Não temos medo, temos projeto!

A maior parte da sociedade recebeu estarrecida o último resultado das pesquisas de intenção de voto. Um presidenciável que traz um pacote que abrange desde o fim da aposentadoria ao ódio generalizado, atinge percentuais nunca antes imaginados nos últimos 30 anos – desde a redemocratização do país. Sentimentos indesejados explodem incontrolavelmente, pelo menos naqueles que sempre lutaram por um Brasil que tenha os pilares da justiça e da igualdade. E essa é uma reação mais do que aceitável diante do caos que pode se instalar. Mas o foco agora é no que ainda é possível fazer. E não é pouca coisa.
Em poucos dias, o povo brasileiro irá às urnas para escolher o próximo presidente do Brasil. Também será eleita a nova composição do Congresso Nacional e das Câmaras legislativas. No jogo do tabuleiro político, intensificam-se as tentativas de xeque-mate, numa manobra trapaceira que utiliza delações mentirosas, censura, notícias falsas; tudo com o respaldo de um Judiciário que há muito tempo deixou de ser justo. E nós, onde estamos nesse jogo?
Querem nos fazer peças menores no tabuleiro; ou até deslegitimar nossa participação no jogo. Alguns tentam inclusive colocar na conta de grupos oprimidos, como o das mulheres, a culpa pelo crescimento do candidato que representa o retrocesso. Foi o que oportunamente se espalhou, após o histórico ato #EleNão (29/9), na mídia privada e sem representatividade e nas vozes de candidatos que, parafraseando o cantor e compositor BNegão, fazem discursos progressistas, mas não passam de reacionários de plantão. Tenhamos em mente e deixemos claro que as chances de o fascismo ganhar raízes são dadas pelo fundamentalismo, a repressão, a concentração de renda; jamais pela luta social. Essa sim é a única capaz de construir trilhos que levem a dias melhores.
Isso quer dizer que ou assistimos cabisbaixos e resignados a destruição de tudo aquilo que conquistamos, ou resistimos e lutamos como, historicamente, sempre fizemos. Mais do que a eleição do principal representante do Executivo federal, está em nossas mãos a garantia da manutenção do 13º salário, das férias, da valorização do salário mínimo, da aposentadoria, do direito à saúde e à educação pública. Está em nossas mãos a possibilidade de continuar ocupando as cadeiras das universidades, de andar de avião, de comprar uma TV ou uma geladeira, de ter energia elétrica e água do Oiapoque ao Chuí. Está em nossas mãos o direito de fazer três refeições ao dia. Definitivamente, está em nossas mãos reanimar a democracia que começou a ter os dias contados em 2016 – com o golpe –, para que possamos avançar em temas como a reforma agrária, a democratização da comunicação, a reforma tributária, a reforma política.
Já vivemos dois anos de desmonte causado por propostas descaradamente interessantes ao capital rentista, que resultaram na soma de 13 milhões de desempregados, na iminente volta do Brasil ao mapa da fome, no sucateamento de serviços públicos essenciais, na entrega das empresas estatais para o capital privado. Não podemos permitir que isso se aprofunde nos próximos quatro anos.
Por isso, mais que nunca, temos que mostrar o nosso protagonismo: ir às ruas, às feiras, às escolas. Deixar clara nossa posição política nas redes sociais, nos lares, na conversa de botequim. Organizar atos, muitos atos. E dizer que não temos medo, temos projeto. Um projeto que jamais será idealizado por um candidato como Bolsonaro. Um projeto histórico que não traz armas; traz de volta ao brasileiro a capacidade de ganhar a batalha da desigualdade e da opressão através projetos sociais já vividos antes por todos nós. Um projeto que não traz tortura; traz a essencialidade da valorização e do respeito aos direitos humanos. Um projeto que não traz a imposição; mas a possibilidade de discutir e construir conjuntamente.
Está em nossas mãos fazer o Brasil feliz de novo!
*Por Rodrigo Rodrigues
*Rodrigo Rodrigues é professor da rede pública de ensino do DF e presidente-interino da CUT Brasília

Carta ao educador: Freire vive e qualifica a luta

O cenário brasileiro atual é de descrédito nas instituições públicas e privadas em decorrência do acúmulo de sujeira que assombra e contamina todo o tecido político-social e econômico, levando a nação à vala comum do desespero e aprofundamento da miséria. Leis e decretos impopulares e desumanos são institucionalizados por meio da ditadura da caneta presidencial, articulada com o
judiciário, empresariado, grande mídia e lideranças políticas descomprometidas com a dignidade do povo que sofre com o desgoverno Temer e seus aliados. Há uma crise generalizada deflagrada em processo histórico brasileiro e de nível global não recente. A quem recorrer?
Nesse artigo o professor Cristino Cesário aborda questões importantes e imprescindíveis para o futuro do país.
Clique aqui e confira o artigo na íntegra.

Intolerância e ataques à democracia: a relevância de Paulo Freire e de seu esperançar

 
Por Rosilene Corrêa*
Em 1968, Paulo Freire, exilado no Chile pela ditadura militar brasileira, terminou o manuscrito do livro Pedagogia do Oprimido, publicado pela primeira vez, em 1970, nos Estados Unidos, e, quatro anos depois, no Brasil.
Cinquenta anos depois, a obra encontra-se em sua 65ª edição no Brasil. Foi traduzida para mais de 30 idiomas, publicada em dezenas de países em todos os continentes: das Américas do Norte, Central e do Sul até em países da Europa, África e Ásia. Seu impacto mundial nos campos da educação, da política e da cultura, levou a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a considerar o acervo de Paulo Freire património da humanidade e incluí-lo no programa “Memórias do Mundo”.
Tristemente, o cinquentenário da Pedagogia do Oprimido acontece nestes tempos sombrios, quando se tenta subjugar o pensamento crítico, com proposições de políticas de silenciamento, como as da escola sem partido e da ideologia de gênero.
A “demonização” do nome e do legado de Paulo Freire que levou, até mesmo, à proposta de retirar do educador recifense e, ao mesmo tempo universal, o título de Patrono da Educação Brasileira ocorre a partir do golpe de Estado aplicado em 2016, contra a ex-presidenta da República Dilma Rousseff, quando começam as tentativas de se estabelecer um contexto de pensamento único cujo objetivo é o de fortalecer o ambiente de tolhimento da expressão numa espécie de antítese da tomada de consciência da liberdade e do reconhecimento das tendências de autoritarismo e intolerância.
Nesse momento de esgarçamento do tecido social brasileiro, a gênese do pensamento freiriano, ao esmiuçar as relações entre opressores e oprimidos, é a guia para fortalecer a emancipação do indivíduo por meio do pensamento crítico e libertário, construindo consciência e organização coletivas que estimulam fundamentos básicos para a vida humana: o diálogo, a interatividade, a dignidade cidadã, o respeito às diversidades.
As eleições, movidas por debates agressivos, tóxicos, que se espalha pelas redes sociais, em aplicativos de celular, em rodas de conversa, em grupos familiares, estimulados, especialmente, pela televisão, expõem as fraturas de nossa democracia, agravadas pelo golpe de Estado de 2016.
A vulnerabilidade da população sujeitada a informações distorcidas, com mensagens subliminares e/ou escancaradas, sem qualquer ética, reafirma o que a consistente teoria de Paulo Freire expunha desde o seu princípio e que pouco ou nada mudou nesses 50 anos: a situação concreta de opressão em que as pessoas vivem. Opressão essa que se materializa em retirada de direitos, em exploração do trabalho, em cerceamento de manifestações, em agressões morais e físicas ao que seja diverso.
A partir dessa tomada de consciência, a Pedagogia do Oprimido fortalece a reflexão sobre nossa própria existência, sobre as relações humanas nas comunidades e no trabalho, nos territórios nos quais nos inserimos, indicando que “a palavra abre a consciência” do lugar social que cada um ocupa.
Ao afirmar que a “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”, Paulo Freire reafirma, dentre outras coisas, a importância de educadoras e educadores. Destaca o quanto esses profissionais têm a contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, mais equânime, para um mundo mais sustentável, uma vida mais feliz.
Em tempos de ódio, de preconceito, de intolerância, de tendência autoritárias, nosso direitos mais básicos e nossa liberdade de pensamento e de expressão, educadores que somos, independentemente do lugar que ocupamos, somos desafiados a resgatar e a fortalecer o legado libertador, amoroso e ético de Paulo Freire; vital em todas as relações sociais para construir humanização e cidadania que levem ao respeito às diferenças. Esses significados constroem a resistência e apontam caminhos.
Não podemos nos sentir enfraquecidos. A obra de Paulo Freire nos capacita para superar a demonização e a criminalização da reflexão, bem como o avanço da intolerância e da violência. Tomar consciência da importância da liberdade, considerando “esperança sem espera”, exige atuação determinada. A “paciência impaciente” precisa de reação. E essas  ações somente podem acontecer em uma sociedade minimamente democrática.
A educação crítica brasileira, a educação popular e cidadã exige nosso compromisso com o respeito às diferenças, com o combate ao racismo, à homofobia, à xenofobia, ao machismo, a intolerâncias de todas as matizes.
Não podemos nos eximir sob pena de sermos cúmplices de entregar nosso país a fascistas raivosos e subservientes aos países imperialistas que destruirão não somente os direitos que nos restam, mas nossa perspectiva de futuro, nossa urgência de esperanças.
“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar;
porque tem gente que tem esperança do verbo esperar.
E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera.
Esperançar é se levantar,
esperançar é ir atrás,
esperançar é construir,
esperançar é não desistir!
Esperançar é levar adiante,
esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…”
Paulo Freire
 
*Rosilene Corrêa é dirigente sindical no Sinpro-DF, na CNTE e na CUT.

EDUCAÇÃO E ESCOLA: PARA QUE, PARA QUEM? CONTRA O QUÊ E CONTRA QUEM?

EDUCAÇÃO E ESCOLA: PARA QUE, PARA QUEM?
CONTRA O QUÊ E CONTRA QUEM?

 
 (*)Antonio da Costa Neto
As raízes da crise na educação brasileira vêm, logicamente, desde que ela foi criada para a manutenção do paradigma colonizador e explorador europeu. Fundamentada, posteriormente, na ideologia norte-americana, que as fortalece, estabelecendo o ensino como mercadoria e a escola como fábrica de operários e de consumidores em potencial. Pois, quem subjuga o trabalho e o pão, tem o controle e dita as normas, no sentido de garantir e ampliar as suas próprias benesses, e, assim, sempre. Ou seja, escola e educação fundem-se em uma única instituição burocratizada e antagônica aos interesses do projeto social maior. Mantida para gerir modelos econômicos internacionais e os interesses das elites capitalistas de todo o dito mundo civilizado.
É urgente a necessidade de se ampliar os laços do compromisso da boa educação com o humano e o social, para a garantia de sua legitimidade. Não podendo mais ter a educação como uma ação fechada num processo mecanicista que a molda, inexoravelmente, para legitimar a acumulação do poderio econômico e cultural, conforme Apple (1989) e, manter, com isto, os privilégios do capital sobre o trabalho e da técnica sobre a vida.
 
