Na mídia | Não basta reserva de vagas para PCDs: SEE deve superar capacitismo e investir em inclusão global

No dia 21 de setembro, comemoramos o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência. Após 17 anos da sanção da Lei nº 11.133/2005, que estabeleceu a data comemorativa, o Brasil e, principalmente, a rede pública de ensino do Distrito Federal, ainda enfrentam barreiras preconceituosas que têm impedido a inclusão global das Pessoas com Deficiência (PCDs) e impedido melhorias nas condições de trabalho.

 

Com o título Não basta reserva de vagas para PCDs: SEE deve superar capacitismo e investir em inclusão global, o artigo do diretor Carlos Maciel apresenta um diagnóstico da situação na SEE-DF e aponta as barreiras que devem ser derrubadas para a inclusão global das PCDs. O artigo foi publicado nos jornais Brasil Popular, Brasil de Fato, Brasília Capital e nos sites da Revista Fórum e GGN.

 


 

Não basta reserva de vagas para PCDs: SEE deve superar capacitismo e investir em inclusão global

 

Por Carlos Maciel (*)

 

Após 17 anos da sanção da Lei nº 11.133/2005, que estabeleceu o 21 de setembro como o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, o Brasil e, principalmente, a rede pública de ensino do Distrito Federal, ainda enfrentam barreiras colonialistas e preconceituosas que têm impedido a inclusão global das Pessoas com Deficiência (PCDs).

A data foi instituída para a conscientização sobre a importância do desenvolvimento e da aplicação de meios de inclusão das pessoas com deficiência na sociedade. A Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEE-DF) foi diligente, adotou a lei de imediato, e instituiu reserva de vagas para profissionais PCDs nos concursos para professor e orientador educacional. Parecia estar atenta e cuidadosa na aplicação da lei.

No entanto, chegamos a 2022 com sérios problemas que impedem a total inclusão dos(as) profissionais de educação nas unidades da SEE-DF, que, sobretudo nas salas de aula, interferem nas condições de trabalho do(a) professor(a) e do orientador(a) educacional PCDs. Além da manutenção da reserva de vagas nas seleções e da realização de mais concursos públicos para a rede pública de ensino com essa prerrogativa, a secretaria precisa ultrapassar os limites do preconceito e vencer os velhos e conhecidos empecilhos que vetam a inclusão dos PCDs, principalmente as barreiras atitudinais, comunicacionais e, por incrível que pareça, ainda, as limitações arquitetônicas.

Consideramos que o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência é um dos momentos mais apropriados para a gente relatar e apontar os problemas, sugerir soluções e cobrar políticas de inclusão. Daí que, neste 21 de setembro de 2022, notadamente, consideramos a data mais um momento especial para a gente mostrar que não basta a reserva de vagas nos concursos para profissionais PCDs, a SEE deve investir o dinheiro público em inclusão educacional e em inclusão global desses profissionais.

Os desafios são imensos porque, sobretudo nos últimos 5 anos, o Brasil foi tomado, após o golpe de Estado de 2016, pelas políticas econômicas neoliberais, que instituíram um Teto de Gastos por 20 anos no Orçamento público, cujo único objetivo é entregar dinheiro público ao sistema financeiro, alguns grandes empresários e alguns rentistas. Para realizar essa transferência de dinheiro público a banqueiros e rentistas, usam um mecanismo denominado dívida pública. Uma dívida que, embora esteja prevista sua auditoria na Constituição, nunca foi auditada. Todas as políticas públicas sociais de responsabilidade do Estado nacional democrático e de bem-estar social foram prejudicadas pela Emenda Constitucional 95/2016, do governo Michel Temer (MDB), e esse prejuízo foi aprofundado no governo Jair Bolsonaro (PL). A inclusão de PCDs, como todas as outras relacionadas à inclusão social, é uma das prejudicadas.

A imposição da EC 95 prejudicou visceralmente o investimento de dinheiro público na educação e, consequentemente, na inclusão educacional e social. Os governos estaduais que aderiram ao projeto de governo de Bolsonaro, que aprofundou os problemas trazidos pelo golpe de Estado de 2016, não investiram na eliminação dessas velhas barreiras impeditivas que prevalecem até hoje na escola. Uma das principais é a falta de investimento em campanhas e outras ações de conscientização das pessoas, o que favorece a persistência das barreiras atitudinais.

O preconceito é um dos mais perversos desafios a serem eliminados. Mas não é somente isso. Na rede pública de ensino, enfrentamos outros obstáculos, como os arquitetônicos, tecnológicos, comunicacionais, que pioram, todo dia, a vida dos(as) profissionais PCDs. Com essas barreiras, eles e elas têm sua participação limitada no mundo do trabalho, na sociedade, e, principalmente, na SEE-DF. Se veem prejudicados na execução do magistério. Por isso insistimos que não basta reserva de vagas nos concursos, é preciso eliminar os entraves que ainda existem na escola. Precisamos, urgentemente, de políticas globais de inclusão.

 

Visão capacitista: a negação da acessibilidade

Dentro desse lugar de fala da Pessoa com Deficiência, temos desafios estruturais a serem vencidos, fundamentais para a transformação de uma sociedade preconceituosa e excludente em uma sociedade mais imparcial, isenta, inclusiva e, consequentemente, mais justa. Um deles é a eliminação da visão capacitista que existe na SEE-DF. O capacitismo é um tipo de preconceito em relação à pessoa com deficiência, a sua capacidade e habilidade. Sabemos que todas as PCDs, assim como as pessoas que não têm deficiência, são plenamente capazes.

O capacitismo gera bloqueios sociais invisíveis e, por serem quase que imperceptíveis por estarem diluídos nas chamadas barreiras atitudinais, precisam ser identificados e eliminados porque o problema não está na pessoa com deficiência, como é colocado pelo entendimento capacitista de que as pessoas com deficiência não são capazes. Elas são capazes sim desde que os obstáculos sejam derrubados. O problema, portanto, está na sociedade capacitista que coloca empecilhos às PCDs.

As barreiras ocorrem quando a acessibilidade é negada, quando as adaptações para o(a) professor(a) com deficiência são negadas. Sem essas adaptações, o(a) professor(a) não poderá ser incluso(a). Assim como existem estudantes com deficiência na rede pública de ensino, que precisam de adaptações para serem inclusos, os(as) professores(as) com deficiência também precisam de adaptações para que possam exercer suas funções e serem inclusos(as) no trabalho.

