Homofobia: CUT solicita investigação do MP

A CUT-DF decidiu acionar o Ministério Público solicitando investigação para saber se a Secretaria de Educação do DF está cumprindo as diretrizes definidas pelo Ministério da Educação no que diz respeito ao combate à homofobia. A decisão foi uma reação às declarações preconceituosas emitidas pelo secretário de Educação ao apoiar a decisão de não renovar o contrato do professor Márcio Barrios de Brazlândia.
Em novembro de 2008, quando ainda fazia parte do quadro de professores de uma escola em Brazlândia, com contrato temporário, o professor Márcio decidiu utilizar a música “Kissed a girl” (Eu beijei uma garota), da cantora americana Katy Perry, para exemplificar conjugação verbal no tempo passado. Sua atitude contrariou uma orientação da direção da escola, que julgou o conteúdo da música inadequado para a faixa etária dos alunos (12 a 14 anos). Acusado de fazer apologia ao uso de álcool e ao homossexualismo, o professor foi afastado de sua função e não teve seu contrato renovado para 2009.
O professor de inglês Márcio Barrios decidiu usar uma música da cantora e compositora americana Katy Perry em uma das aulas. Na letra ela conta a história de uma garota que depois de beber beijou outra garota. “Eu beijei uma garota só para experimentar. Espero que meu namorado não se importe. Eu beijei uma garota e gostei do gosto de cereja do batom dela”, diz a letra. O professor afirma que a aula era sobre verbos no tempo passado e que a música, um sucesso, seria um bom exemplo.
O Secretário de Educação do Distrito Federal – José Luiz da Silva Valente – ao manifestar-se sobre o caso alegou que a atitude do professor “reflete um comportamento inadequado”, motivo pelo qual a SEDF apóia a decisão da escola.
Entendemos que a orientação pedagógica da escola – cuja direção afirma ter sido contrariada pelo professor, deve estar subordinada às diretrizes fixadas pelo Ministério da Educação para a rede pública de ensino no Brasil. E a proposta do MEC é investir na capacitação de professores da rede pública para o combate à homofobia, justamente para que situações como a de Brazlândia não volte a ocorrer.
O grupo de trabalho responsável pela elaboração desta política no MEC é consensual quanto à necessidade de se tratar o tema da diversidade sexual nas escolas, pois a invisibilidade e a falta de informação levam à reprodução de atitudes homofóbicas.
A palavra homofobia vem do grego e significa medo da homossexualidade. Expressa a criação e consolidação de um conjunto agressivo de referências contra gays, lésbicas, transgêneros e transexuais, que passam a ser taxados como perigosos, ridículos, anormais e doentes. O preconceito homofóbico pode incitar ódio, violência, difamação, injúria, perseguição e exclusão, prejudicando a imagem das pessoas e interferindo no aprendizado e na evasão escolar, por isso é tão importante que as escolas enfrentem o debate da diversidade sexual e do uso de álcool e drogas por adolescentes, dentre tantos outros.
Não é invisibilizando os problemas que vamos enfrentá-los. Portanto, o professor Márcio deve ser parabenizado pela coragem de denunciar, pois vários casos semelhantes permanecem no anonimato.
A declaração do próprio professor, que é homossexual e alega ter sido vítima de preconceito na escola, corrobora a tese de que a questão ultrapassa razões administrativas ou pedagógicas, denunciando um caso inequívoco de preconceito institucional, que deve ser tratado como tal.
Ao contrário do que declarou o Secretário de Educação do DF de que “não interessa a opção de ninguém. Interessa que as pessoas que estão ali com a responsabilidade de educar os nossos jovens, os eduquem de acordo com a orientação pedagógica da escola”, defendemos que a orientação das pessoas deve sim interessar a todos. Deve interessar a ponto de ser discutida em sala de aula, nos sindicatos, nas ruas, no parlamento e em todo lugar, para que seja submetida a contradições e opiniões distintas, fazendo-se reconhecer e respeitar. Neste sentido, reafirmamos nosso compromisso com a aprovação do PL 122/2006, que está em tramitação no Senado Federal e tem como objeto a criminalização da homofobia.
Noutro extremo do DF já temos um exemplo de como enfrentar essa questão: o Projeto Planaltina de Mãos Dadas com a Diversidade sem Discriminação vem sendo desenvolvido com 120 professores em 39 escolas da cidade e envolve pelo menos 15 mil estudantes do ensino fundamental, além da comunidade.
A Central Única dos Trabalhadores do DF lamenta as declarações do Secretário de Educação do DF e solidariza-se com o professor Márcio e com tanto/as outro/as educadores e educadoras anônimos que trabalham cotidianamente por uma educação emancipadora e não discriminatória.

