A prioridade da vacina

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 Quando o primeiro caso de Covid-19 se confirmou no Brasil, em 26 de fevereiro de 2020, boa parte dos países já tinha alguma experiência no enfrentamento ao vírus. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estabeleceu suas recomendações com base nessas experiências e pesquisas científicas, e o mundo iniciou uma corrida contra o tempo para desenvolver e produzir vacinas.

Porém, no Brasil de Bolsonaro, a política reinante, desde o começo, foi a de subestimar o potencial destruidor do vírus, mandando milhares e milhares de pessoas para os braços do contágio e da morte. O presidente desaconselhou o uso de máscaras de proteção, fez questão de gerar aglomerações e combateu políticas de distanciamento e isolamento social. Da mesma forma, apresentou uma proposta de auxílio emergencial quase simbólica (apenas R$200, aumentada pelo Congresso Nacional para R$ 600 por ação dos partidos de esquerda) e usou expressões como “gripezinha”, “não sou coveiro” e “e daí?” para se referir à pandemia que aterrorizava o planeta inteiro.

O resultado, um ano depois, são mais de 330 mil pessoas mortas por Covid-19 e sistemas de saúde em colapso por todo o país. Em janeiro, a tragédia de Manaus, com pessoas morrendo sem oxigênio nos hospitais, foi o triste marco inaugural de uma segunda onda, mais avassaladora, da doença.

Nesse período, o Brasil trocou de Ministro da Saúde três vezes, sendo que 4 dos 12 meses, Pazuello dirigiu a pasta interinamente. Bolsonaro buscou, nesse tempo todo, alguém que legitimasse sua política genocida de não investir em vacina, de desdenhar dos protocolos de segurança e de estimular o uso de um “tratamento precoce” que não apenas não tem eficácia comprovada como apresenta efeitos adversos graves comprovados.

A realidade atual de sistemas de saúde em colapso, e curvas de contágio, internações e mortes em alta contrasta com a tradição positiva de um país que criou o SUS, o SAMU, o PNI. A erradicação de doenças como a varíola e a poliomielite através da imunização, ou mesmo, na situação mais recente, o enfrentamento à H1N1, em 2010 – quando o Brasil vacinou, em três meses, mais de 92 milhões de pessoas.

Sem vacinas

Num contexto de terror como esse, evidente que o Brasil não se preparou para adquirir vacinas e promover a imunização da população. Assim, Bolsonaro tentou boicotar os esforços do Instituto Butantan em parceria com a empresa chinesa Sinovac, e recusou a oferta da Pfizer de 70 milhões de doses, feita em agosto de 2020 – o prazo garantiria à farmacêutica a possibilidade de começar a entregar as vacinas ainda em dezembro/2020.

O Brasil só começou a comprar vacinas quando boa parte dos países do mundo já iniciava o processo de imunização. Tendo como legado do SUS o Programa Nacional de Imunização (PNI), uma experiência vitoriosa que é referência internacional, o país poderia estar muito à frente nesse processo. Mas… faltam vacinas.

Até agora, o país vacinou cerca de 9% da população (pouco mais de 19 milhões de pessoas). O envio de doses para os estados e municípios é irregular e em quantidades pequenas. Recorrentemente o Governo Federal atrasa o cronograma que ele próprio propôs. Das quatro vacinas autorizadas pela Anvisa para uso em território nacional, apenas duas estão em uso efetivo no Brasil no momento, por conta da demora do Governo Federal em efetuar a compra das demais: as da Pfizer e da Janssen chegam somente no segundo semestre.

“Vacina pouca, meu braço primeiro”

Após a imunização dos profissionais da Saúde – que era um amplo consenso social, pelo papel que esses trabalhadores vêm desenvolvendo na linha de frente do enfrentamento da pandemia -, vemos os pedidos de diversas categorias de trabalhadores em se colocarem como a próxima prioridade na escassa vacinação.

Professores e trabalhadores da Educação, pressionados para o retorno às aulas presenciais; rodoviários, cujos ônibus vivem lotados; bancários, já que agências são grandes focos de transmissão; trabalhadores dos Correios, que não deixaram de cumprir suas atividades desde o início da pandemia; trabalhadores da limpeza urbana; caminhoneiros; trabalhadores terceirizados de limpeza e segurança, muitos deles atuando em hospitais; motoristas por aplicativos; jornalistas, que estão diariamente nas ruas realizando seus trabalhos e entrevistando pessoas; comerciários, na dança irregular do abre e fecha das atividades econômicas; etc.

Todos os pleitos são legítimos. E o desejo da urgência de vacinação leva à pressão das categorias aos seus sindicatos por lutar pela prioridade. Essa é uma armadilha difícil de evitarmos.

A pressão exercida pelas categorias aos sindicatos e as ações que essas entidades representativas realizam pelo reconhecimento de prioridade específica estimulam a aceitação da naturalidade da pouca disponibilidade da vacina para a população brasileira. E assim trava-se uma “guerra” entre trabalhadores para a busca de melhores condições para uma parte específica da sociedade em detrimento de outra.

A nossa reivindicação deve ser por vacina já para todos e todas, para que o Governo Federal acelere as compras e os governos dos estados e do DF efetuem as compras diretas, conforme a lei os autoriza. Também devemos defender a quebra de patentes das vacinas já desenvolvidas. Quebrar as patentes para a produção de vacinas no mundo é uma luta que pode garantir que os imunizantes ao COVID-19 sejam produzidos e distribuídos de forma justa e acessível a toda humanidade.