Não podemos, simplesmente, reconhecer que temos servidores(as) com deficiência na rede e não oferecermos condições para que eles(as) executem o seu trabalho com as barreiras que temos ainda hoje . É preciso atacar esse tipo de problema dentro da SEE-DF e das suas unidades escolares porque impedem os(as) profissionais PCDs de executarem sua profissão e de desempenharem o magistério com condições dignas de trabalho. Daí que o primeiro passo é a SEE-DF reconhecer que não apenas existem servidores(as) com deficiência, mas que, também, esses(as) servidores(as) com deficiência, assim como os(as) estudantes com deficiência, necessitam de ambientes acessíveis.

Precisamos de adaptações de acessibilidade que extrapolem a solução arquitetônica. Estamos falando de adaptações de acessibilidade num sentido amplo porque cada pessoa com deficiência é única. Muitas vezes fazemos adaptações para uns que podem não ser suficientes para outros. Assim, a superação das barreiras vai muito além da adaptação da arquitetura. Precisamos construir outras adaptações, como, por exemplo, as comunicacionais. Precisamos de intérpretes de libras. Por incrível que pareça, faltam intérpretes de libras na rede.

Além disso, falta a adaptação da linguagem para uma linguagem mais simples. Há servidores(as) com deficiência intelectual que necessitam de uma comunicação de linguagem simples. Precisamos, por exemplo, de profissionais para fazer o papel de suporte. Temos necessidade de adaptação até de um suporte maior para esse(a) servidor(a) com deficiência, assim como temos profissionais que auxiliam nossos(as) estudantes, como monitores(as).

Muitas vezes, nossos(as) professores(as) com deficiência precisam de um(a) profissional que os(as) auxilie nas demandas diárias, uma pessoa a seu lado para coadjuvar, para ser um(a) assistente técnico(a). Temos diversas formas de adaptação. Qual o melhor jeito de a SEE-DF compreender a necessidade dessas adaptações? A melhor forma é justamente ouvir os(as) servidores(as) com deficiência porque somente esse(a) servidor(a), com sua deficiência, poderá dizer qual a adaptação necessária. Neste 21 de setembro, alertamos para a necessidade do fortalecimento da luta da Pessoa com Deficiência dentro da SEE-DF, da inclusão global e da melhoria das condições de trabalho desses(as) profissionais.

 

(*) Carlos Maciel, professor da rede pública de ensino do Distrito Federal e diretor do Sinpro-DF

NA MÍDIA | Em artigo, diretora do Sinpro aborda como Bolsonaro transformou o 7 de setembro num comício eleitoral

O uso da máquina do Estado, quer seja em sua infraestrutura ou em suas verbas, em prol da candidatura à presidência da República foi mais um ato de desrespeito de Jair Bolsonaro como Chefe de Estado. No dia 7 de setembro, ele transformou uma data que deveria ser de comemoração em um comício eleitoral.

O artigo O perfeito equilíbrio entre vigiar (a democracia) e punir (demagogos), escrito pela diretora do Sinpro-DF Luciana Custódio, aborda esta temática. O material foi publicado no portal do Brasil de Fato, da Revista Fórum e nos jornais Brasil Popular e GGN.

Leia o artigo completo abaixo.

 

O perfeito equilíbrio entre vigiar (a democracia) e punir (demagogos)

 

Mais uma vez, o Brasil (e o mundo) assistiram ao atual presidente do Brasil usar a máquina do Estado, seja em sua infraestrutura, seja em suas verbas, em prol de sua candidatura à presidência da República.

Neste ano da graça de 2022, em que se comemoram 200 anos do Grito do Ipiranga, tudo o que o inquilino do Palácio da Alvorada não celebrou foi o bicentenário da independência.

Deveríamos estar, desde janeiro, falando de nossa história. Discutindo na mídia, nas escolas, nos museus, o que aconteceu no 7 de setembro de 1822 e quais as consequências desse ato até os nossos dias; a participação das mulheres; a história floreada para transformar um imperador errante em herói. Era para estarmos impregnados de D Pedro I, Leopoldina, Bonifácio, Quitéria e tantos outros personagens da Independência.

O que o país inteiro assistiu foi um candidato radical de extrema direita posando de “outsider”, alguém que (supostamente) não faz parte dos meandros da política seguindo a cartilha da usurpação de poder de Steve Bannon para a extrema direita: transformar a mídia em inimiga, e inundá-la com narrativas, valores e versões de mundo e de poder da extrema direita: e dá-lhe presidente “imbrochável” casado com “uma princesa”; e dá-lhe sistema malvado e ativista (“Hoje, vocês sabem também como funciona a Câmara dos Deputados, sabem como funciona o Senado Federal e sabem também como funciona o Supremo Tribunal Federal”); e dá-lhe judiciário defensor de um sistema eleitoral que só na cabeça deturpada da extrema direita é fraudável. (“Esperem uma reeleição para vocês verem se todos não vão jogar dentro das 4 linhas da Constituição.”).

O objetivo desse discurso não é persuadir, mas desorientar. Com dois discursos, Jair Bolsonaro dominou a atenção do país durante todo o dia. Transformou o que deveria ser um ato de Chefe de Estado num comício eleitoral. E transmitiu esse comício pela TV Pública para todo o país – e para o mundo inteiro, via Internet. Transformou um ato oficial de chefe de Estado, representante de todos os brasileiros, em um ato de campanha eleitoral, partidário e enviesado. Não há patriotismo, há partidarismo. Há radicalismo.

Respeito às instituições democráticas passou longe dos atos do inquilino do Palácio da Alvorada. E o pior: ele se valeu de instituições de Estado para agir, com objetivos e interesses pessoais, contra outras instituições de Estado. É um ato demagogo, típico do populismo radical de extrema direita – e prática na Hungria de Viktor Orbán, na França de Marine Le Pen, na Itália de Matteo Salvini e tantos outros países fora da Europa Ocidental. É o modus operandi da extrema direita radical em todo o mundo. Quem perde com isso é a Democracia. É o Estado Democrático de Direito.

Lembram Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, no famoso livro Como as Democracias Morrem, que quando demagogos surgem no cenário político com o objetivo de destruir democracias, são os líderes partidários que tomam medidas para garantir que autoritários fiquem longe dos centros de poder:  “[Os líderes partidários] fazem um esforço orquestrado para isolá-los e derrotá-los [os demagogos]. Embora as respostas populares aos apelos extremistas sejam importantes, mais importante é saber se as elites políticas, e sobretudo os partidos, servem como filtros. Resumindo, os partidos políticos são os guardiões da democracia.”