Campanha Salarial: cuidado com especulações

Nossa campanha salarial está ganhando as ruas e é normal que neste momento surja todo tipo de especulação em torno da nossa luta. Fiquem atentos e não tenham ilusões: serão usadas muitas armas para minar nossa mobilização e uma delas será
a tentativa de dividir a categoria, em especial se utilizando de matérias publicadas pela grande imprensa. Para que isso não ocorra é necessário que a categoria continue mobilizada, debatendo com a comunidade a situação da escola pública e recebendo e confiando nas informações veiculadas pelo Sindicato neste site e em publicações específicas..
Nossa luta é pelo cumprimento da lei que é fruto de um acordo aprovado pela Câmara Legislativa e assinado pelo próprio governador. Não aceitaremos que desqualifiquem nossas reivindicações.

Nota da Abraço sobre o PL da Radiodifusão

Uma análise mais demorada sobre o Projeto de Lei divulgado como o “PL da Descriminalização das Rádios Comunitárias” nos leva à seguinte conclusão: ele não descriminaliza, apenas muda a caracterização do crime.

Ao promover a alteração do artigo 261 do Código Penal, acrescentando o parágrafo que tipifica como crime a interferência em sistemas de comunicação de segurança de vôos, militares ou de serviços essenciais como segurança e saúde, o PL aumenta a pena que é de 2 a 4 anos, atualmente, para até 10 anos de reclusão.

Interferências são causadas por problemas técnicos, podem ser corrigidos, não devem ser tipificadas como crimes. Também podem e devem ser tratadas no campo administrativo.

A quase totalidade dos fechamentos e apreensões em rádios de baixa potência, ocorridas até hoje, deram-se com a argumentação de que elas causam esse tipo de interferência e podem até derrubar avião, o que não foi comprovado! Muito pelo contrário, os relatórios de interferências produzidos pelos órgãos de proteção ao vôo não apontam nenhuma emissora de baixa potência. Apontam, isso sim, emissoras comerciais de grandes potências.

Portanto, esse artigo, caso seja aprovado da forma como está, dará suporte legal para que a repressão e a perseguição às RadCom tenham continuidade.

Outro aspecto negativo é que torna falta grave a veiculação de publicidade. Por quê? Porque as RadCom surgiram para promover a inclusão das comunidades e de todos os seus segmentos excluídos nos meios de comunicação. É notório que o segmento de produtos e serviços de pequenas e microempresas (ou de trabalhadores autônomos de uma pequena localidade ou bairro) nunca conseguiu espaço nos meios comerciais por não poder pagar os altos preços cobrados. Já nas RadCom, com preços simbólicos ou mesmo com contribuições mensais, esse segmento tem espaço para sua divulgação, o que contribui, naturalmente, para o desenvolvimento local.

O projeto é todo ruim?

Não. Ele também traz coisas boas. Por exemplo: tipifica como “falta gravíssima” a transferência da autorização ou o arrendamento da programação para terceiros, bem como a prática do proselitismo, com pena de cassação da autorização. Isso possibilitará ao movimento conseguir de volta as autorizações concedidas pelo Ministério das Comunicações às igrejas, aos cabos eleitorais e às microempresas de publicidade. É praticamente impossível esta conquista com a atual legislação, uma vez que a cassação de uma autorização de radiodifusão comunitária tem que ser aprovada pelo Congresso Nacional por pelo menos 2/3 dos parlamentares.