É o contexto das ideologias, que, segundo Chauí (1990), opera, tanto na prática como na teoria educativas, e, que, para entendê-lo precisamos de outro olhar muito mais concreto para dentro da vida das instituições que formatam a educação e fazem-na acontecer. Constatando, assim, o seu esmagador poder de controle sobre as pessoas. O que acontece, não apenas por meio de currículos e conteúdos, mas nas suas múltiplas e dissimuladas formas de ação e de metodologias de ensinar e de aprender, associando-se a isto, a sua cultura, a sua negação de um projeto, enfim, o clima e o cotidiano das escolas “educando os indivíduos” para comandar e controlar massas sociais inteiras. Mantendo e classificando como normal a exploração de poucos sobre muitos, e, logicamente, as suas consequências em todos os segmentos da vida.
 
Precisamos, com urgência, perceber a progressão histórica de nossa formação. E, sem sermos reducionistas, compreender nossas mudanças históricas, crises e associações feitas no conteúdo e nas formas ideológicas; paradigmas, que são, em parte, gerados pelas escolas e por elas, perpetuados, na maioria das vezes, de maneira ingênua, e, até, inconsciente. Assim, de acordo com Santiago (1996) a educação facilita os processos de organização e controle do trabalho na sociedade. Entre eles a separação – e a valorização – entre o trabalho manual e o intelectual. O divórcio entre a concepção e a execução está sempre constituído sob formas complexas e paradoxais na educação, até o presente momento. O que requer medidas corretivas eficientes e mais do que imediatas. Como no dito popular: para ontem.
 
As escolas parecem fazer uma série de coisas com vistas ao desenvolvimento das pessoas e da sociedade como um todo. Mas, na verdade, elas são órgãos reprodutivos do caos e da exploração, na medida em que ajudam a selecionar e a titular a força de trabalho. E elas, sem que percebam, fazem mais do que isto. Ajudam a manter os privilégios por meios culturais; ao tomar a forma e o conteúdo da cultura e do conhecimento dos grupos poderosos e defini-los como um conhecimento legitimo, a ser preservado e transmitido a todos. E o fazem com a maior eficiência – o maior cinismo – nos métodos que dissimulam com a muita naturalidade, inclusive. Quando se discutem ciências, tecnologias do conhecimento e coisas afins, parece descabido entender o atraso absoluto das escolas – em todos os níveis – neste sentido. Elas ainda se esforçam, sem que saibam, para manter e ampliar a exploração do capital sobre o trabalho, legitimando a opressão, a hierarquia, a segregação do poder de decidir, do bem-estar  para aqueles que elas, por motivos óbvios dizem existir: ou sejam, os seus alunos. Engendrando, com isto, uma das maiores mentiras históricas que a humanidade ainda conta e faz acreditar.
 
Elas são, também, agentes no processo de criação e recriação de uma cultura dominante eficaz. Ensinam normas, valores, definições e uma certa ordem que contribui para a hegemonia ideológica dos grupos dominantes. O que tem, inclusive, levado a vida a padrões quase que insustentáveis. Gerando miséria, fome, desemprego, degradação ecológica, violências, crimes, corrupção, apenas para exemplificar. A educação, por seus instrumentos, pode, assim, atuar como legitimadora importante da ordem social existente. Pois, a sua vida cotidiana reforça aqueles valores meritocráticos que justificam a distribuição de recompensas diferenciadas e a separação entre bem-sucedidos e fracassados. Propiciando lições diárias de desigualdades gritantes e de injustiças enormes.
 
As práticas pedagógicas e curriculares usadas para organizar as suas rotinas são responsáveis, em grande parte, pelos fenômenos que fazem com que os estudantes internalizarem o fracasso. Transformando-os em desajustados, conforme lembra-nos, belamente, em sua conspiração aquariana, Ferguson (2010). Reconduzindo, finalmente, a trajetória da exploração fácil, e, com ela, toda uma crise de valores, em que, enquanto cidadãos do mundo, nos achamos mergulhados. A escola ajuda a retirar a consciência crítica. Bem ao contrário do que pensa fazer e o que tem amplamente divulgado por meios das mentiras operacionais e sua complexa burocracia. Enfim, a escola, como aparelho ideológico a serviço do Estado opressor, exerce uma função que produz agentes e valores, disposições e ideologias “apropriadas”. Transmitidos por formas ocultas – ou paradigmas – para responder aos interesses de uma sociedade e de uma economia iníquas. E, em seu currículo oculto, ela tenta ensinar aos seus alunos com uma imposição particular de passividade, servidão, obediência e outros princípios de raiz de poder e de economia. A verdadeira tarefa dos alunos é a de sobreviver até que o sinal soe (Toffler, 1980).
 
A análise deste conjunto de coisas pode nos fornecer pistas que nos ajudem a avançar no entendimento, tanto das funções sociais da educação e da escola, quanto dos valores por elas promovidos. Devemos entender, portanto, que o seu único, ou, pelo menos, o seu maior problema, é o ideológico, o que é bem o discurso do conhecido e respeitado Senador da República, Cristovam Buarque. Sendo esta, uma grande questão de paradigma. E, somente, tendo uma visão muito mais refinada do que realmente as escolas fazem, na teoria, na prática, nas suas políticas e diretrizes, é que poderemos a começar a lidar com a série de mudanças que estão sendo aqui propostas. Precisamos entrar na escola e observar tudo isto de frente, sem medo, ou restrições. Analisando o funcional, o político, sua filosofia, seus interesses, para o quê, os educadores e pedagogos – principalmente estes – precisar despir suas máscaras de incautos e inocentes revestida na brilhante lavagem cerebral com que a absoluta maioria das faculdades de educação os (de)formam para tal embate . Devemos descobrir que significados, normas e valores os estudantes, professores, técnicos, auxiliares, diretores e todas as pessoas, realmente, nelas experienciam. Apenas pesquisando esta série de fatos é que poderemos começar a agir. E, para isto, falta muito para formatarmos a nossa visão e a nossa consciência. Por enquanto, nós educadores somos uma massa humana ingênua demais neste sentido, o que, é claro, faz com que sejam cumpridos os princípios ditos educativos com os quais deleitam o estado opressor e ocultamente escravocrata. Só não enxerga quem não quer (Costa Neto, 2009).
 
Não é necessário grande esforço para observarmos que a educação em geral e a escola, em particular não avançaram dentro desta filosofia ao longo dos séculos de história. Pelo contrário, todo o esforço é feito para dissimular este vergonhoso atraso.  Elas não evoluíram tanto quanto as demais áreas da atividade humana, mas conseguiram fingir e representar bem demais. E o pouco modificado, o conservador cotidiano da escola, ainda é o mesmo de muitas décadas, séculos, talvez milênios, se relativizarmos o entendimento de tal denominação. Claro que elas possuem hoje outros métodos e sofisticadas técnicas, não há dúvidas, mas, infelizmente, para, no final das contas, fazerem a mesma coisa de sempre: alienar, treinar, aniquilar consciências, facilitando a exploração, a centralização de regimes e domínios, dando a isto uma faceta aparentemente humana, socialmente justa, e, acima de tudo, democrática (Migliori, 1993).
 
Entendemos que as atuais dimensões da sociedade requerem, também, uma outra filosofia de educação e uma outra proposta de escola radicalmente diferente do que a que aí está e com a qual, covardemente nos acostumamos. Que estabeleça novas relações entre professores e alunos e uma concepção diversificada de conteúdos, ciências, conhecimento e aprendizagem. Em essência, a escola não evolui. Ela foi feita para isto: a estagnação, a segregação. Legitimando no seu cotidiano, as injustiças sociais mais grotescas para os tempos de hoje. Deste modo, as escolas, assim como estão constituem um mal ou um bem? Aí temos uma boa reflexão. Elas mais atrapalham do que ajudam na tão esperada evolução da sociedade. Pois, refinam e eternizam dissimuladamente, a ganância, a exploração, a desordem. E disto, nós educadores deveríamos nos envergonhar. Mas, ainda não tomamos nem conhecimento de tal realidade de que as escolas mais conformam e deformam, do que, propriamente, formam seus alunos.
 
Trata-se, como já dissemos, de um problema paradigmático. Ao mesmo tempo, metodológico, filosófico, político, operacional, ou seja, um problema que envolve todos os aspectos e esferas a um só tempo e que requer, para a sua solução medidas e princípios aplicáveis, no mínimo, do mesmo modo. Não dá para solucionar problemas gerais e tão amplos com medidas segmentadas e partidas como insiste, há décadas a forma de gerir e administrar a educação e a escola, o que, cegamente, as universidades ensinam, justificam e adotam, frente aos seus fins eminentemente  burgueses e inconfessáveis. E, conforme o percebemos, a partir dos seus pressupostos ideológicos, ainda crus, embrutecidos desde a idade média. A questão é ampla e difícil, envolvendo teoria, prática e práxis. O que está muito além da mera aparência. Trazendo constatações filosóficas, éticas, políticas, sociais, humanas, além, é claro, daquelas marcadamente, econômicas. Sendo esta a complexidade que denominamos de paradigma, e, para muda-lo é que aqui buscamos e propomos novos caminhos, outras alternativas.
 
Tais problemas tomam dimensão de desafio na superação do dilema: como formar pessoas que pensem que participem, que argumentem, que construam a realidade com a qual sonham e, ao mesmo tempo sejam servis, obedientes e serviçais à causa dos comandos hegemônicos que aí estão? O remanescente capitalismo selvagem, explorador e periférico precisa de pessoas que pensem, reflitam, saibam, mas que sejam, igualmente, facilmente exploradas, omissas e subservientes. Aí caímos num mistério e num desafio dialético impossível de serem solucionados pela nossas limitadas lógica e razão. Está fora de cogitação constituirmos este duplo milagre sendo, justamente, desta ignorância que padecem as escolas e seus comandos, daí a eternização dos problemas e do caos.  Aí passamos por um momento crítico em que se vislumbra a profunda necessidade de reorganização dos conhecimentos, com outra dimensão bem mais complexa, buscando, assim, um Paradigma Novo e quando falamos disto não estamos nos referindo às inquietas repetitórias das meias mudanças educacionais e pedagógicas que são a forma mais eficiente de não se mudar nada. continuando a mesmice menos que ridícula.
 
