa forma, promover a criatividade, a autonomia e a autoria dos envolvidos, estimulando um processo de aprendizagem motivador e de fato permanente.
“Ao criar um joguinho no Scratch e desvendar todos os códigos dessa linguagem de programação, os alunos exercitaram cálculos. Ao lançar o jogo no blog da escola, tiveram que redigir o tutorial de forma clara e compreensível, aprendendo a correta conjugação verbal”, contou orgulhosa uma professora de ensino fundamental sobre seu projeto de criação de games com os alunos. Os resultados desse processo ainda não aparecem nas avaliações oficiais da educação do país, que continuam registrando estagnação na aprendizagem de leitura e matemática.
 
“Quando pensamos o Ceibal, não esperávamos melhorias em matemática e língua materna. Sabemos que isso é consequência de um trabalho a médio e longo prazo. O que fizemos foi criar um projeto de país focado na inclusão social pela via da educação”, ressaltou Miguel Brechner em São Paulo, durante evento organizado pelo Instituto Educadigital e o Comitê Gestor da Internet.
Brecher aproveitou a ocasião para contar sobre as novidades que estão sendo implementadas: videoconferências para ampliar o alcance do ensino de língua estrangeira, das quais participaram 1.000 grupos de 196 centros educativos só neste ano, e uma plataforma adaptativa para matemática que, em cinco meses, já conta com 19 mil usuários e 1 milhão de exercícios resolvidos.
Nos itens abaixo abaixo, confira mais alguns aspectos desse ecossistema educativo uruguaio chamado Plano Ceibal que podem servir de inspiração para políticas públicas e demais iniciativas educativas brasileiras:
 
Independência e autonomia administrativa
 
O Plano Ceibal é um órgão autônomo em relação ao Ministério da Educação. Criado via decreto presidencial em 2007, tem uma governança formada por uma equipe de gestão executiva e uma comissão consultiva com representantes de órgãos públicos, como os Conselhos de Educação.
O financiamento de todas as ações é via recursos públicos, mas a equipe gestora tem total autonomia para contratar funcionários, fornecedores de serviço, assessores, comprar equipamentos e materiais educacionais (incluindo os direitos autorais para poder usar como quiser), dentre outras ações.
 
A constância do programa de educação, independentemente dos mandatários presidenciais, é um dos principais destaques. Pesquisa nacional de 2010 mostrou que 94% da população é favorável à iniciativa.
 
Valorização da autoria de alunos e professores
 
Alunos e professores são sempre considerados protagonistas no processo de ensino e de aprendizagem. Há um currículo base, mas os materiais didáticos não são inspecionados pelo governo e as estratégias e metodologias pedagógicas ficam a cargo dos docentes, que são constantemente estimulados a criar e compartilhar recursos educativos e projetos de maneira aberta e on-line. Um vídeo explica como produzir Recursos Educacionais Abertos.
 
Já os alunos são fortemente incentivados a aprender a programar, especialmente com o Scratch, uma plataforma criada no MIT que permite criar jogos, animações e histórias interativas.
 
Com o uso da ferramenta, os conteúdos curriculares são trabalhados de forma transversal e pela metodologia de projetos.  Estudantes também participam do Design for Change, que utiliza a abordagem do Design Thinking para planejar eles mesmos a solução de problemas reais do espaço escolar, como melhoria do serviço da cantina, combate ao buylling, dentre outros.
 
Estímulo à carreira docente e sistematização de experiências
 
Martín Rebour, coordenador de formação de professores do Ceibal, contou que a cada ano, 10 mil educadores participam das ações de formação realizadas pelo programa, via cursos presenciais ou virtuais e oficinas. Para apoiar o trabalho pedagógico de uso das “ceibalitas”, como são carinhosamente chamados os computadores, nas escolas, existem cursos específicos organizados pelos Conselhos de Educação: Maestro de Apoio Ceibal (MAC), Maestro Dinamizador e Maestro Conteudista. Na plataforma Crea, vários cursos virtuais são oferecidos ao longo do ano .
 
As formações são todas por adesão e não remuneradas. Os ganhos salariais vêm na sequência, assim que o docente assumir nova função. E notíciasrecentes mostram que o incremento da remuneração docente tem sido uma tendência da política pública.
Experiências pedagógicas são constantemente sistematizadas e compartilhadas como em Sembrando, Livro Azul e outras publicações. E a formação inicial docente também faz parte do programa. Alguns cursosestimulam a criação de objetos de aprendizagem pelos estudantes universitários para uso das escolas do Ceibal.
 
Envolvimento da família e da comunidade
Ao levar para casa as “ceibalitas”, crianças e adolescentes estimulam o envolvimento de suas famílias na relação com a escola, pois eles são os responsáveis pelo cuidado dos equipamentos. Estudo realizado pela Universidade Autônoma do México e Universidade Católica do Uruguai mostrou que as famílias demonstram confiança e certeza da importância do computador para melhorar a educação de seus filhos, especialmente por abrir oportunidades de trabalho futuro. Mas que, no início, estranhavam muito o frequente uso dos jogos, reproduzindo a tradicional visão de que jogo não combina com educação escolar.
 
Porém, com o tempo e interação com seus filhos dentro de casa com a ceibalita, vão percebendo o valor dos jogos para melhorar a aprendizagem. Além disso, também usam o computador para atividades familiares, como tirar fotos, encontrar informações sobre qualquer tema ou conversar com um parente distante.
Além das famílias, foi articulado um vasto grupo de voluntários para apoio às ações e atividades do Ceibal.
 
