8 de Março e a intervenção militar: a alegoria colonial do Brasil futurístico

Viajemos dos Estados Unidos imaginados por Margaret Atwood em The Handmade’s Tale para o Brasil, ano 2018. No dia 16 de fevereiro, logo após o carnaval, o governo federal anunciava uma intervenção federal no Rio de Janeiro. Desde então, as notícias sobre as ações no Rio de Janeiro são cada vez mais “distópicas”
“Agora eu estou acordada para o mundo. Eu estava dormindo antes. É assim que deixamos isso acontecer. Quando abateram o Congresso, nós não acordamos. Quando eles culparam terroristas e suspenderam a Constituição, nós também não acordamos. Eles disseram que seria temporário. Nada muda espontaneamente. Em uma banheira de aquecimento gradual, você é fervido até morrer antes de perceber”.[1]
A reflexão é da personagem Ofred, da série The Handmade’s Tale (“O conto da aia”, ou da criada, em português), em que, diferentemente da maioria das narrativas imagéticas sobre o poder, as mulheres oprimidas são brancas, de olhos claros, norte-americanas, de classe média. Na história, essas mulheres são escravizadas por famílias abastadas – um projeto justificado publicamente pela necessidade de salvar o planeta e, nos bastidores do poder, pela necessidade de gestão das populações, dos úteros, da força de trabalho e dos conhecimentos.
A série, baseada no livro de mesmo nome escrito por Margaret Atwood em 1985, é classificada como “futuro distópico”, conceito em moda na atualidade que abriga muitos outros sucessos, como Black Mirror e Colony, ao que o El Pais caracterizou como “A nova era dourada das distopias”. Mas se a distopia é uma ficção anti-utópica, um futuro totalitário e violento imaginado, é só olhar um pouco mais além dos corpos brancos das atrizes hollywoodianas para identificar um padrão de sociedade que nada tem de fictício ou futurístico: para as mulheres negras, africanas na diáspora – e para outras mulheres não brancas de diversas nações e etnias –, esse enredo[2] é uma evidência histórica, uma experiência real e tragicamente presente desde o período colonial até a atualidade.