O Brasil não superará a Covid-19 enquanto não houver uma política séria de aquisição de vacinas e imunização em massa da população. Se o processo seguir no ritmo atual, a passos tão lentos, ninguém estará protegido, nem mesmo os primeiros da fila. A prioridade deve ser vacina, para todas e todos, já!

por Rodrigo Rodrigues, professor de História da SEDF e presidente da CUT-DF

A única luz possível no fundo do abismo brasileiro

No final de março de 2021, o mês mais letal desde o início da pandemia da covid-19 no Brasil, muitos não conseguem enxergar nenhuma luz no fundo do abismo em que o país continua a despencar, completamente fora de controle. Passados 13 meses do início da maior crise sanitária da nossa história, a cada dia cerca de 100 mil novos casos e 4 mil mortes são acrescidos aos números desta tragédia. Nas últimas semanas, como epicentro mundial da pandemia, o Brasil passou a ser cotidianamente manchete na imprensa internacional, bem como objeto de preocupação da OMS e de outros governos. E não poderia ser diferente. Está muito claro para a comunidade internacional que qualquer esforço para controlar a pandemia será seriamente comprometido caso o Brasil continue nesta espiral, onde o coronavírus se espalha e sofre mutações sem grandes entraves, gerando variantes que podem escapar pelas nossas fronteiras porosas e alcançar todo o planeta numa questão de dias.

Alheio a esta tenebrosa realidade, o governo federal, liderado pelo inimigo público número 1 do combate ao coronavírus, assiste impávido e resoluto ao país despencar rumo ao caos. Sem alterar de forma significativa nem o discurso, muito menos sua estratégia de não defender ações reconhecidamente efetivas para conter a transmissão do vírus, o governo empossou o seu quarto preposto ministro da Saúde em um ano e, ato contínuo, anunciou a criação de uma comissão nacional. Só “para inglês ver”, pois tal comissão, destituída de representatividade política ampla, claramente não desempenhará nenhum papel operacional relevante, servindo como cortina de fumaça para ocultar a continuidade de uma política sanitária — se é que se pode usar este termo — fracassada, que já custou a vida de 326.683 brasileiros (até 1° de abril).

Neste contexto, dados preliminares indicam que o Brasil pode ter atingido um patamar inédito de mortalidade. Segundo o site transparecia.registrocivil.org.br, em fevereiro de 2021, foram registrados 200.034 nascimentos no Brasil. No mesmo período, um total de 121.559 óbitos (por covid-19 ou outras causas) ocorreram, gerando uma diferença de apenas 78.475 mil nascimentos a mais do que mortes. No mesmo período de 2020, antes do início da pandemia, essa diferença foi de 105.449 mais nascimentos (198.735) do que mortes (93.286). Em 2019, a média anual foi de 126.124 mais nascimentos do que óbitos por mês. Surpreendentemente, em março de 2021 foram registrados até agora apenas 47.047 mais nascimentos (220.302) do que óbitos (173.255), uma redução de 63% no excedente de nascimentos mensais. Isso quer dizer que, se o número de mortes por covid-19 (e por outras causas) continuar a subir, o Brasil pode viver o primeiro momento da sua história em que as mortes superaram os nascimentos de novos cidadãos. Tal tendência ilustra a magnitude profundamente épica do impacto da covid-19 no país.

Dentro deste festival de horrores, existe hoje um consenso que o Brasil precisa tomar pelo menos três medidas urgentes para tentar reverter a crise. Primeiro, é imperativo que um lockdown nacional seja implementado por pelo menos 21-30 dias para reduzir rápida e drasticamente a taxa de transmissão do vírus. Em paralelo, é preciso reduzir o tráfego não essencial pelas malhas rodoviárias, aeroviárias e ferroviárias do país. No que tange à vacinação, é necessário garantir suprimento para que 2-3 milhões de pessoas sejam imunizadas diariamente. Essas três diretrizes precisariam ser implementadas por uma comissão de salvação nacional legítima e representativa que, contando com o apoio do congresso, do STF, do fórum dos governadores, das associações nacionais de prefeitos e de membros da sociedade civil e da comunidade científica, passariam a coordenar, de forma independente do poder executivo, todo o manejo da pandemia, com a missão de impedir que, pela primeira vez na nossa história, o abismo seja maior do que o Brasil.

 
Artigo publicado no Jornal Correio Braziliense. 
Por: Miguel Nicolelis

O difícil golpe dos sonhos de Bolsonaro

Mais uma vez um Bolsonaro acuado ameaça com o fechamento do regime. Pressionado pelo agravamento da pandemia, aprofundamento da crise econômica e perda de popularidade o presidente sonha e se movimenta na tentativa de dar um golpe de Estado, nos moldes do autogolpe de Fujimori no Peru em 1992.

 

Esse parece ser o desejo de Bolsonaro e de importantes apoiadores, como o pastor Silas Malafaia e o ideólogo Olavo de Carvalho, que pedem ao presidente que convoque as Forças Armadas para “estabelecer lei e ordem” e “extinguir os partidos políticos”.

 

Por mais que tenhamos que nos preocupar e denunciar essa escalada golpista, se analisarmos a conjuntura realizando uma análise de conjuntura materialista e um comparativo histórico com a ditadura que se instalou em 1964 e os golpes contemporâneos em outros países, veremos que não é tão simples dar um golpe de Estado. Mais difícil ainda é mantê-lo.

 

Em 1964, durante a Guerra Fria, os militares deram um golpe com o apoio das elites econômicas nacionais, dos grandes veículos de mídia, de boa parte das elites políticas estaduais (especialmente dos governadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais) e do governo dos Estados Unidos da América. A isso somou-se o apoio de setores religiosos que ocuparam as ruas do país com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

 

Ao longo do tempo a corrosão destas bases de apoio por diversos motivos minou a sustentação da ditadura militar. Os militares alijaram do poder boa parte das elites políticas civis, perderam o apoio incondicional do governo dos EUA durante o mandato Carter, viram uma erosão do apoio entre os setores médios empobrecidos e passaram a sofrer questionamentos crescentes oriundos da Igreja Católica.

 

Em 2019, na Bolívia, vimos um golpe com a participação das elites, das Forças Armadas e da polícia, assim como de milicianos e setores evangélicos. Golpe prontamente reconhecido como legítimo por Donald Trump e Bolsonaro. A direita boliviana conseguiu tomar o poder com a bíblia nas mãos, mas não conseguiu mantê-lo. Após diversos casos de repressão e de tentativas de cancelamento ou adiamento das eleições, o povo resistiu nas ruas e nas eleições de 2020 recolocaram o Movimento ao Socialismo no governo e os golpistas na cadeia.