Cabe agora aos líderes partidários, representantes de instituições democráticas que são os partidos políticos, exercerem seu poder institucional de guardiões da democracia. Cabe agora a eles fazerem as instituições atacadas responderem, à altura, a essa ameaça à democracia.

Advogados, procuradores e ex-ministros do Tribunal Superior Eleitoral já deram o caminho das pedras à coluna de Malu Gaspar, no Globo: A transformação do desfile militar de 7 de Setembro em palanque da campanha à reeleição de Jair Bolsonaro (PL) justifica a abertura de uma investigação contra o presidente por abuso de poder político e econômico, avaliam especialistas, procuradores e ex-ministros do TSE. O caminho das pedras também está nesse artigo: “o êxito de uma eventual ação vai depender da robustez das provas colhidas na apuração. (…) “o abuso está caracterizado. Já o sucesso desse tipo de ação dependerá das provas que produzirem. Basta lembrar o caso dos disparos de WhatsApp de 2018. Todos concordaram que havia irregularidade, mas julgaram a ação improcedente por falta de prova”, frisa um ex-ministro do TSE.

Não esperemos de Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, a cassação da candidatura de Jair Bolsonaro. Tal atitude incendiaria ainda mais o já distendido e polarizado processo eleitoral e jogaria o país no caos institucional. Tão comparado a Michel Foucault por sua semelhança física, cabe a Moraes o equilíbrio perfeito entre vigiar e punir. A campanha de Bolsonaro deve receber uma multa pesada, milionária, por esses atos antidemocráticos.

E por último, mas não menos importante, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que busca tanto desvincular sua imagem da de Bolsonaro, estava tão preocupado em enviar “pelotões (sic) de estudantes” para participarem da marcha do 7 de setembro que, também valendo-se monocraticamente de suas prerrogativas de Chefe do poder Executivo, baixou portaria que, na prática, tirou 200 mil reais da verba do PDAF para custear essa participação de jovens estudantes. Para quem não é de Brasília, o PDAF é o Programa de Descentralização Administrativa e Financeira, que confere autonomia financeira às unidades escolares e coordenações regionais de ensino (CREs), nos termos do projeto político-pedagógico e planos de trabalho de cada uma. É verba para troca de lâmpadas, consertos rápidos e contratação de ônibus para excursões, por exemplo.

Ibaneis, portanto, acabou por contribuir para a pantomima eleitoral do Presidente da República, não deu ouvidos às necessidades dos gestores escolares e manobrou como bem entendeu uma verba que não lhe pertence, e não tem essa finalidade. Agiu igual ao presidente de quem tanto tenta se desvencilhar.

Por Luciana Custódio de Castro, diretora do Sindicato dos Professores no DF (Sinpro-DF)

MATÉRIA EM LIBRAS

NA MÍDIA | Em artigo, dirigente do Sinpro-DF fala sobre atentado contra Kirchner e riscos ao Brasil

A tentativa de assassinato da vice-presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, foi assunto no mundo inteiro, e abriu brecha para uma série de reflexões sobre o que pode acontecer no Brasil. Isso porque a tentativa de crime contra Kirchner é pavimentada no ódio, na intolerância, no autoritarismo: condições que rondam o Brasil e contam, inclusive, com o respaldo do chefe de Estado.

O artigo “Atentado contra Cristina Kirchner é mais um duro golpe na democracia e na luta pelo contraditório”, escrito pelo dirigente do Sinpro-DF Cláudio Antunes fala sobre isso. O material foi publicado no portal do Brasil de Fato, da Revista Fórum e nos jornais Brasil Popular e GGN.

Leia o artigo completo abaixo.

Atentado contra Cristina Kirchner é mais um duro golpe na democracia e na luta pelo contraditório, por Cláudio Antunes

Por Cláudio Antunes*

Às vésperas do processo eleitoral que definirá as novas lideranças políticas do Brasil, a tentativa de assassinato da vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, escancara ainda mais a escalada da violência, da intolerância e de atentados contra a democracia. Apesar do crime ter ocorrido na Argentina, o caso diz muito sobre o sentimento que boa parte do mundo vive hoje, movido por discursos de ódio; por leis que pregam a intolerância e contra sentimentos de pacificação, de ponderação e de respeito às divergências e ao contraditório; além do discurso de líderes políticos que fomentam o terrorismo e o autoritarismo.

Como maçãs podres em um cesto, pessoas, grupos e organizações criminosas com este perfil têm comprometido a sociedade, ameaçando o Estado democrático de direito no Brasil e no mundo. No Brasil, este “apodrecimento” é notado pelos constantes ataques feitos pelo governo de Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF); ao sistema eleitoral brasileiro; à tentativa de golpe de Estado em caso de derrota nas urnas; ao ataque sistemático às minorias e à imprensa; o culto à ditadura militar, além de outros mecanismos que Bolsonaro e seu clã têm adotado para disseminar sentimentos como o que vimos em Buenos Aires.

Política armamentista
A política armamentista implantada no Brasil nos últimos anos é mais um capítulo dessa novela que deve ser analisado com cuidado. O acesso mais fácil a armas amplia as chances de casos como o que aconteceu na Argentina e de um possível golpe de estado em caso de derrota do atual governo no processo eleitoral acontecer. Segundo pesquisa, em três anos o Brasil chegou a 46 milhões de permissões para a compra de armas. A política foi propalada como um direito à defesa da população, mas ao contrário do que prega Bolsonaro, a cada dia a violência, a discórdia, a intolerância e o ódio aumentam, se espalhando pelo país inteiro.

*Claudio Antunes é professor da rede pública de ensino do DF e dirigente do Sinpro-DF

Dia do Orgulho Lésbico: há muita luta pela frente

Élbia Pires*

 

Dia 19 de agosto celebramos o Dia do Orgulho Lésbico no Brasil. A história da data remete à luta das mulheres lésbicas pelo seu direito à visibilidade, ao livre exercício do amor e da organização política.