Rio de Janeiro – Forças Armadas fazem mais uma operação na Vila Kennedy, zona oesta da cidade (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Viajemos, então, dos Estados Unidos imaginados por Atwood em direção ao Brasil, ano 2018. No dia 16 de fevereiro, logo após o carnaval, o governo federal anunciava uma intervenção federal no Rio de Janeiro, com a justificativa de “garantir a ordem pública”. Em 20 de fevereiro, a Câmara dos Deputados vota a favor do Decreto e, horas depois, o Senado aprova a medida. É a primeira vez que um governo civil lança mão de uma medida tão drástica, ainda que a intervenção federal nos estados esteja prevista na Constituição desde 1988. Na prática, o general do Exército Walter Souza Braga Netto passou a ser o responsável pelas ações das polícias Civil e Militar, dos bombeiros e da administração penitenciária.
Desde então, as notícias sobre as ações no Rio de Janeiro são cada vez mais “distópicas”: cadastramento com fotografias de moradores de favelas, revista ostensiva de crianças, sem falar em declarações públicas de militares questionando institucionalidades que apuram abusos de autoridades. Uma das operações foi batizada de “Separar Joio do Trigo”, ou seja, o apartheid está posto, mais uma vez, como política de Estado. Persiste o tratamento diferenciado entre territórios negros pobres e os territórios brancos de classe média e alta, destino, aliás, do lucro gerado com o crime organizado em forma de riqueza, paraísos fiscais, lavagem de dinheiro etc.
Nesta cena montada pelo Governo Federal como cortina de fumaça de nossos verdadeiros problemas decorrentes da sociedade desigual em que vivemos, as mais atingidas são as mulheres, em sua maioria negras. São elas que têm sistematicamente enterrado seus homens, companheiros, irmãos e filhos: se a média anual de assassinatos de jovens negros é de 20 mil desde a Constituição de 1988, em nosso mais recente período democrático, são cerca 600 mil homens negros tombados, dados que corroboram com as noções de extermínio e genocídio desta população; são elas que se organizam e lutam por justiça e por direitos, a exemplo das Mães de Maio e dos movimentos de mulheres negras contra a violência e pelo bem viver em âmbito nacional. Estamos falando, por óbvio, das mulheres que não são encarceradas neste processo – a taxa de mulheres presas aumentou mais de 500% em dez anos.
É preciso dizer que são estas mesmas mulheres que pagam proporcionalmente mais impostos hoje no Brasil e que, no período de maior distribuição de renda e criação de políticas sociais da nossa história, continuaram a ser as maiores vítimas de violência letal: de 2003 a 2013, caiu 9% o feminicídio de mulheres brancas, ao passo que aumentou em 54% as mortes de mulheres negras. São estas mesmas mulheres que, a despeito da reforma trabalhista aprovada em 2017, só tiveram os seus direitos de trabalhadores domésticas reconhecidos em 2012, 124 anos após a abolição oficial da escravidão no Brasil.
Neste mesmo cenário do absurdo, convivemos ainda no início de 2018 com a notícia da mãe presa com seu bebê recém-nascido em uma cela de delegacia. No mesmo dia 20 de fevereiro, quando se aprovou a intervenção federal, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que “mulheres grávidas e mães de crianças de até 12 anos que estejam em prisão provisória (ou seja, que não foram condenadas) terão o direito de deixar a cadeia e ficar em prisão domiciliar até seu caso ser julgado”. Essa decisão impacta diretamente milhares de mulheres negras: segundo o Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos (CADHu), não há dados oficiais a respeito, mas estima-se que um terço da população carcerária feminina (hoje composta de mais de 42 mil mulheres) se enquadre na categoria de gestantes ou mães de crianças pequenas. A maioria delas são pretas ou pardas.
Ainda que a decisão do STF seja altamente positiva, ao analisarmos os dados do genocídio da juventude negra, pode-se pensar no que estas mães encontrarão ao retornarem às suas comunidades. Seria um tipo de “ventre livre” pós-moderno? Se considerarmos o que afirmou o próprio ministro da Justiça Torquato Jardim, sobre a intervenção federal, essas crianças (negras) não estarão a salvo em nenhum lugar: “Tem 1,1 milhão de cariocas morando em zonas de favelas, de perigo. Desse 1,1 milhão, como saber quem é do seu time e quem é contra? Não sabe. Você vê uma criança bonitinha, de 12 anos de idade, entrando em uma escola pública, não sabe o que ela vai fazer depois da escola”.
Seria, então, uma distopia para nossas hegemonias brancas, masculinas, proprietárias, pensar em um futuro com verdadeira liberdade – física, moral, psicológica – para as mulheres negras? Não deveria ser esta, portanto, a utopia política de quem defende uma sociedade justa e democrática?
Vivemos em um mundo onde o controle dos corpos femininos e negros é estruturante para a manutenção dos poderes econômico e político constituídos. Não é por acaso que as primeiras medidas após o golpe parlamentar no Brasil foram o congelamento do orçamento para direitos humanos, direitos das mulheres, igualdade racial e juventude. Os donos do poder compreendem perfeitamente que é minando as comunidades mais vulneráveis que se reprime a luta por melhores condições de vida. Uma fórmula colonial atualizada e trespassada por novas tecnologias de vigilância e controle.
