É com enorme pesar que o Sinpro-DF informa o falecimento da professora aposentada Léa Maria de Oliveira Guerra. Com 69 anos, Léa foi mais uma vítima da covid-19. Sua partida deixa uma dor imensurável no coração dos amigos e familiares. Mas deixa também a lição da coragem e da doação de ser educadora.
Mãe de dois filhos, professora Léa Maria trabalhou nas escolas da 102, 106 e 304 da Asa Norte. Ela se aposentou em 1995, mas não deixou de frequentar o ambiente escolar e contribuir com as atividades, sempre com uma história para contar.
Ao partir, professora Léa foi homenageada por colegas de trabalho. “Mais um amor que partiu!”, diz trecho do texto intitulado “Carta de Amor à Léa”.
Toda solidariedade aos familiares e amigos da professora Léa Maria de Oliveira Guerra. Seus ensinamentos, sua história e seu companheirismo a manterão eternamente presente.
Carta de Amor à Léa Fez-se um enorme silêncio, nesta tarde de domingo, 11 de julho. Sentimos um nó na garganta, uma dor no peito e a lágrima escorreu. Foi o sentimento de cada uma de nós ao receber a notícia da morte da colega Léa, vítima de COVID. Partiu, sem tempo de despedir da gente ou da família.
Léa Maria de Oliveira Guerra, era assim que uma colega a chamava quando a encontrava nos Bailes dos aposentados. E ela discreta, elegante e gentil perguntava: precisa todo mundo saber meu nome?
Trabalhamos juntas na EC 304 Norte, mas Léa logo se aposentou, contudo não nos deixou! Manteve-se unida a nós, colaborando.
Passou a frequentar a Escola, assiduamente, nos intervalos, trazendo novidades, pois tinha o espírito jovem. Era comunicativa, cheia de vida e luz. Sempre tinha uma história para contar.
Tirava da gente o peso da responsabilidade do trabalho escolar e nos dizia: “Parem um pouco! Vocês não são máquinas! Podemos conversar, tomar cafezinho e rir um pouco.”
Admirável, querida, tranquila, dinâmica, bondosa.
Também contribuía nas festas escolares porque participava ativamente.
Quem é educadora não esquece a sua missão.
Ajudava a escola pública comprando suas fichas para as barracas e os bazares. Os produtos que adquiria doava para pessoas carentes de sua cidade natal. Exemplo de generosidade.
Era uma mulher corajosa que sabia prender a atenção de todos quando contava algo. Expressava-se muito bem, com clareza e tinha uma tonalidade de voz que encantava quem a escutava!
Leá conduziu a vida com maestria, grande companheira de trabalho, de encontros e, para algumas, de viagens também.
Essa é a lembrança que temos dela. Quebrava as tensões da rotina escolar nos trazendo leveza, serenidade e alegria.
Mais um amor que partiu! Que esteja junto aos anjos do céu, num lugar lindo, cantando hinos de louvor.
TUITAÇO CONTRA A REFORMA ADMINISTRATIVA NESTA QUARTA-FEIRA, 14, ÀS 9H
Jornalista: sindicato
ESTABILIDADE SIM, CORRUPÇÃO NÃO!
Participe do tuitaço #EstabilidadeSimCorrupçãoNão nesta quarta, 14/07, às 9h, e denuncie a política de desmonte do serviço público!
A estabilidade no serviço público permitiu que a corrupção das vacinas no governo Bolsonaro fosse denunciada!
Já imaginou um serviço público formado somente por indicação política? “Rachadinhas” e outras formas de abuso seriam muito mais frequentes!
A proposta de Reforma Administrativa do governo Jair Bolsonaro (PEC 32) promove o fim da estabilidade de servidores abrindo brechas para a corrupção e ainda promove a privatização de serviços públicos essenciais, como saúde e educação!
Síndrome de Burnout: professores e a pandemia do esgotamento
Jornalista: Vanessa Galassi
É praticamente impossível encontrar alguma profissão que não tenha sido afetada pela pandemia da Covid-19, que já dura mais de um ano e três meses. Mudanças na rotina, home-office e necessidade de novos aprendizados digitais se tornaram comuns para a maioria dos grupos de trabalhadores.
Os professores, contudo, são alguns dos profissionais que mais sentiram o impacto de todas as mudanças. Durante muito tempo, quem olhava de fora poderia imaginar que o trabalho dos docentes estava mais fácil. Estando todos em casa, menos esforço necessário para aplicar tarefas e colocar ordem na turma. Certo? Não mesmo!
De acordo com a psicóloga Luciane Kozicz Araujo, o número de profissionais da educação que buscaram atendimento e foram diagnosticados com a síndrome de Burnout aumentou perceptivelmente durante o período de pandemia.
“Essa síndrome é o afeto convertido em dor física, então o aumento das dores no corpo tem sido uma queixa constante nos pacientes que procuram a terapia. Esperavam que a pandemia fosse uma corrida de 100 metros e virou uma maratona. Isso tem gerado tensão, medo, fobias, tristeza e solidão. Esse afeto tem aparecido no corpo: dores nas articulações, esgotamento físico e insônia são os principais sintomas”, explica Luciane.
Os motivos para esse esgotamento são muitos, a maioria ligada a um maior número de horas trabalhadas por dia. A impotência diante das precárias condições de trabalho a que estão submetidos, a ausência de muitos alunos no ensino remoto, o fato de não possuírem equipamentos ou mesmo acesso à internet são exemplos do aumento da jornada de trabalho, de acordo com a psicóloga. “Além de inovarem no ensino remoto, precisam preparar material impresso, orientar alunos e pais, ligar para os ausentes, corrigir e verificar se o material está sendo eficiente para o aprendizado”.
A professora Érica* leciona em uma Escola Classe de São Sebastião, no DF, e experimenta sintomas do Burnout há meses, por conta da educação a distância (EAD).