Aconteceu que, em 1983, o proprietário de um bar chamado Ferro’s, em São Paulo, local de encontro de um público progressista, inclusive LGTQIA+, proibiu a circulação do jornal “Chanacomchana”, editado pelo Grupo Ação Lésbica Feminista (Galf). Dia 19 de agosto daquele ano, as mulheres do Galf tomaram o local com um grande protesto denunciando a censura – notem que a ditadura militar estava em seu final – e exigindo visibilidade e respeito. Ao final da ação, o proprietário do Ferro’s pediu desculpas às mulheres e permitiu a venda do jornal. Foi assim que a data se tornou um marco da luta das mulheres lésbicas.

Esse episódio, como tantos outros que seguem acontecendo cotidianamente, atestam que a luta continua sendo muito necessária. No atual período de trevas no qual o Brasil está mergulhado, o desprezo pelos direitos humanos é uma bandeira para o presidente da República e seus seguidores. É o chefe do executivo quem mais incita a violência, encontrando eco em sua base de sustentação na sociedade e nos parlamentos Brasil afora.

A frequente defesa do armamento da população põe em risco sobretudo a vida da comunidade LGBTQIA+, mulheres, pessoas negras, moradores das periferias. Os cortes orçamentários nas áreas sociais, a criminalização de educadores(as) que debatem direitos humanos nas salas de aula, o descaso com a saúde do povo, a ciência e a produção de conhecimento e de cultura atingem principalmente esse setor da população.

Por isso, é mais importante do que nunca eleger políticos(as) comprometidos(as) com a pauta LGBTQIA+. Precisamos fortalecer essa agenda no Congresso Nacional, nos estados e municípios para garantir a dignidade desse segmento da população, defender sua liberdade e sua vida.

 

Pauta atualíssima

As reivindicações da comunidade LGBTQIA+ por inclusão são também pelo direito à vida: as agressões físicas e morais chegam a se tornar assassinatos – e, infelizmente, isso não é raro no Brasil. Entretanto, a lesbofobia e os ataques às mulheres lésbicas têm contornos e dimensões específicas que exigem, portanto, políticas públicas dirigidas.

Segundo um estudo realizado por pesquisadoras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), os assassinatos de mulheres em razão de serem lésbicas, aumentou 237% no Brasil entre 2015 e 2019. Um levantamento feito pela revista eletrônica Gênero e Número a partir de dados obtidos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan, parte do Ministério da Saúde) aponta que, em média, 6 lésbicas foram estupradas por dia em 2017, em um total de 2.379 casos registrados. Em 61% dos casos notificados, a vítima foi estuprada mais de uma vez.

 

Graças à luta incansável das mulheres lésbicas, o “estupro corretivo” tornou-se um agravante para o crime de estupro. É apenas nos organizando que faremos frente às ideias medievais do presidente e seus apoiadores, que já demonstraram centenas de vezes seu particular desapreço pelas mulheres – que dirá pelas mulheres lésbicas.

 

Luta e esperança sempre

Todos os avanços e conquistas que tivemos ao longo da história foram sempre produto da luta coletiva. Nossa cor é o arco-íris, que expressa nas suas cores a alegria, a diversidade, a esperança e – sim! – o orgulho.

Os tempos são de trevas, mas nós temos nossa alegria, nossa diversidade, nossa esperança e nosso orgulho em que nos agarrar. São nossas armas para iluminar e superar este triste momento em direção a um mundo onde caibamos todas, todos e todes com o mesmo direito à felicidade e ao amor! Viva o Dia do Orgulho Lésbico!

 

* Élbia Pires é professora, coordenadora da Secretaria de Saúde do Sinpro-DF.

O respeito aos povos indígenas não pode estar restrito à história

Leia abaixo artigo de Raimundo Kamir, diretor da Secretaria de Políticas Sociais do Sinpro, sobre o Dia Internacional dos Povos Indígenas. Artigo originalmente publicado nos portais Brasil de Fato, Brasil Popular e Revista Fórum.

O respeito aos povos indígenas não pode estar restrito à história

Raimundo Kamir*

Se analisarmos atentamente, perceberemos a riqueza e a importância da cultura indígena na construção da identidade nacional brasileira.

Não é somente nas linhas dos livros de história que essa riqueza se faz presente, mas, também, em elementos contidos na dança, nas festas populares, na culinária, no artesanato e, principalmente, na língua portuguesa falada no Brasil, que é fruto do processo de aculturação entre povos indígenas, negros e europeus.

O dia 9 de agosto relembra a responsabilidade de proteger histórias, legados, espaços e direitos destes povos. Mas tudo isso tem, de fato, sido respeitado?

Desde o início do governo de Jair Bolsonaro, o desrespeito aos povos originários é gritante. Elencando alguns exemplos, temos a perspectiva nula da demarcação de terras no atual governo, o que gera problemas crônicos para os indígenas; a tramitação, no Congresso, do PL 490, que prevê a revisão do usufruto exclusivo das terras pelos indígenas, previsto na Constituição; o desmonte da Funai, o que fragiliza ainda mais a situação destes povos; a drástica destruição da Amazônia, fato que atinge diretamente os povos originários; além do desmatamento e da retirada de riquezas vegetais e minerais de forma criminosa.

O Relatório Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil, divulgado em 2020 pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), apresenta bem o retrato de um ano trágico para os povos originários no país.

A grave crise sanitária provocada pela pandemia do Coronavírus, ao contrário do que se poderia esperar, não impediu que grileiros, garimpeiros, madeireiros e outros invasores intensificassem ainda mais suas investidas sobre as terras indígenas. O resultado é o aumento de casos de tortura, perseguição, massacre e desrespeito.

Toda esta destruição pode ser vista em números. Nos últimos anos, mais de um bilhão de árvores foram perdidas, caracterizando o maior desmatamento da história.

Quase 20% da Amazônia já foi desmatada e cientistas afirmam que o país está próximo de atingir um ponto que não será mais possível reverter os impactos desta destruição.

Dados de satélite apontam que as terras indígenas funcionam como uma barreira contra o avanço do desmatamento e de suas trágicas consequências, por isso os indígenas, que arriscam suas vidas para denunciar atividades ilegais em seus territórios, são ameaçados, criminalizados e sofrem graves tipos de violência. A resposta, na grande maioria dos casos, vem na forma de sangue.

Em um desses casos, o indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips foram brutalmente assassinados na região do Vale do Javari, no Amazonas. A exemplo de outros indigenistas, Bruno, que atuava como colaborador da União das Organizações Indígenas do Vale do Javari (Univaja), entidade mantida pelos próprios indígenas, denunciou que estaria sofrendo ameaças na região. Por outro lado, Phillips realizava reportagens sobre desmatamento e crimes em terras indígenas. Ao confrontarem e mostrarem os interesses escusos de garimpeiros e exploradores, os dois foram executados, fato corriqueiro na região.