Intercâmbio com outros países
 
Brasil, Costa Rica, Argentina estão entre os países com os quais as escolas uruguaias realizam intercâmbios de projetos. Comunicação via internet, cooperação e até visitas presenciais estão acontecendo, como no caso da Escola Estadual Osvaldo Aranha, de Ijuí/RS, e a Escola República del Paraguay no 94, de Rivera, que estão trocando informações sobre o poeta gaúcho Mario Quintana e o pintor uruguaio Joaquín Torres García.
A escola de Ijuí faz parte do recente projeto da Secretaria Estadual de Educação do RS, Província de São Pedro, que equipou com laptops as escolas brasileiras nas cidades de fronteira e simultaneamente formou os professores “para não deixar os estudantes brasileiros dessa região em desvantagem em relação aos colegas uruguaios”, explicou Maria Lúcia Pinto, coordenadora pedagógica do projeto na Secretaria Estadual de Educação do RS, que também participou do ExpoAprende Ceibal.
 
PORVIR
POR PRISCILA GONSALES
 

Desafio de manter jovem de 15 a 17 anos na escola vai a debate

Que tipo de currículo pode motivar os 3,1 milhões de jovens de 15 a 17 anos, com idade para cursar o ensino médio, mas ainda no ensino fundamental, a continuar estudando? Os caminhos para enfrentar esse problema ou as respostas serão discutidos em seminário promovido pela Secretaria de Educação Básica (SEB) do Ministério da Educação, de segunda-feira, 11, a quarta-feira, 13, na sede do Conselho Nacional de Educação (CNE), em Brasília.
O desafio do MEC, das secretarias de Educação dos estados, Distrito Federal e municípios e de universidades públicas, segundo o coordenador-geral do ensino fundamental da SEB, Ítalo Dutra, é criar currículos diferenciados e atrativos que motivem esses estudantes a concluir o ensino fundamental e a fazer o ensino médio. “Eles não são crianças. São jovens com experiência, que precisam de atendimento escolar motivador para seguir estudando”, afirma.
O trabalho conduzido pela Diretoria de Currículos e Educação Integral da SEB visa a incluir os estudantes de 15 a 17 anos, retidos no ensino fundamental por sucessivas repetências, em escolas com jornada ampliada ou educação integral. Este ano, 2.347 escolas públicas aderiram à ação denominada Mais Educação, destinada a jovens nessa faixa etária. O objetivo principal da iniciativa é orientar a criação de espaços escolares para o protagonismo juvenil.
Até 2012, de acordo com Dutra, a repetência escolar era mais acentuada nos anos iniciais do ensino fundamental, situação que deve ser modificada com o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, que começou a ser executado em 2013. Para ele, ao alfabetizar todas as crianças até os oitos anos de idade — o objetivo do pacto —, será estancada a distorção idade–série e reduzida de forma significativa a retenção de estudantes nos anos finais, como acontece hoje e é comprovado por dados do Censo Escolar.
O seminário Política de Adequação Idade–Ano Escolar para Jovens de 15 a 17 Anos Retidos no Ensino Fundamental vai reunir em Brasília os coordenadores do programa Mais Educação de todas as unidades da Federação e suas capitais. Participam também 30 estudantes e seus professores e representantes de universidades públicas e das secretarias Nacional da Juventude e de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, ambas da Presidência da República.
Censo — Dados do Censo Escolar de 2012 mostram que, dos 3.102.442 jovens de 15 a 17 anos que cursavam o ensino fundamental naquele ano, 2.593.519 residiam em cidades, contra 508.872 em áreas rurais. No mapa das cinco regiões do país, alguns estados mostram grande concentração de estudantes retidos no ensino fundamental.
Na região Sudeste, São Paulo é o que soma o maior número de jovens em tal situação — 384,6 mil, dos quais 377,6 mil em áreas urbanas, conforme a tabela. No Nordeste, a Bahia tem 325,2 mil alunos com 15 a 17 anos ainda no ensino fundamental (237,2 mil em áreas urbanas). Na região Norte, o Pará aparece com 201,7 mil nessa situação (128,8 mil em áreas urbanas). No Sul, o Rio Grande do Sul é o estado com mais alunos nessa condição. São 155,9 mil (138,3 mil nas áreas urbanas). No Centro-Oeste, Goiás tem 89,9 mil desses estudantes (85,5 mil em áreas urbanas).
 
 