 

Mesmo que Bolsonaro tenha o apoio de ideólogos de extrema-direita, de importantes lideranças evangélicas, de setores das Forças Armadas e polícias para dar um golpe e instalar uma ditadura, isto não parece ser suficiente no Brasil de 2021.

 

  • A maior parte da população é contra.
  • A maior parte da grande mídia seria contra uma ação deste tipo. Mesmo que não tenha mais a força de antes, ela segue relevante;
  • O governo Biden seria contra.
  • As novas mídias são relevantes, e a extrema-direita tem muita força nelas com o Gabinete do Ódio. Mas não seriam suficientes para sustentar uma ação deste tipo sem o apoio do Departamento de Estado dos EUA, já que a maioria destas empresas são estadunidenses.
  • Governos da América Latina, Europa, África e Ásia seriam contrários. Este golpe contaria com o reconhecimento de quem? Da Hungria, Ucrânia e Polônia?
  • Poucos governadores apoiariam, especialmente dos estados com as maiores economias e populações. Na última reunião com governadores Bolsonaro conseguiu reunir apenas sete (o que não significa que estes apoiariam um golpe).
  • As manifestações bolsonaristas, ainda que possuam um número não desprezível de participantes, não chegam perto daquelas de 1964 nem de 2015/2016.
  • A elite econômica nacional, a burguesia, está dividida e não parece animada em seguir por este rumo.
  • Os altos oficiais das Forças Armadas não parecem unidos para tal ação. Não por republicanismo ou defesa da democracia, mais provável que por puro cálculo político. Não entrariam em tal “aventura” sem a certeza de apoios mais amplos e sólidos e a certeza de uma vitória de longo prazo.

 

Sobre as elites econômicas, podemos perceber que a maioria se encontra calada. Bolsonaro executa boa parte de sua agenda com a retirada de direitos dos trabalhadores. Uma parte segue apoiando o presidente, e é provável que siga apoiando até mesmo nas eleições de 2022. Mas não a ponto de apoiar um golpe. Outra parte minoritária composta de setores barulhentos como o dono da Havan ou do Madero não chegam a configurar lideranças da classe dominante.

 

É uma conta de difícil equação fazer um golpe com a participação de militares de baixa patente, policiais, milicianos e pastores evangélicos, mas sem contar com unidade nas Forças Armadas, na classe dominante, contra a opinião da maioria do povo brasileiro, da opinião pública internacional, da mídia, de vários setores organizados da sociedade e das elites políticas, sem respaldo internacional. Pode até dar certo num curtíssimo espaço de tempo, mas os golpistas correriam o risco de, num breve espaço de tempo, ir parar na cadeia assim como ocorreu na Bolívia.

 

Mesmo a profundidade do apoio das polícias estaduais permanece uma incógnita. As duas últimas grandes tentativas de sublevação bolsonarista de forças policiais contra os governos estaduais não tiveram êxito. O motim do Ceará de 2020 não conseguiu dobrar o governo estadual. Em 28 de março de 2021, após o ataque do Farol da Barra em Salvador, as redes bolsonaristas tentaram converter o fato em um amplo motim dos policiais do estado, mas não obtiveram sucesso. Entre votar em Bolsonaro e se dispor a colocar a vida em risco num golpe paramilitar há uma grande distância.

 

A reforma ministerial feita por Bolsonaro é o maior exemplo de seu isolamento político. Caso tivesse força suficiente para executar um golpe ele não necessitaria abrir mão de Ernesto Araújo, ministro das relações exteriores que representava a ala dos seguidores de Olavo de Carvalho. Setor este que se encontra bastante descontente com esse afastamento, vide posicionamentos críticos nas redes sociais.

 

 

 

Tampouco seria necessário mudar o Ministério da Defesa e o comando das três Forças Armadas. Teorias da conspiração à parte, se Bolsonaro tivesse o efetivo comando e obediência cega dos antigos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica ele não precisaria substituí-los. E somente uma substituição não irá resolver seu problema, já que os militares não costumam agir se sentirem que são minoria dentro da caserna. Não basta ter o comando das Forças, seria preciso ter maioria no alto comando.

 

A nomeação de Flávia Arruda para ministra da Secretaria de Governo é um movimento de composição com o chamado “centrão”. Bolsonaro não precisaria comprar esse setor do Congresso se tivesse força suficiente para simplesmente fechá-lo.

 

Não são movimentações contraditórias. Bolsonaro busca ao mesmo tempo garantir sustentabilidade parlamentar e manter animada sua base ideológica mais extremista, que efetivamente perde espaço no primeiro escalão com a saída de Araújo. Ele precisa manter esse setor ativo nas ruas e nas redes. Provável que siga nesta estratégia e que tente inflamar cada vez mais o extremismo golpista de suas bases. Pode não conseguir consolidar um golpe, mas é suficiente para enfraquecer a democracia e colocar fogo no país.

 

Não basta apenas abaixar a guarda e ficarmos tranquilos com as dificuldades e divisões entre o governo e as elites. É preciso avançar na denúncia deste governo genocida, na organização da oposição de esquerda e no diálogo com o povo sobre alternativas de saída popular deste cenário caótico.

 

Yuri Soares Franco

Mestre em História pela Universidade de Brasília

AZUL ou ROSA, não importa.

Conheço o significado e a importância das cores em nossas expressões culturais. As cores são usadas de diversas formas e ficam, muitas vezes, estigmatizadas, o que anula sua beleza natural. Há muitos estudos sobre a influência das cores em nossa vida.