O dia 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas, deve ser celebrado por todos e todas nós em respeito a toda importância e legado, mas como uma forma de conscientizar sobre a inclusão dos povos indígenas na sociedade, alertando sobre seus direitos, pois muitas vezes são marginalizados ou excluídos da cidadania.

O respeito aos povos indígenas não pode estar restrito à história. É preciso pensar além dos livros!

*Raimundo Kamir é professor da rede pública de ensino do Distrito Federal e diretor do Sinpro-DF.

A força e o poder das mulheres

Mônica Caldeira*

 

No próximo domingo, dia 7 de agosto, a promulgação da Lei 11.340/06, que ficou conhecida como a Lei Maria da Penha, completa 16 anos. Essa lei é referência mundial no combate à violência contra a mulher.

Uma das formas de se combater a violência contra a mulher é cuidar para que as elas tenham consciência da relevância feminina no Brasil. 52,5% do eleitorado do país é de mulheres. Nada melhor, em ano eleitoral, do que lembrarmos do poder de voto das eleitoras deste país.

De acordo com informações do Tribunal Superior Eleitoral, as mulheres são maioria do eleitorado nacional desde as eleições de 2000. Em 2016, nos tornamos também maioria em todas as Unidades da Federação.

Isso revela muito sobre eleições e candidaturas no Brasil: não só o candidato ou candidata a presidente está falando para um contingente eleitoral formado em sua maioria por mulheres, como também todo(a) candidato(a) em âmbito estadual tem que convencer uma maioria de eleitoras de que suas ideias merecem crédito e voto. No Senado Federal, por exemplo, que é considerado espaço mais distante da população, de 81 senadores, são apenas 16 mulheres. Temos apenas 20% de possibilidades de ter pautas feministas defendidas nesse espaço de decisões para o país.

O(a) candidato(a) que defender a família precisa ser realista e propositivo para o seguinte: dados anteriores ao início da pandemia, de fevereiro de 2020, dão conta de que o percentual de casas com comando feminino salta de 25% em 1995 para 45% em 2018, com inserção no mercado de trabalho. E que as mulheres representam 75% da compra de bens e consumo e que esse 60% de sua renda é revestido à família. (IPEA)

O que significa isso? Significa que desde 2016 quem quiser voto da maioria do eleitorado tem que priorizar a pauta feminina, que é também uma pauta em defesa da família: creches para nossos filhos e filhas; educação de qualidade, laica e socialmente referenciada para nossas crianças e jovens; direito à alimentação saudável, moradia e segurança: e, por tudo isso, equiparação salarial com os trabalhadores homens, que historicamente ganham mais do que as mulheres. Além de garantias de direitos específicos para as necessidades da trabalhadora que dedica sua força para o trabalho formal, informal e o não remunerado trabalho doméstico e cuidados.

Enfim, essa é a nossa força: somos maioria tanto na chefia das famílias deste país como a maioria do eleitorado brasileiro. Isso não está explícito na representatividade política e, muitas vezes, no debate político. Para representar essa realidade será preciso uma mudança considerável no congresso nacional, nas casas legislativas e no executivo. Há muitas mulheres que, mesmo após 16 anos de Lei Maria da Penha, sofrem com a violência de gênero em seu cotidiano, vítimas de homens que as tratam como seres inferiores ou mesmo objetos. Mas são essas mesmas mulheres que, juntas, têm um importante poder eleitoral e político. Precisamos ter essa consciência na hora de escolhermos nosso voto. Não é só para presidente! Neste ano, temos também que escolher governador(a), um(a) senador(a), deputado(a) Federal e distrital. Se priorizarmos candidatos e candidatas que defendem a pauta feminista, conseguiremos mudar o perfil tradicional de candidaturas que não tem postura combativa à violência sofrida pelas mulheres.

 

Mônica Caldeira é Coordenadora da Secretaria de Mulheres do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF)

Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, uma data fundamental

Márcia Gilda*

O Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha é celebrado em 25 de julho. A data foi firmada pelo governo brasileiro em 2014, sob o mandato de Dilma Rousseff, e também destaca o papel histórico de Tereza de Benguela, importante liderança quilombola que viveu no século XVIII no Mato Grosso, onde resistiu à escravização da comunidade negra e indígena.

Tanto a celebração da data quanto a referência a Tereza são fundamentais para a luta das mulheres negras. O dia 25 de julho foi escolhido porque marca a realização do 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas realizado em Santo Domingo, República Dominicana, há 30 anos.

O racismo estrutural, o mito da democracia racial, o machismo e o patriarcado excluem, oprimem e marginalizam as mulheres negras. Diante dessa realidade, o feminismo negro traz contribuições decisivas às elaborações de lutadores e lutadoras sociais do mundo todo, agregando um olhar que, por incluir demandas, vivências e leituras específicas das mulheres negras, amplia a noção de direitos e de justiça.

No Brasil, somos 58 milhões de mulheres negras. Somos a base da pirâmide, somos aquelas que ocupam os postos de trabalho menos valorizados, mais precarizados e com os menores salários. Criamos os filhos e filhas das famílias brancas, cuidamos de suas casas, e tudo isso sem acesso aos direitos trabalhistas correspondentes. Somos o principal alvo da violência, direta ou indireta, porque também somos quem mais sofre a perda de filhos: a juventude negra é a principal vítima da violência no nosso país. As mulheres negras estão alijadas dos espaços de poder, o que torna esses espaços não representativos e, portanto, limitados demais para serem instrumentos de igualdade, democracia e justiça.

Amarga realidade

Segundo o Atlas da Violência 2021, em 2019, 66% das mulheres assassinadas no Brasil eram negras. Em termos relativos, enquanto a taxa de homicídios de mulheres não negras foi de 2,5, a mesma taxa para as mulheres negras foi de 4,1.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que mulheres negras estão 50% mais suscetíveis ao desemprego do que outros grupos. Ainda segundo o Ipea, enquanto o desemprego entre mulheres negras subiu 80% em relação ao período anterior à crise econômica, entre homens brancos o aumento foi de 4,6%. Consequência de outro número, apontado pelo IBGE: 39,8% de mulheres negras compõem o grupo submetido a condições precárias de trabalho.