“Eu sinto muita dor de cabeça, no corpo, nas juntas. Tenho a sensação de que fui atropelada. Tanto tempo na frente de um computador, do celular, sentada, sem me movimentar. Tive que procurar ajuda psiquiátrica e psicológica para aliviar as dores, aliviar a tensão, além de precisar me afastar de sala de aula”, relembra.
Para Érica, o desgaste que sente é causado pela necessidade de se desdobrar para atender todos os alunos. A profissional conta que continua em contato direto com as crianças durante todo o horário de almoço e após o encerramento da sua jornada de trabalho, já que o único meio que muitos estudantes têm de acessar a internet é através dos celulares dos pais, que passam o dia inteiro fora de casa a trabalho.
“A gente pensa no aluno, mas esquece de nós mesmos. Nos sentimos um pouquinho pai e um pouquinho mãe dessas crianças”, afirma com emoção. A professora dá como exemplo uma aluna de sua escola que é atendida poucas vezes ao mês, pois os créditos de celular se esgotam rapidamente. Ao dar aula por mensagens de WhatsApp – o único caminho viável em frente a essa dificuldade – a internet acaba em poucos dias, e o contato só é restabelecido na recarga seguinte, ao virar o mês.
As escolas públicas do DF foram fechadas no dia 16 de março de 2020 | Foto Dobrislava/Creative Commons
E é dessa maneira que professores brasileiros têm vivido e trabalhado durante a pandemia. Afinal, a vida e o trabalho se tornam uma coisa só. Ansiedade, esgotamento e, como consequência, o Burnout, atacam a mente e o corpo dos profissionais ao longo do último ano.
Contudo, Érica é otimista ao enxergar, no futuro, a volta às aulas presenciais. “O retorno vai ser bem favorável, vai amenizar um pouco esse nosso estresse. Vamos poder ter o contato com o aluno, o contato visual, falar de perto, identificar melhor as dificuldades. O ensino a distância não proporciona esses momentos”, finaliza.
* Nome fictício a pedido da entrevistada
Fonte: Matéria publicada originalmente no https://gpslifetime.com.br/, por Pedro Ângelo Catanhede | Foto capa: Elisa Ventur/UNSPLASH
Reunião com gestores da Educação Profissional, Unidade de Internação e Sistema Prisional, nesta terça (13)
Jornalista: Vanessa Galassi
O Sinpro-DF realizará, nesta terça-feira (13), mais uma reunião para discutir o possível retorno presencial às aulas. Dessa vez, o encontro será realizado em dois horários: às 10h para gestoras/es da Educação Profissional; e às 16h para gestoras/es da Unidade de Internação e do Sistema Prisional.
O encontro faz parte da jornada de reuniões iniciada nessa segunda (12). O objetivo é de identificar fragilidades e pensar coletivamente as soluções para os problemas que se apresentam quando o tema é o retorno presencial às aulas em meio à pandemia da covid-19.
A jornada de reuniões com gestores vai até o dia 19 de julho. Para participar, basta solicitar o link pelo WhatsApp (61) 99994-6258.
Confira abaixo a sequência das próximas reuniões. Fique atenta/o e participe!
Gestores do CEE, Precoce, CEI, JI e Conveniadas participam de reunião nesta segunda (12)
Jornalista: Luis Ricardo
O Sinpro-DF convida os(as) gestores(as) para a continuidade das reuniões, que serão realizadas nesta segunda-feira (12). Às 10h será a vez dos(as) gestores(as) das Escolas de Tempo Integral e Escolas Parque, e às 16h, os Centros de Ensino Especial, Precoce, CEI, JI e Conveniadas.
O encontro trará para o debate a possível volta presencial das aulas na rede pública, identificar fragilidades e pensar, coletivamente, as saídas. Na sequência, os(as) gestores(as) das modalidades listadas abaixo serão convidados(as) para dar continuidade ao debate. Para participar, solicite o link pelo WhatsApp pelo número (61) 99994-6258.
Confira abaixo a sequência das próximas reuniões. Fiquem atentos(as) e participe!
Homeschooling: parlamentares apresentam projetos de lei para legalizar o abandono intelectual de menores
Jornalista: Maria Carla
O homeschooling (educação domiciliar) continua na pauta do Congresso Nacional como tema prioritário da política nacional de educação. Nessa terça-feira (6/7), ganhou um espaço no programa Profissão Repórter, da Rede Globo. A reportagem mostrou que, embora não tenha vazão na sociedade em geral, um grupo pequeno, geralmente ligado a associações de educação privada, atua nos Poderes Legislativos federal, estaduais e municipais para aprovar projetos de lei que buscam legalizar o abandono intelectual e a doutrinação fundamentalista de crianças e adolescentes.
Assunto superado pela Constituição em vigor, o homeschooling volta a incomodar o País juntamente com outros temas também ultrapassados. O homeschooling está no rol de itens da pauta econômica neoliberal, em curso no Brasil, que impede o desenvolvimento e o crescimento do País, tais como a venda da Eletrobrás, dos Correios, a reforma administrativa entre vários outros.
O homeschooling (educação domiciliar) vai contra o direito da criança e do adolescente à educação e à sociabilidade. No entanto, embora não encontre apoio na sociedade, tem um forte lobby em curso nos Poderes Legislativos federal, estaduais e municipais.
O objetivo é meramente impedir estudantes de menores de idade de usufruírem o direito à educação socialmente referenciada; criar legalidade para mais um canal de desvio de dinheiro público; e fortalecer a Lei da Mordaça (Escola sem Partido), um projeto político-ideológico de um setor privatista que atua na educação e assedia o dinheiro público destinado à Educação pública.
Homeschooling no Profissão Repórter
O programa Profissão Repórter, dessa terça-feira (6), mostrou um pouco das articulações recentes, no Congresso Nacional, sobre o projeto de lei da deputada Luisa Canziani (ex-PTB), que regulamenta o ensino domiciliar. O programa acompanhou duas semanas de movimentações políticas para a aprovação da lei que passa a permitir que pais tirem os filhos da escola e os ensinem em casa, mostrou o debate intenso dos parlamentares sobre a aprovação do PL que propõe a regulamentação da educação domiciliar .