O PL altera o artigo 183 da Lei 9.472/97, que determina:
“Pena – detenção de dois a quatro anos, aumentada da metade se houver dano a terceiro, e multa de R$ 10.000, 00 (dez mil reais).
Parágrafo único: Incorre na mesma pena quem, direta ou indiretamente, concorrer para o crime”; acrescentando o parágrafo 2º:
“o crime definido neste artigo não se aplica à radiodifusão”.

A nova redação descriminaliza a pura execução do serviço de radiodifusão em geral, o que não é bom! Porque generaliza a liberação, sendo que as emissoras comerciais têm o procedimento de outorga e a sua exploração tem fins econômicos e lucrativos. Como uma concessão pública, precisa participar de processos de licitação. Portanto, é necessário acrescentar ao texto a limitação à radiodifusão comunitária.

Por fim, o PL revoga o artigo 70º da Lei 4.117/62:
“Constitui crime punível com a pena de detenção de 1 (um) a 2 (dois) anos, aumentada da metade se houver dano a terceiro, a instalação ou utilização de telecomunicações, sem observância do disposto nesta Lei e nos regulamentos.

Parágrafo único: Precedendo ao processo penal, para os efeitos referidos neste artigo, será liminarmente procedida a busca e a apreensão da estação ou aparelho ilegal”.

Qual a opinião da Abraço?

A Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço Nacional) compreende como um avanço o trecho do PL que exclui a radiodifusão do crime tipificado no artigo 183/9472 – com o acréscimo que vincula à decisão somente a radiodifusão “com fins exclusivamente comunitários” – e a revogação do artigo 70/4117.

Porém, encara como retrocesso a tipificação como “falta grave” a veiculação de publicidade de qualquer natureza, o que reforça a postura do empresariado das comunicações em excluir a possibilidade das emissoras comunitárias contribuírem com o desenvolvimento local por meio da inclusão, via divulgação, do segmento de produtos e serviços da comunidade.

Também alerta os legisladores sobre a tipificação como crime um mero problema técnico (o da interferência em outros meios), que pode ser corrigido e deve ser tratado no campo administrativo por meio da fiscalização, advertência e prazos para se corrigir os defeitos nos equipamentos.

Há que se fazer uma diferenciação de tratamento legal entre radiodifusão comercial e radiodifusão comunitária. Na radiodifusão comercial a informação é tratada como um produto a ser vendido, portanto acessível apenas a quem pode pagar para que ela seja veiculada. Isso leva à segmentação da verdade, ou seja, apenas é divulgado o “ponto de vista” de quem pode pagar.

Já a radiodifusão comunitária tem a informação como um elemento da construção da cidadania, sendo tratada no âmbito educativo para o debate sobre a diversidade dos campos político, religioso, cultural, artístico, social e econômico. A informação para as RadCom é elemento para o fortalecimento da identidade cultural de uma comunidade, para o respeito às diferenças e para o hábito do debate sobre os problemas que afligem a comunidade. Enfim, a informação tratada de forma democratizante e libertadora. Assinam: José Luiz do Nascimento Sóter – Coordenador Executivo e João Carlos Santin – Coordenador Jurídico

Lula confirma Conferência Nacional de Comunicação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou em Belém a realização da I Conferência Nacional de Comunicação. Em entrevista coletiva após sua participação em atividades relacionadas ao Fórum Social Mundial o presidente afirmou que o governo vai realizar a conferência.

“O que nós vamos fazer agora é uma grande conferência sobre comunicação no Brasil”, disse Lula, em resposta à pergunta sobre políticas na área de comunicação.

O presidente, entretanto, não falou em datas. Mais cedo, no entanto, o ministro Luiz Dulci, da Secretaria-Geral da Presidência, havia citado a conferência de comunicação entre as que serão realizadas este ano pelo governo federal. A Secretaria-Geral é responsável pela coordenação dos espaços de participação direta do governo federal, inclusive as diversas conferências da área social.

A realização da I Conferência Nacional de Comunicação é uma reivindicação de diversas organizações e movimentos sociais, inclusive com o engajamento do Sinpro-DF. Há cerca de um ano e meio, um grupo de entidades e mais duas comissões permanentes da Câmara dos Deputados (a de Direitos Humanos e Minorias – CDHM – e a de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática – CCTCI) criaram a Comissão Pró-Conferência Nacional de Comunicação. No início de dezembro, a comissão apresentou ao Executivo a sua proposta para a convocação e organização do processo.