Com toda essa realidade, que não tem cunho apenas cultural, mas sim, sobretudo, material, são urgentes e necessárias políticas públicas destinadas a combater essa profunda desigualdade no acesso às oportunidades e na distribuição de renda. Nossa luta é pela democracia e pela justiça, porque é através delas que garantiremos a efetivação dos nossos direitos e a igualdade que nos é devida!

Acontece que, desde o golpe de 2016, vivenciamos enormes prejuízos democráticos e retrocessos nas políticas públicas, bem como no plano cultural e civilizatório. Mais uma vez, são as mulheres negras as principais atingidas por este momento tão triste da nossa história. Momento de desvalorização e desmonte dos serviços públicos, de concentração de renda e de poder; momento de miséria, de fome, de violência. As políticas de reparação à população negra, por exemplo – que foram estabelecidas tardiamente – vêm sendo desconstruídas e até combatidas pelo governo genocida e seus valores de violência e discriminação.

Só a luta muda a vida

Entretanto, nós, amefricanas – como diz Lélia Gonzalez -, herdeiras de Tereza de Benguela, não nos furtamos à missão de vencer o racismo estrutural e o mito da democracia racial. Lutamos para deixar um país mais humano e justo para nossos descendentes. Lutamos para deixar o lugar ao qual sempre quiseram nos escravizar: o de apenas sobreviver para servir. Lutamos contra a violência obstétrica, contra a objetificação de nossos corpos e nossas vidas, contra o feminicídio. Lutamos para realizar plenamente todas as nossas potencialidades, lutamos para protagonizar as mudanças que o mundo precisa, para sermos incluídas, para sermos felizes. Lutamos por igualdade, por justiça e por direitos!

Viva o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha! Viva Tereza de Benguela!

 

* Márcia Gilda é professora da SEDF, e coordenadora da Secretaria de Raça e Sexualidade do Sinpro.

A militarização de escolas públicas é uma agressão ao ECA

Por Luciana Custódio*

Quantas vezes já ouvimos que “todos somos iguais, mas alguns são mais iguais que outros”?

A Constituição Federal aponta que todas as pessoas devem ser tratadas de forma igual, sem distinção de cor, origem ou classe social. É o que propagam, também, alguns valores religiosos. Mas todos sabemos que essa é uma teoria que se enverga para não se tornar prática.

A frase era para soar como uma ironia com a realidade da obtenção de privilégios, mas infelizmente representa uma realidade triste que tem se tornado mais grave nos últimos anos. E quando aplicamos essa realidade à vida de crianças e adolescentes, a desigualdade ganha requintes de crueldade.

Como exemplo, podemos falar do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que aniversaria neste 13 de julho. Sancionado em 1990, o ECA representou grande avanço para os direitos dos e das menores de idade, produto do acúmulo de segmentos que se dedicam à defesa de crianças e adolescentes.

Hoje, 32 anos depois, o Brasil vive um dos momentos mais tenebrosos de sua história, sofrendo os desmandos de um governo tão autoritário quanto incompetente, que não apenas se exime de sua responsabilidade de proteger as crianças e adolescentes brasileiros, como contribui de forma decisiva para tornar sua vida e seu futuro piores.

O ECA se choca frontalmente contra a ideologia desse governo, presente nos seus diversos programas e projetos. Um deles é o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), a militarização de escolas públicas brasileiras.

Militarização

O Pecim foi bandeira de campanha do presidente genocida, que nunca escondeu seu desapreço pela educação, pela cultura e pelos valores democráticos. O programa vem sendo implementado a despeito das fartas deficiências que apresenta, sendo alvo de críticas de especialistas, estudiosos, lutadores sociais da área da educação e da defesa dos direitos de crianças e adolescentes, bem como da própria Justiça que, em diversos estados brasileiros – inclusive no DF –, questiona a legitimidade e a legalidade do projeto.

Uma das principais razões para tantos questionamentos é justamente a afronta que o programa representa ao ECA. Em alguns meses de aplicação, é muito fácil notar que são diversos os artigos do Estatuto contrariados pela militarização de escolas públicas.

Qualquer direito à diversidade e de exercício da individualidade – seja de opinião, de crença, de vestimenta, de relacionamento – fica comprometido e até ameaçado pela lógica de quartelização das escolas. A busca por homogeneização a partir da intimidação impõe a crianças e adolescentes o silêncio e a obediência servil, numa fase da vida onde afirmar sua personalidade é fundamental para o desenvolvimento humano.

Evidentemente que os estudantes expostos a essa lógica são sobretudo aqueles em situação de vulnerabilidade social. As crianças e adolescentes que vêm sofrendo com intimidações, repressão e ameaças são aquelas que estão em escolas da periferia, e que são vítimas da marginalização e da exclusão desde que nasceram.

A sociedade vê a militarização como forma de controle social. As comunidades, muitas vezes, acreditam que será uma forma de fortalecer a disciplina. Mas, na prática, o que se vê é apenas o cerceamento de direitos e o comprometimento da atividade pedagógica.

Direitos atropelados

O direito à liberdade de opinião e expressão e de participação na vida política, garantido no artigo 16; e o artigo 53, que garante o direito de organização e de participação em entidades estudantis, já foram muitas vezes afrontados nesses meses de experiência de militarização.

A participação em manifestações, por exemplo, tem sido tratada como falta disciplinar. Foi o que se viu no CED 01 da Estrutural, escola que se tornou emblemática do fracasso do projeto de militarização no DF. A mãe de um ex-aluno da escola que, antes, havia apoiado a militarização, percebeu na prática concreta que o projeto é um engodo. Ela transferiu seu filho para outra escola, depois de ele ter sido um dos estudantes a sofrerem repressão e ameaças depois de um protesto contra a exoneração da vice-diretora da escola.

Na ocasião, uma emissora de TV veiculou vídeo gravado por um estudante, registrando os gritos do militar que exercia a função de monitor disciplinar: “eu te arrebento”, “abaixa a cabeça porque estou mandando”, “baixa a bola”.

A ação indigesta do militar contraria nitidamente o artigo 17 do ECA, que assegura o direito ao respeito: “O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais”. Na prática, o livre exercício dessas individualidades é caracterizado como falta disciplinar e pode acarretar punições, algumas delas expressamente proibidas no artigo 18 do ECA, que versa sobre o direito que crianças e adolescentes têm de serem educados ou cuidados livres de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante. Por tratamento cruel ou degrandante, entende-se conduta que humilhe, ameace gravemente ou ridicularize.