As melhores escolas são as mais desiguais, revela pesquisa

Estudo da Fundação Victor Civita, com dados da Prova Brasil, mostra que média alta esconde desigualdade
Muita gente acredita que as boas médias de uma escola demonstram um aprendizado de qualidade. Afinal, uma média alta significa que muitos estão conseguindo boas notas. Certo? Não exatamente.
Uma pesquisa da Fundação Victor Civita (FVC) publicada neste mês analisou as notas de Matemática da Prova Brasil (avaliação que mede o aprendizado dos alunos da Educação Básica) nas escolas públicas urbanas e aplicou um questionário em 252 instituições, sendo 108 no município de São Paulo, 53 na cidade do Rio de Janeiro e 91 em outros municípios.
O resultado mostrou que as instituições localizadas na periferia apresentam resultados mais baixos, porém mais homogêneos. Por outro lado, as melhores escolas, as localizadas nas regiões centrais, são as que mais têm desigualdade de aprendizagem.
O que acontece é que as boas médias estimulam as escolas a se focarem ainda mais nos bons alunos, uma forma de manter e melhorar ainda mais a performance do colégio. Com isso, aquele porcentual de alunos com rendimento aquém do mínimo tende a ser ainda mais esquecido. E, como a nota média da escola é alta, essa desigualdade não é percebida.
E quem são aqueles que, mesmo matriculados nas regiões de nível socioeconômico mais elevado, frequentam as aulas de recuperação? São os alunos do sexo masculino, negros e pobres. Uma mostra de que a escola só reflete a exclusão que predomina na sociedade.
Como resolver essa questão e garantir um aprendizado com equidade? É a essa pergunta que a pesquisa apresenta alguns caminhos. Para falar sobre o assunto, O iG conversou com a diretora executiva da Fundação Victor Civita, Angela Danemann. Confira a entrevista:
Como mostra a pesquisa, as notas altas podem esconder uma desigualdade de aprendizado, não é?
Sim. A pesquisa mostra as distorções que uma avaliação em larga escala pode causar. Quando a gente fala do direito à educação, precisa aprender a falar de equidade, que é quando todos atingem os patamares mínimos. Quando nosso foco são as notas, a desigualdade, infelizmente, só tende a aumentar. Porque, para melhorar a média, a escola prioriza os alunos que já têm bons resultados. A consequência é natural: o menino pobre e negro frequenta a escola, mas o acesso ao ensino não significa que ele tem assegurado o mesmo aprendizado do restante da turma.
Acaba sendo a simples reprodução da realidade do País…
Sim. E fica encoberto. Como o Brasil não tem um sistema nacional de educação, a gente não faz monitoramento. Ninguém acompanha o que se coloca de expectativa de aprendizado. Por exemplo, existem as 20 metas do Plano Nacional de Educação. Mas como vou chegar ao cumprimento delas? É preciso ter um acompanhamento, um controle. Sem isso, a escola reproduz exatamente o sistema e, logo, a constatação óbvia de que são os pobres os que têm piores notas não vai mudar. É preciso trabalhar com medidas compensatórias.
 O que fazer? Quais as políticas compensatórias devem ser implantadas?
É preciso agir em algumas frentes e ter em mente de que não é um desafio pequeno garantir a equidade. Nossa pesquisa aponta algumas medidas. Uma delas, muito importante, é diversificar as turmas. Ainda é comum que as escolas dividam os alunos de uma mesma série em turmas A, B, C e D de acordo com as notas. Daí, na turma A ficam os melhores e, na D, os piores. Isso só faz com que cresça o abismo entre os fortes e os fracos.
E a escola não cria expectativas quanto à turma D…
Exatamente… E daí, óbvio, a segregação aumenta e a disparidade de notas também. O ideal é que as escolas montem turmas heterogêneas e estabeleça um programa de trabalho que busque a igualdade. Isso pode ser feito, por exemplo, com grupos de trabalho, nos quais os alunos que já avançaram em determinado conteúdo ajudem os que estão para trás. E, claro, esses alunos com dificuldade também precisam receber reforço, de preferência no contraturno. Isso vai agilizar o processo de aprendizagem e igualdade.
Mas isso exige professores muito preparados. E há relatos de que docentes com mais experiência acabam por preferir turmas com menos problemas.
Pois é. Essa mudança de paradigma cabe ao diretor. Ele precisa fazer as designações de acordo com o perfil dos profissionais. Alunos com mais dificuldade precisam de professores mais experientes, que saibam ensinar de diferentes maneiras quando parte da classe não conseguiu aprender o conteúdo. Um bom diretor acredita tanto no potencial de seu professor como no potencial de seu aluno.
Mas há os bons diretores que não querem alunos ruins em sua escola…
Sim, e daí praticam um mecanismo velado de seleção, como provas de aptidão (três escolas ouvidas pela pesquisa admitiram fazer provas, o que a legislação não permite, e uma disse não aceitar aluno repetente) . Em alguns casos funciona também o que se conhece como escolas complementares: há duas escolas próximas com uma enorme desigualdade de nota, uma ótima e uma ruim. A ruim vira um depositório de alunos com baixo rendimento.
Será que a equidade, então, não deveria ser um dos parâmetros das avaliações nacionais?
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) já avançou ao incorporar a taxa de aprovação na composição do índice. Antes, com o SAEB, o desempenho era medido apenas pelas notas dos alunos. Melhorou, mas ainda é preciso evoluir mais. Uma escola não pode ser considerada boa se tiver estudantes abaixo dos parâmetros mínimos de aprendizagem. E a solução para isso não é excluí-los, mas ensiná-los.
PORTAL IG
 
 

“Escolas nas periferias deveriam ser muito melhores que as outras”