Desde terça-feira, havia rumores de que a convocação da conferência teria sido acertada em reunião entre o ministro das Comunicações, Hélio Costa, e o presidente Lula. A assessoria do ministério, porém, não confirmou a informação, informando apenas que o ministro faria uma coletiva para tratar do tema.

O site Tele.Síntese informa que há uma reunião marcada para 3 de fevereiro, no Palácio do Planalto, entre a Secretaria-Geral, a Casa Civil e o Ministério das Comunicações para acertar detalhes do decreto presidencial que deve convocar a conferência.

O decreto vai estabelecer a data de realização da etapa nacional e definir o órgão de governo responsável pela execução da conferência. Considerando as experiências das demais conferências, o texto pode, ainda, estabelecer o formato das etapas preparatórias, a temática e os objetivos da conferência, além de definir também o grupo de trabalho responsável por coordenar o processo.

Por Cristina Charão, do Observatório do Direito à Comunicação. Colaborou Flávio Gonçalves.

Sociólogo provoca polêmica no FSM

O sociólogo português Boaventura de Souza Santos provocou polêmica no Fórum Social Mundial. Ele disse que não se pode falar em desenvolvimento sustentável com a monocultura da soja, com o agronegócio ou o agrocombustível. Na opinião dele só haverá chance de o ser humano sobreviver se a humanidade entender que a natureza tem direitos inalienáveis. “E isso não é possível no sistema capitalista”, acrescentou.
Doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, professor titular da Universidade de Coimbra, Boaventura sugeriu uma aliança entre os movimentos sociais e a mudança radical e imediata da forma de exploração dos recursos naturais. ” Precisamos caminhar para o ecossocialismo. Essa idéia do crescimento infinito vai nos destruir”, afirmou ele, convocando os movimentos sociais, negros, afros, quilombolas, índios a se unirem na busca de soluções para a crise do neoliberalismo.
“Nos reunimos no Fórum Social Mundial desde 2001 e não fomos nós que derrotamos o neoliberalismo, ele cometeu suicídio. Hoje em Davos estão fazendo o mesmo diagnóstico que fizemos há tempos, mas continuam a pensar o mundo do ponto de vista dos ricos e a receita é a mesma: dinheiro para socorrer o sistema financeiro e as grandes empresas e recessão e desemprego para os trabalhadores”, criticou.
Ele defendeu que o FSM proponha o fim do Banco Mundial e do FMI, que segundo ele, erraram como instituições, quebraram alguns países e não tiveram que pagar indenizações. Para o sociológo, a resposta aos desafios da crise passa obrigatoriamente por um novo paradigma econômico social, que ele chamou de suma causa. “É o conceito indígena de desenvolvimento, de viver bem, em harmonia. E não são utopias, esses conceitos estão hoje na Constituição da Bolívia e do Equador”, ressaltou. Segundo ele, novos conceitos estão surgindo na América Latina, e o Brasil tem que ficar atento às mudanças, principalmente em relação à exploração dos recursos naturais e o uso da terra.
Boaventura participou de debate sobre Energia, Soberania e Trabalho Decente, organizado pelas centrais sindicais e mediado pelo presidente da CUT, Artur Henrique, que também chamou a atenção para a contradição dos que diziam que o Estado não servia para nada e hoje estatizam bancos e socorrem empresas com bilhões de dólares.
A professora aposentada Maria Aurienne, que integra a delegação do Sinpro, disse que um dos privilégios dos participantes do Fórum é poder ouvir opiniões lúcidas de pensadores antenados como Boaventura. “o diagnóstico feito por ele é bastante pertinente para o momento atual”, afirmou ela.