Na reportagem, foi mostrado, por exemplo, um levantamento da Associação Nacional de Ensino Domiciliar (Aned) e que se afirma haver quase 18 mil alunos no País “usufruindo” dessa modalidade. Segundo os dados dessa associação, 0,04% do total de estudantes brasileiros no ensino regular. A votação do homeschooling, que hoje é considerado crime de abandono intelectual na maior parte do Brasil, foi uma das 35 prioridades do governo Bolsonaro entregues à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal. E a única que contempla o tema educação.
O Profissão Repórter acompanhou a deputada governista Luísa Canziani (sem partido-PR), que recebeu a missão de ser a relatora do projeto neste seu primeiro mandato. Aos 25 anos, Luísa é atualmente a deputada mais jovem do Congresso Nacional e integra a Frente Parlamentar Mista pela Educação. Acompanhou também a rotina do deputado federal Professor Israel Batista (PV-DF), presidente da Frente Parlamentar Mista pela Educação e opositor ao projeto. Enquanto a deputada Luísa Canziani batalha pela aprovação de sua versão do projeto, o parlamentar trabalha pelo engavetamento do texto.
Embora não seja forte no Distrito Federal, o movimento pela educação domiciliar tem ganhado espaço midiático e lobby nos Poderes Legislativos federal e distrital desde que uma decisão, de dezembro de 2020, do Governo do Distrito Federal (GDF), autorizou o ensino em casa. A Globo disse que procurou várias famílias que utilizam o homeschooling para dar entrevista, mas só conseguiu uma. A família de Edilaine Lima e Jônatas Lima. Eles são da Associação de Famílias Educadoras do DF e responsáveis pela educação dos três filhos.
Inconstitucionalidade
Melquisedek Aguiar, diretor do Sinpro-DF, informa que desde que esse assunto voltou à pauta do Brasil, o Sinpro-DF se posiciona contrário e aponta, com dados e informações científicas porque é o homeschooling é um problema a ser monitorado e a ser rejeitado. “O direito constitucional à educação não pode ser desvirtuado de sua condição, do interesse coletivo, da sociedade para atender interesses privatistas de determinados “grupos sociais”, que, no afã de garantir seus objetivos, criam falsas narrativas como a de que as leis que asseguram a escola pública e o direito da criança à socialização e construção cidadã de sua personalidade, ser uma forma de ditadura”, afirma
O diretor alerta para o fato de que o homeschooling é defendido por uma minoria inexpressiva da população, porém, é defendido por um forte lobby político e empresarial no Congresso Nacional para a aprovação com vista, unicamente, a atender aos interesses de um governo que atua e ataca, insistentemente, a educação pública. “Nesse sentido, é fundamental que toda a sociedade se mobilize para dizer não a esse falso projeto de educação que, em realidade levará a educação em nosso País ao caos, pois o mesmo compromete o direito das crianças e adolescentes à convivência social e ao acesso a conhecimentos científicos e humanísticos e visões de mundo”, explica.
Ele completa afirmando que o projeto de educação domiciliar “oculta e aumenta a violência doméstica e a exploração sexual, traz o aumenta a insegurança alimentar e nutricional, promove o rompimento com a política de educação especial, negando a educação inclusiva, aprofundando as desigualdades educacionais, impulsiona e estimula a evasão escolar, fragilizando, dessa forma, a democracia e a cidadania, pois, desregula e leva a omissão do Estado em cumprir sua obrigação de investimento e atenção a educação pública”.
Evasão escolar no Distrito Federal
Na reportagem, a Rede Globo entrevistou a equipe de professores e o diretor do CED São Francisco (Chicão), em São Sebastião. O diretor da escola, Matheus Costa de Sousa, afirma que, em vez de se preocupar com homeschooling, o governo deveria estar preocupado com os números elevados de evasão escolar e encontrar uma solução financeira e educacional para isso.
Ele explica que é difícil ter um número da evasão escolar no Distrito Federal porque, embora a pandemia do novo coronavírus tenha pego a todos de surpresa, na educação foi um caos. “A escola pública não estava preparada para conduzir um ensino emergencial. Como tudo foi pensado da noite para o dia, a gente teve muita orientação para que a gente pudesse se colocar, ao máximo, no lugar do estudante para conseguir que ele tivesse um mínimo de progresso e avançasse nos estudos, foi essencial para que a gente tivesse essa sensibilidade”.
Ele conta que uma das formas de contabilizar a evasão nas escolas públicas do DF foi a observação do número de aprovados do ano letivo de 2020 para 2021. “Muitos passaram fazendo muito pouco e esse muito pouco variou muito de escola para escola. Contudo, foi possível a gente notar alguns parâmetros para “medir” a evasão, como, o número de matrículas confirmadas do ano de 2020 para este ano. Outro parâmetro foi a evasão nas provas de progresso de estudos, como, por exemplo, o PAS, Enem. Este ano teve Enem na nossa escola, referente a 2020, e chegamos a uma evasão de metade dos nossos estudantes”, afirma.
Ele diz que essa observação já apresenta um número assustador, contudo, em termos de escola, a direção conseguiu contabilizar um terço de estudantes do Chicão muito ausentes, fazendo outras coisas da vida. Muitos abandonaram a escola para trabalhar, cuidar de casa, e a escola foi ficando em terceiro, quarto plano.
“No Chicão, a gente foi monitorando, ao longo do ano passado para este ano, inclusive tentando contabilizar o número de matrículas confirmadas do 9º Ano para o 1º Ano, levando em consideração que a gente é uma escola de Ensino Médio. A gente havia previsto, por exemplo, para chegar no 1º Ano de cerca de 900 estudantes e a gente conseguiu contabilizar um pouquinho mais de 700. Duzentos estudantes não continuaram, não progrediram nos estudos”, afirma Matheus.