“As escolas localizadas nas periferias deveriam ser muito melhores que as outras”, defende o economista Haroldo Torres, um dos diretores da Fundação Seade. Presente no seminário “Desigualdades socioespaciais e escolares nas grandes cidades”, que aconteceu nesta quarta-feira (6/11), no Sesc Pinheiros, Torres acredita que as regiões periféricas, onde se concentram as áreas de vulnerabilidade social, precisam de mais investimentos do governo e, principalmente, de políticas públicas voltadas ao seu fortalecimento social.
“Existe possibilidade de políticas que visem a manutenção de professores em regiões de alta vulnerabilidade através de diferenças salariais”, lembrou. Segundo o estudo “Educação em territórios de alta vulnerabilidade”, promovido pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) e apresentado durante o evento, a alta rotatividade dos professores nessas escolas é um dos fatores que contribuem para os resultados ruins no aprendizado.
Para o professor e sociólogo francês Sylvain Broccolichi, a estabilidade do corpo docente está relacionada ao progresso dos alunos. “Esse círculo vicioso é muito prejudicial ao sistema escolar”, argumentou, referindo-se a uma parte da pesquisa que evidencia como os professores mais qualificados das escolas de São Miguel Paulista são atraídos pelas ofertas nas instituições de ensino mais próximas ao centro da cidade.
“Isso também ocorre dentro de São Miguel. Há um movimento contínuo de docentes que saem das escolas em regiões mais vulneráveis para àquelas mais perto do centro do distrito. Assim, sempre resta às escolas em zonas suscetíveis os professores com menos qualificação”, afirma Antônio Augusto Batista, coordenador de pesquisas do Cenpec.
Ingresso
Para a pesquisadora Luciana Alves, os problemas começam já no concurso público de docentes. “No primeiro processo de alocação dos professores, os mais bem colocados podem escolher as escolas que querem atuar, eliminando lugares onde não quer trabalhar”, observou.
Portal O Aprendiz
A pesquisa mostrou também que, ao contrário do senso comum, o ambiente onde se estuda pode influenciar também os estudantes que possuem altos recursos culturais (onde considera-se escolaridade dos pais, quantidade de livros em casa, além de outros equipamentos, como televisão e rádio).
De acordo com números da Prova Brasil de 2007, 41% desses alunos que estudam em regiões vulneráveis tiveram desempenho abaixo do básico – ante 50% dos estudantes considerados com perfil de baixos recursos culturais.
Competição
Segundo Luciana, a interdependência competitiva entre as escolas – tanto na troca de alunos como na de professores – apenas prejudica a rotina acadêmica de todas. “Quanto maior a rotatividade docente, pior o resultado da escola”. A pesquisadora ressaltou que as escolas isoladas no território costuma atender uma demanda grande de problemas que deveriam ser atendidos em outros espaços. “A escola é invadida por outros problemas sociais”.
Foi consenso entre os participantes do seminário que devem ser criadas políticas públicas voltadas à permanência dos professores nas áreas vulneráveis da cidade. “Essas escolas demandam políticas focalizadas, em razão da especificidade de seus desafios”, finalizou Luciana.

Artigo – Apenas o pré-sal não basta

“Precisamos aperfeiçoar os padrões de gestão dos recursos. Educação deve ser investimento. Mas, mal geridas, as verbas da Educação podem se transformar em desperdícios”, afirma a senadora Ângela portela.

Os investimentos brasileiros em Educação ficam hoje entre 5% e 5,5% do Produto Interno Bruto (PIB) – insuficientes para as atuais necessidades do país. Para a revolução educacional do século XXI, precisamos de 10% do PIB, como prevê o texto do Plano Nacional de Educação, em discussão no Senado.
Não se trata de um número cabalístico. É consequência do aumento real de demanda: em 1960 a Escolaridade obrigatória era de 4 anos; em 1972, de oito; em 2016, será de 14 anos. Enquanto as matrículas subiram 250%, os recursos de impostos aumentaram menos de 100%. E as Creches e a Educação superior, que custam mais caro?
O maior desafio é o da qualidade, que só se resolve com mais investimentos. Os 10% do PIB são hoje consenso nacional.
Eles exigem mais R$ 225 bilhões. Indicar de onde virão esses recursos e examinar como devem ser gastos é o desafio que se coloca aos integrantes da comissão especial do Senado que me coube presidir, para propor soluções objetivas para o financiamento da Educação no Brasil. Não temos como fugir.
Aprovamos propostas para elevar as verbas da Educação, a partir dos royalties do petróleo e do Fundo do Pré-Sal. Mas essas fontes não bastam.
A presidente Dilma declarou que os royalties renderão em dez anos R$ 132 bilhões. É um motor de arranque. Permite que o avião levante voo, mas o que garantirá o combustível de todo o percurso? Somente chegaremos ao destino com fontes de financiamento permanentes e sustentáveis. Descobrir e potencializar essas fontes é o desafio: nos municípios, nos estados e na União.
A União fica com a maior parcela da receita tributária, mas apenas 5% das matrículas estão sob sua responsabilidade direta. O governo federal aumentou sua suplementação aos estados e municípios: aí estão o Fundeb e o Proinfância, a expansão da merenda, do transporte Escolar e dos livros didáticos para toda a Educação básica. Mas, sem melhorar os salários dos profissionais da Educação, essas ações perdem força.
À comissão caberá examinar como a sonegação, as isenções e as imunidades reduzem as receitas da Educação. Não será o caso de estender às contribuições sociais as vinculações à Educação que hoje só atingem a receita de impostos? Não se trata de aumentar a carga tributária, mas ajustá-la aos princípios da capacidade contributiva dos cidadãos e do esforço fiscal das administrações.