Movimentos de EJA definem estratégia para Confintea

Representantes de movimentos de Educação de Jovens e Adultos (EJA) de vários países se reuniram na última quinta-feira no Fórum Social Mundial para discutir a participação da sociedade civil organizada na VI Conferência Internacional sobre Educação de Pessoas Adultas(Confintea). Membro da delegação do Sinpro, o professor Gilberto Ribeiro, do Caic Bernardo Sayão (Ceilândia) e que atua no Centro de Educação Paulo Freire(Cepafre) da Ceilândia, explica que a Confintea é um encontro de dirigentes governamentais que é realizada a cada doze anos e, neste ano, será realizada no Brasil, também em Belém do Pará, de 19 a 22 de maio deste ano.
“Deliberamos que realizaremos o Fórum Internacional da Sociedade Civil (Fisc) nos dias 17e 18 de maio, porque entendemos que a sociedade civil deve influenciar a elaboração dos documentos que os países apresentarão e podem subsidiar a discussão dos atores governamentais a respeito da educação de jovens e adultos�? afirmou ele. Ao final do Fórum deverá ser elaborado um documento a ser entregue aos ministros e secretários de Estado que participarão da conferência.
A Confintea é organizada pela Unesco e é um espaço internacional para o diálogo político, e a renovação de compromissos em matéria de educação de pessoas jovens e adultas. Tem como objetivo lutar pelo reconhecimento da EJA como um elemento chave para a educação global, além de renovar o compromisso político para a execução das deliberações.

A esquerda latina americana e a crise do capitalismo

A esquerda deve enfrentar a crise do capitalismo para evitar que os pobres sejam prejudicados e também para explicar à população os motivos da falência do modelo. A opinião é do secretário de políticas internacionais do PT; Valter Pomar, durante debate no Fórum Social Mundial sobre o papel da esquerda latino americana frente à crise do capitalismo.
« A aroeiea agora vai bater no ombro de quem mandou. Acredito que estamos em um momento privilegiado pois hoje temos governos de esquerda democraticamente eleitos em vários países e temos uma correlação de forças totalmente diferente de outros momentos» afirmou ele.
Pomar entende que não devemos ter ilusões: as soluções apresentadas pelos países ricos e vendida pelos comentaristas da mídia brasileira provam que eles não aprenderam nada e continuam a defender a visão neoliberal, apesar de de todas as evidências de derrocada do capitalismo.
Ele afirmou que as medidas adotadas pelo governo Lula foram acertadas, mas que é preciso rever a política monetária do Banco Central e baixar os juros. «Temos que discutir outras medidas, como a redução da jornada de trabalho; ou seja; fazer a nossq agenda.»
O dirigente petista disse ainda que a classe trabalhadora deve dizer não à guerra e se recusar a aceitar como natural guerras como a que é promovida por Israel na Faixa de Gaza. «A guerra só interessa aos que se acham donos do mundo e os trabalhadores devem ser veementes na defesa da vida» ressaltou.

Por que a mídia privada não consegue ver o FSM?

Por Emir Sader – A mídia mercantil é um caso perdido para a compreensão do mundo contemporâneo. Não por acaso a crise atual a afeta diretamente. Não tardará para que comecem as quebras de empresa de jornalismo por aqui também. E eles serão vitimas da sua própria cegueira, aquela que lhes impede de ver os projetos do futuro da humanidade, que passeiam pelas veredas de Belém.
Mais uma vez a mídia privada não consegue ver o FSM. Os leitores que dependerem dela ficarão sem saber o que acontece aqui em Belém. Por que? O que impede uma boa cobertura, se a riqueza de idéias, a diversidade de presenças, a força dos intercâmbios – como não se encontra em lugar algum do globo – estão todos aqui? Há jornalistas, algum espaço é dedicado pela imprensa ao evento, mas o fundamental passa despercebido.

O fundamental não tem preço – diz um dos lemas melhores do FSM. Enquanto o neoliberalismo e o seu reino do mercado tentam fazer com que tudo tenha preço, tudo se venda, tudo se compre, ao estilo shoping-center, o FSM se opôs desde o seu começo a isso, opondo os direitos de todos ao privilégio de quem tem poder de compra, incrementando sempre mais as desigualdades.

Um jornalista da FSP (Força Serra Presidente) se orgulha de ter ido a todos os Foros de Davos e, consequentemente, a nenhum Forum Social Mundial. A espetacular marcha de abertura do FSM retratada com belíssimas fotos por Carta Maior, foi inviabilizada pela mídia mercantil.