As pesquisas e o bom-senso têm demonstrado que os investimentos que precisam ser feitos são aqueles marcadamente afetivos, humanos e emocionais, calcados, sim numa perspectiva crítica e política também radicalmente nova – sem o que, aliás, de nada adiantarão. Uma vez calcados na consciência político-ideológica do que, como e para que fazer em educação. Remodelando as práticas pedagógicas e curriculares em todo o seu âmbito. É preciso que tenhamos consciência do para que e para quem; contra o que e contra quem podemos estar trabalhando enquanto educadores. Vivemos, ainda, sob um emaranhado técnico, metodológico e operacional que já deu suas contribuições possíveis. Sendo fundamentado para ser posto em prática nas dimensões e momentos históricos já vencidos e superados. É, portanto, necessário mudar. Revolucionar, quebrar o arraigado senso-comum. 
 
Adotando, por fim, um novo paradigma melhor e mais crítico, aberto, dinâmico, humano, sistêmico. Falamos, portanto, de uma verdadeira revolução cultural na educação e nas escolas e, não mais, de antiquadas, claudicantes e pequenas mudanças dependentes de tudo e que,   mesmo assim, de nada servem e, pior ainda, não levam a lugar algum. 
 
Propomos uma revolução cultural  que busque, por si, a felicidade de todas as pessoas. Sem o quê, podemos estar fazendo tudo, menos, educação. E os avanços do nosso tempo não mais permitem aos educadores tamanhas omissão, covardia, enfim, ignorância política.
 
O modelo educacional que temos não serve às transcendências milenar e secular em que estamos vivendo. É preciso reverter não só a ordem, como também a filosofia, os métodos, os princípios e os valores. Os  componentes todos que se mostraram eficazes até agora, estão dando sinais da mais absoluta necessidade de  superação, de substituição por outros mais eficientes e eficazes, definindo a complexidade de quem educa quem e para quais fins no real concreto da sociedade isto é feito. A centralização do poder, o raciocínio linear, a manutenção dos privilégios de poucos, a partir das concepções normativas de uma competição arraigada e inconsciente  precisam ser suplantados em todos os setores da ação humana, sendo, na educação é que o passo inicial deve ser dado pois é nela que eles são apreendidos para que sejam implantados na prática social em todo o curso da história da humanidade (Chomsky, 1995).
 
Assim, aluno que aprende construindo, aprende a construir e o que aprende com o já pronto e construído aprende a se omitir, se acovardar dentro da zona de conforto que é criada de conformidade com as condições e a realidade de cada pessoa. Sendo esta, embora no meio de um monte de subterfúgios técnicos, a forma de educação que temos  E, assim, para aprender a  reivindicar, questionar, criticar, mudar. Constituir seus sonhos e desejos. Tornando-se agente de sua história pessoal e social temos que, da mesma forma, transformar os meios e as formas de se fazer educação. A energia planetária clama pelo equilíbrio na distribuição dos bens, dos direitos e do resgate da qualidade de vida de todos. E, embora as elites sequiosas por ter e pelo comando, ainda teimam em aperfeiçoar seus estilos de competir e ganhar sempre: daí a imposição de fórmulas educacionais nocivas, inumanas e ainda hoje, mantidas. Enquanto que o instrumento preciso e inadiável é a cooperação entre todos e por todos. Numa abordagem muito mais ampla, complexa, coerente. É, encima de tais proposições, que devemos nos debruçar com a máxima urgência.
 
Existe aí uma linha tênue e invisível que define ideologia, educação e a constituição da chamada nova ordem mundial em seus valores teóricos e práticos. É o que nos diz Bordenave (1972). Conduzindo, assim, as condições de vida das pessoas. O que só pode fazer perpetuar a exploração, a fome, a miséria, o pensamento e a ação humana contra a vida e a natureza, em síntese, o caos que a humanidade, sem que saiba, premedita em quase tudo o que faz. Ensinar e aprender são princípios e definições marcantes e definitivos neste grande processo que é a vida e as suas circunstâncias todas. O que fica, patentemente demonstrado nas inúmeras pesquisas que são feitas por estudiosos e instituições mundialmente respeitáveis, como podemos constatar a qualquer momento. O que nos dá a certeza de que a forma de se educar as pessoas é ponto fundamental na definição dos rumos e do destino do planeta. Pois atua, por si mesma, na construção da personalidade dos seres que nele vivem e que conduzem a sua história pela ação, a destruição, ou mesmo, se omitindo em fazê-lo. E tudo isto é o resultado de como cada um se educa, ou, em última análise, é educado mais diretamente pela escola, o que se completa com as relações com o mundo, a cultura, a mídia, a religião, crenças, valores, ética, etc. E que depois, alia-se à corrente humana, em princípio, amorfa, mas na verdade, é a diretamente responsável por tudo o que acontece – ou deixa de acontecer. E esta é uma matemática simples e para entendê-la, havemos de desejá-lo profundamente. Mas, pelo que nos parece, ainda não é o caso. A maioria dos educadores não acordou para isto. E os poucos despertos não estão, nem estarão, nem a curto, nem a médio prazos, suficientemente preparados, tal a gravidade da situação com que lidamos.
 
O paradigma da elaboração unificada de políticas, diretrizes, administração educacional, práticas educativas e curriculares, sendo tudo definido e construído por todos é o caminho possível para a busca da solução para os problemas da educação formal das pessoas e da vida no cotidiano das escolas. A saída é pela construção coletiva de todos os processos educativos em todos os momentos e lugares sociais. Falamos aqui de educação para abrir, e, não, para filtrar e manipular consciências, criticidades e possibilidades outras de intervenção no mundo. Portanto, conforme nos lembra Freire (1992), os princípios norteadores de conhecimentos interessantes e interativos ao contexto vivencial de quem ensina e de quem aprende validam esta experiência. O uso de metodologias promocionais e assertivas complementa a caminhada. Avaliação e promoção humana para construir seres humanos mais inteiros abertos, críticos, perspicazes, vivos e felizes, são talvez as conquistas mais urgentes, importantes e necessárias que devamos fazer em educação. E não mais, aperfeiçoar as metodologias avessas a tudo isto,  falamos de mudança, e, não, de meros aperfeiçoamentos, inovações, meias-verdades que em nada contribuem, servindo apenas para enganar.
 
E só então, partirmos para os embates mercadológicos, econômicos e trabalhistas, cuja importância, é claro, não podemos negar. Mas, tais elos se articularão harmoniosamente, respeitando a inteligência e as formas naturais de aprender e de se educar das pessoas, sem desrespeitar as suas contingências inconscientes e intelectivas, de forma tão brutal, como a educação tem feito, aliás, com invejável competência. Devemos trabalhar para isto, sim, mas, somente, a partir da construção de personalidades mais inteiras, íntegras, humanas, competentes e solidárias frente às exigências do momento histórico em que vivemos e suas perspectivas futuras. Este é, a nosso ver, o objetivo; a grande meta da educação com a qual, sonhamos. Dizemos que fazemos, mas, negamos tudo nas nossas práticas e táticas. Na medida em que estupramos de forma muito mais do que cruel nossas cabecinhas inocentes, no ímpeto de prepará-las para o mesmo mercado que renega as suas vidas e as consome enquanto mata a criatividade, o senso crítico, o lúdico, o sentimento, enfim, o ser político, deixando-o amorfo, apático, ao dispor de explorações outras.
 
Ao longo de seu processo histórico, a educação, por meio de suas instituições, mecanismos, recursos e legislação tem primado pelo exercício exclusivo da qualidade formal, e, esta, nós não podemos negar. Pois ela aí está a olhos vistos, por meio da ordem, da disciplina, da limpeza das instalações, das filas impecáveis, no cumprimento dos horários, nos diários de classe sem nenhuma rasura, os uniformes escolares impecáveis. O que, na verdade, traduz a qualidade do se diz que faz. Mas falta a essência, a qualidade política, aquela que define os porquês, para que, para quem e contra quem se faz. A educação formal serve, tão somente, para legitimar e camuflar a opressão do Estado: alienar as pessoas e adequá-las aos regimes, domínios e imposições. Em síntese, escola e educação congregam a escravidão moderna, a escravidão de acrílico de que nos fala Gadotti (1997) quando cita o seu refinamento por meio dos controles dos mercados e dos regimentos trabalhistas legais dos tempos de hoje, que, se analisados com sabedoria e sensibilidade, perceberemos o seu lastro escravagista jamais superado.
 
Por outro lado, existe uma certa cegueira conceitual e prática por parte de seus agentes e usuários que se mantiveram meio que conformados e satisfeitos com seus processos, por séculos a fio, sem entenderem os seus revezes. E isto, pelo menos, historicamente, deve chegar ao fim com o advento do terceiro milênio, da chamada era do conhecimento. A qualidade formal deverá associar-se à qualidade política, em que aparência e essência deverão ser circunstâncias conjugadas, tanto na teoria, quanto na prática. Levando, portanto, à práxis desejada e necessária para que a vida persista com níveis de qualidade proporcionais para todos.
 
Não haverá mais espaço para apenas se dizer que faz, como aprazem até hoje, os educadores cínicos e céticos; os negocistas que transformam a educação em mercadoria vendida diretamente nas instituições particulares, ou, pior ainda, paga com o suado dinheiro dos tributos e impostos saqueados do cidadão que trabalha, no caso das escolas públicas. Não basta mais o discurso da escola transformadora e cidadã. Ela terá que, para isto, colaborar, de fato, para a transformação da cidadania, em termos qualitativamente, aceitáveis: trabalhando para todos e, não, apenas para aqueles que comandam os regimes. Usando, desta forma, de subterfúgios, métodos e teorias absolutamente enganadoras. Cometendo algo maior que um crime, o que não se descreve dentro da nossa legislação fraca, ultrapassada e, eminentemente, pequeno-burguesa à qual não interessa o entendimento profundo de tais questões, por motivos mais que óbvios.
 
E isto prescinde de mudança, de planificação dos novos paradigmas. E aqui apresentamos uma das muitas propostas dentro das infinitas linhas de pensamento que existem. Durante todo o tempo a educação se firmou em bases, essencialmente, elitistas e impositoras. A bem da verdade, a educação formal existe para inculcar em todos as ideias e interesses dos poucos que comandam os ditames da vida; o que deverá sofrer uma transformação radical em todas as instâncias. E, portanto, os modelos de escola e de educação que temos, já não servem mais, o que, infelizmente, ainda não é percebido pela vasta maioria dos educadores, mesmo os mais sensíveis e bem preparados. Pois a onda é muitíssimo complexa e mesmo as boas universidades, os excelentes autores e pensadores ainda não conseguiram chegar lá. E demorarão muito a fazê-lo. Talvez nunca tamanha a demanda do capitalismo extremo, este câncer da sociedade.
 