Projeto quer cultivar prática do debate entre estudantes

Saber se expressar oralmente, nas mais variadas situações que surgem na vida cotidiana, é um competência fundamental para qualquer cidadão. Dominá-la, no entanto, não é tarefa fácil. Isso é o que afirma o consultor de comunicação Renato Mindus. Foi a partir dessa observação e analisando tal deficiência encontrada em muitos estudantes brasileiros que Mindus resolveu criar a Frontline Academy, um projeto que busca estimular a prática de debates entre alunos da educação básica.
Com a recém criada “escola de debates”, o consultor pretende oferecer, por meio de tutoriais, videoaulas e ferramentas de interação on-line, um portal aberto com orientações sobre como desenvolver atividades de debate dentro da sala de aula. Por enquanto, estão disponíveis os procedimentos detalhados sobre como implantar de forma sistematizada esse tipo de discussão, chats de discussão em tempo real e link para acesso ao Meevs, uma plataforma de debates on-line. Os vídeos estarão disponibilizados a partir de janeiro do ano que vem.  Também está nos planos da Frontline, realizar, de forma gratuita, treinamentos para educadores que têm interesse em implantar a prática dos debates entre seus alunos. Para os workshosps, serão cobrados apenas despesas de locomoção.
Toda a metodologia adotada pela Frontline Academy foi desenvolvida a partir de referencias norte-americanas, europeias e asiáticas. Baseando-se nas orientações desses países, onde os debates acadêmicos são mais populares, Mindus conseguiu simplificar a formato da atividade para ser melhor assimilada no Brasil. Assim, o usuário interessado no assunto poderá conferir dois estágios propostos para a implantação do debate no ambiente escolar.
O primeiro é uma espécie de fase de preparação do estudante. Nesse estágio inicial, a ideia é estimular o aluno a aprender a falar em público. Para tanto, os estudantes são incentivados a exporem de forma geral suas opiniões sobre determinados temas.  Depois, os alunos são incentivados a defenderem suas ideias, mas agora por meio da exposição clara de argumentos. Ou seja, eles deixam de simplesmente opinar e passam a refletir sobre a construção da sua opinião. Dessa forma, eles são incitados a justificarem mais a colocação dos seus argumentos e ainda a pensarem sobre aspectos que fortalecem e enfraquecem a sua tese.
Em seguida, numa segunda fase de debates, a ideia é deixar os alunos se colocarem de forma mais autônoma. Para isso, é preciso que outros critérios de coesão e articulação de argumentos sejam trabalhados antes da discussão. Estratégias de convencimento, de exposição do raciocínio e discordância serão observadas durante o debate a ser comandado pelos próprios estudantes. Para trabalhar o desenvolvimento da habilidade de convencimento, por exemplo, os professores vão ensinar aos alunos o uso de expressões adequadas para expressar opinião, certezas e suposições. Além disso, eles serão orientados sobre como melhor definir o encadeamento de ideias e de que maneira deve ser enfatizada cada uma delas durante o discurso.
Nesse segundo estágio, competições em grupos de estudantes farão mais sentido. A “batalha”, no entanto, deve estar sempre baseada em princípios de solidariedade. “Não devem existir vencedores ou perdedores. Ao final, a ideia é que todos aprendam com todos e que o grupo saia vitorioso”, fala Mindus.
Segundo o consultor, a inclusão desse tipo de atividade nas escolas brasileiras pode melhorar “como um todo” o aprendizado dos alunos. “Buscamos com o projeto, estimular ainda mais o interesse dos alunos pelo estudo, motivá-los a ir atrás do conhecimento e incentivá-los a exporem suas opiniões por meio das discussões geradas no debate. Além disso,  queremos, com a atividade, aproximar de forma mais interativa o professor do aluno”, explica o consultor.
Para Mindus, o debate tem o poder de “descobrir a voz” do estudante. “Existem muitos alunos tímidos ou estudantes que não sabem se comunicar muito bem. Falta uma melhor articulação da fala e clareza na argumentação”. Será com as atividades de preparação para o debate que o aluno poderá desenvolver suas próprias ideias e defendê-las diante de seus colegas, diz Mindus. “Implantar o debate acadêmico dentro da sala de aula permite aos estudantes se aprofundarem nos conteúdos escolares de forma mais interessante. Além disso, ele ainda estimula o cooperativismo, a troca de conhecimento e o desenvolvimento do vocabulário e da leitura”.
PORVIR