A cobertura se faz com a ótica com que essa imprensa se comporta, com os óculos escuros que a impedem de ver a realidade. O FSM, como tudo, é objeto das fofocas sobre eventuais desgastes do governo Lula – a obsessão dessa mídia. Não cobrem o dia do Forum PanAmazônico, não deram uma linha sobre o Forum da Mídia Alternativa, não ouvem os palestinos, nem os africanos ou os mexicanos. Nada lhes interessa. No máximo aguardam para ver se Brad Pitt e Angelina Jolie vão vir.

Seu estilo e sua ótica está feita para Davos, para executivos, ex-ministros de economia. Lamenta a imprensa que a América Latina, a �?frica e a China estejam tão pouco representados em Davos. Mas o que teriam a fazer por lá? Não se perguntam, nem querem saber. Seus jornalistas não são orientados senão para seguir os passos de Lula e seus ministros.

Temas como os diagnósticos da crise e as alternativas, a guerra e as alternativas de paz, as propostas de desenvolvimento sustentável – fundamentais no FSM – estão fora da pauta. Nem falar da crise da própria mídia tradicional e das propostas de construção de mídias públicas e democráticas.

A mídia mercantil é um caso perdido para a compreensão do mundo contemporâneo. Não por acaso a crise atual a afeta diretamente. Não tardará para que comecem as quebras de empresa de jornalismo por aqui também. E eles serão vitimas da sua própria cegueira, aquela que lhes impede de ver os projetos do futuro da humanidade, que passeiam pelas veredas de Belém.

Fórum:marcha reúne 100 mil em Belém

O que têm em comum uma freira da companhia das filhas da caridade de São Vicente de Paulo, uma militante do movimento lésbico de Porto Alegre, um comunicador da Guiné Bissau, um índio do chaco paraguaio, um empresário do ramo de brinquedos, um pastor evangélico que atua contra a violência na escola? Pois eles e pelo menos mais 100 mil pessoas estavam juntas ontem, 27, na marcha de abertura do Fórum Social Mundial (FSM), comungando do mesmo sonho: sim, um outro mundo é possivel! Diferenças caminharam juntas em uma rara demonstração de tolerância da espécie humana.
A militante lésbica traduziu bem o sentimento que unia os participantes:”Respeito é a palavra. Você não precisa pensar como eu, não existe uma só verdade, mas a natureza mostra que o mundo só é possível na diversidade”, afirmou. Ela carregava um cartaz em que questionava: todo mundo tem direitos, todo mundo é cidadão, por que o seu amor pode e o meu não?”
O pastor Carlos Alberto Ferreira é conselheiro escolar e no fórum está apresentando um projeto para combater a violência nas escolas do Pará. Contrariando o senso comum ele é taxativo: “Há dois dias, em uma pregação, eu perguntei às pessoas se elas pretendiam participar das oficinas do Fórum e a maioria disse que não. Eu então questionei: vocês estão achando que Jesus só quer oração? De jeito nenhum, ele quer também ação”. A irmã Cecília também acredita que os religiosos não podem estar longe da luta do povo. Ela participou do primeiro Fórum em Porto Alegre e acha que eventos como esse ajudam a busca de mais tolerância e paz entre os homens.
Jornalista em seu país, Jacinto Mango, da Guiné Bissau, veio para participar das oficinas de mídia livre. Ele defende que os movimentos sociais criem uma rede de comunicação interplanetária para furar o bloqueio da grande imprensa, em poder dos grandes grupos econômicos.
Perdido como qualquer anônimo na multidão, o empresário Oded Grajew, um dos idealizadores do FSM, em entrevista ao Sinpro, disse que nas oito edições do Fórum Social Mundial (FSM) os participantes “avisaram” o mundo sobre o colapso do modelo econômico que gerou a crise financeira internacional que os mercados vivem atualmente.
Grajew rebateu as críticas de que o FSM é uma instância de reclamação, que não propõe soluções. Segundo ele, as alternativas foram apontadas ao longo dos anos, mas não tiveram repercussão entre os responsáveis pelas políticas públicas e pelos investimentos mundiais.
“Diziam que os recursos eram limitados. Agora na crise, de repente, apareceram trilhões de dólares para socorrer montadoras, bancos e empresas falidas e que poderiam ter sido usados para combater a pobreza, melhorar saúde, a educação”, argumentou.
Na avaliação de Grajew, o dinheiro repassado atá agora a empresas e instituições financeiras para amortecer os impactos da crise seria “mais que suficientes” para combater a fome, a pobreza e melhorar o acesso à saúde e à educação no planeta.
O ativista atribuiu parte da falta de visibilidade para as propostas do Fórum à cobertura da imprensa, que, segundo ele, tenta “folclorizar” a reunião.
A representante do Fórum Social Europeu, a italiana Rafaela Bolini, lembrou que nas primeiras edições do megaevento os movimentos sociais e organizações da sociedade civil que “denunciavam a globalização neoliberal e o mercado capitalista” sofreram criminalização e até repressão política.
“E a denúncia era verdade. A denúncia dos perigos para a humanidade, para o planeta e para a natureza era verdadeira. E estamos aqui porque essa realidade precisa ganhar visibilidade”, enfatizou Rafaela.
Um dos desafios do FSM, segundo Rafaela, é evitar a fragmentação e construir propostas e alternativas à crise. “A solução para esta crise não será real se vier dos mesmos que a criaram”, avaliou.
“A construção de um novo mundo vai estar em nossa mãos, cabe a nós construí-lo. Temos um desafio monumental pela frente. Nosso desafio é repensar o desenvolvimento, mas com direito à esperança, à ousadia, à utopia”, acrescentou o sociólogo Cândido Grzybovski, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e também membro do Conselho Internacional do Fórum.