Ele disse ainda que, “ao longo do semestre, a gente foi fazendo Conselho de Classe, e esse número chegou a quase um terço de toda a escola. Então, a gente diminui aí um terço de 1.900 estudantes. Estamos fazendo de tudo para que esse um terço não desista da escola. Estamos fazendo busca ativa, entrando em contato constantemente para que esse número diminua e atuando para que o estudante tenha uma motivação para continuar e concluir o Ensino Médio”.
Direitos da criança e do adolescente
O diretor do Chicão explica que, para além da transmissão e troca de conhecimento, a escola é o espaço da democracia, diversidade, socialização, cidadania e que retirar o direito da criança/adolescente de ter acesso à escola é prejudica-la em todos os sentidos.
“É, sobretudo, prejudica-la no sentido de ela não conseguir ter uma formação cidadã, holística, democrática, então, significa retirar esse direito da criança e do adolescente de se construir no mundo democrático, no mundo cidadão, no mundo diverso, no mundo mais tolerante, no mundo mais respeitoso. A escola pública é o espaço dessa construção por meio de uma educação humanizada. Mas a escola, por si só, tem, sobretudo, essa função social”.
Os pais de estudantes da escola pública
O movimento pela educação domiciliar (homeschooling, em inglês), é um movimento que não tem essa força que tem sido divulgada pelo governo federal. Muito pelo contrário. A maioria esmagadora dos pais que matriculam seus filhos e filhas nas escolas públicas são pessoas trabalhadoras que têm uma carga horária exaustiva de trabalho e a gente vê que as famílias que defendem o homeschooling têm perfil diferente do comum.
“Dentro desse rol de famílias que defendem o homeschooling existe um pequeno grupo que é capaz de conseguir dentro de casa ou então separar para que familiares e responsáveis acompanhem cotidianamente o progresso do estudante no contexto familiar. A gente vê que essa é uma realidade acessível a uma pequena, uma minúscula parcela da população. A gente vê que essa discussão do homeschooling não ganha espaço nas escolas públicas. Muito pelo contrário: os pais veem na escola pública uma parceria no processo de educação e formação de seus filhos e filhas”, afirma o direito do Chicão.
Ele também explica que, “com todos os pais que a gente tenta conversar sobre esse tema, eles descartam. Não querem nem discutir. Eles querem que os filhos e filhas voltem à escola e tenham a socialização, estejam próximos dos professores e professoras. Não é um discurso bem visto pelos pais, mães e responsáveis por estudantes da escola pública do DF”, assegura.
Perfil do homeschooling: classe alta, cristã fundamentalista e branca
O diretor do Chicão alerta para o fato de que entre os defensores do homeschooling, um grupo muito pequeno tem condições de ofertar aos filhos e filhas a educação domiciliar. No entanto, estão organizados para ganhar terreno, expressão nacional e abocanhar uma parte do dinheiro público destinado à educação pública.
Para encontrar sustentação e ampliar seu tamanho para legalizar o abandono intelectual de menor, esse grupo começou criar associações para encaminhar seus interesses e também para ministrar “aulas” a estudantes em esquemas privados em detrimento da socialização na escola.
“A gente vê que as famílias associadas têm um perfil que, normalmente, é perfil de classe média alta, cristãs fundamentalistas e brancas. Esse é o perfil que predomina nesse espaço e que quer ganhar alguma legitimidade constitucional para ter dinheiro público nesse negócio. É difícil dizer o número de pessoas nisso no DF, mas existe uma perspectiva em torno de Brasil que uma política pública de homeschooling alcançaria cerca de 7 a 10 mil famílias com condições de manter esse cenário”, informa Matheus Sousa.
Ele também observa que as escolas privadas também são contra o homeschooling porque valoriza o espaço físico e por entenderem que o contato, o acolhimento, a troca é fundamental para o progresso pedagógico do estudante. “Tudo isso acontece no espaço físico, na socialização. É um movimento que também não tem ganhado força dentro do ensino privado”.
Uberização da profissão professor(a)
O diretor do Chicão explica, ainda, que, além de infringir todas as leis de defesa da criança e do adolescente em vigor no País, de tentar legalizar uma situação para receber dinheiro público, o homeschooling apregoado pelas associações fundamentalistas que atuam no Congresso Nacional também destrói a própria educação pública e aprofunda a uberização.
Abre muito espaço para os chamados “reforços”. A maioria dessas famílias contrata professores já graduados ou em formação, sem qualquer garantia de direitos trabalhistas, para que tenham atendimento específico, particular e um acompanhamento do progresso do estudante. A gente vê também que os critérios que norteiam nossa profissão, como a Lei de Diretrizes e Bases, a Base Nacional Curricular Comum e as outras leis que reforçam e legitimam o nosso trabalho têm muito menos chance de serem colocadas em prática e fiscalizadas dentro do contexto do ensino domiciliar e isso desvaloriza muito a profissão.
Ao precarizar a profissão, reforça-se um giro na economia no sentido de que os professores(as) vão, cada vez mais, se submeterem a condições precárias de trabalho, cada vez mais professores uberizando seus serviços, fortalecendo esta fase do capitalismo na qual cada pessoa vira uma empresa.
Olhando para o contexto do homeschooling, o(a) professor(a) teria de bancar seu próprio plano de saúde e da sua família, fazer sua hora de trabalho de forma a conseguir ganhar dinheiro suficiente para o sustento; fazer o seu deslocamento à residência da pessoa que o contrata; e todos esses custos de trabalho são precarizados tendo em vista as condições estabelecidas no aprovamento. O homeschooling é a própria desvalorização do magistério. É importante olhar com o devido cuidado porque cada vez mais temos visto o aumento da uberização de diversos ramos profissionais e está batendo na porta da profissão do professor agora.
Vai ao ar nesta quarta-feira, ás 17h, a 8ª edição do programa Descomplicando, com Dão Real Pereira dos Santos, auditor fiscal, vice-presidente do IJF (Instituto Justiça Fiscal) e integrante do Coletivo Auditores Fiscais pela Democracia. Ele também faz parte da coordenação da Campanha Tributar os Super-Ricos.