A escola deverá atuar mais pró (como diz que faz), e, não contra (como faz) aos seus servidores, classe trabalhadora e seus usuários gerais diretos (alunos) e indiretos (comunidade e classes sociais diversas a que julga servir). E não mais, como se repete na história e no tempo de todos os homens e mulheres: inculcando a moral escrava que legitima diferenças, mantém privilégios brutais e dá a tudo isto legitimidade e aceitação por parte da absoluta maioria “supostamente educada”, mas, “vergonhosamente enganada”, pela escola e a educação que temos e que deveriam se ocupar em transmitir e produzir conhecimentos e saberes que sirvam, de fato, a cada indivíduo e a todas as instâncias e demandas sociais. É de que nos fala Brandão (1980) quando retrata que elas se ocupam de instrumentalizar uns a serviço de outros. Culminando na perpetuação dos regimes impostos por sistemas e realidades que queremos transformar. E afirma ainda que ao contrário do que acreditam seus agentes, a educação exerce sua tarefa numa sistemática absolutamente antagônica: perpetuando o que deseja mudar. Chegamos a um tempo em que educação e escola precisam deixar de ser cínicas e imaturas em relação ao que fazem. O que, na verdade, dificulta e inibe os resultados que delas  se esperam. Enquanto os educadores, “altamente preparados” continuam como “criaturas tontas” fazendo a mesma coisa e esperando que tudo seja diferente.
 
Nossa concepção consiste em partirmos do caos para revigorarmos políticas, diretrizes e propostas na operacionalização de um novo fazer pedagógico. Mas, sim, de forma radicalmente nova, diferente, não só no discurso e muito menos, se utilizando dele para, justamente se negligenciar as práticas pertinentes. Tudo não passa de um embuste, de jogo de palavras, de um conjunto de concepções mentirosas e infiltradas nos surpreendentemente atrasados meios e ambientes educacionais. Pois, disto, já estamos todos muito mais que exaustos. Mas, culminando numa práxis diferenciada. Restaurando a qualidade de vida em termos concretos. Sem o quê, não estamos, em absoluto, educando ninguém. Por ora, a educação se mantém por detrás de um discurso escorregadio que tenta – mas nem sempre consegue – ocultar as raízes de sua própria crise, do seu fracasso histórico. Enquanto isto, o caos se perpetua e se agiganta. É preciso, portanto, transcender a tudo isto e se começar a educar sobre novas bases. Concretizando outra realidade, novo poder, novas relações. Solidificando e solidarizando o viver com dignidade. Ajudando a restaurar, de fato, a melhoria contínua da qualidade de vida humana em sociedade, ou seja, para todos (Mafesoli, 1997).
 
Ensinar e aprender os saberes necessários a uma vida, substancialmente, melhor. Criando e implementando, técnicas, métodos, objetivos e gestão que facilitem a esta modalidade histórica do que seja educar as pessoas. Tornando transparentes e vivas tais razões e tais momentos. Reconduzindo a humanidade em função dos novos tempos e das exigências vivenciais de um mundo, a cada dia, mais caótico e tumultuado, o que, toda educação não pode se dar ao luxo de ignorar, como aliás tem feito. É preciso transcender, iluminar e conduzir para esta prática que valorize a vida e contribua para que se exterminem as diversas formas de exploração. Construindo reais companheirismos; verdades para além da ciência fria e estereotipada por uma certa ordem que não serve mais a ninguém. Sendo compulsória a necessidade de transformação. A saída do modelo cartesiano de pensar e de fazer educação, para uma proposta aberta, sistêmica, proporcional, integrativa, harmoniosa, lúdica, feliz, em síntese, mudando os paradigmas. O que requer uma atitude revolucionária – sem o pavor desta palavra que, geralmente, temos, pela nossa pequenez, ignorância e covardia – de todos os que, direta ou indiretamente, atuam neste processo.
 
Necessário se faz a percepção de pequenas coisas, enfim, sutilezas do cotidiano da escola e a brutal crueldade – concreta, simbólica, psicológica ou política – de certas exigências, normas e regras. Mais uma vez refletir sobre a essência e da necessidade de trazê-la à tona. Fazendo-se presente e real, e, não, como mera circunstância que, se por acaso ocorre, é, sem dúvida, para a insatisfação de muitos, tal o nosso atraso conceitual e prático neste sentido. Só assim é que estaremos começando a pensar na verdadeira educação para concretizá-la por inteiro. Sem os paradoxos neutralizadores que vêem eternizando suas crises, o seu fracasso desgastante e o seu pleno insucesso no sentido de se preparar as pessoas para enfrentarem com dignidade as agruras da vida, e, se possível e necessário, transformar as relações dos seres com o mundo que os cerca (Habermas, 1990).
 
 O educar passa, assim, a ser e ter uma função da maior importância para o presente e o futuro da humanidade, em seu caráter formal ou informal. Sendo mais do que o responsável pela simples materialização de relações em contínua evolução entre os seres humanos e os novos saberes e o seu fazer na sociedade passa a  transcender valores e culturas outras. Enfim, modificando as pessoas e suas mentes no sentido de melhorá-las, na medida em que passam a entender a fundo o real concreto que as cerca em todas as dimensões. Aí sim, começamos a falar de educação. E não, da mera instrução funcional e comprometida com a ideologia de poder no exato sentido de mantê-la e ampliá-la nos moldes avessos da exploração que aí está. Que é, sim, o que as escolas têm feito. Deixando, marcadamente, uma horrenda defasagem histórica, na medida em que seus agentes são desconhecedores de tal fenômeno. Sendo apenas isto o que precisa e deve ser superado. E, todo esforço feito neste sentido ainda será pouco sendo necessário um brutal esforço que ainda espera pelo passo inicial.
 
É necessário compreender que como seres vivos – mamíferos e de sangue quente como tem sido feitas as modernas conquistas da antropologia – nós competimos sempre uns com os outros, seja, consciente ou inconscientemente. O que, pela educação e por meio de sua instituição oficial, a escola; o fazemos de forma implícita e politicamente dissimulada, sem que entendamos tais minúcias. A formação dos educadores quer nas licenciaturas ou pedagogias – diríamos que nestas, até especialmente – encarrega-se de criar este muro divisor entre uma coisa e a outra. O que é feito com espetacular competência e de maneira muito mais que eficiente, nas faculdades de educação alheias ao processo de evolução histórica da mesma sociedade. Elas são, sob medida, alienadas politicamente, o que faz parte de uma ideologia milenar de construção de ricos e pobres, de empregados e patrões, de proprietários e consumidores, cuja máxima exploração é que garante o acúmulo da riqueza e o eterno bem-estar de quem comanda. E isto a escola dramatiza e dissimula o tempo todo dentro do jogo que faz, da disciplina que impõe, das estratégias inumanas que usa. Licenciados e pedagogos tornam-se verdadeiros analfabetos neste sentido e tornam-se, conforme Nieskier (1982) verdadeiros cães de guarda da burguesia dentro e fora das instalações da escola, vigiando, rosnando e mordendo mortalmente quem se atreve a se iniciar contra seus dogmas. Tornam-se inocentes políticos e vítimas fáceis, à medida que se enchem de técnicas e teorias que são manipuladas como recheios mentais para isto.
 
E se não vencermos esta batalha estaremos esmurrando o vazio quando falamos em busca de solução para os problemas educacionais de hoje em todo o mundo. Sei que muitos educadores ao lerem estas linhas terão o tradicional arrepio na espinha. Terão nojo, asco e até vomitarão de repugnância. É que os trabalhadores funcionais da educação têm sempre, diante desta verdade, a mesma reação dos vampiros que, nas ficções de terror, quando se vêem diante da cruz. Mas não sabem – os educadores – que tudo faz parte dos prenúncios ideológicos de um mundo burguês, centralizador, repressor e periférico que insiste em continuar vivendo dando a poucos o poder de explorar e confundir muitos, usando, sem escrúpulos, educação e educadores para tal. Assim, como nas nossas tradicionais salas de aula, por exemplo. É só uma questão de arregalar criticamente os olhos para enxergarmos. Qual o sentido real de grande parte dos conteúdos que ensinamos? Por que se muitos alunos não respondem, nas provas ou lições diárias, o que quer, pensa ou dita um único professor é a maioria que é punida, rechaçada, reprovada, expulsa? Por que as salas de aula são classificatórias, com primeiros, segundos e últimos? Não estariam aí ocultas lições de desigualdades e de uso abusivo do poder que se reproduzem do lado de fora da escola, ou seja, no real concreto da vida de todos nós?
 
Mas ouse, se for capaz, discutir isto com professores ou pedagogos. Leve, se tiver coragem, tais questões para os encontros, os congressos de educação, as reuniões pedagógicas, ou até mesmo para os sindicatos da classe preparadíssimos para os jogos dissimuladores. Grande parte dos seus agentes são pagos pelo governo, e, evidentemente, cumprindo o seu desejo, mesmo debaixo de uma mácula tendenciosas de discursos e falas belos e edificantes. Certamente, quem fizer isto – como eu, agora – terá motivos de sobra para chorar, se arrepender. Se amargar na solidão e ser excluído dos ditos ambientes educacionais caóticos, confusos e perdidos nos becos mofados da história. É que os educadores – especialmente, os cristãos – como diz-nos Russel (1972), não se cansam de crucificar e destruir seu mito maior para depois santificá-lo em templos, se passando pública e mediocremente, por seus bons filhos, os benfeitores das almas, os salvadores dos homens e do mundo.
 
Já deveriam fazer parte do passado os tempos em que a educação e o ensino poderiam ser caracterizados como espécies de “camisas de força”. Atuando num processo de contínua manipulação, neutralizando, desejos. Deveriam, tais processos, ser, hoje, personalizados, lúdicos. Transcenderem felicidades, sendo, politicamente, assertivos. Ou seja, realizados em favor de todos e para o proveito real da humanidade, o que requer uma profunda reversão do que é, de fato, feito. E não, de meros aprimoramentos. Mentiras técnicas que são contadas com rigores e metáforas que levam-nos a acreditar nelas. Repetindo, viciosamente, os mesmos ciclos amargos dos destinos da história das civilizações. Deveriam estar fundamentados nos direitos humanos plenos, na alegria, no prazer de se contribuir, de fato, na construção da própria história. Para dela se usufruir, vivendo de forma próspera, bela, cidadã, confortável, e, principalmente, solidária.
 