Esse processo não é só brasileiro. Em toda a América Latina as mulheres indígenas enfrentam problemas semelhantes, assim como os jovens negros nos Estados Unidos. As formas de manutenção da subalternidade dos negros após o fim da escravidão oficial, tanto lá como cá, são perenes e sofisticadas: em sua versão contemporânea, o encarceramento, mais do que uma medida de repressão à violência, é uma forma de alijamento dos negros (e outros grupos étnicos e raciais em oposição ao branco fabricado em cada parte do mundo), e também um mercado muito lucrativo, pois manter tais estruturas implica em investimentos públicos que são direcionados para pagamento de empresas terceirizadas de alimentação, vestuário e segurança.
Angela Davis, em Freedom is a Constant StruggleFerguson, Palestine and The Foundations of a Movement (Haymarket Books, 2016) [A liberdade é uma luta constante: Ferguson, Palestina e as fundações de um movimento], chama nossa atenção: a vigilância e militarização, incluindo escolas que se parecem prisões nas comunidades negras periféricas dos Estados Unidos, definem cada vez mais nossas sociedades, “onde o que é chamado de ‘segurança’, sob a égide do Estado neoliberal, reforça não somente a privatização da segurança mas a privatização do aprisionamento, do bem-estar social, assim como a privatização da saúde e da educação” (tradução livre).
Como sugerido pela filósofa Donna Haraway em 1985, no livro Antropologia do ciborgue: vertigens do pós humano (mesmo ano da publicação de Handmade’s Tale), o mundo estaria se abrindo para uma nova biopolítica, na qual comunicação, tecnologia/ciência e política estariam sinergicamente atuantes para a configuração de sistemas de opressão e controle. A autora, de maneira otimista, apontava para a necessidade de os movimentos de mulheres capturarem essa configuração para a libertação necessária das identidades coloniais.
Ainda que os movimentos sociais de mulheres, LGBTI, de mulheres negras, do campo etc., tenham trabalhado incessantemente para isso, a capacidade de influência desses movimentos é muito menor do que aquela dos grupos dominantes. Segundo relatório da Oxfam (2016), estamos em um momento de forte concentração de renda e reescravização da força de trabalho em âmbito planetário. O gênero e a raça seguem sendo elementos cruciais para a reprodução do capital, dos privilégios e das desigualdades.
É necessária e urgente uma transição nos discursos políticos de defesa de direitos entre a noção de “pautas políticas da identidade” para um outro enunciado, a saber, “gênero e raça são estruturantes das relações econômicas e sociais”. Os omissos de hoje podem estar a salvo, como aponta nossa personagem do mundo distópico, pois a estrutura de privilégios implica em zonas de conforto para alguns grupos da sociedade, inclusive a classe média de esquerda.
Mas o capitalismo autoritário, no qual militarização e algoritmos atuam juntos para efetuar a gestão das populações, está aí para provar que saímos de um curto período histórico de emergência de novas classes médias para um possível futuro com um número muito maior de pobres do que registramos hoje. Se não pararmos para priorizar as pautas políticas de mulheres e, principalmente, levar a interseccionalidade a sério e olhar para as mulheres negras e pobres, não daremos conta de organizar lutas legítimas para enfrentar os horrores do autoritarismo. O Rio de Janeiro é, afinal, um laboratório para o Brasil, nas palavras dos próprios militares.
Os movimentos de mulheres se organizaram para atos em todo o país neste 8 de Março. Que possamos olhar para os absurdos do presente e agir: quando falamos em direitos das mulheres estamos falando do direito de toda uma sociedade à democracia e à liberdade.
______________________
*Carmela Zigoni é assessora política do Inesc.
[1] Trecho original: “Now I’m wake to the world. I was asleep before. That is how we let it happen. When they slaughtered Congress, we didn’t wake up. When they blamed terrorists and suspended the Constitution, we didn’t wake up either. They said it would be temporary. Nothing changes spontaneously. In a gradually heating bathtub, you’d be boiled to death before you knew it.” (Handmade’s Tale, Temporada 1, Episódio 3).
[2] Ainda que a própria série ofereça elementos para pensarmos as contradições no que se refere à questão racial, como o fato de a protagonista ter um marido negro, é na relação entre as próprias pessoas brancas – a escrava e o casal que escraviza –, que se baseia a narrativa da opressão. Neste sentido, a experiência de Ofred nos parece um tanto quanto distante (a não ser se comparada, por exemplo, ao genocídio da caça às bruxas na Idade Média). Não se trata, neste artigo, de hierarquizar lutas, mas de reconhecer distintos processos históricos que se unem e se distanciam de acordo com perspectivas muito diferentes: sejamos generosas e coloquemos nosso foco na relação entre classe, gênero e raça.