Adiante, o artigo 58 do ECA afirma: “No processo educacional respeitar-se-ão os valores culturais, artísticos e históricos próprios do contexto social da criança e do adolescente, garantindo-se a estes a liberdade da criação e o acesso às fontes de cultura”. Em novembro de 2021, foi uma atividade pedagógica referente ao Dia da Consciência Negra que deu início a uma série de desrespeitos flagrantes ao ECA, à liberdade de cátedra e à gestão democrática no CED 01 da Estrutural, incluindo a invasão da escola por um deputado bolsonarista e a exposição pública e consequente exoneração da vice-diretora da escola.

Defender o ECA e reverter a militarização

Ao passo que não há investimento em educação – ao contrário, o que há é a retirada de recursos –, a militarização vem como uma falsa resposta às expectativas das famílias, gerando efeitos perversos para a escola, para as comunidades, para os profissionais de educação e, principalmente, para crianças e adolescentes.

A militarização está a serviço de um projeto ideológico fundamentalista e discriminatório, que entende que o lugar das crianças, sobretudo as em situação de vulnerabilidade, é o da servidão e da subordinação a uma ordem que diariamente as agride e as exclui. A reflexão e a ação para buscar seu desenvolvimento pessoal e sua autonomia são vistos como afronta e, portanto, são reprimidos. As vozes dessas crianças e adolescentes são silenciadas, enquanto aqueles que frequentam regiões ricas ou de classe média seguem seu curso sem precisar lidar com carências materiais nem com esse tipo de “disciplinamento”.

Hoje, aos 32 anos do ECA, defender os direitos de crianças e adolescentes passa necessariamente por combater a militarização das escolas públicas.

*Luciana Custódio é professora da rede pública de ensino do DF e dirigente do Sinpro-DF

** Publicado originalmente no Brasil de Fato DF

O ASSASSINATO DE MARCELO ARRUDA, A PÓLIS E O DOMOS

Por Benerice Darc*

Se ainda havia alguma dúvida de que as eleições de 2022 serão difíceis, radicalizadas (e não polarizadas), violentas e intolerantes, o último fim de semana deixou bem claro como vai ser a toada nos próximos meses.

O assassinato de Marcelo Arruda durante a comemoração de seu aniversário é uma frondosa árvore do Mal e da Intolerância que foi semeada, regada e fertilizada por anos a fio por vários setores da sociedade: partidos políticos, imprensa tradicional, elite são apenas alguns. O bolsonarismo foi o último desses setores da sociedade a incentivar o ódio e a intolerância, e já pegou a árvore crescidinha.

O papel social da escola na formação de cidadãos

Muito já foi dito sobre o crime (tragédias são inevitáveis; crimes são evitáveis) de Foz do Iguaçu, mas ainda há algo a se ressaltar: a importância e o papel da escola em apresentar o diferente, o discordante, e mostrar como compreendê-lo ou, ao menos, respeitá-lo.

Numa conjuntura em que muitos buscam transformar a escola em demônio a ser combatido e desacreditado, crimes como o de Foz do Iguaçu demonstram a importância do papel e da função social da escola.

O diálogo e o debate fazem parte do currículo escolar. Estão previstos em várias normas e diretrizes, nacionais e distritais. Fazem parte da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), do Plano Nacional de Educação e também do Plano Distrital de Educação.

É, portanto, papel do(a) professor(a) promover discussões e debates entre os estudantes, justamente para que estes aprendam a dialogar, discutir e ponderar pontos de vista. É papel desse(a) profissional mostrar à turma as diferentes opiniões e diferentes pontos de vista. E é esse(a) profissional que é censurado, silenciado, calado e tolhido em seu papel socializador pelo movimento Escola sem Partido e pela Lei da Mordaça, que supostamente defendem uma utópica “neutralidade ideológica”.

Durante os debates de temas considerados tabus, são esses(as) profissionais que ensinam o seu filho e sua filha a ouvir o diferente, e dialogar com ele.

Político X doméstico

Política vem de duas palavras gregas: pólis (a cidade) e tikós (assuntos, coisas, temas). Significa, portanto, os assuntos, temas e discussões a serem travados no/sobre o ambiente da cidade, no/sobre o ambiente público. Político se contrapõe a doméstico, que também se origina em duas palavras gregas, domos (o lar, a casa, a residência) e a mesma tikós que compõe a etimologia de “política”. Trata-se, então, de assuntos de âmbito particular, pessoal, privativo.

Marcelo Arruda estava em ambiente doméstico quando foi politicamente atacado. Isso, sim, é inadequado. Muito inadequado.

O que se aprende no ambiente doméstico é diferente do que se aprende no ambiente político. Assim nos ensinaram os gregos, e assim apreendemos dos pais da Democracia essa importante lição.

É, portanto, num ambiente socializador de sala de aula (e não em homeschooling) que os e as jovens aprendem o processo de diálogo e respeito para com o outro. É essa a ideologia que o Sinpro defende: a formação de cidadãos e cidadãs abertos(as) ao diálogo, à experiência crítica, à compreensão do diferente, à tolerância com o outro.

Então, é papel da escola, sim, apresentar várias ideias e pontos de vista diferentes, em temas que são tabus ou não. Trata-se de trabalho e processo de civilização de cidadãos e cidadãs. Trata-se da Educação para a Cidadania. Porque jovem criado em redoma, exposto a apenas uma visão de mundo, será adulto parcial, incompetente e inacessível ao diálogo. Será um adulto propenso ao ódio, à intolerância, e favorável ao extermínio do diferente – que, diga-se, é uma das bases da ideologia de destruição do fascismo e do nazismo, como nós todos aprendemos (ou deveríamos ter aprendido) na escola.

Marcelo foi vítima do ódio, da intolerância, mas foi também vítima do obscurantismo e da negação da educação e da instrução que a escola, e somente a escola, pode oferecer a um cidadão. Instrução essa que, em casos extremos como o deste fim de semana, evita que famílias sofram.

A diretoria colegiada do Sinpro se solidariza com a dor e com o luto da família de Marcelo, com os companheiros do Sindicato dos Servidores municipais de Foz do Iguaçu, bem como todos os companheiros do Partidos dos Trabalhadores do Paraná e do setorial estadual de segurança pública do PT-PR.

Marcelo Arruda, PRESENTE!

*Berenice Darc é diretora do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores(as) em Educação (CNTE)

**Publicado originalmente no jornal Brasil Popular

Desliza pra cima, pessoal!