Assim, poderíamos, então, começar a pensar e a fazer acontecer, saberes, métodos, técnicas, formas de avaliação, gestão escolar que possam convergir, de fato, para um, ainda utópico processo educativo: o de buscar e contribuir para que germine dentro de cada pessoa todo o seu teor evolutivo. Tornando-a capaz de uma reflexão e ação conscientes que fluam a serviço do todo e de todos. Fazendo melhor o mundo  por meio de nossas melhorias próprias. Afinal, educar não é só enfiar na cabeça das pessoas as letras, os fragmentos das artes, da história, geografia, línguas, literaturas. Fazer reproduzir sílabas e números, agrupá-los e sistematizá-los. Isto é instruir. O que é, miseravelmente, pouco frente a complexidade do ser humano a ser cultivada e florescida para dar frutos numa educação de verdade. Mas disto, a absoluta maioria dos educadores está muito longe de desconfiar, muito menos, de conhecer – eles foram preparados para não enxergarem tal fato. Nisto nossas universidades e faculdades de educação são muito eficientes. E tal superação consiste num desafio interminável. Que é marca de conflito, de luta, de transformações radicais, em síntese, de adoção dos tão discutidos novos paradigmas.
 
O que significa na prática, ao menos buscar, por meio do exercício educativo formar indivíduos inteiros e contextualizados à dinâmica do mundo. Relativizando as condições, evidentemente, cronológicas, históricas e sociais de cada indivíduo. Daí a complexidade, a diferença, a personalização que, arduamente, defendemos e que devem estar presentes em todos os momentos do processo educativo que mereça esta denominação. Se tal meta não for cumprida, a educação não existe é neutra. Uma ação social nula, vazia, dispensável, e, por isso mesmo, desvalorizada, inclusive, profissionalmente. Tornando comum e normal em termos macro, as contingências e problemas salariais e trabalhistas, cujas discussões ocupam todo o espaço de tais categorias. Mas elas deveriam, antes, corrigir suas falhas gritantes, gravíssimas e, historicamente, acumuladas. Pois até agora, são regiamente pagas considerando a pouquíssima qualidade dos trabalhos educativos que realizam. Sejamos honestos e coerentes com o que gritamos aos quatro ventos para que o mundo nos ouça.
 
A educação e os educadores precisam deixar de formar, ridiculamente, as elites capitalistas exclusivistas e os ingênuos servidores destas. Os portadores de uma certa subserviência crônica, em absoluto descabida para os tempos de hoje. A palavra de ordem em educação é, por ora, a busca do equilíbrio entre os pólos articuladores das várias realidades vivenciais que integram seus muitos aspectos: individuais, sociais, culturais, políticos, ecológicos, dentre outros. E fazê-lo para todos os seres vivos é aí que mora a diferença que renegamos em entender. O que, por sua vez, nos leva a acreditar que buscamos  cumprir a pluralidade democrática tão antiga no discurso, mas ainda por vir no real concreto da vida das pessoas. E tudo gira em torno de um atraso estarrecedor, embora as aparências possam nos enganar. Cabe à educação e à escola desenvolver mentes em evolução tão complexa para tal enfrentamento vivencial, saindo, portanto, da vergonhosa mediocridade que ainda praticam ajudando  a deformar mentalidades, a eternizar subserviências perpetuando no ter e no poder as burguesias ridiculamente materialistas e exploradoras dos trabalhadores, das massas populares: uma vergonha sem precedentes.
 
Pensando, sistematicamente, a educação, não há como diferenciar, de forma mais ampla, programas, ações e currículos. Pois, tudo se define por uma axiomática comum e transdisciplinar entre políticas, diretrizes, filosofia, planejamento e ação. Tudo num só bloco, como partes que harmônica, e, ativamente, se complementam. Assim como deveriam ser as mudanças educacionais. Não podendo, na verdade, ser operadas de forma estanque e, nem mesmo, gradual, mas simultânea: gerando choques, sustos, provocando o que poderíamos chamar de uma revolução cultural necessária e muito mais que urgente (Postman, 1986).
 
Neste prisma, entendemos que ciência, educação, óticas novas, tecnologias diversificadas, modernidades outras e tudo o mais que se insere neste contexto caminham para a unidade em busca da perpetuação da vida. Redefinindo os valores necessários e tornando mais translúcidas as soluções para os problemas comuns existentes. Para o que, faz-se necessário colocar um fim definitivo nos comodismos e nas subserviências dos educadores por meio de ações mais conscientes. Afinal, acreditam-se que nós, educadores, somos, até por força de lei, suficientemente, preparados para tal. Formamos uma legião de intelectuais, de graduados para o exercício de tão nobre função. Devemos, então, agir como requerem a dinâmica do mundo atual e as perspectivas do terceiro milênio, da era do conhecimento, dos valores humanos, da pluralidade, da decência, das conquistas dos direitos humanos mais nobres, tão em moda como nunca estiveram antes. Tudo no mundo civilizado acontece a partir dos rumos e comprometimentos ideológicos, no sentido de se mostrar como justas e normais todas as maneiras de exploração, o uso abusivo do poder, a concentração da riqueza e dos privilégios nas mãos de poucos. O que se torna impossível, sem o uso, o abuso e a exploração de muitos; sobretudo, da classe trabalhadora, dos mais humildes, ingênuos e carentes. É assim que se dão as fábricas das leis, dos registros, domínios, estatutos, contratos. É a forma como se constitui a comunicação, a religião, a crença, os valores, a família, as organizações, enfim, tudo.
 
Conduzem-se as relações humanas para justificar o domínio, o bem-estar, o poder, o “status quo” dos que dominam o mundo. Na educação não é só assim, como dela é que emanam todos os demais processos para a definição de como se legaliza e se coloca em prática a vida, seus encantos, misérias, dores, conflitos em todo o seu cotidiano. Tudo respira ideologia com base no comprometimento com as elites, com o poder. E, claro, a educação, a escola são os elos onde tudo isto se define. Portanto, elas trabalham contra a vida e a favor do poder. Contra o ser humano e em benefício do capital, seus construtos e benesses. Escola e educação atuam contra quem pensam contribuir. Para o quê, inclusive, manipulam e justificam o uso de técnicas, métodos, programas e ações, que se fundamentam no blefe, no engano, na mentira. Elas ajustam o ser humano para a legitimação do caos. Pois, ele, sendo eterno faz com que se perpetuam benesses e privilégios, para quem, supostamente, se protege e se mantém, ainda que temporariamente, fora da sua esfera.
 
Nós, educadores, ao contrário do que acreditamos, somos, mesmo, os algozes do mundo. Os dificultadores da vida, legitimadores da dor e do conflito que tanto padece a humanidade desesperada e pedindo por socorro. Saber e acreditar nisto é só o início do diagnóstico, que, embora nefasto é bem mais que necessário como ponto de partida para a recondução da história da educação rumo ao que acreditamos  buscar dentro desta importante área do saber e do fazer humanos. Mas ainda falta muito, talvez tudo. Arregacemos, portanto, as mangas. Respiremos fundo e partamos juntos para o passo inicial. Pois, temos ainda pela frente, uma caminhada bem longa, talvez suada e com muitos sacrifícios, aos quais, talvez a maioria de nós não resistirá. Não acredita na sua necessidade. E não podemos de nenhuma maneira, continuar assim, tão ingênuos e inocentes úteis a tais revezes. Mas este precioso embate será repleto de bênçãos e nos conduzirá rumo à luz que alimentará nossos corpos e  almas. Dando-nos o melhor de todos os presentes, que, como bons educadores, passaremos a merecer: a consciência tranquila do dever cumprido. E a certeza de sermos atores na construção da história humana que, embora não saibamos, mas ainda nos mantemos na contramão. Coibindo, talvez, a cidadania, a dignidade humana que julgamos construir. E o tempo presente é, para, no mínimo, acordarmos. Tudo não passa de uma questão de cegueira, ou uma questão de visão e como num processo absolutamente individual, a escolha só pode ser minha, sua, de cada um.
 Bibliografia:
APPLE, Michel. Educação e poder. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
BORDENAVE, Juan Diaz. O que é comunicação. São Paulo: Brasiliense, 1972.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A questão política da educação popular (coletânea). São Paulo: Brasiliense, 1980.
CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. São Paulo: Cortez, 1990.
CHOMSKY, Noam. A velha e a nova ordem mundiais. São Paulo: Scritta, 1995.
COSTA NETO, Antonio da. Escolas & Hospícios: ensaio sobre a educação e a construção da loucura. Goiânia: Kelps, 2009.
__________. Paradigmas em educação no novo milênio. Goiânia: Ed. Kelps, 2003.
FERGUSON, Marilyn. A conspiração aquariana: transformações pessoais e institucionais para o Séc. XXI. Rio de Janeiro: Record, 2010.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1992.
GADOTTI, Moacir. Concepção dialética da educação: um estudo introdutório. São Paulo: Cortez, 1997.
HABERMAS, Juergen. O discurso filosófico da modernidade. Lisboa: D. Quixote, 1990.
LEMINSKI, Paulo. O que fazem a educação e as escolas na intermediação de um mundo em conflito. Coluna dominical de A Folha de São Paulo, agosto de 1975.
MAFESOLI, Michel. A conquista do presente. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
MIGLIORI, Regina. Paradigmas e educação: uma visão de futuro. São Paulo: Gráfica e Editora Aquariana, 1993.
NISKIER, Arnaldo. Pedagogos ou cães de guarda da burguesia? Jornal A Folha de São Paulo, setembro de 1 982.
POSTMAN, Neil. O ensino como ação subversiva. S. Paulo: Mc Graw Hill do Brasil, 1986.

  1. L. Bertand.Porque não sou cristão. Rio de Janeiro: Sextante, 1972.
    SANTIAGO, Théo. Descolonização. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1996.
    TOFFLER, Alvin. A terceira onda. Rio de Janeiro: Record, 1980.___________

Por meio do Instituto Humanizar – Assessoria Especial para Programas de Educação – desenvolvemos o Projeto Pedagogia da Felicidade que inclui: palestras, debates, simpósios, seminários, workshops, programas de pesquisas, semanas pedagógicas, eventos, projetos e atividades afins.
Conheça nosso trabalho,faça a diferença.
Contatos conosco:
(61) 3274 27 55
(61) 99832 25 37 (Zzap)
antoniodacostaneto@gmail.com
www.mudandoparadigmas.blgspot.com
 
(*)Mestre e doutorando em educação. Professor, pesquisador, consultor e conferencista em educação. Autor de livros, artigos e suplementos complementares nas áreas de ensino, educação, qualidade, produtividade e mudança social.