Mulheres do MST e MMM ocupam e paralisam a produção do Grupo Guararapes, ligado à Riachuelo

Empresa pertence ao empresário Flávio Rocha, defensor da reforma trabalhista e da Previdência Social
Um grupo composto por aproximadamente 800 mulheres, todas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Marcha Mundial das Mulheres (MMM), ocupou e paralisou a produção do Grupo Guararapes, em Extremoz, no Rio Grande do Norte, a 23 km da capital Natal, na manhã desta quinta-feira (8). Segundo o Brasil de Fato, a ação integra a programação da Jornada Internacional de Luta das Mulheres.
A empresa pertence ao empresário Flávio Rocha, proprietário da Riachuelo. Segundo Vanuza Macedo, dirigente nacional do MST, Rocha “representa a hipocrisia do empresariado brasileiro que saqueia direitos aliado a políticos como Rogério Marinho (PSDB), relator da reforma trabalhista”.
Em várias oportunidades, Rocha defendeu inúmeras propostas do governo de Michel Temer (MDB), como as reformas trabalhistas e da Previdência. Além disso, o empresário se posicionou como um dos principais críticos ao governo Dilma Rousseff e, nos meses que antecederam o impeachment, declarou que o afastamento de Dilma recolocaria, já nos primeiros dias, o país novamente nos trilhos.
Em 2016, a Riachuelo foi condenada por submeter costureiras a trabalho análogo à escravidão. Uma das trabalhadoras denunciou maus-tratos, que incluíam abusos físicos e psicológicos em razão das pressões para confeccionar as peças. Vanuza Macedo destaca que “desde a década de 1950 seu grupo empresarial se beneficia de isenções fiscais, sendo financiado pelo poder público. De 2009 a 2016, em período de crise econômica no Brasil, sua empresa chegou a receber financiamento público de R$ 1,4 bilhão”, afirma.
A dirigente nacional do MST se refere ao financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), concedido ao grupo Guararapes durante o governo petista. Neste período, as empresas de Flávio Rocha ainda foram beneficiadas com isenção de até 75% do ICMS na construção de fábricas no Ceará e no Rio Grande do Norte.
Para Cláudia Lopes, da Marcha Mundial das Mulheres, as trabalhadoras, neste 8 de março, denunciarão “os que patrocinaram o golpe, exploram os trabalhadores e trabalhadoras e se apropriam dos recursos públicos, principalmente em um momento em que o cortes e a retirada de direitos é justificada por um rombo na receita”.
Com informações da Página do MST
Fonte: Revista Fórum