 

Eu gosto muito das cores. Um dos meus refúgios de pandemia foi adquirir uma caixa de lápis de 48 cores. Pintei um mundo de mandalas! Também bordei meus poeminhas em tecidos de linho. Outra grande paixão é a costura com suas cores em tecidos de diversas texturas. Minha paixão pela vida se expressa por meio de linguagens artísticas e artesanais. Todas se vestem das cores e se comunicam.

 

Também os corpos humanos, por uma questão cultural, são cobertos por tecidos coloridos (ou não). Variadas texturas, formas, combinações e ainda há o uso do vestuário para formalizações e/ou uniformidades. Então, as cores são importantes em nossa convivência humana.

 

Em minhas aulas de educação artística, sempre priorizei o conteúdo do estudo das cores e estimulava meus estudantes a se expressarem a partir de tais informações. Colorir uma árvore de verde, roxo ou azul, tanto faz, o que importa é a emoção da pessoa que se expressa por meio das cores. Assim se comunicam nossos renomados artistas. Cor é comunicação!

 

Por um período da minha adolescência preferi a cor azul. Depois, na fase adulta, comecei a me interessar pelas cores quentes, a cor laranja era a preferida. Hoje, confesso, gosto de todas as cores, mas, preferencialmente, uso os tons azuis. Percebi ao colorir minhas mandalas. Vivemos transformações durante toda nossa existência e as cores dialogam com nossas emoções e mudanças.

 

Eu não sei quando e nem por quê, historicamente atribui-se aos gêneros masculino e feminino o uso da cor azul e rosa, respectivamente, ao ponto de uma Ministra declarar tal hierarquia em rede nacional como se fosse uma lei ou verdade.

 

Penso que as cores são tão livres quanto nossos pensamentos e sentimentos.

 

Os primeiros habitantes do território brasileiro, chamados de indígenas, andavam nus quando foram invadidos pelos europeus, que aqui desembarcaram, por engano. Estes encontraram, em território desconhecido, homens e mulheres nus adornados pelas cores e elementos da natureza. Criativos, alegres, organizados e temerosos ao criador, viviam livres respeitando a mãe natureza e os limites por ela oferecidos.

 

A cultura européia desembarcou em terras do pau-brasil, sem pedir licença, invadiu a paz dos habitantes e dizimou tudo.

 

Se apropriaram (roubaram) da riqueza natural que aqui encontraram e arrancaram daquela civilização a alma e o jeito natural de viver. Levaram a cores e o brilho daquela civilização.

 

Era o século XVI, visto pelos historiadores como período em que a civilização ocidental se desenvolveu tanto, que a invenção da navegação os trouxe aqui. A era da descoberta de novos territórios. Invadidos pela cultura européia, os habitantes desse território tropical foram obrigados a vestirem-se de tecidos de poucas cores. Diziam estar domesticando os homens e mulheres que aqui viviam livres e nus.

 

E aí a coisa foi se misturando. Navios e navios desembarcavam aqui gente de todo jeito. Séculos e séculos foram transformando o território colorido por tuas verdes matas, flores, pássaros, frutas, etc… em construções edificadas com a identidade dos invasores, sem cores. Estamos no Brasil! Salve-se quem puder!

 

No século XVIII, enquanto os portugueses enquadram nosso território brasileiro aos moldes do europeu, na Inglaterra a revolução industrial, criada pelo ser humano inteligente e criativo, dividiu a sociedade em patrões e empregados (não escravos). Foram impostos novos conceitos e formas de viver.

 

Criou-se regras, moedas, leis, planos, projetos, prisões, moral, religião, classe social e um tal de congresso nacional (só pra rimar). Dizem ser organização da “sociedade”.

 

Um tanto de coisas foram se formalizando para organizar a sociedade com seus direitos e deveres. Mas por muitos séculos, a sociedade mundial foi representada somente pelo gênero masculino, o feminino era suporte, a mulher – inferiorizada.

 

Também no século XIX, na Inglaterra, a mulher inicia um processo de reivindicar o direito ao voto e o direito das meninas frequentarem a escola.

 

No Brasil,a primeira Lei sobre educação para mulheres foi proclamada em 1827. Com restrições,somente em 1932 o novo Código Eleitoral Brasileiro concede direito de voto às mulheres. Em 1945, a Carta das Nações Unidas reconheceu, em documento internacional, a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Em 1962, o Estatuto da Mulher Casada é aprovado no Brasil, resguardando a elas o direito de trabalhar fora de casa sem a autorização do marido e o direito de requerer a guarda dos filhos em caso de separação. Quanta evolução !

 

Mas como sempre,  inferiorizadas pelos homens,  tivemos que pagar com a própria vida por tais direitos. A educação patriarcal permanece na cultura de quase todas as sociedades mundiais. Homem pode tudo, a mulher deve pedir permissão. As mulheres continuam a educar seus filhos e filhas diferenciando os direitos e deveres de um e de outro. Homem não pode chorar, mulher tem que realizar todas as tarefas domésticas.

 

Em 1980 surgiu o lema “Quem ama, não mata”. A violência contra a mulher estava em alta nas estatísticas brasileiras. “Quem mata não aprendeu o valor do amor e da liberdade”, este é o meu lema.

 

Em 2006 é sancionada a Lei Maria da Penha. Ufa!

 

O quê toda essa história tem a ver com as cores?

 

“Não pinte esse rosto que eu gosto que é só meu…”,1946. Um ano depois da Carta das Nações Unidas reconhecendo igualdade entre homens e mulheres.

 

O nosso amado compositor pode ter sido um grande amante, mas essa poesia está ultrapassada… Reproduz a cultura machista da sociedade brasileira.

 

“E quando eu me zango, Marina

 

Não sei perdoar…”,1946.

 

O corpo da mulher é monopolizado por alguém que acha que é seu dono. Possessivo e machista.

 

Muito além do poder ir à escola, votar, pintar o rosto, cortar o cabelo, usar vestidos ou calças compridas, trabalhar fora, existe  uma questão muito urgente e atual.

 

Sobre as cores?