“A Revogação da Contrarreforma do Ensino Médio”, por Antonio Ibañez

 

Antonio Ibañez Ruiz*
Desde que o governo golpista assumiu o poder algumas reformas foram abordadas: reforma fiscal, reforma laboral, reforma previdenciária e a reforma educacional. Esta última não teve tanta repercussão, inicialmente, porque já estava em andamento uma reforma que era a formulação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) da educação básica, na qual o atual governo e o MEC pegaram carona. A estrela das reformas era a reforma fiscal, pois as dificuldades fiscais foram a base para o impeachment do governo da ex-presidente Dilma.
A elaboração da BNCC tinha sido prevista no bojo das últimas Diretrizes Nacionais Curriculares da Educação Básica aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), homologadas pelo MEC e, posteriormente, incluída no Plano Nacional de Educação. Foi ao ministério, que o CNE deu a atribuição para a  elaboração da BNCC. Diversos parceiros contribuíram com o MEC, na discussão e na organização de encontros regionais: a UnB, o CNE, UNDIME, CONSEDE, mas principalmente um grupo de ONGs, de bases empresariais, que tiveram uma grande presença e participação ao longo de todo o processo.
Quando o golpe parlamentar se consolidou, o MEC, apoiado pelo grupo de ONGs, CONSED e UNDIME, propiciou o golpe na reforma educacional, estabelecendo uma contrarreforma ao enviar ao Congresso Nacional uma Medida Provisória alterando a LDB, especialmente os artigos referentes ao ensino médio e educação profissional. Esse golpe na educação foi completado com a decisão de que a BNCC do Ensino Médio seria encaminhada pelo MEC golpista ao Conselho Nacional de Educação, posteriormente à sanção da Lei do Ensino Médio.
Esse golpe na educação não foi o primeiro, pois não podemos esquecer a Emenda Constitucional nº 95, do teto dos gastos, que comprime o orçamento da educação, e a cassação de mandatos de conselheiros do CNE, com o objetivo de facilitar a aprovação de essas medidas.
A Contrarreforma do Ensino Médio, especificamente o itinerário da formação técnica e profissional, foi colocado na lei como forma de parecer que era mais uma opção dada aos estudantes, quando na realidade é uma forma de excluir esses estudantes da trajetória universitária. Se eles quiserem desistir e ir para a universidade, seja ao longo do curso ou no final, eles terão que retomar desde o início outro itinerário, se tiver vaga na escola que está cursando ou procurar outra escola que ofereça o novo itinerário e tenha vaga para ele. Essa exclusão descaracterizada e apresentada como algo positivo para os estudantes é inqualificável e só pode vir de mentes esquizofrênicas ou despudoradas.
Essa atrocidade contida na lei do ensino médio, característica de uma escola excludente, não é a única. Podemos citar várias, mas ficarei só com mais uma.
Já é conhecido nos meios acadêmicos que a mudança de curso dos estudantes universitários, nos primeiros anos de universidade, é devido a uma falta de conhecimento, desses jovens, em relação aos cursos escolhidos na hora do ingresso. O estudante, ao desistir do curso escolhido inicialmente opta por sair da universidade ou se preparar para ingressar em outro curso. Tudo isso tem consequências financeiras para a instituição e para o aluno, além de desgaste emocional e outros possíveis transtornos. A idade do aluno, quando dessa escolha, está entre 17 e 19 anos. A nova lei permite que os estudantes escolham a área de estudo pelo menos dois anos antes de seu ingresso na universidade. Isto é, se o estudante escolhe o itinerário de ciências da natureza e no fim ou antes do fim quer desistir, terá que começar de novo no outro itinerário, por exemplo de humanas. O processo é o mesmo que o relatado anteriormente para o ensino técnico.
Resumindo, a nova lei facilita que os estudantes possam errar antes, mas não significa que o curso escolhido no ingresso na universidade será o que ele deseja para seu futuro. Ou seja, a nova lei permite que o estudante erre antes de ingressar na universidade e depois também.
Esses dois exemplos justificam a revogação dessa lei.
Mesmo a parcela de população que não esteja interessada ou que não tenha prioridade para discutir a educação, tem que pensar que os resultados dessa reforma só aparecerão alguns anos à frente, talvez uma década ou mais. Se os resultados forem negativos podemos recomeçar e fazer novas mudanças. Ocorre que já está se vendo o resultado das reformas implementadas pelo atual governo, em outras áreas, como a financeira e a laboral. O resultado de ambas não permite augurar bons resultados para essa proposta na educação. Só que já terão passado ao menos uma década de tempo perdido para os nossos jovens. Mais uma geração perdida?
Não podemos deixar isso acontecer. A lei deve ser revogada e voltar ao ponto em que se encontrava a reforma quando o novo governo assumiu, fruto do golpe parlamentar.  
*Ex-Reitor da UnB, 1989-93, ex-Secretário de Estado de Educação do DF, 1995-98, ex-Secretário Nacional de Educação Profissional e Tecnológica do MEC, 2003-05 e conselheiro do CNE, 2012-16.

“Reforma de Temer legaliza o ‘apartheid educacional’ no Brasil”, diz Gaudêncio Frigotto

 

* Gaudêncio Frigotto
A reforma de ensino médio proposta pelo bloco de poder que tomou o Estado brasileiro por um processo golpista, jurídico, parlamentar e midiático, liquida a dura conquista do ensino médio como educação básica universal para a grande maioria de jovens e adultos, cerca de 85% dos que frequentam a escola pública. Uma agressão frontal à constituição de 1988 e a Lei de Diretrizes da Educação Nacional que garantem a universalidade do ensino médio como etapa final de educação básica.
Os proponentes da reforma, especialistas analfabetos sociais e doutores em prepotência, autoritarismo e segregação social, são por sua estreiteza de pensamento e por condição de classe, incapazes de entender o que significa educação básica. E o que é pior, se entende não a querem para todos.
Com efeito, por rezarem e serem coautores da cartilha dos intelectuais do Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio, etc., seus compromissos não são com direito universal à educação básica, pois a consideram um serviço que tem que se ajustar às demandas do mercado. Este, uma espécie de um deus que define quem merece ser por ele considerado num tempo histórico de desemprego estrutural.  O ajuste ou a austeridade que se aplica à classe trabalhadora brasileira, da cidade e do campo, pelas reformas da previdência, reforma trabalhista e congelamento por vinte anos na ampliação do investimento na educação e saúde públicas, tem que chegar à escola pública, espaço onde seus filhos estudam.
A reforma do ensino médio que se quer impor por Medida Provisória segue figurino da década de 1990 quando MEC era dirigido por Paulo Renato de Souza no Governo Fernando Henrique Cardoso. Não por acaso Maria Helena Guimarães é a que de fato toca o barco do MEC. Também não por acaso que o espaço da mídia empresarial golpista é dado a figuras desta década.
Uma reforma que retrocede ao obscurantismo de autores como Desttut de Tracy que defendia, ao final do século XIX, ser da própria natureza e, portanto, independente da vontade dos homens, a existência de uma escola rica em conhecimento, cultura, etc., para os que tinham tempo de estudar e se destinavam a dirigir no futuro e outra escola rápida, pragmática, para os que não tinham muito tempo para ficar na escola e se destinavam (por natureza) ao duro ofício do trabalho.
Neste sentido é uma reforma que anula Lei Nº. 1.821 de 12 de março de 1953. Que dispõe sobre o regime de equivalência dos cursos de grau médio para efeito de matrícula nos curso superiores e cria novamente, com outra nomenclatura, o direcionamento compulsório à universidade. Um direcionamento que camufla o fato de que para a maioria da classe trabalhadora seu destino são as carreiras de menor prestigio social e de valor econômico.
Também retrocede e torna, e de forma pior, a reforma do ensino médio da ditadura civil militar que postulava a profissionalização compulsória do ensino profissional neste nível de ensino. Piora porque aquela reforma visava a todos e esta só visa os filhos da classe trabalhadora que estudam na escola pública.  Uma reforma que legaliza o apartheid social na educação no Brasil.
O argumento de que há excesso de disciplinas esconde o que querem tirar do currículo – filosofia, sociologia e diminuir a carga de história, geografia, etc. E o medíocre e fetichista argumento que hoje o aluno é digital e não agüenta uma escola conteudista mascara o que realmente o aluno desta, uma escola degradada em seus espaços, sem laboratórios, sem auditórios de arte e cultura, sem espaços de esporte e lazer e com professores esfacelados em seus tempos trabalhando em duas ou três escolas em três turnos para comporem um salário que não lhes permite ter satisfeitas as suas necessidades básicas.  Um professorado que de forma crescente adoece. Os alunos do Movimento Ocupa Escolas não pediram mais aparelhos digitais, estes eles têm nos seus cotidianos. Pediram justamente condições dignas para estudar e sentir-se bem no espaço escolar.
Por fim, uma traição aos alunos filhos dos trabalhadores, ao achar que deixando que eles escolham parte do currículo vai ajuda-los na vida. Um abominável descompromisso  geracional e um cinismo covarde, pois seus filhos e netos estudam  nas escolas onde, na acepção de  Desttut de  Tracy  estudam os que estão destinados a dirigir  a sociedade.  Um reforma que legaliza a existência de uma escola diferença para cada classe social. Justo estes intelectuais que em seus escritos negam a existência das classes sociais.
Quando se junta prepotência do autoritarismo, arrogância, obscurantismo e desprezo aos direitos da educação básica plena e igual para todos os jovens, o seu futuro terá  como horizonte a insegurança e a vida em suspenso.
* Filósofo e Educador. Professor do Programa de Pós Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

BNCC: Desconfiem de Dias “D”