O programa Descomplicando está nas redes quinzenalmente, às quartas, às 17h. Uma parceria da Rede Soberania, Brasil de Fato RS, Instituto Justiça Fiscal, Democracia e Direitos Fundamentais e a Campanha Tributar os Super-Ricos. A transmissão será na página oficial do Tributar os Super-ricos e no facebook do Sinpro.
Com atuação presencial desde o início da pandemia, bancários lutam por prioridade na vacinação
Jornalista: Maria Carla
#VacinaNoBraçodosBancários: Sindicato percorre agências do SCS,
Asa Sul e Norte para pressionar GDF a priorizar vacinação da categoria bancária
Conforme deliberado em assembleia geral da categoria na quinta-feira (1º), o Sindicato percorreu, na manhã desta segunda-feira (5), agências bancárias do SCS, Asa Sul e Norte, que tiveram suas atividades paralisadas em protesto contra o recuo do governador do Distrito Federal (GDF), Ibaneis Rocha, na priorização dos bancários no plano de imunização contra a covid-19 e para pressionar pela garantia do direito à vacina no braço dos trabalhadores. Os bancários também se mobilizaram pelas redes sociais, usando as hashtags #VacinaLogoIbaneis e #GovernadorIbaneisCumpraAPalavra.
“Estamos realizando paralisações setoriais, para dialogar com a população. Nós, bancários e bancárias, estamos sendo extremamente prejudicados pela postura do GDF. Embora o governador Ibaneis tenha se comprometido com o Sindicato que iniciaria a vacinação da categoria neste final de semana (dias 3 e 4), o governo recuou de uma forma muito deselegante, fazendo a comunicação pela imprensa, ao invés de dialogar formalmente com a entidade, para que pudéssemos achar uma solução, considerando que somos uma categoria essencial, que está atuando na linha de frente desde o início da pandemia, faça chuva ou faça sol, no atendimento à população, correndo os riscos de adoecimentos e mortes”, ressaltou o presidente do Sindicato, Kleytton Morais.
O dirigente sindical pontuou que, de acordo com dados oficiais do governo federal, a categoria bancária é a que, percentualmente, foi mais impactada pela questão da pandemia. O número de desligamento de contratos decorrentes de óbitos de bancários e bancárias é de quase 180%, número bem distante dos demais trabalhadores e que os coloca numa situação fragilizada.
Kleytton esclareceu: “A greve hoje é sanitária. Esse é um grito de socorro e de alerta, porque os bancários e bancárias estão adoecendo e morrendo. E não é mais possível esperar diante da omissão das autoridades. Portanto, governador, cumpra a sua palavra. Vacine logo a categoria. E vocês, banqueiros, Fenaban, cumpram o papel importantíssimo que vocês têm, encontrando possíveis soluções a nível nacional, acelerando o processo de tramitação das matérias que cobram pela inclusão dos bancários no PNO, mas não somente esperando o seu trâmite no Legislativo, mas construindo alternativas junto ao próprio Executivo, como é o caso do Ministério da Saúde”.
Secretária-geral do Sindicato, Fabiana Uehara também falou da importância da participação da categoria bancária nesta luta pela imunização. “Os bancários e bancárias desenvolvem serviços essenciais e precisam se vacinar”, reforçou, reiterando que a mobilização permanente se dará com paralisações setoriais diárias, por bancos, cidades e locais estratégicos.
“A categoria segue em estado de greve permanente, porque é fundamental priorizar a vacinação dos bancários e bancárias, que sempre se expuseram na linha de frente durante toda a pandemia. Por isso, governador, assuma o seu compromisso com a direção do Sindicato”, cobrou o diretor da Fetec-CUT/CN, Ivan Amarante.
Durante a madrugada, o Sindicato colou cartazes em dezenas de agências da cidade, em que esclarece a importância de priorizar a imunização dos trabalhadores e cobrando um posicionamento do governo do DF.
Pressão também no Buriti
Às 16h, a entidade realizou ato, com o mesmo objetivo, em frente ao Palácio do Buriti, onde inicialmente enfrentou resistência da polícia para a realização da atividade pacífica.
Plenária
Às 18h, foi realizada uma plenária remota pelo Sindicato, também em frente ao Buriti, para discutir os encaminhamentos da mobilização.
Ato conjunto no Ministério da Saúde nesta terça
Dando sequência aos protestos, o Sindicato participa amanhã de ato conjunto com os trabalhadores dos Correios em frente ao Ministério da Saúde, às 10h.
O governo de São Paulo aproveita a pandemia e ‘passa a boiada’ com a reforma do Ensino Médio
Por Débora Cristina Goulart, Fernando Cássio e José Alves da Silva
Ela tem 15 anos e está no primeiro ano do ensino médio. Estuda em uma escola estadual de São Paulo e, como a maioria de seus colegas que não acreditam que as escolas paulistas sejam ambientes seguros contra a doença que já matou mais de 500 mil pessoas no Brasil, ela acompanha as aulas e atividades escolares de forma remota – sempre que a velocidade da conexão permite, obviamente. Ela praticamente não viu o rosto de seus colegas de classe desde o começo do ano – as câmeras ficam desligadas durante as aulas – e nunca encontrou pessoalmente seus professores.
Gostava de Matemática e História no Ensino Fundamental, e está tendo Física, Química, Sociologia e Filosofia pela primeira vez. Ela gosta mais de algumas aulas do que de outras. Simpatiza com o professor de Biologia, mas gosta mais das aulas de Geografia, cuja professora parece mais exigente com as tarefas. Ontem, amou um texto literário indicado por um professor e se imaginou estudante universitária de Letras. Hoje cedo se encantou com uma discussão sobre o negacionismo e a importância de aprender Ciências na escola. Horas depois, na cozinha de casa, achou que leva jeito para a confeitaria artística. Todas as tardes ela e os dois irmãos ajudam a mãe a fabricar bolos confeitados, que são vendidos pelo Instagram.