Igualdade de gênero aumenta crescimento econômico

Desde 1975, por iniciativa da ONU, celebra-se 8 de março como o Dia Internacional das Mulheres. Todos os dias, porém, dever-se-ia atentar para as implicações do que representa. Inclusive por motivos econômicos.
Por Otaviano Canuto*
Você sabe por que o Bolsa Família vai para as mulheres? Pesquisas realizadas na década de 1990 no Brasil –e depois confirmadas em outros países– mostraram bebês com mais altura e peso quando as mulheres tinham mais poder de barganha sobre a renda familiar. Além da relevância disso por si mesmo, há que se levar em conta as óbvias consequências em termos de saúde e capacidade de trabalho da população adulta e, portanto, de crescimento econômico.
Um maior controle sobre os recursos domésticos pelas mulheres em famílias pobres pode fortalecer uma economia onde a pobreza predomine, já que os padrões de gastos tenderão a ser moldados de forma a beneficiar as crianças. Há também forte evidência de como melhores educação e saúde das mulheres estão associadas a melhores resultados para seus filhos.
Você pode se surpreender com a gama de mecanismos através dos quais diminuir a desigualdade entre gêneros pode impulsionar o crescimento econômico. Pense nos investimentos em infraestrutura. A maioria das análises se concentra em várias maneiras pelas quais mais e melhor infraestrutura ajudam a aumentar o crescimento, reduzindo o desperdício de tempo e recursos na produção e no transporte.
Por outro lado, há que se levar em conta seu impacto diferenciado sobre as mulheres em muitas regiões pobres. Maior e melhor acesso a estradas rurais, água, redes elétricas e outros pode reduzir especialmente o tempo das mães atribuído a tarefas domésticas e aumentar seu tempo disponível para outras formas de trabalho, a acumulação de capital humano ou a dedicação a suas crianças. No essencial, o aumento do tempo dedicado à acumulação de capital humano aumenta o poder de barganha das mulheres, o que se traduz em uma maior preferência familiar pela educação das meninas e pela saúde infantil, um aumento na parcela média da renda familiar gasta em crianças e uma menor preferência pelo consumo.
A menor desigualdade de gênero em termos de poder doméstico de barganha, portanto, traz efeitos de crescimento a longo prazo associados à transmissão intergeracional de saúde e educação. Mas há também o efeito de aumentos na produtividade quando se reduzem as desigualdades de oportunidades entre gêneros. Este é o caso quando as habilidades e talentos das mulheres podem ser aplicados sem restrições específicas a gênero.
Alguns anos atrás, o Banco Mundial chamou atenção para estimativas apontando que a produtividade do trabalho poderia aumentar em até 25% em alguns países em desenvolvimento caso barreiras que discriminam contra mulheres trabalharem em certos setores ou ocupações fossem eliminadas. Por exemplo, o rendimento na produção de milho aumentaria quase um sexto em Malawi e Gana, caso as mulheres agricultoras tivessem o mesmo acesso a fertilizantes e outros insumos que os homens.
Uma 3ª dimensão da igualdade entre gêneros com consequências econômicas pode ser encontrada no empoderamento das mulheres como atores econômicos, políticos e sociais. Um exemplo abordado no mesmo relatório do Banco Mundial vem da Índia, onde o poder das mulheres em nível local levou a aumentos na provisão de bens públicos, como água e saneamento, priorizados pelas mulheres.
Algumas dimensões da desigualdade entre gêneros nas economias em desenvolvimento –como nas matrículas escolares e na participação da força de trabalho– vêm diminuindo ao longo das últimas décadas. Direitos formais e as garantias constitucionais para as mulheres avançaram em alguns países. No entanto, o escopo de oportunidades para impulsionar o crescimento econômico através de políticas orientadas para diminuir a desigualdade permanece amplo.
O CASO DO BRASIL
No Brasil, ocorreu progresso na diminuição da desigualdade entre gêneros em termos educacionais, com quedas nas taxas de analfabetismo entre as mulheres e, inclusive, parcelas da força de trabalho feminina com ensino superior superando a dos homens. Políticas governamentais– algumas implementadas em cooperação com o setor privado –atendendo necessidades maternas, com fornecimento de cuidados de saúde antes e durante a gravidez e o parto, bem como cuidados infantis e com educação, também melhoraram em relação ao que havia antes.
No entanto, muito ainda resta por fazer. Por exemplo, as disparidades entre gêneros no acesso ao emprego formal e à renda de mercado persistem no Brasil. Apesar de ter havido um aumento na participação das mulheres empregadas no setor não agrícola, sua vantagem comparativa na educação não se reflete nos salários relativos do mercado –apesar do nível de habilidade médio mais alto da força de trabalho feminina.
Pierre-Richard Agénor, professor da Universidade de Manchester, e eu mostramos os impactos potenciais da redução da desigualdade entre gêneros na elevação do crescimento econômico brasileiro, desenvolvendo um modelo macroeconômico com o qual se pode simular resultados de políticas específicas. Suponhamos, por exemplo, que o governo implemente com sucesso leis anti-discriminatórias que levem a uma eliminação total do viés de gênero contra as mulheres no local de trabalho. Usando os dados do Brasil, nossos cálculos sugeriram que uma política de “trabalho igual, pagamento igual” poderia adicionar 0,2 pontos percentuais à taxa de crescimento anual do PIB (Produto Interno Bruto) do país.
Também usamos nosso modelo para simular os efeitos de um aumento dentro do orçamento público da parcela dos gastos com investimentos em infraestrutura. Nossos cálculos sugerem que um aumento em tais investimentos equivalente a 1 ponto percentual do PIB poderia adicionar algo entre 0,5 e 0,9 pontos percentuais à taxa anual de crescimento do PIB, uma vez contabilizados os efeitos diretos e indiretos– incluindo mudanças na alocação de tempo das mulheres e em seu poder de barganha sobre os recursos familiares.
A desigualdade entre gêneros é um forte obstáculo à prosperidade. Deve receber atenção muito além do Dia Internacional da Mulher da vez.
*Otaviano Canuto, 61 anos, é diretor-executivo do Banco Mundial. Foi vice-presidente do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento e diretor-executivo do FMI. Trabalhou no Ministério da Fazenda e foi professor na USP e na Unicamp. As opiniões expressas neste texto são do autor, não necessariamente do Banco Mundial.
Fonte: Poder360/Vermelho

#MeToo: a hashtag que expõe a magnitude mundial do assédio sexual

“Me too” (“eu também”, em tradução do inglês). Desde a noite do último sábado, essas duas palavras vêm sendo compartilhadas nas redes sociais por mulheres e homens que sofreram algum tipo de agressão sexual.