 

As redes sociais redesenharam a relação do brasileiro com a mídia.
As forças progressistas precisam acordar para essa nova realidade e surfar nessa onda

Professora Letícia Montandon
Coordenadora da Secretaria de Comunicação do Sinpro-DF

 

Os dados são recentes. Fazem parte do relatório Digital News Report, elaborado pelo Instituto Reuters para os Estudos do Jornalismo e pela Universidade de Oxford. A pesquisa foi conduzida pela empresa YouGov, por meio de questionários online, em 46 países – Brasil inclusive.

O relatório insiste numa informação que já é tradicional em se tratando de mídia brasileira, e ainda não mudou: a concentração da propriedade dos meios de comunicação. O que o Digital News Report aponta, no entanto, é que se os grandes conglomerados de imprensa tradicional ainda têm propriedade concentrada e dominam os antigos meios impressos e de broadcasting, essa realidade não se reflete nos meios online: os dados levantados por aqui demonstram que as redes sociais fazem cada vez mais parte do cotidiano dos brasileiros – ao contrário da TV e das publicações impressas, que vêm perdendo terreno.

Foram respondidos 2.022 questionários entre os meses de janeiro e fevereiro deste ano. A partir dos dados disponíveis em Internetworldstats.com, que dão conta de que 75% da população brasileira tem acesso à Internet, o Digital News Report apurou quais são as fontes de informação dos brasileiros. Para não perdermos a referência, a população brasileira é estimada em 214 milhões de pessoas. Logo, 75% de usuários de internet equivale a 160,5 milhões de brasileiros com acesso à Internet.

Os meios de comunicação tradicionais, notadamente o impresso, vêm perdendo influência entre os entrevistados: eram 50% de entrevistados que acessavam alguma forma de mídia em papel em 2013, contra 12% agora. Nesse mesmo período, a quantidade de entrevistados que se informavam apenas por redes sociais saltou de 47% em 2013 para 64% em 2022 – o caminho inverso na curva. E espantosos 83% dos entrevistados se informam, hoje em dia, por meios online – o que inclui sites de mídia tradicional mais mídias sociais. Veja no gráfico abaixo.

A TV, que em 2013 conquistava a preferência de 75% dos entrevistados como meio de informação, neste ano de 2022 é o meio preferido de apenas 55% – com viés de queda desde 2015. O próprio aparelho de TV teve suas funções alteradas desde o início do século: agora, ele sintoniza menos TVs a cabo e emissoras de TV, e deu lugar ao streaming ou mesmo ao espelhamento dos telefones celulares.

 

Celular e computador trocam de lugar na preferência brasileira

Os aparelhos celulares vêm diminuindo de preço ano após ano, e incorporando cada vez mais facilidades que ficam acessíveis e facilmente disponíveis ao alcance do dedo, muito mais do que um computador, seja ele portátil ou não. Pesquisa da FGV indica que há mais celulares que pessoas no Brasil (242 milhões de celulares inteligentes em uso no país, contra população estimada em 214 milhões de habitantes).

Em 2013, a relação era de 83% de preferência para o computador contra 23% para os celulares; nove anos depois, essa relação se inverteu: hoje, ela é de 75% para celulares contra 24% para computadores, segundo o levantamento do Instituto Reuters. Quando as linhas se cruzaram e trocaram de lugar? Em 2018. Veja no gráfico acima.

O Digital News Report também aponta que 46% dos entrevistados compartilham notícias por redes sociais, apps de mensagens ou email, com Whatsapp ganhando a preferência de 41% dos entrevistados, e 9% de preferência para o Telegram. Também se identificou um crescimento considerável no uso de mídias sociais visuais, como Instagram (35%) e TikTok (12%) para consumo de notícia.

 

E daí?

O relatório do Instituto Reuters está cheio de dados, que devemos transformar em informação e análise. A última década foi testemunha de uma importante mudança de hábito dos brasileiros: se nossos pais e avós tinham seus horários noturnos regulados pela programação da TV (ao chegar em casa, a família trabalhadora jantava assistindo ao Jornal Nacional, e assistiam juntos à novela das oito antes de se deitarem para se prepararem para mais uma jornada de trabalho), hoje estamos íntimos dos aparelhos celulares, que nos acompanham 24 horas por dia – por vezes, não nos deixam dormir. Esses aparelhinhos acabaram se tornando nossos instrumentos de trabalho.

 

Uns X Vários

Você se lembra de uma propaganda recente de uma certa emissora de TV que anunciava, orgulhosa, que alcançava diariamente “cem milhões de uns?” Pois é, foi suplantada pela Internet. Agora, somos 160,5 milhões de vários nas redes sociais. Acorda, Pedrinho!

O Brasileiro não é mais teleguiado – não pela televisão. Hoje, define suas verdades e realidades a partir do que lê no Whatsapp, ou assiste no Youtube. A inserção de conteúdo nesses ambientes é bem mais democrática do que nos ambientes tradicionais de broadcasting, algoritmos à parte. O desafio para as forças progressistas é entender a importância de saber como inserir seus conteúdos, suas narrativas, suas histórias de forma relevante nos ambientes de redes sociais. O raciocínio é outro, a dinâmica é outra, a correlação de forças é outra.

As forças progressistas têm o hábito (ora saudável, ora cândido demais) de imaginar os melhores cenários quando vislumbramos uma nova tecnologia digital despontando no horizonte. “A Internet vai democratizar o acesso à comunicação, vai nos tornar mais próximos”, sonhávamos lá atrás. Mas a realidade liberal americana fala mais alto nestes ambientes, e dita os usos e caminhos das novas tecnologias. E eles não são os mais promotores de democratização de informação e união entre os povos – pelo contrário, promovem desinformação, ódio e desunião.

É hora de as forças progressistas se atentarem para esta nova realidade e descobrirem uma forma de vencer os algoritmos e as desinformações. O desafio é entendermos que as trincheiras de luta por democratização de informação são outras, com armas e estratégias diferentes. Outubro está ali na esquina.

Se, no início desta década, costumávamos dizer “aperta o F5” como sinônimo de se atualizar, numa alusão ao comando do nem tão saudoso Internet Explorer para atualização de página web, hoje em dia essa gíria nem faz mais sentido. O tempo de apertar o F5 já ficou pra trás, agora temos que deslizar pra cima!

 

Com supervisão de Letícia Sallorenzo

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