Embora o futuro dessa adolescente pareça um grande mistério para ela própria, os implementadores da reforma do Ensino Médio no estado de São Paulo parecem ser os portadores de todas as certezas, já que a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) deu a ela e a outros milhões de estudantes da rede estadual cheios de sonhos e desejos contraditórios a seguinte incumbência: preencher um formulário para escolher o “itinerário formativo” que definirá o seu futuro não apenas escolar, mas também profissional, até o dia 8 de julho.
A atribuição dos itinerários formativos do “novo Ensino Médio” é passo decisivo para a implementação da reforma da etapa no estado de São Paulo. Na prática, trata-se da mais extensa reorganização escolar implantada na rede paulista desde 2015. Naquela ocasião, o plano do governo paulista de transferir compulsoriamente centenas de milhares de estudantes soçobrou diante de massivas ocupações estudantis. Em 2016, no segundo ciclo das ocupações escolares, mais de mil escolas foram ocupadas no Brasil por estudantes que se opunham justamente à reforma do Ensino Médio, aprovada como Medida Provisória (a polêmica MP n. 746/2016) e depois transformada na Lei n. 13.415/2017. É esta reforma que o governo paulista resolveu implantar em meio à pandemia.
Com o novo Ensino Médio (mas também com o Programa Ensino Integral e outras políticas educacionais controversas), a Seduc-SP aposta na desmobilização das comunidades escolares por conta da pandemia para “passar a boiada”. O governo Doria é habilidoso em manter o controle do debate público da educação, e sabe que, enquanto a população estiver mais preocupada com a própria sobrevivência, os estudantes não criarão obstáculos à faraônica reorganização escolar que está em curso na rede estadual.
Some-se a isso todo o esforço da Seduc-SP nos últimos anos em políticas de institucionalização de grêmios escolares, tentativa de cooptar politicamente os estudantes gremistas e de obstaculizar a existência dos grêmios livres – gérmen das ocupações escolares de cinco anos atrás. O “protagonismo juvenil”, tão estimulado na rede estadual paulista desde 2016, sempre foi muito bem supervisionado.
Protagonismo juvenil da vida real
A baixa adesão dos estudantes das redes públicas ao ensino remoto é fato incontestável no país. Em São Paulo, um relatório do Tribunal de Contas do Estado, baseado em dados oficiais da Seduc-SP, mostrou que, ao longo de todo o ano de 2020, 81,2% dos alunos permaneceram conectados por no máximo duas horas no aplicativo do Centro de Mídias de São Paulo, plataforma oficial de acesso ao ensino remoto na rede estadual.
A evasão escolar – por acesso nulo ou ocasional ao ensino remoto – se dá por motivos que vão desde a falta de conectividade e equipamentos até a necessidade de garantir o sustento de famílias devastadas pelo desemprego, pela fome e pelas mortes e sequelas da Covid-19. Na falta de políticas públicas robustas de transferência de renda, quem consegue trabalho, trabalha. Se o trabalho é precário, em jornada ampliada, e leva ao abandono dos estudos, paciência. Pior do que isso é a fome. Além do trabalho fora de casa, a carga de trabalho doméstico e do cuidado com os mais novos, que também aumentou durante a pandemia, recai mais fortemente sobre as meninas. Tornar-se chefe de família antes do tempo, mostram as pesquisas, acarreta um custo emocional elevado para esses adolescentes e jovens. Não por acaso, a pandemia agravou quadros de ansiedade e depressão entre os jovens, sobretudo os mais vulneráveis.
É difícil pensar em um cenário mais desolador do que este: uma rede de ensino com 3,8 milhões de estudantes sem acesso regular à escola há 15 meses e vivendo momentos de aguda fragilidade emocional. Apesar disso, em vez de adotar uma postura cautelosa quanto à realização de mudanças drásticas na estrutura do currículo escolar, a Seduc-SP prefere acelerar o processo de “escolha” dos estudantes. Esqueça os problemas; seja protagonista da sua vida!
Em julho de 2020, o Conselho Estadual de Educação de São Paulo aprovou o Currículo Paulista para o Ensino Médio. Com essa “etapa vencida” (assim declarou o secretário da educação Rossieli Soares da Silva), a Seduc-SP avançou para a organização da oferta dos itinerários formativos na rede estadual. Criou um catálogo sucinto, com uma descrição genérica dos itinerários, e distribuiu questionários aos estudantes para o apressado exercício da “liberdade de escolha” e do “protagonismo juvenil” – dois conceitos-chave no marketing da reforma do Ensino Médio desde o governo Michel Temer (do qual o próprio Rossieli foi ministro da educação, a certa altura).
O ano de 2020 será lembrado por muitas razões na rede estadual paulista, nenhuma delas relacionada ao aprofundamento da transparência pública, da gestão democrática e da participação qualificada das comunidades escolares nas decisões que afetam o seu cotidiano. Acumulam-se evidências de que a Seduc-SP, de forma ativa, oculta informações e confunde as comunidades escolares. Não seria diferente com o novo Ensino Médio.
Os 11 itinerários formativos são apresentados aos estudantes como percursos de “aprofundamento” da formação geral fundamentada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Eles envolvem aprofundamento em “Matemática e suas tecnologias”, “Linguagens e suas tecnologias”, “Ciências da Natureza e suas tecnologias” e “Ciências Humanas e Sociais aplicadas”, além da combinação dessas quatro grandes áreas nos chamados itinerários de “aprofundamento integrado”. Além dos dez percursos de aprofundamento, o estudante pode optar por um décimo-primeiro itinerário, de formação técnico-profissional, que se divide em dois tipos.