A iniciativa teve início depois das alegações de estupro contra o poderoso produtor cinematográfico americano Harvey Weinstein.
Weinstein, um dos mais poderosos nomes de Hollywood, foi acusado de estupro e agressão sexual por mais de duas dezenas de mulheres – incluindo as atrizes Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow e Rose McGowan.
O produtor alega que todas as relações sexuais que teve foram consensuais.
Desde que as acusações vieram a público, várias personalidades usaram as redes sociais para falar sobre o assunto, algumas detalhando o assédio que sofreram.
A hashtag #MeToo já foi usada mais de 200 mil vezes nas redes sociais. O termo ganhou força depois de a atriz Alyssa Milano pedir as vítimas de assédio sexual que se pronunciassem, em demonstração de solidariedade.
Celebridades responderam, incluindo Debra Messing, Anna Paquin, Lady Gaga e Monica Lewinsky.

Milhares de outros usuários nas redes sociais, inclusive no Brasil, compartilharam histórias de quando foram vítimas de assédio.

No Twitter, uma usuária, que decidiu permanecer anônima, escreveu: “Tinha 19 anos. Ele me encheu de álcool, forçou um beijo de língua e tocou meus seios. Me culpei por estar bêbada. #MeToo.”
Homens e transexuais também expressaram apoio à campanha, incluindo o ator e cantor Javier Munoz.
Alguns deles chegaram, inclusive, a falar sobre suas experiências pessoais.

A usuária Cortney Anne Budney postou no Facebook: “O ‘eu também’ é para os homens também. Não devemos nos esquecer dos homens e dos meninos. O eu também deles é igualmente importante e muitas vezes frequentemente encoberto”.

Já para o escritor Charles Clymer, que foi vítima de estupro, afirmou que, embora ambos os gêneros sofram abuso, “há um componente misógino específico na cultura do estupro”.

“Faz sentido gastar tempo para destacar a misoginia especificamente e amplificar a voz das mulheres”, postou ele.
Fonte: BBC Brasil

Planos de saúde

 

Desconto em planos de saúde: atenção para o horário dos plantões

Professora do CEF 02 de Brasília disputará mundial de triatlo

A rotina não é fácil. Para conciliar as 40 horas da jornada como professora do CEF 02 de Brasília com os treinos, Arlete de Menezes acorda às 4h20 da manhã. Após treinar, vai para a escola e após lecionar, retorna aos treinos, que são bastante puxados.
Todo este esforço foi recompensado. Ela se classificou para o The Championship 2018, o campeonato mundial da categoria. A classificação veio após ela conquistar a sexta posição no “Challenger Cerrado”, na categoria 45 a 49 anos, no ano passado. Desta forma, agora os desafios serão maiores.
“As provas lá serão as mesmas: 1900 metros de natação, 90 quilômetros pedalando e 21 quilômetros correndo. A diferença é que enquanto aqui estamos acostumados a nadar em águas em torno de 22 ou 23 graus, lá a temperatura da água vai estar entre 8 e 20 graus. Portanto, comecei a nadar na Água Mineral, para tentar amenizar esse choque térmico”, conta.
A edição do mundial de triatlo deste ano ocorre nos dias 2 e 3 de junho, na cidade de Samorin, na Eslováquia.

Por que o Maranhão consegue pagar o maior piso salarial do País a professores?