 

Querem voltar a um passado que derrubamos com sangue (vermelho). Rosa para as meninas e azul para os meninos.Não cabe mais tais conceitos.

 

Também não importa mais falar de cores definindo os gêneros, porque as cores não possuem bula.Cada um se apropria dela como quiser.

 

Importa a vida humana e seu livre arbítrio.

 

Às vezes, parece que voltamos a viver na Idade Média.

 

Homens matam mulheres todos os dias. Até quando ?

 

Homens que doamos nossa vida para se tornarem humanamente saudáveis.

 

Não importa as cores escolhidas para vesti-lo. Não importa!

 

 Não lamentamos  o tempo que  dedicamos para que uma criança cresça, nos orgulhamos de nossa força “que não é bruta”, é afetiva, materna. Humana.

 

A transformação exige muita evolução de pensamento e comportamento, por isso a educação precisa acompanhar as transformações da humanidade e sua diversidade.

 

Muitos conceitos viraram preconceitos e vice-versa, muitas leis estão ultrapassadas e hoje somos outros com “a bagagem do ontem”, inegavelmente.

 

 A vida se transforma a cada instante.

 

A mulher que nasceu em 1962, ano em que foi aprovado o estatuto da mulher casada,hoje é uma mulher independente e, talvez, realizada.Ainda lutando para se libertar de uma sociedade patriarcal.

 

O homem parece  perdido em meio a tantas mudanças e conquistas femininas. “Corre, que lá vão elas!”

 

 Podem estar em vários lugares.São capazes de realizar várias coisas ao mesmo tempo.Bruxas? não, mulheres! MULHERES!

 

“Dizem que a mulher é o sexo frágil, mas que mentira absurda”, canta o “Tremendão”. Somos fortes, ́ porque amar exige muita coragem.Parir é força bruta que viabiliza a VIDA. Somos frágeis porque acreditamos na vida, na humanidade,no amor.  Somos vida de todas as cores e viva a diversidade!

 

Queremos viver igualmente nossos direitos e deveres.

 

 Queremos viver todas as cores e sabores  que a vida oferece.Viver nossas escolhas e poder dizer sim ou NÃO! OU NÃO !

 

Dia 8 de março, pouco temos a comemorar.Temos que lutar e dizer NÃO ao FEMINICÍDIO.

 

(*) Janilce Rodrigues é professora aposentada da rede pública de ensino do Distrito Federal e trabalhou no Sistema Penitenciário da Papuda

 

Ecofeminismo – o equilíbrio que o mundo precisa

O termo Ecofeminismo surgiu pela primeira vez na França com a feminista francesa Françoise D’Eaubonne para explicar como a luta das mulheres estava relacionada com as lutas pela preservação da natureza e por um mundo sustentável para todos e todas. É fundamental entender que a luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres deve está em consonância com a defesa da natureza e a sua preservação.

 

As Ecofeministas de todo o mundo entendem que para haver justiça social, econômica e ambiental é preciso a cooperação entre homens e mulheres e é necessário o equilíbrio entre o feminino e o masculino. Torna-se necessário que haja uma nova forma de relacionar-se com a natureza e com toda a comunidade de vida existente no Planeta Terra.

 

A ecofeminsta indiana Vandana Shiva defende que “A vida deve está no centro das decisões políticas, sociais e econômicas”. Destarte, o Ecofeminismo alicerça-se na busca do equilíbrio entre o ser humano e a natureza.

 

A compreensão do Ecofeminismo defendido por D’Eaubonne e Vandana Shiva traz um parodoxo sobre a relação da mulher com a natureza que é confirmado por um relatório divulgado pelo Fundo para Populações das Nações Unidas, onde mostra que as mulheres mais pobres em países menos desenvolvidos são as principais afetadas pelas mudanças climáticas e ao mesmo tempo são as que menos contribuem para o aquecimento global.

 

Em todos os aspectos da degradação ambiental, mudanças climáticas, poluição das águas, destruição das florestas, envenenamento dos alimentos com os agrotóxicos, entre outros as mulheres são as que menos comprometem com esta destruição e são as primeiras a sofrerem as consequências.

 

O ser humano é apenas um dos milhões de seres vivos existentes no Planeta Terra. Este faz parte de uma comunidade de vida e não pode se sobrepor buscando eliminar as outras vidas existentes. Torna-se necessária e urgente uma relação de respeito com a natureza e com os demais seres vivos que habitam este Planeta. É primordial que haja o equilíbrio entre homens, mulheres e natureza.

 

A destruição do Planeta Terra, assim como a opressão à mulher é fruto de uma cultura do patriarcado capitalista que utiliza os recursos naturais como se fossem infinitos e explora o corpo da mulher como se o poder que acredita ter justifique esta dominação e assim sendo, este sistema perverso destrói o Planeta, domina os que julga mais fracos, ameaça a vida, mata os povos originários e desrespeita os saberes tradicionais.

 

Em se tratando do momento em que estamos vivendo, de pandemia do Novo Corona Vírus este é extremamente crítico e sabe-se que os vírus que antes habitavam as florestas tropicais estão deixando os espaços naturais em que vivem há milhões de anos e agora estão adentrando os espaços com o ser humano que, por sua vez, está destruindo as florestas e consequentemente causando a sua autodestruição.

 

O ser humano está ameaçado e ameaçando os outros seres vivos. O Planeta Terra vai continuar existindo com os humanos ou sem eles. “A Terra pode nos deixar para trás e seguir o seu caminho” como assevera Ailton Krenak.

 

Iolanda Rocha é professora, scioambientalista e ex-diretoria do Sinpro-DF

 

8 de março: legado e desafios das mulheres trabalhadoras

As origens do Dia Internacional da Mulher remetem às reivindicações das mulheres operárias, que, no início do século passado, pulsavam pelo mundo. Elas defendiam melhores condições de trabalho e inclusão. Relatos e registros históricos dão conta, inclusive, de que foi uma celebração de 8 de março que desencadeou o processo da Revolução Russa em 1917.