Em setembro de 2016 a comunidade educacional brasileira foi surpreendia com a edição da Medida Provisória 746/2016 que instituiu a Política de Fomento à Implementação de Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral, alterou a LDB 9.394/6 e a Lei n.º 11.494 de 20 de junho 2007, que regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação. Medida Provisória ilegítima pois não se promove alteração na LDB por essa via e também porque não refletiu o consenso necessário dos diversos atores sociais envolvidos na educação nacional.
Como conversão da MP, a Lei 13.415 de 16/02/2017, instituiu a Política de Fomento à Implementação de Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral e vinculada a essa política, a elaboração de uma Base Nacional Comum Curricular para o Ensino Médio (BNCC), expressão mais recentemente elaborada de apropriação por grupos empresariais privados da gestão educacional, mais precisamente no que a escola tem de essencial – o conhecimento a ser trabalhado e sistematizado por meio do currículo escolar. Currículo que deve ser compreendido a partir da relação indissociável com a formação como experiência cultural e como processo de empoderamento de valores, saberes e culturasinvisibilizadas historicamente por padrões educacionais homogeneizantes.
É importante recuperar, que no Distrito Federal havia no ano de 2014, encaminhamentos da SEEDF/EAPE/UnB para se viabilizar o debate da BNCC, articuladamente ao Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio (PNEM), que contemplaria a discussão da Base na formação continuada dos professores nos espaços da coordenação pedagógica. Esse processo foi interrompido, assim como o próprio PNEM, expressando a falta de abertura e disposição do governo federal em dialogar com os professores, sem os quais não se faz mudança alguma, muito menos reformas impostas! No debate da BNCC os professores foram substituídos por representantes dos interesses da privatização educacional. Não podemos esquecer também, que isso tudo, ocorre após a aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE) 2014-2024. Isso significa que, no momento que deveria ser de cumprimento do PNE, passamos a ter retrocessos significativos na agenda e nas políticas públicas educacionais, envolvendo financiamento, avaliação, gestão, formação de professores e currículo.
Por quê agora um dia “D” para discussão de um documento extenso, polêmico e complexo como a BNCC do Ensino Médio? Nós sempre desconfiamos de dias “D”. Esses são usados como mecanismos para camuflar as reais intenções dos governantes na implementação de políticas públicas. Por outro lado, é fato, que a resistência dos educadores, entidades representativas, universidades e outras organizações progressistas da sociedade civil repercutiu na decisão “política” de anunciar um dia para discussão do texto da Base. Portanto, em que pese, a nossa desconfiança, entendemos que precisamos aproveitar esse tal dia “D” para denunciar os equívocos da BNCC, mas também para anunciar o que pensamos sobre a educação do nosso país.
Comecemos pelo questionamento sobre o porquê do interesse dos reformadores empresariais na educação básica pública. O Censo MEC de 2017, indica que mais de 80% das matrículas da educação básica estão concentradas no setor educacional público, e esse é um espaço disputado pelo setor privado mercantil e neoconservador. E precisamos ficar bem atentos, pois os empresários da educação não querem apenas lucrar mais, caso tenham sucesso na inversão do percentual de matrículas a favor do setor privado, o que por si só já seria um absurdo. Sim, pois o que está em jogo no debate da BNCC é a disputa pelo conteúdo da educação para um grupo significativo da população. Essa é uma disputa por projeto de educação e de sociedade para a qual se tornam funcionais o que se prevê na Base Nacional Comum Curricular. Por isso, a preocupação em definir competências gerais, competências dos componentes curriculares, recuperando a “velha pedagogia das competências”, o reforço à dualidade histórica de educação para a elite e educação aligeirada para os grupos populares, maioria nas instituições públicas.
Enfim, devemos aproveitar o dia 02 de agosto para reforçar a concepção de educação como ato político, em que a escola, como espaço de contradições e tensões, tem seus limites e potencialidades marcadas pela luta de classes que se dá no seio da sociedade em seu conjunto, onde a resistência passa a ser a palavra de ordem, notadamente em tempos de avanço de forças conservadoras como os que vivemos hoje, no Brasil. Desconfiem de dias “D”!
Edileuza Fernandes Silva
Professora da Faculdade de Educação – UnB
Francisco José da Silva
Secretaria de Educação – EAPE

“Escola sem Partido”: trocando em miúdos

 
*Lúcia Ivanov
O povo brasileiro, desde pequeninho, é ensinado a não gostar de política e a detestar partidos. Isso tem feito, historicamente, a maioria abrir mão de participar das decisões que afetam sua própria vida, permitindo que aquela parte da sociedade que sempre formou a elite domine a economia, a imprensa, a Justiça, o País, enfim.
Não que essa elite não tenha seus partidos: esses partidos mudam de nomes de vez em quando, mas sempre existiram. Há famílias ricas que mantêm seus representantes no parlamento há cerca de 190 anos, ou seja, desde que o parlamento existe, sempre eleitos com os votos de quem não gosta de partidos ou acha que todos os políticos são iguais.
Por isso, temos deputado e senador Fulano de Tal Filho, Neto, Júnior, Sobrinho, Bisneto. Sim, a maioria no masculino, já que as mulheres, sendo 51% da sociedade, não chegam a ser 10% do Congresso Nacional, por exemplo.
A escola pública e a divisão social
Esse jeito de a maioria do povo encarar a política tem sido eficiente meio de exclusão e, ao mesmo tempo, de manutenção da minoria no poder, sendo a escola, ao longo dos séculos, instrumento de reprodução desse tipo de divisão social.
Mas muitas professoras e muitos professores vêm dedicando suas vidas a tornar o espaço da escola pública um organismo vivo, pleno de democracia, de civilidade, de criatividade, de educação e cultura e de convivência fraterna entre as diferenças e, sobretudo, de combate a todos os tipos de violência.
O resultado é alunas e alunos se sobressaindo, até mundialmente, vencendo em áreas antes povoadas, apenas, pelos de origem muito rica.
Por isso mesmo, prepostos dessa mesma elite, que se sente ameaçada pelos avanços propiciados pela escola pública, num exercício crueldade sem limites e aproveitando-se da boa fé das pessoas, estão tentando fazer uma proposta chamada “Escola sem Partido” se transformar em lei.
E há muitas/os embarcando em mais esta armadilha, pensando que tal proposta significaria “escola sem PMDB, PP, PCdo B, sem PSB, sem PSOL, sem PT, etc..” Para essa gente, seria uma escola neutra, partidariamente, como tão bem aprendeu.
É isso que querem que o povo pense. Então é preciso dizer, gritar que não é assim!
Desvendando a proposta
Trata-se, isto sim, de uma proposta de escola pública contrária aos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, principalmente os que se referem ao dever de construir uma sociedade livre, justa e solidária, que promova o bem de todos e todas, sem preconceitos de origem, raça, religião, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Trocando em miúdos, o que essa gente quer é escola pública sem interpretação de texto; sem interpretação crítica de sua própria realidade; sem História do Brasil; sem História Geral; sem Geografia; sem Filosofia; sem debate; sem cineclube; sem eleições democráticas; sem direito ao contraditório; sem vida inteligente, sem alegria!
Um ‘paraíso’ que perpetue a exclusão social: trabalhadoras/es em educação amordaçados e estudantes embrutecidos.
Escola contrária ao respeito a quem a frequenta
É escola pública proibida de mostrar de que raças o Brasil é feito e de debater a política transitória de cotas, que é uma indenização pouca e tardia a um povo que foi arrancado de sua terra e trazido para cá como escravo; é escola proibida de combater o racismo que, no Brasil, além de crime e de prática inaceitável, é burrice, pois poucos de nós não têm sangue negro.
É escola pública proibida de ensinar e aprender que feminismo não é o machismo às avessas, mas, sim, a luta de mulheres por igualdade de direitos, respeitadas as diferenças. O Brasil tem uma média de doze mulheres assassinadas por dia, sendo o País o quinto lugar do mundo mais perigoso para as mulheres e crianças viverem. É papel da escola mostrar que assédio, piadinhas, estupro, agressões físicas ou morais e assassinatos são violências inaceitáveis e que isso não é engraçado.
Não por acaso, a mesma gente que quer proibir essa discussão não apenas na escola, mas na sociedade, quer ‘amenizar’ as punições previstas na pioneira Lei Maria da Penha. É escola pública proibida de ensinar o respeito à diversidade cultural e à orientação sexual.
Escola contra a soberania do povo e do país
É escola pública que se omitirá de dizer que todos os países da América Latina têm a mesma história de genocídio e de exploração e que, por isso mesmo, devem se unir para combater os exploradores que, historicamente, não desistem de nos escravizar.
É escola que não discutirá a soberania a quem têm direitos todos os países e, menos, ainda, mostrará que a solidariedade é o amor entre os povos.
A entrega da imensa riqueza representada pelo nosso pré-sal aos norte-americanos, cujos recursos, inicialmente, eram destinados, 75% para a educação e 25% para a saúde; a perseguição do mundo e da imprensa ocidental à Venezuela, porque o governo se nega a entregar seu petróleo são, ainda hoje, exemplos claríssimos de ataque à soberania de países latino-americanos.
Escola com antolhos
É escola pública que se calará diante do fato de que o povo brasileiro sempre teve negado um direito humano que é o direito à informação correta, porque a imprensa é propriedade de sete famílias ricas, que só noticiam aquilo que é de seu interesse e que, por isso mesmo, mentem, omitem, distorcem, destroem vida e reputação de quem se insurge contra ela e contra seus objetivos. Um imprensa que esconde o Brasil dos brasileiros.
É escola pública ensinando religião, quando ensinar religião é uma decisão apenas e tão somente da família! É a escola impondo uma religião ou uma vertente religiosa em detrimento das demais. Religião é questão de foro íntimo! Cada um que tenha a sua, respeitando quem tem outra diferente e quem não a tem, inclusive.
Querem destruir o Estado laico, o único que permite liberdade de crença, de culto, de religião. Essa gente não quer escolas para construir cidadãos, mas fanáticos religiosos. Ninguém precisa de talibãs, versão tupiniquim.
Escola pra formar gente tosca e subalterna
Não bastasse o estado de quase barbárie em já que vivemos hoje – os torcedores brasileiros deram ao mundo, durante a Copa na Rússia, o testemunho dessa calamidade – a escola pública “sem partido” proposta, em resumo, é um espaço em que valores humanos e científicos e o exercício da crítica serão deixados de lado para dar lugar a um campo de adestramento de mão de obra barata e servil. Um escola proibida de dizer aos seres humanos que eles têm direitos.
É, enfim e resumindo, uma proposta de escola para solidificar e perenizar a barbárie de todos os preconceitos, do fanatismo religioso, da ignorância, da falta de cultura, do machismo, do racismo, da falta de civilidade, da falta de solidariedade em geral e da violência contra trabalhadores e trabalhadoras em educação.
E as escolas particulares frequentadas pelos ricos tratarão de formar os/as que continuarão mandando no Brasil, com prejuízo para a maioria, como acontece há mais de 500 anos.
Uma escola antieducação
Está claríssimo: a proposta de “Escola sem partido”’, na verdade, não é escola; é campo de adestramento. Dentre alunos e alunas adestrados para o subemprego, não sairão cientistas importantes, professoras/es, médicos/as, engenheiros/as, escritoras/as, artistas, compositoras; ninguém que contribua com a elevação do patamar de civilidade para tornar a vida mais saudável.
A professoras e professores das escolas públicas, o papel de capitão do mato ou de adestradores, o que lhes mataria a alma de educadores que, na lida, também se educam e também aprendem; e aos alunos e alunas das escolas públicas, a mediocridade!
A ideia é matar, no nascedouro, o Brasil soberano, feliz e igual que nasceria todos os dias na escola pública, com trabalhadoras e trabalhadores em educação bem remunerados, cientificamente competentes; com crianças e adolescentes participativos, respeitosos e respeitados, no exercício de uma educação libertadora.
*Maria Lúcia de Moura Iwanow, professora aposentada, é cofundadora da CNTE e ex-secretária
de imprensa da entidade

É hora de torcer e lutar pelo Brasil!