O Estado do Maranhão anunciou no início do mês o novo piso salarial para os professores da rede pública, com reajuste de 6,81 %. A correção segue a indicada nacionalmente pelo Ministério da Educação para a categoria, com a diferença que, o valor pago pelo Estado, será cerca de duas vezes maior que o piso nacional, que passa a 2,455 mil este ano. Com a resolução, os professores de 40 horas no Maranhão terão como salário inicial o valor de 5,750 mil; os de 20 horas, valor proporcional.
O reajuste faz com que o Estado pratique o piso salarial mais alto do País. Um levantamento feito pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) que tem como base dezembro de 2016 aponta que oito Estados não cumpriam o piso referente ao início de carreira. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Maranhão (Sinproesemma), o reajuste será incluído inicialmente em duas parcelas a serem pagas nos vencimentos de março e junho.
A economia brasileira cresceu 1% em 2017. Os dados do Maranhão ainda não foram divulgados, mas projeções indicam que o PIB do Estado deve crescer 3,1%.
Em entrevista à Carta Educação, o secretário de Estado da Educação, Felipe Camarão, afirma que o reajuste é fruto de uma decisão política feita a partir da priorização da pasta de educação. “Como o Flávio Dino também é professor, a política educacional é muito forte em seu governo. E há o entendimento de que a valorização salarial não pode estar descolada das ações de investimento”. Confira a entrevista.
Carta Educação: Em um contexto de crise, como o Maranhão consegue elevar o piso dos professores?
Felipe Camarão: Foi uma decisão política muito importante que o governador teve. Como ele também é professor, a política educacional é algo muito forte em seu governo. Temos trabalhado muito fortemente na infraestrutura das escolas, com construção de novas unidades e reforma de outras, promovendo formação e capacitação de professores e a valorização financeira não poderia estar dissociada disso. Por isso, se definiu a pasta como prioridade. Faremos um investimento de 115 milhões de reais este ano, chegando ao maior salário da categoria e dando continuidade à política que já praticávamos o ano passado.
CE: O reajuste será aplicado a quantos professores?
FC: O reajuste será aplicado para os 31,5 mil professores da rede, sendo 26,5 mil efetivos em atividade, 5 mil temporários e 15 mil inativos, os aposentados.
CE: Como o reajuste de 6,81% é composto dentro do orçamento do Estado?
FC: Para chegar ao valor, o Estado tem que fazer a complementação de 20% de sua receita, já que o valor do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) é insuficiente. Gastamos 100 por cento do fundo, mais esse acréscimo. O ano passado a complementação para a folha de pagamento foi de mais de 127 milhões de reais. Esse ano, tivemos um reajuste do Fundeb, ainda incipiente, então se mantem a lógica de complementação pelo Estado.
Leia Também:
A valorização dos profissionais da educação
Sem PNE, presente e futuro do País estão ameaçados

CE: O reajuste é o mesmo anunciado pelo Ministério da Educação para o piso salarial dos professores este ano. No entanto, o piso foi para R$ 2.455,35, sendo o valor pago pelo Maranhão cerca de 2 vezes maior…
FC: Aqui no Maranhão todos os professores recebem acima do piso. Somados os vencimentos mais a gratificação de magistério, temos o valor de 5,750 mil para os professores 40 horas e 2,8 mil para os de 20 horas. Mesmo nessa categoria de 20 horas estamos acima do piso nacional. Esse valor ainda é acrescido caso o professor tenha especialização, mestrado e doutorado e é modificado no caso das escolas de tempo integral, que pedem dedicação exclusiva. Nessa dinâmica, os professores 20 horas dobram a carga horária e os de 40 horas recebem adicional de 25%.
A educação é a grande aposta do governador aqui no Estado, justamente por estarmos atrasados em relação a outras unidades no que se refere à qualidade da aprendizagem e os índices educacionais, como o Ideb. Pernambuco e Ceará, por exemplo, têm índices muito melhores que o nosso, que foi de 3,1 no último levantamento. Isso ocorre porque há anos investem em infraestrutura escolar, no ensino de tempo integral e valorização de professores. Precisamos correr atrás do prejuízo e estamos nesse momento com o governador Flávio Dino, com a aplicação do maior investimento na história do Estado.
CE: Quais os principais desafios educacionais do Maranhão?
FC: Além da baixa avaliação da aprendizagem, precisamos enfrentar questões de fluxo escolar, sobretudo as taxas de evasão escolar. Apostamos em um duplo caminho para a melhoria do Ideb. Primeiro, um trabalho com os estudantes que não têm familiaridade com a Prova Brasil, uma das ferramentas que subsidiam o cálculo e com o próprio Enem. Realizamos simulados, aulas de reforço e investimos em capacitação aos professores de Língua Portuguesa e Matemática. Na questão da evasão, temos apoiado a questão da merenda e do transporte escolar, buscado envolver as famílias em nosso modelo pedagógico, construído e reformado algumas unidades. O foco não é só o Ideb, é manter o aluno na escola, com nível de qualidade, e consolidar uma política educacional estruturada.
(da Carta Educação)

Dia 10 tem festa flashback "Dancin' Days"

No próximo sábado (10/3) tem festa flashback – o melhor dos anos 70, 80 e 90 – no Clube Pandiá (SMU), a partir das 21h. Mais informações pelos fones 3415-4581 e 3233-4126. Confira:

Maranhão: professores da rede estadual de ensino conquistam maior salário do país