Game Minecraft conquista professores e ajuda no aprendizado

O Minecraft foi lançado em novembro de 2011 e conquistou adeptos em todo o mundo
Quem tem criança em casa provavelmente já ouviu falar no Minecraft, game que anda na moda entre a garotada. O jogo é simples – em 16 bits, seu formato dá aos gráficos pouca profundidade – e propõe que o jogador quebre e construa blocos, dando forma ao que imaginar. Depois de conquistar os pequenos, acabou atraindo a curiosidade de educadores e professores também. Diversos colégios, no Brasil e no mundo, passaram a utilizá-lo como ferramenta de ensino.
O potencial educativo do game é tanto que já existe uma empresa chamada MinecraftEdu que oferece versões customizadas do jogo para professores e estudantes com funções para uso em sala de aula. A equipe, formada por educadores e programadores norte-americanos e finlandeses, trabalha diretamente com a Mojang AB, criadora do game.
A professora de história Fernanda Gonçalves Fontes, da Escola Técnica Estadual (Etec) de Mairinque, São Paulo, enxergou a nova possibilidade no jogo. No ano passado, após ser apresentada ao game pelos próprios alunos, reuniu um grupo do segundo ano do Ensino Médio para a construção de um castelo medieval. Durante a experiência, os jovens pesquisavam conceitos da estrutura e aprendiam com seus erros. “Procurei passar conhecimento através deste outro formato. A troca com os alunos é muito importante”, pondera.
O Minecraft virou o jogo em casa e fez com que pais passassem a ver a hora do videogame com outros olhos. Simoni Babiczuk Pires, mãe de Guilherme, 12 anos, e Gustavo, 10 anos, jogadores assíduos de Minecraft, gosta do game por seu caráter de criação e permite que joguem duas horas por dia e nos fins de semana. “Me preocupo quando eles querem fazer tudo rápido para jogar”, afirma. Para ela, o controle dos pais é essencial para balancear as tarefas e a diversão.
João Guedes, pesquisador da área de neuropsicologia e criador da rede de pesquisas Neuro Games, considera o jogo um “Lego virtual”, pois o jogador pode não só compor um mundo conforme sua imaginação, mas coletar e organizar materiais a serem utilizados em seu projeto, planejar ações a serem tomadas, desenhar e montar seu mundo bloco a bloco, como no famoso brinquedo de peças de plástico. “Ainda há muita desinformação, que somada ao receio do desconhecido, gera os falsos alardes de jogos estimularem a violência, de serem perigosos, deixando de lado o uso positivo”, explica o psicólogo. Guedes ressalta que os games, como qualquer outro canal de entretenimento, devem ser utilizados respeitando a faixa de idade e sem excessos.
“Não pode virar uma lanhouse, a escola deve construir um olhar crítico com os alunos”, diz  Lynn Alves, pedagoga, doutora em Educação e Comunicação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Lynn coordena o grupo de pesquisa Comunidades Virtuais, que estuda o desenvolvimento de jogos digitais voltados para educação. Ela acredita que incluir a tecnologia com os estudos é inevitável, faz parte de entender o universo dos alunos. Para ela, não adianta apenas brincar, o papel dos educadores é buscar um sentido para o que as crianças estão fazendo.
A ONG Jogos pela Educação parte da proposta de contribuir para a educação de crianças e jovens através de atividades realizadas com videogames. A ideia é que ao jogar, sempre se pode construir conhecimento, seja interpessoal, cognitivo ou criativo. Tainá Felix, diretora da instituição, adverte para a falta de envolvimento dos pais desses nativos digitais: “Tem que tomar cuidado para não transformar o videogame em babá”.
Entenda o jogo
O Minecraft foi lançado em novembro de 2011, criado pelo sueco Markus Persson, conhecido como Notch. O game tem as opções de criação, em que o jogador pode mexer com os blocos e criar o que quiser; de sobrevivência, em que monstros aparecem à noite; e de aventura, em que se apresentam dificuldades em mundos pré-construídos. Até setembro, o jogo vendeu mais de 33 milhões de cópias em diversas plataformas – ele está disponível em iOS, Android, PC, Mac, Xbox e online.
 

Guia contém orientações sobre adoção de tecnologias no ensino

O Guia de Tecnologias Educacionais da Educação Integral e Integrada e da Articulação da Escola com seu Território está disponível on-line. Com o documento, produzido pela Secretaria de Educação Básica (SEB), o MEC oferece aos sistemas e redes de ensino uma ferramenta de auxílio na hora de adquirir ou adotar tecnologias educacionais capazes de melhorar a qualidade da educação brasileira.
As tecnologias apresentadas no guia foram submetidas a rigoroso e criterioso processo de avaliação. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) foi a instituição responsável pela coordenação desse processo. Representantes de universidades de todo o país, conhecedores da realidade educacional de cada região geográfica, atuaram como avaliadores. Os tipos de tecnologia foram selecionados por pesquisadores, instituições diversas, organizações não governamentais e empresas do país.
As tecnologias que integram o guia foram divididas nas áreas de acompanhamento pedagógico, comunicação e uso de mídias, cultura digital, cultura e artes, educação econômica, direitos humanos em educação, educação ambiental, esporte e lazer, investigação no campo da ciência da natureza e produção da saúde.
Segundo a diretora de formulação de conteúdos educacionais da SEB, Mônica Gardelli, o documento compreende tecnologias diversas. “Se essas tecnologias estão no guia é porque trazem uma contribuição para a aprendizagem daquele tema” salientou. Para ela, as contribuições são feitas de forma a proporcionar a melhoria da qualidade da educação, especialmente no campo da educação integral e integrada.
O Guia de Tecnologias Educacionais da Educação Integral e Integrada e da Articulação da Escola com seu Território está disponível para consultas na página do Ministério da Educação na internet e no Portal do Professor.
 
Ana Júlia Silva de Souza
 

Estudantes decidem manter greve e ocupação na reitoria da USP

No local há mais de um mês, grupo pede eleições diretas para reitor e vice-reitor
 