A luta por igualdade, justiça, inclusão e direitos é compromisso dos setores progressistas. Há que se destacar, no entanto, que sempre que as mulheres alcançam conquistas, elas não favorecem apenas esses setores, mas todas as mulheres – inclusive aquelas que questionam os avanços, ou aquelas que pensam prescindir do feminismo. É visível e há diversas formas de demonstrar que, quando a luta das mulheres triunfa, a cara da sociedade como um todo muda para melhor.

Sabemos que nem todas as mulheres estão convencidas de uma agenda feminista de mudanças. Desde a luta por sufrágio universal, era assim. Também não houve unanimidade diante da Lei do Divórcio ou da Lei Maria da Penha, mas hoje são todos grandes consensos que beneficiam o conjunto das mulheres.

A demanda por representação e participação política, da mesma forma, encontrou obstáculos nos setores conservadores – que também se expressam entre as mulheres. Não nos surpreendemos, afinal, conhecemos os mecanismos da dominação e da manipulação com que as classes abastadas sempre conduziram o povo. Além da exploração do trabalho, há toda uma cultura patriarcal que naturaliza a submissão das mulheres, ou as relega sempre ao lugar de coadjuvantes na história do mundo e nas suas próprias vidas. Aprendemos sempre, no feminismo, a jamais responsabilizar as mulheres pela opressão que sofrem, mas antes, dedicar a elas nosso olhar solidário e compreensivo, buscando contribuir para que elas possam construir seu próprio senso crítico.

De outro lado, também há as mulheres que fazem a consciente opção de representar os interesses mesquinhos e colonialistas das elites. Interesses que desembocam na manutenção da profunda desigualdade social, na concentração da riqueza, na restrição do acesso da maior parte do povo aos bens materiais que ele mesmo produz com seu trabalho. Interesses que se expressam, na atualidade, na reforma trabalhista, na reforma administrativa, na reforma previdenciária, na ideologia de privatizações – todas propostas que impactam decisivamente a vida das mulheres.

Hoje, inclusive como produto da luta das feministas, temos mais mulheres no parlamento que na legislatura passada, tanto em âmbito local quanto federal, embora ainda de forma muito minoritária e insuficiente para a construção de uma democracia verdadeira. Das mulheres que ascenderam a esses postos, esperaríamos colaboração com as políticas de igualdade e inclusão, mas não é isso que a realidade nos traz. Algumas delas estão onde estão em acordo com políticas que representam justamente anseios contrários.

É por isso que aproveitamos o Dia Internacional da Mulher, essa data tão carregada de história das trabalhadoras, para reafirmar que não basta ser mulher, é preciso ter consciência e compromisso com a vida das mulheres. Sem isso, não poderá haver mudança, somente ilusão.

A alfabetização bolsonarista

O Ministério da Educação, desde a posse do atual governo, transformou-se num dos mais importantes bunkers da ala ideológica do bolsonarismo.  Atuando diretamente na contramão das lutas históricas pela democratização da educação pública, as ações do governo federal, no campo educacional, demonstram não apenas o mau-caratismo como princípio, mas também a desonestidade intelectual como visão de mundo por parte dos ministros, e das pessoas que assumiram diretorias e secretarias como visão de mundo.

Há pouco mais de um mês, o MEC, em parceria com a CAPES e universidades portuguesas, lançou o curso ABC – Alfabetização Baseada na Ciência, um nome até controverso dentro deste governo, uma vez que a própria ciência e as instituições que a produzem, fazem parte dos inimigos dos apoiadores de Bolsonaro. O curso ABC tem o objetivo de promover a formação de 140.000 professoras e professores de anos iniciais, principalmente das turmas de alfabetização, apresentando como modelo o método fônico em contraposição ao método silábico e a literacia em lugar do conceito de letramento.

É sabido que não há consenso sobre qual a melhor metodologia para ensinar as crianças a ler e a escrever e há muito essa guerra de metodologias já foi superada. Por ser um processo altamente complexo, distintas áreas da Pedagogia, da Psicologia, da Neurologia e da Linguística, com análises e focos diferentes, fazem da alfabetização um campo aberto para inúmeras especulações, experimentações e formulações teóricas e práticas. As particularidades e interações entre as diversas áreas, resultam na intensa produção acadêmica da área da alfabetização o que impacta diretamente nos programas de formação docente que constam no Programa Nacional de Alfabetização. Entretanto, a escolha por tal metodologia não foi resultado de uma escolha de caráter científico e pedagógico como o MEC faz parecer.

O Secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim, que está no MEC desde o início do governo Bolsonaro, faz parte da ala ideológica, sendo um dos discípulos de Olavo de Carvalho que assumiram praticamente todas as diretorias e secretarias no Ministério. É também defensor da escolarização domiciliar, das escolas cívico-militares e crítico feroz de Paulo Freire e Magda Soares. E como não poderia ser diferente, o Secretário de Alfabetização não tem nenhuma publicação na área, não tem produção científica e não participa de nenhum fórum de pesquisa. Sua experiência em educação decorre do fato de ter sido coordenador pedagógico de uma escola particular, fundada por sua mãe, em Londrina, onde diz ter desenvolvido um método de alfabetização baseado no método fônico.

Desde 2013, Nadalin oferece o curso online “Como educar seus filhos”, destinado às famílias e às professoras e professores de alfabetização, criticando o método silábico e o conceito de letramento, próprios do construtivismo de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, predominante nas escolas públicas brasileiras.

As diferenças entre o método fônico e o método silábico não residem apenas na maneira de se compreender o processo de aquisição da escrita e da leitura. A principal cisão entre as duas metodologias atua diretamente na forma de interpretarmos a realidade. Enquanto a corrente construtivista parte da ideia de que utilizamos as práticas de linguagem nos mais diversos contextos, aqueles que defendem o método fônico argumentam que as crianças primeiramente devem explorar os sons das vogais e das consoantes para que depois, possam dominar as relações entre fonemas e letras para aí sim, entrarem em contato com a cultura escrita. E isso faz toda a diferença.