Professores da rede estadual de ensino do Maranhão terão, a partir de março, o maior salário-base da categoria em todo o país. Depois de dois meses de negociação com o governo do estado, os educadores obtiveram reajuste de 6,81%, o que faz com que o piso passe a ser de R$ 5.750. O anúncio foi feito na última quarta-feira (27) pelo governador do Estado, Flávio Dino (PCdoB).
A dirigente Janice Nery, do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Maranhão (Sinproesemma), destaca que o aumento resulta da luta coletiva por direitos e pela qualificação da área educacional.
“Nós consideramos que foi um avanço significativo. Posso até destacar que foi uma vitória, considerando este cenário que assistimos nacionalmente”, afirma.
O valor leva em conta os profissionais que têm jornada de 40 horas semanais. Para os que têm contrato de 20 horas, haverá aumento proporcional. Com isso, o piso do grupo ficará em R$ 2.875, 41, o segundo maior do país, que fica atrás apenas do Distrito Federal (DF).
A medida atinge diretamente 31.500 professores ativos e outros 15 mil já aposentados. A professora Vera Lúcia do Nascimento Alencar, que ensina na rede estadual há 24 anos, considera que o aumento ajuda a recompensar, ainda que parcialmente, o esforço investido no magistério.
“É muito bom porque a gente sabe que professor não é muito valorizado, então, eu acho muito justo com a classe. Já estava mais do que na hora de isso acontecer. É um reconhecimento”, complementa.
O secretário de Educação do estado, Felipe Camarão, ressalta que a medida nasce de uma decisão política voltada também para o aumento dos índices educacionais. Com um acúmulo histórico de problemas de gestão, o Maranhão ainda responde por algumas das piores estatísticas do país.
Entre outras coisas, o estado é o terceiro em número de analfabetos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São ao todo 840 mil pessoas que não sabem ler e escrever. Além disso, amarga um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. A classificação utilizada os indicadores educacionais como um dos principais eixos de referência.
“Valorizar o educador é um caminho pra gente fazer uma educação digna aqui no Maranhão”, afirmou Camarão, em entrevista ao Brasil de Fato.
Desde 2015, os professores tiveram aumento total de 30,35%, acima da inflação do período, calculada em 21,46%. Diante da demanda histórica por melhorias na educação, o estado tem sido palco, nos últimos anos, de diferentes ações. Entre elas, destacam-se a substituição de escolas de taipa por escolas de alvenaria e o projeto de alfabetização “Sim, eu posso”, executado em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST).
Segundo o Sindicato, o próximo ponto da agenda de luta a ser priorizado pela categoria será o cumprimento do Plano de Cargos e Carreiras no que se refere à progressão salarial dos professores.
(do Brasil de Fato)

Fórum Alternativo Mundial da Água debaterá as ameaças da privatização

Gilberto Cervinski, da coordenação nacional do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), explica que a necessidade de criar um evento alternativo se dá pelo fato do fórum tradicional ser apoiado por governos e empresas que defendem a privatização. “Eles vão reunir empresas, bancos e o conjunto de especuladores que querem privatizar, além do serviço de saneamento, também os rios e aquíferos. Esse fórum acontece no Brasil porque é o maior território com água doce do mundo”, critica.
De acordo com ele, entre os temas que serão debatidos no Fama está a contextualização da ofensiva do capital para a privatização do bem natural. Segundo o MAB, com a crise, o capitalismo tenta criar um grande mercado da água mundial.
“Ao estabelecer a propriedade privada sobre a água, ela passar a ser dominada pelas grandes empresas, criando um grande mercado mundial. Isso é uma das alternativas que eles encontram para acumular mais riqueza durante a crise”, afirma Cervinski.
A partir deste ponto, ele destaca a importância de mobilizar a população por meio do debate. “Um dos pontos do evento será discutir qual será o projeto dos trabalhadores para a questão da água, sobre seu domínio, acesso, qualidade e tarifas. Ali será um espaço para articulação de luta.”
Gilberto explica que o maior consumidor de água no mundo é o agronegócio e cita um exemplo de como este uso se torna prejudicial para o meio ambiente. “Eles consomem muito porque têm uma irrigação em grandes áreas. Hoje, o agronegócio tem cerda de 6 milhões de hectares de produção agrícola irrigada. Recentemente, na cidade de Correntina, na Bahia, uma região de nascente do Rio São Francisco, empresas se apropriaram dos rios e secaram tudo. Agora, a população não tem mais água”, lamenta.
(do Vermelho)

Acessar o conteúdo