O primeiro tipo compreende um menu com 21 cursos técnicos que substituem as 900 horas dos itinerários de aprofundamento. É o chamado “Novotec Integrado”, que faz a seguinte promessa aos estudantes: “você terá o diploma do Ensino Médio e também será formado para ter um diploma em técnico em…”. A formulação é sutil: não se trata de uma formação técnico-profissional em sentido estrito, mas de uma introdução de 900 horas que deverá ser complementada depois se o estudante desejar obter, além do diploma do Ensino Médio, um diploma de “técnico em…”. A diferença de carga horária entre o Novotec Integrado e um curso técnico regular é significativa. Um exemplo: para obter um diploma de técnico em Química no Centro Paula Souza – 2.000 horas-aula mais 120 horas de TCC –, será necessário passar pelo menos mais um ano na escola.
O segundo tipo de “itinerário técnico-profissional” reúne um conjunto de cursos profissionalizantes de curta duração que substituem algumas Unidades Curriculares (UC) do itinerário de aprofundamento escolhido. Na linguagem da Seduc-SP, o “Novotec Expresso” é um “aprofundamento curricular com dois cursos profissionalizantes focados no mundo do trabalho”. Quem escolher o itinerário de aprofundamento curricular em Ciências da Natureza junto com o Novotec Expresso, por exemplo, poderá substituir a UC2 do itinerário – que trata de origem da vida, evolução, gravitação e grandezas do Universo, a Química da vida na Terra, etc. – pelo curso “Seu desenho do 2D ao 3D (AutoCAD)”. Já a UC3, que trata de tecnologias de acessibilidade e inclusão, poderá ser substituída pelo curso “Excel aplicado à Área Administrativa”. Menos Ciência básica, mais profissionalização de baixa complexidade.
Além de implantar um novo Ensino Médio sem a quantidade necessária de recursos, o governo paulista induz a privatização da oferta educacional direta através do Novotec Expresso. As escassas verbas das escolas estaduais serão agora disputadas pelas pequenas escolas privadas que ofertarão os minicursos de AutoCAD, Excel e design de jogos, já que o governo estadual não tem a pretensão de equipar a rede de ensino ou contratar profissionais para essa oferta.
Uma arquitetura curricular de tamanha complexidade demanda um grande esforço de compreensão por parte dos estudantes. Para escolher seus itinerários de preferência, eles precisam acessar um formulário online disponível na Secretaria Escolar Digital, no qual são apresentados a uma “breve descrição” e têm a opção de abrir uma “ementa geral” do itinerário pretendido. A ementa é um texto sucinto e propagandístico em que os respondentes são apresentados às futuras benesses que a escolha daquele itinerário poderá lhes proporcionar. O aprofundamento curricular em Ciências da Natureza e suas tecnologias (“Ciência em Ação!”), por exemplo, “possibilita a aplicação de aprendizagens na intervenção sociocultural, investigação científica, em processos criativos e empreendedorismo”. Em todas as ementas, o conhecimento é tratado numa dimensão utilitária, bem ao gosto das habilidades e competências codificadas da BNCC.
A despeito da pressa do governo para que os estudantes exerçam a sua liberdade de escolha, as matrizes curriculares com o detalhamento das disciplinas e a organização dos itinerários no novo Ensino Médio paulista não foram disponibilizadas aos principais interessados. A divulgação dos detalhes sobre os itinerários está prevista apenas para o dia 12 de julho, quatro dias depois de encerrado o prazo para o preenchimento do formulário pelos estudantes. Informações genéricas sobre os itinerários também foram apresentadas em lives feitas pela Seduc-SP, sem que os estudantes tivessem a oportunidade de fazer perguntas à equipe, uma vez que os comentários não estavam habilitados ao público.
Neste “processo de escuta”, em que milhões de adolescentes cheios de dúvidas são obrigados a tomar uma das decisões mais importantes de suas vidas no inoportuno momento da pandemia e sem acesso qualificado à informação, seis dos dez itinerários de aprofundamento curricular devem ser escolhidos por ordem de prioridade. Além disso, os respondentes podem optar por um dos percursos técnico-profissionais – Expresso e Integrado – com a logomarca Novotec.
Uma mensagem na tela avisa os estudantes que o formulário se trata de uma mera “manifestação de interesse”, o que significa que a oferta dos itinerários pela unidade escolar será, no fim das contas, determinada pelo interesse da maioria dos respondentes e pelo perfil profissional do corpo docente alocado na unidade. Fica subentendido que os estudantes que optarem por itinerários não ofertados por sua escola atual terão toda a liberdade de fazer uma dentre duas escolhas possíveis: 1) cursar um itinerário de aprofundamento ou pseudoprofissionalizante que não escolheu; ou 2) mudar de escola. O protagonismo juvenil da vida real.
Formação nem-nem
O argumento da flexibilização curricular e da liberdade de escolher um percurso formativo mais próximo de suas aspirações ou aptidões (ou melhor, mais próximo da forma como um adolescente percebe as próprias aspirações e aptidões aos 15 anos) é evidentemente falacioso. Ao escolher um itinerário de “aprofundamento curricular”, todos os outros itinerários são deixados para trás. Se a opção incluir os penduricalhos do Novotec, a formação do Ensino Médio paulista ficará ainda mais reduzida. A própria escolha (nada casual) da palavra “aprofundamento” serve para nos distrair daquilo que o “novo Ensino Médio” realmente produz: estreitamento curricular. O referido “aprofundamento” – que na verdade implica na redução do tempo da formação geral – ocupa 28,6% da carga horária total do Ensino Médio paulista.
A Seduc-SP já havia sacrificado outras 450 horas-aula da formação básica do Ensino Médio nas disciplinas “projeto de vida”, “tecnologia” e eletivas vinculadas ao Programa Inova Educação, fruto de parceria da Seduc-SP com o Instituto Ayrton Senna. Graças à tenacidade de muitas escolas e docentes da rede estadual, que transformaram as disciplinas “Inova” em coisa mais interessante, nem todo estudante da rede estadual paulista será obrigado a engolir 150 horas-aula de coaching empresarial por ano ao longo de todo o Ensino Médio. No Inova Educação, a sensação de autonomia é estimulada pelos “feirões das eletivas”, eventos em que os professores tentam “vender” suas disciplinas para o maior número possível de estudantes em banquinhas montadas na quadra da escola. Tamanha inovação educacional abocanha outros 14,3% da carga horária total do Ensino Médio.