Em assembleia realizada na noite desta quarta-feira (6), estudantes da USP (Universidade de São Paulo) em greve desde o dia 1º de outubro decidiram manter a paralisação e a ocupação à reitoria da instituição. Eles estão no local, no campus do Butantã, na zona oeste de capital paulista, desde o início da mobilização.
A decisão foi tomada em assembleia realizada no próprio campus. No último dia 4, O TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) aceitou o pedido de reintegração de posse do prédio da reitoria da USP. No último dia 15, a Justiça havia concedido 60 dias para que a desocupação fosse realizada por meio de um processo de diálogo.
Uma reunião entre estudantes e representantes da universidade realizada na manhã desta quarta-feira terminou sem um acordo entre as partes. Na mesma manhã, os alunos em greve receberam a notificação sobre a reintegração de posse.
Em nota, o DCE repudiou a decisão judicial de reintegração de posse por ter sido expedida durante processo de negociação, além do caráter democrático, legítimo e político da mobilização. O documento, publicado no site da entidade, informa que, no dia da decisão da Justiça, o comando de greve já havia iniciado a aprovação do termo de acordo entre estudantes e reitoria, e que a decisão final estava agendada para a assembleia desta quarta-feira.
Reivindicações
Os estudantes, representados pelo DCE Livre da USP, deram início à paralisação e a ocupação de parte do prédio da reitoria da universidade, no campus do Butantã, na zona oeste da cidade, após serem impedidos de participar da reunião do CO (Conselho Universitário).
Entre as solicitações dos alunos estão a participação no processo eleitoral para os cargos de reitor, vice-reitor, diretores de unidade e chefes de departamento. Eles pedem ainda participação na discussão sobre o modelo de segurança a ser adotado no campus — o grupo é contra o convênio com a Polícia Militar —, a transformação dos blocos K e L, do Crusp (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo), em moradia estudantil, o reajuste do valor das bolsas estudantis, duplicação do número de ônibus circulares da USP e retorno de linhas já extintas.
Na última quinta-feira (31), uma reunião entre integrantes do DCE Livre e representantes da reitoria estabeleceu uma série de compromissos, entre eles, a formação de uma estatuinte, instrumento que permite a um gestor administrar uma instituição pública de forma democrática, na qual será incluída a discussão sobre eleições diretas, uma das principais solicitações dos estudantes.
O acordo prevê a convocação do processo de uma estatuinte livre, autônoma e democrática, de acordo com o estabelecido em reunião do CO (Conselho Universitário) no dia 1º de outubro, data do início da greve dos estudantes e da tomada da reitoria. Os alunos consideraram a definição de compromissos como uma vitória do movimento.
Em assembleia realizada na noite da última quinta-feira (31), os alunos decidiram pela manutenção da greve. Apesar dos compromissos firmados na reunião de ontem com representantes da reitoria, os estudantes querem a  garantia de que as reivindicações sejam atendidas de maneira global. O grupo agendou para a próxima quarta-feira (6) uma nova assembleia.
Com queda em ranking mundial e greve de alunos, USP vive período conturbado
Reintegração voluntária
No dia 9 de outubro, a Justiça de São Paulo negou o pedido de reintegração de posse feito pela USP (Universidade de São Paulo) para retirar os alunos que ocupam a reitoria desde o dia 1º de outubro. A decisão foi tomada pela 12ª Vara da Fazenda Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo.
A USP recorreu da decisão e no dia 15, o desembargador José Luiz Germano, da 2ª Câmara de Direito Público, decidiu pela desocupação voluntária do local. A Justiça deu 60 dias para que o grupo deixe o local pacificamente sem o envolvimento da Polícia Militar.
A direção da universidade chegou a cortar a energia elétrica e o fornecimento de água do prédio da reitoria, com objetivo de interromper a ocupação. Ainda assim, o grupo resistiu e, com a ajuda de moradores do Crusp para higiene pessoal e alimentação, permaneceram no local.
Ao longo destes 30 dias, a mobilização ganhou adeptos em outros campi e universidades. Os estudantes do campus de São Carlos decidiram pela paralisação. Os alunos da USP Leste também ocuparam o prédio da administração no dia 3 de outubro. Eles decidiram parar as atividades pelo afastamento do vice-reitor da unidade e pela regularização de questões ambientais no terreno onde o campus está instalado. Uma semana depois, a Justiça decidiu pela reintegração do espaço.
Estudantes da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) também ocuparam a reitoria da instituição, no interior do Estado, assumindo a manifestação iniciada pelos alunos da USP no dia 1º de outubro.
Manifestações
Neste período, os estudantes realizaram manifestações dentro e fora do campus. No dia 15, alunos da USP e professores se juntaram a estudantes de outras universidades estaduais de São Paulo para uma caminhada até o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado.
Antes, no dia 7, eles se reuniram na avenida Paulista, em solidariedade aos professores em greve no Rio de Janeiro. Dois dias depois, eles se juntaram a estudantes da Unicamp no vão livre do Masp, também na avenida Paulista.
No dia 11, representantes do movimento realizaram uma manifestação diante do portão 1 da universidade. Uma semana depois, o grupo voltou ao portão principal do campus para mais protestos pedindo uma reunião com o reitor, João Grandino Rodas. Nesse dia, um carro que tentava entrar no campus chegou a avançar sobre os estudantes. Os estudantes voltaram a bloquear o portão 1 na terça-feira (29), com faixas e cartazes. A manifestação foi pacífica.
 

Os melhores do mundo em educação ainda estão insatisfeitos

Finlândia e Coreia do Sul têm desafios a enfrentar para se manter no topo das avaliações internacionais