Enquanto a noção de letramento parte da ideia de que as crianças já estão em contato com a cultura letrada desde antes da alfabetização e que elas são capazes de construir hipóteses sobre o valor simbólico das palavras, para o método fônico a criança deve aprender primeiramente a codificar e decodificar a língua. O que ocorre então é que pelo método fônico, a interpretação do que se lê acontece a posteriori enquanto no método silábico e no letramento, a interpretação do que se lê faz parte do processo.  Ou seja, parte-se da premissa que a alfabetização, por ser um direito de todas as pessoas a escola, além de ensinar os fundamentos para a aquisição da leitura e escrita, também precisa promover uma série de conhecimentos aos indivíduos e aos respectivos grupos que os possibilitem utilizar a escrita como prática social, nos mais diversos contextos. Nesse sentido, ser uma pessoa alfabetizada não é apenas entender o funcionamento do sistema alfabético, é ser também capaz de fazer uso disso no cotidiano.

 E como já é de praxe do ministério, não houve debate sobre as diretrizes do curso e muito menos sobre seus objetivos e se já não bastassem todas as fragilidades do Programa, o MEC, ao estabelecer uma parceria com instituições portuguesas, com o objetivo de formar professoras e professores do Brasil, mais uma vez desqualifica o que já vem sendo produzido no país, no campo da alfabetização, e erra também por desconhecer as substanciais e profundas diferenças entre a língua portuguesa falada em Portugal e no Brasil.  Os processos de alfabetização são diferentes também porque as línguas são diferentes. Não faz sentido algum adotar o programa português para realidade brasileira.  Além disso, Rui Castro, professor da Faculdade de Psicologia e de Ciência da Educação da Universidade do Porto, um dos responsáveis pelo curso, é um entusiasta do governo Bolsonaro, recebendo, pela “parceria”, mais de seis milhões de reais.

Em mais um retrocesso, fica evidente que teremos muitos anos para reverter as consequências nefastas do bolsonarismo na educação brasileira.  Ao privilegiar uma metodologia (o método fônico) e uma única abordagem (a neurolinguística), o MEC mais uma vez, impõe a política de pensamento único. E a história já nos mostrou o que essa opção política é capaz de fazer. Reduzir a alfabetização a uma questão metodológica é fazer uso de um viés ideológico que vai prejudicar toda uma geração.

(*) Cristiano Lucas Ferreira – Professor de Atividades na rede pública de ensino do Distrito Federal e doutorando em Educação (FE/UnB).

2020 e as questões sufocadas

Passamos por 2020. Um ano que será um marco na história da humanidade. O ano passado foi uma síntese dos questionamentos acerca do modo como nos organizamos como sociedade, de nossas relações sociais, interpessoais, políticas, econômicas, ambientais entre outras. A pandemia parece ter explicitado o que se limitava, muitas vezes, a conversas familiares ou a grupos de colegas. Da mesma forma, o novo vírus desnudou os limites da organização econômica e política majoritária nas sociedades atuais, assim como demonstrou a resistência dos discursos que pareciam superados pela suposta evolução do pensamento humano baseado no desenvolvimento científico.

2020 despiu a hipocrisia presente nos discursos religiosos, moralistas e pseudopatrióticos. Talvez uma das fotos mais representativas do ano passado seja o saldo de 196 mil mortes no dia 31 de dezembro, paralelamente à demonstração de ausência de empatia do Presidente da República celebrada em uma praia acompanhado de um punhado de pessoas, que, gritando “mito”, somavam-se a uma celebração insensível de um país que convive com mais de 14 milhões de desempregados; o fim do auxílio emergencial que impede o aumento da fome; o luto de centenas de milhares de famílias vítimas de uma doença que não é equivalente a uma “gripezinha”. Realidade de luto acentuada pelo aumento da quantidade de feminicídios noticiados nas últimas semanas de dezembro. Parece que o último mês foi uma síntese, explicitamente macabra, de 2020.

O último ano da segunda década do século XXI marcou, no mundo, a explicitação de discursos obscurantistas e de ódio às diferenças. Por todo o planeta, em graus diferentes, assistimos o fortalecimento do negacionismo da ciência, do preconceito étnico em relação a determinadas nações, do racismo e do machismo naturalizados, da indiferença em relação à fome e à miséria, da manipulação das informações e da hipocrisia em detrimento da empatia.

No Brasil, essas situações foram potencializadas pelos discursos do Presidente da República e os dos integrantes de seu governo. Jair Bolsonaro, por meio de suas entrevistas, lives, declarações, atitudes, gestos etc., não só deu voz, mas também amplificou o que antes se conversava em festas familiares ou atividades entre conhecidos. Eventos nos quais indivíduos expunham sem muito pudor visões preconceituosas, discriminatórias e violentas. Tais pessoas que se viam “acuadas” pela vergonha, assumiram, desavergonhadamente, as posturas antes somente vistas nas intimidades de lares, bares, vizinhança, grupos sociais. A triste constatação da consonância do discurso de Bolsonaro com parcela expressiva da população brasileira se materializa nos índices de aprovação de seu governo e no compartilhamento de mentiras (fake news) que negam fatos históricos e contemporâneos. O resultado da reverberação desse conjunto de discursos e atitudes foi a naturalização e, consequentemente, o aumento da violência contra LGBTQIA+, mulheres, crianças, negros/as, indígenas, lideranças populares e militantes de movimentos sociais, populações tradicionais e liberdade de expressão.

Dessa forma, o último ano da segunda década do século XXI deixa em aberto questões que devem ser enfrentadas, urgentemente, por nossa sociedade se quisermos, ontologicamente, afirmarmo-nos como Nação. Nessa perspectiva, os resultados políticos, sociais e econômicos decorrentes das opções, conscientes ou inconscientes, de nosso povo precisam ser analisados histórica e conjunturalmente para uma concreta redefinição ou correção de rumos. Modelo de democracia, responsabilidade social, econômica, ambiental e coletiva, projeto de Estado, empatia real versus solidariedade momentânea, concepção de Nação, são questões a serem, primordial e imperativamente, debatidas por nossa sociedade. Os resultados desses debates demonstrarão o quanto seremos capazes de superarmos os desafios que nos serão impostos pela história e o quanto poderemos afirmar nossa identidade como povo pertencente a uma Nação única e soberana. 