Para os defensores de primeira hora da reforma do Ensino Médio, a existência de uma massa de jovens egressos do Ensino Médio que não trabalham e nem estão no Ensino Superior – a popular “geração nem-nem” – seria a prova cabal da necessidade de reformar a última etapa da educação básica e de conferir a esta um caráter fortemente utilitário e profissionalizante. Outro argumento clássico em favor da reforma é o de que é preciso combater a evasão escolar transformando uma escola chata e velhusca numa escola atraente e conectada a seu tempo.
O caso é que a escola pública de Ensino Médio no Brasil, muito antes de ser chata e velhusca, nunca deixou de ser improvisada e precária. E como ela jamais ofereceu uma formação generalista adequada a seus estudantes, não faz o menor sentido classificar a formação do Ensino Médio brasileiro como um entulho “desnecessário” e “antiquado”. De modo tácito, o novo Ensino Médio assume que a precariedade do Ensino Médio brasileiro é a tal ponto insuperável, que a oferta de uma formação generalista de alta qualidade para todos os estudantes é um projeto inalcançável – uma variação de “o povo não cabe na Constituição”. O resultado prático dessa premissa é a simplificação da formação dos mais pobres. Em São Paulo, o novo Ensino Médio não é generalista e nem profissionalizante. Sob o vocabulário inspirador do “protagonismo”, da “liberdade”, do “aprofundamento” e da “inovação” jaz uma esquálida formação nem-nem.
A situação de São Paulo não é muito diferente da de outros estados que igualmente implementam a reforma do Ensino Médio neste momento. As consequências da escolha dos itinerários formativos nos processos de disputa de vagas para o Ensino Superior são desconhecidas, pois não se sabe o que mudará no Exame Nacional do Ensino Médio e nos vestibulares por conta da implementação definitiva da reforma do Ensino Médio no país.
A oferta de todos os itinerários em uma única escola será impossível, de forma que cada unidade deverá oferecer pelo menos dois percursos compreendendo necessariamente as quatro grandes áreas do conhecimento (Linguagens,. Matemática, Ciências Humanas e Ciências da Natureza). Isso obrigará escolas pequenas e médias a oferecerem os itinerários de “aprofundamento integrado”. A tão celebrada “escolha por aptidão” do novo Ensino Médio, desse modo, está sempre condicionada às necessidades administrativas da Seduc-SP. Caso o itinerário desejado não seja ofertado na escola onde o estudante está matriculado, ele poderá se transferir para uma unidade localizada a até dois quilômetros da escola atual. Assim, é razoável supor que haverá um considerável remanejamento de estudantes para escolas mais distantes do local onde residem. A liberdade de escolha será particularmente vilipendiada nos 335 municípios paulistas que possuem uma única escola estadual (Censo Escolar 2020), cuja oferta de itinerários será sempre mais enxuta do que as aspirações de adolescentes de 14 e 15 anos, cujos sonhos estarão limitados pelas fronteiras municipais.
Voltemos à adolescente descrita no começo deste texto. Como seria a sua vida se ela tivesse nascido em uma família de classe média? Alguém imaginaria que a sua escola particular lhe ofereceria um formulário online e exíguos 20 dias para escolher o itinerário formativo que a acompanhará até o final do Ensino Médio? E, ainda, que tal escolha poderia impor a essa estudante a necessidade de mudar de escola?
Diante de um futuro incerto, o novo Ensino Médio paulista limita possibilidades, em vez de ampliá-las. Alimenta a ilusão de que uma formação generalista é algo velho e ruim, e coloca no lugar uma nova ilusão: a de que uma formação aligeirada e simplória é algo bom e moderno. Os arautos da reforma do Ensino Médio tratam a instabilidade do mercado de trabalho como um pequeno calombo na corrida de obstáculos da escola neoliberal, mas sabem perfeitamente que este é o grande precipício com o qual, em algum momento da vida, as pessoas com uma formação escolar claudicante irão se deparar.
Nas escolas privadas, que continuarão oferecendo uma formação generalista a adolescentes das classes médias e altas, o “aprofundamento” continuará sendo tomado no sentido literal – horas-aula adicionais à formação básica geral e cobradas à parte nas mensalidades. Os nomes das disciplinas podem mudar, o conhecimento pode ser chamado de “competência” e as escolas podem ser inundadas de tablets e traquitanas –, mas uma formação escolar sólida continuará sendo a melhor porta de entrada para um mundo grávido de futuro e de possibilidades. Já o Ensino Médio nem-nem, este manterá as desigualdades educacionais no mesmo lugar. Maurício Tragtenberg nunca esteve tão certo quando disse que “quando não se quer mudar nada a gente faz uma reforma na educação”.
Débora Cristina Goulart é doutora em Ciências Sociais e professora da Unifesp do departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE). Integra o Comitê Diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e participa da Rede Escola Pública e Universidade (Repu).
Fernando Cássio é doutor em Ciências e professor da UFABC, onde integra o grupo de pesquisa “Direito à Educação, Políticas Educacionais e Escola” (DiEPEE). Integra o Comitê Diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e participa da Rede Escola Pública e Universidade (Repu).
José Alves da Silva é doutor em Educação e professor da Unifesp, onde é pesquisador do PECMA (Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática). Participa da Rede Escola Pública e Universidade (Repu).
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Sinpro-DF convoca a categoria para tuitaço, nesta segunda (5), 19h, contra a reforma administrativa
Jornalista: Maria Carla
O Sinpro-DF convoca os(as) professores(as) e orientadores(as) educacionais para participarem do tuitaço contra a reforma administrativa, nesta segunda-feira (5/7), 19h, com a tag#enterraPec32.
Orienta também, a todos e todas, a marcarem os(as) deputados(as) nas redes sociais, denunciar as armadilhas da proposta que destruirá os serviços públicos e prejudicará servidores(as) de todo o País! Acesse o link do Educação Faz Pressão e pressione o deputado!