Por Yuri Soares*
Dia 14 de junho começa a Copa de Mundo de Futebol na Rússia. No entanto, a pouco mais de duas semanas do maior espetáculo da Terra, o povo brasileiro não parece nada empolgado com o evento: as ruas não estão sendo pintadas, o comércio patina e são poucos os comentários nas mesas de bar e reuniões familiares.
Há alguns motivos para esse desânimo. O primeiro e mais óbvio foi o fiasco da Seleção Brasileira em casa na Copa do Mundo de 2014. É difícil superar aquele ridículo 7×1.
Mas há também outros fatores, como a falta de identificação dos torcedores com os jogadores selecionados. Quase todo o elenco joga em clubes de fora do país. De clubes brasileiros, somente 3 jogadores de 2 equipes, os outros 20 jogadores atuam em times estrangeiros. Isso é somente mais um sintoma da crise que vive o futebol brasileiro, que necessita de uma ampla reformulação em sua legislação, financiamento, estrutura e relação com a mídia.

Para piorar a situação da falta de identidade entre jogadores e a população, a maioria dos jogadores, quando não silenciam sobre os problemas do povo e do Brasil, se posicionam de forma deprimente, como o apoio de Neymar a Aécio Neves em 2014.

No último domingo a seleção embarcou para a Europa quase escondida, sem realizar nenhum jogo de despedida com preços acessíveis ou treino aberto em um grande estádio.
O cenário de aprofundamento da crise econômica, social e política do país também é um problema. Há uma descrença generalizada sobre o presente e o futuro do país, e isso afeta também o ânimo do torcedor em relação à sua seleção. Tanto aqueles que desde o início sabiam que era golpe, quanto aqueles que foram ou ainda são manipulados, mas que sentem na pele a sua vida piorar e a situação geral deteriorar-se a cada dia.
O futebol em nosso país é mais que um mero evento esportivo ou espetáculo. É parte da nossa cultura e sociabilidade quando nos encontramos e, além de assistir aos jogos, também discutimos os mais variados temas.

Em diversos momentos da história, dentro e fora de campo, foram realizados protestos sobre várias pautas, seja o Vasco combatendo o racismo na década de 20, a Democracia Corinthiana defendendo as eleições diretas dentro de campo e nas manifestações de rua durante a ditadura militar, ou mesmo as manifestações de torcedores contra Temer nas arquibancadas.

Em seus embates por um futebol mais democrático, por muitas vezes, setores populares se confrontam tanto com o oligopólio midiático da Globo e demais veículos, como os cartolas mafiosos dos clubes, federações e CBF, o que não deixa de ser uma forma de politização.

Muita gente confunde o apoio à seleção com o apoio ao governo em questão, o que não condiz com a realidade. Na Copa de 1970, a ditadura militar tentou captar para si a euforia do momento. Alguns militantes progressistas se viram na encruzilhada de torcer ou não a favor do escrete. No entanto, a popularidade do regime se devia muito mais ao crescimento econômico do período do que ao futebol.

Observando as Copas mais recentes, em 1998, a seleção perdeu a copa e FHC foi reeleito; em 2002, a seleção venceu e o candidato eleito foi o oposicionista Lula; em 2006, a seleção perdeu e Lula foi reeleito; em 2010, novamente a seleção perdeu e foi eleita a governista Dilma; em 2014, mesmo com o fiasco histórico da seleção, Dilma foi reeleita. Isso demonstra que não há ligação direta entre o resultado na competição e o resultado eleitoral.
Provavelmente o torcedor esteja esperando ver para crer e, a depender dos primeiros resultados, sua postura em relação à Copa pode mudar.
Já virou febre o fenômeno das camisetas vermelhas alternativas. Muita gente quer torcer para a seleção brasileira sem vestir a mesma camisa verde e amarela utilizada pelos patos que bateram panela a favor do golpe. É um fenômeno interessante e bonito, mas não devemos identificar de forma automática quem utilizar a camisa tradicional durante a Copa como golpista. Vai ter gente de todo tipo vestindo a camiseta canarinho.
Por fim, deixemos o papel de torcer contra o Brasil para aqueles que o fazem sempre, seja no futebol, na política, na cultura e na sociedade. Aqueles que preferem ver nosso país derrotado e de joelhos. Vamos não só torcer pelo Brasil na Copa, como dialogar com nossos amigos e familiares sobre a necessidade de lutarmos coletivamente para tirá-lo do atoleiro em que estamos. Inclusive com aqueles que estiveram em lados opostos ou se calaram até agora. Tirar o Brasil do buraco e reconstruir a democracia será tarefa para os brasileiros e mais ninguém.
* Professor de História da rede pública de ensino do DF  e diretor de Políticas Sociais do Sinpro-DF
Texto publicado originalmente na Revista Fórum

Venezuela: exemplo de resistência

 Apesar dos ataques sistemáticos e violentos do imperialismo, a Venezuela resiste e fortalece a democracia

Rosilene Corrêa Lima*
Nicolás Maduro foi eleito com 68% dos votos em eleições livres – realizadas no dia 20 de maio – e nos limites da Constituição da Venezuela. Vigora no país a liberdade de expressão, os partidos opositores atuam com liberdade, protestos contra o governo ocorrem quase todos os dias e só são reprimidos quando se tornam violentos. Nesse cenário, é preciso muita má-fé e desonestidade para apontar o presidente como um ditador.
A democracia venceu a despeito de os Estados Unidos gastarem milhões de dólares anualmente para financiar a oposição venezuelana, que tentou boicotar as eleições e do isolamento político-econômico impingido à Venezuela, dificultando seu comércio exterior, bloqueando investimentos e impedindo a renegociação de suas dívidas.
Ao tempo em que Maduro realizava pronunciamento afirmando que seu governo deseja a paz e que está disposto a conversar com seus opositores, 14 países – dentre os quais, pasmem, o governo “democrático” brasileiro – manifestaram em nota o não reconhecimento às eleições.
Memória – O fato é que a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo. E os Estados Unidos são o grande consumidor desse produto, importando cerca de 60% do que consome. Boa parte desse petróleo tem origem no Oriente Médio, mas é caro e demorado trazê-lo ao solo norte-americano. Muito mais fácil é desestabilizar a Venezuela, e garantir petróleo barato e rápido com a volta de uma oligarquia que colocou, por mais de 40 anos, o povo venezuelano em uma situação subalterna, dependente, sem dignidade e pobre. 
Esse ciclo que condenava o povo à miséria só foi rompido com a ascensão de Hugo Chavéz e do ideário bolivariano ao poder – que tem continuidade agora com Maduro.
Golpe – Por interesses puramente econômicos e empresariais, a palavra de ordem dos oligarcas, banqueiros e do governo norte-americano é depor Maduro – promovendo a sabotagem econômica e impondo sanções ao país. Junte-se a isso uma manipulação midiática que vergonhosamente distorce fatos para convencer o mundo de que se faz necessária uma intervenção para o restabelecimento da democracia na Venezuela. Palavras como opressão, ditadura, miséria, censura e fome são diariamente repetidas ao extremo. Porém, vale lembrar que nos 15 anos da Revolução Bolivariana ocorreram 19 eleições.
Políticas sociais – A despeito e por causa dos ataques sofridos pelo povo venezuelano, a defesa da soberania tem sido a tônica da revolução bolivariana – marcadamente nacionalista e com foco nas políticas sociais em benefício da maioria da população.
Hoje, milhões de venezuelanos têm acesso a serviços de saúde adequados, por meio de uma rede de postos de atendimento instalados nas áreas mais pobres e operados por médicos e outros profissionais cubanos. O analfabetismo foi erradicado. A rede de ensino público em todos os níveis, inclusive o universitário, ampliou-se em tal escala que hoje a Venezuela é o país do mundo com mais estudantes no ensino superior, em proporção ao número de seus habitantes. Para enfrentar o déficit habitacional, já foram entregues mais de 1,7 milhão de moradias a famílias de baixa renda com pagamento compatível com sua condição econômica. Os idosos conquistaram o direito à aposentadoria digna, os salários reais se elevaram significativamente e a participação popular nas decisões sobre gastos públicos se tornou prática cotidiana em milhares de conselhos comunitários espalhados pelo país inteiro.
Resistência – Mesmo sob ataque, a Revolução Bolivariana resiste. Parcela significativa da população mantém sua fidelidade ao chavismo, consciente do retrocesso político e social que significaria a derrubada do governo de Maduro e a tomada do poder por uma elite fascista e com sede de vingança pelos privilégios perdidos.
Lições para o Brasil e América Latina – O capitalismo em sua fase imperialista está em decadência. Por isso, os traidores internos, como na Venezuela, historicamente se somam aos norte-americanos. Surgem, então, golpes como na Guatemala, no Paraguai e no Brasil.
Na América Latina a disputa se dá entre dois campos políticos que se expressam de forma distinta em cada país, mas que representam interesses similares em âmbito mais amplo. O governo e as classes dominantes dos Estados Unidos e de outros países imperialistas, como Espanha e Canadá, aliados aos governos direitistas latino-americanos e às classes dominantes de cada país, atuam em bloco para defender o neoliberalismo e suas políticas de morte. Por outro lado, os governos progressistas, como os da Venezuela e da Bolívia, buscam construir políticas públicas para atender as demandas sociais das classes menos favorecidas e em defesa da soberania nacional.
Não podemos perder de vista o resultado de cada eleição, o sucesso ou fracasso de cada tentativa de golpe de estado, a consolidação ou desestabilização de cada governo, pois são fatos que transcendem fronteiras, impactando a correlação de forças no cenário político da Região.
Para organizar organicamente a resistência, além de implementar políticas sociais inclusivas, é fundamental investir fortemente na formação de quadros e na criação de mecanismos de participação democrática, o que fortalece a responsabilidade para com o Estado, com suas políticas públicas e com a defesa da democracia e da soberania nacional.
A articulação e o apoio aos governos progressistas, de forma solidária e determinada é o que garantirá a resistência para barrar o avanço do capitalismo selvagem que golpeia governos para retirar direitos e aumentar lucros.
*Professora, diretora do SINPRO-DF, da CUT Brasília e da CUT Nacional. Secretária de Finanças da CNTE

Acessar o conteúdo