Os estudantes da Finlândia e da Coreia do Sul têm notas de fazer inveja. Mesmo com modelos de educação tão diferentes, os dois países aparecem no topo de avaliações internacionais. O sistema finlandês, centrado na cooperação e na autonomia, foi o mais bem avaliado entre 40 países pela consultoria britânica Economist Intelligence Unit em 2012. Em segundo lugar, apareceu o competitivo e disciplinador sistema sul-coreano. O estudo, chamado de The Learning Curve (A Curva de Aprendizagem), levou em conta mais de 60 indicadores quantitativos e qualitativos, como taxas de alfabetização e de conclusão de níveis de ensino. Entre os índices usados, está o do Pisa, que é a principal avaliação global sobre a qualidade da educação. Aplicada a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a prova analisa o desempenho de alunos de 15 anos em dezenas de países. Na última edição do Pisa, divulgada em 2010, a Finlândia e a Coreia do Sul ficaram, respectivamente, em terceiro e quinto lugares, na média dos quesitos avaliados – leitura, ciências e matemática. Bem à frente do Brasil, que ficou na 54ª posição entre 65 países.
Os bons resultados, no entanto, não dão tranquilidade aos dois países. Agora a expectativa está em torno da próxima lista do Pisa, que sairá em 3 de dezembro deste ano, com mais de 70 países participantes. Finlandeses e sul-coreanos querem subir ainda mais no ranking e se consolidar como modelos para todo o mundo.
Escolas avaliam traços de personalidade 
Os finlandeses podem não ser competitivos na escola, mas, a nível global, a história é outra. Saber que a Suécia se saiu melhor em algum quesito em testes internacionais, como resolução de problemas, é uma tragédia – mesmo que a Finlândia tenha ficado com a ótima segunda posição. A rixa é semelhante à existente entre Brasil e Argentina. “Eu não posso ficar dois minutos feliz com os resultados. A educação é tão importante que sempre há trabalho por fazer. Temos que ser ainda melhores em várias áreas”, disse a ministra da Educação da Finlândia, Krista Kiuru, na Latim America Leadership Summit, evento promovido em São Paulo na última semana pela Bett, uma feira britânica voltada à tecnologia educacional.
O país tem enfrentado alguns desafios. O número crescente de imigrantes eleva a atenção para um dos pilares do sistema, que é manter o mesmo nível de qualidade em todas as escolas públicas primárias. “Temos que apoiar todas as escolas, mas algumas precisam de ainda mais suporte, porque há o risco da segregação e há a entrada de crianças com diferentes níveis de aprendizado”, afirmou a ministra.
A Finlândia também ficou insatisfeita com o recente resultado da Piaac, uma pesquisa da OCDE que avalia as habilidades dos adultos entre 16 e 65 anos. O sistema de excelência da Finlândia tem cerca de 50 anos, e os adultos que o frequentaram tiveram resultados excelentes na Piaac em comparação a outros países. Mas os mais velhos não foram tão bem. “É uma prova de que o sistema funciona. Mas nós devemos deixar de lado aqueles que não tiveram acesso ao nosso sistema altamente qualificado? Não. Não podemos perder esse potencial. Temos que aprimorar as habilidades de todos. Senão, teremos falhado”, disse a ministra. A atenção do governo se volta hoje para os adultos com idade acima dos 50 anos. Todos podem e devem aprender, sem exceção. Essa é a maior lição da Finlândia, que vê a educação como um fator-chave para o bem-estar social e o crescimento econômico.
“Novas tecnologias com velhas pedagogias não servem para nada” 
Os problemas na Coreia do Sul são mais dramáticos. As crianças já saíram muito bem nos testes internacionais, mas são as mais infelizes do mundo desenvolvido. E o desempenho tem caído. Um em cada cinco alunos da educação básica já pensou em cometer suicídio. A maioria tem baixa confiança, habilidades interpessoais insuficientes e menos interesse em aprender. Aliado a outros fatores, a competitividade, que foi importante para a reconstrução do país após a Guerra das Coreias na década de 1950, cobra seu preço. As famílias pressionam seus filhos para que sejam bem-sucedidos e gastam cerca de 40% da renda com cursos extracurriculares.
O avanço das escolas particulares compromete uma das bases do sistema sul-coreano, que é oferecer oportunidades iguais a todos, afirmou, também na conferência em São Paulo, Sang Kon Kim, superintendente da Secretaria de Educação da província de Gyeonggi. “Se estamos realmente comprometidos com o futuro de nossas crianças, nós precisamos mudar nosso sistema educacional. Ao mesmo tempo, uma reforma educacional bem sucedida deve coincidir uma reforma social que respeite a dignidade humana”, disse. Segundo ele, em Gyeonggi, mudanças começaram a ocorrer para humanizar o ensino. As crianças trabalham em projetos colaborativos e os professores procuram estimular melhor a comunicação entre elas. No lugar da dura disciplina, há a valorização do estudo autodirigido e da autonomia do aprendizado. A expectativa é que alterações como essas, aliadas aos pontos altos do sistema educacional, que são a excelente infraestrutura e os professores altamente qualificados, permitam que a Coreia mantenha a sua liderança nos rankings mundiais.
“Estudei em Michigan sem sair de casa” 
“Mesmo melhores sistemas do mundo têm dificuldades, porque a mudança é limitada. A educação depende das pessoas para que as transformações aconteçam. Elas devem ter vontade e coragem de mudar. Infelizmente, essas pessoas não estão em todos os lugares. Na Finlândia, há ótimos professores fazendo coisas incríveis e, na escola ao lado, professores que apenas seguem a rotina”, afirmou a ÉPOCA Anthony Salcito, vice-presidente de educação da Microsoft, que visita dezenas de países por ano para conhecer desafios e usos inovadores da tecnologia em sala de aula.
Para o especialista, é nos momentos de crise que as mudanças são impulsionadas. No caso da Coreia do Sul, Salcito vê a baixa criação de empregos como um agravante da insatisfação dos jovens. “Os estudantes não foram preparados para serem empreendedores e criarem seus próprios empregos. É hora de ver outras oportunidades.”
Anthony Salcito afirmou que a insatisfação dos melhores sistemas do mundo é algo positivo, porque sempre é possível fazer mais para ajudar os estudantes. “Em todo lugar do mundo, os pais querem a mesma coisa para seus filhos: querem que sejam bem-sucedidos, que fiquem seguros, sejam felizes e atinjam seus potenciais. As crianças querem saber que tudo é possível, que podem sonhar.” E governos e educadores que trabalham para que as pessoas realizem seus sonhos precisam construir – e manter – sistemas de ensino de excelência.
 
 

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