Por Cleber Ribeiro Soares, diretor do Sinpro-DF e professor da SEEDF. 

 

Professora publica artigo sobre Escola Sem Partido e pede para que sociedade “tome lado”

Em 2014 foi apresentado à Câmara dos Deputados o projeto de lei que trata do Escola Sem Partido (PL 7180/2014), mais conhecido como “Escola da Mordaça”. Sem sequer resquício da neutralidade a que se propõe, o projeto polêmico foi repudiado por diversos setores da sociedade, mas também contou com o apoio de vários outros. Letal, a proposta foi tema do artigo “Ignorância é Força”: algumas considerações sobre o ‘Escola sem Partido’”, da professora da Secretaria de Educação do DF Maria dos Remédios Rodrigues e do professor da Universidade de Brasília Rodrigo Matos-de-Souza. No ensaio, eles abordam o projeto em suas variações enquanto projeto, discurso e movimento político, e pedem que a sociedade “tome lado escancaradamente contrário a qualquer tentativa de censura da atividade docente, pela defesa da liberdade de ensinar”.

Publicado em dezembro de 2020, no volume 7 da Revista Brasil de Educação (http://rbeducacaobasica.com.br/), o artigo afirma que o Escola Sem Partido “é uma proposta clara de controle dos corpos, de manutenção dos sujeitos em seus devidos lugares, de condenação do pensamento e negação de se propor um outro mundo aos alunos”.

No texto, a autora e o autor concluem que o Escola Sem Partido “se põe a serviço do capital na busca pelo controle do discurso e, concomitantemente, impondo seu próprio discurso político”, com objetivo de “obrigar a escola a tornar oficial os valores do capitalismo, do cristianismo e do conservadorismo nos costumes”.

O ensaio ainda mostra o Escola Sem Partido como um projeto ilegal. Para isso, a dupla de autores apresenta leis dispostas na Constituição Federal brasileira e outras normas e tratados internacionais que determinam que a educação não pode ser neutra. A suposta neutralidade que exige o projeto, dizem os pesquisadores, impede que o professor exerça seu direito de cátedra e retira do aluno o direito de aprendizagem. O objetivo, segundo eles, é “anular o debate, acabar com a reflexão e formar alunos para o mercado de trabalho sem lhe ofertar espaço e tempo para apreender e se emancipar”, além de privilegiar a “relação de alienação e opressão”, ao mesmo tempo que “ceifa o exercício pedagógico”.

“Em outros termos, o Escola sem Partido torna-se mais uma ferramenta de contribuição para barrar a ascensão econômica, cultural e social do trabalhador, pois, as elites encontram-se assustadas e revoltadas ao perceber essa ascensão e não concebem a presença dos menos favorecidos nos mesmos ambientes, pois, a classe dominante não consegue conviver com pensamentos e vozes divergentes, e muito menos, com interesses que se opõem aos dela”, dizem Remédios e Matos-de-Souza.

O artigo ainda apresenta um histórico do Escola Sem Partido, resgatando que o projeto foi “idealizado pelo advogado Miguel Francisco Urbano Nagib no ano de 2004 como reação a um professor de história de sua filha que fez comparação entre Che Guevara e São Francisco de Assis”. “Anos mais tarde, o advogado foi procurado pelo então Deputado Estadual pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, em 2014, para elaborar o PL que se espalhou pelo Brasil de forma rápida. Nagib não só atendeu ao pedido do deputado, como alimentou as redes sociais com modelos de PL semiprontos que foram utilizados por vários políticos de diferentes regiões brasileiras na composição de cerca de 180 projetos, de acordo com o último levantamento realizado pelo Movimento dos Professores Contra o Escola sem Partido”, relatam a autora e o autor.

No texto, a pesquisadora e o pesquisador lembram que, embora engavetado, o projeto Escola Sem Partido já vitimou professores e continua espalhando “um clima de vigilância, de denúncia e de suspeitas a respeito do trabalho do professor”. O projeto, como lembram a autora e o autor do artigo, foi apresentado também em câmaras municipais, e vários estados se mostram ávidos em aprovar a proposta. “Como o parecer não foi votado à época pela legislatura, acabou sendo arquivado em 2018. O que não nos garante o retorno das tentativas de aprovação do tema a qualquer momento com a atual bancada conservadora que compõe a Câmara, basta o autor do projeto ou autores de projetos similares solicitarem”, alertam.

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Formação sobre uso de TIC’s e comunicação deve ser contínua em ambiente escolar, conclui artigo científico

Grupo de pesquisadores composto por professores, estudantes de graduação e de pós-graduação da Universidade de Brasília analisou como ocorreu a comunicação escolar durante o período da pandemia de Covid-19 no Brasil e em outros países. De acordo com a pesquisa, é necessário dar caráter contínuo às atividades de capacitação relacionados ao uso de tecnologias da informação e comunicação nas escolas.

Diante dos resultados observados no estudo, o grupo realizou oficinas, debates e capacitação sobre o de tecnologias da informação e comunicação em ambientes escolares para professores. “Como consequência do trabalho realizado, percebeu-se maior efetividade no entendimento conceitual da comunicação e da mobilização social na produção de conteúdos escolares”, diz o artigo.

Na pesquisa, o grupo de estudiosos observou que “as mídias sociais (Whatsapp, Instagram e Facebook) se tornaram os principais canais de comunicação dentro e fora da escola, sobrepondo-se ao uso de TV, rádio, jornais e outras formas impressas e/ou analógicas”. 

Leia o artigo completo em https://bit.ly/34bQUIs

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