Qual a responsabilidade da mídia diante da crise?

O comportamento da mídia na recente crise financeira internacional foi tema de debate na abertura do Fórum Mundial de Mídia Livre. Uma das conclusões foi que a chamada grande mídia não ofereceu explicações satisfatórias diante da crise, muito embora, durante anos, seus “especialistas” tenham se redobrado em esforços para legitimar o modelo neoliberal de globalização. Agora, cultivam uma conveniente amnésia que anda de mãos dadas com a diluição de responsabilidades pelo que está acontecendo na crise mundial.

BELÉM – Representantes de veículos independentes de produção midiática de diversos países estão reunidos em Belém, no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Pará (UFPA), no primeiro Fórum Mundial de Mídia Livre (FMML), evento que integra as atividades do Fórum Social Mundial 2009.

O encontro tem como objetivo construir alternativas de produção de informação, estruturar politicamente a mídia livre internacional, discutir alternativas de financiamento e de compartilhamento de conteúdo, propagar novas possibilidades de atuação disponibilizadas pelas novas tecnologias e somar forças de atuação nas frentes diversas de democratização da comunicação.

Na manhã desta segunda-feira, Ignacio Ramonet, do Le Monde Diplomatique, Sandra Russo, do jornal argentino Página 12, Marcos Dantas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Pascual Serrano, do site Rebelión, Bernardo Kucinski, professor da Universidade de São Paulo (USP), Joaquím Constanzo, da agência de notícias IPS, Altamiro Borges, do site Vermelho, Luis Hernández Navarro, do jornal mexicano La Jornada, e Joaquim Palhares, diretor da Carta Maior, debateram o comportamento da mídia na recente crise financeira internacional durante a mesa “A Mídia e a Crise�?.

Para Ignacio Ramonet, a recente crise financeira internacional destroçou o que ainda restava do neoliberalismo e arrastou consigo boa parte da credibilidade e do poder dos grupos midiáticos, particularmente da imprensa escrita, em função da estreita aliança entre mídia e poder econômico. O tratamento dado pela mídia à crise não teria sido mais do que o reflexo de seu próprio desespero, pois toda crise capitalista tende a se refletir como uma crise nos meios de comunicação. Particularmente em relação à América Latina, destacou que o contexto político não é mais o mesmo, o que tem influído no tratamento dispensado à mídia hegemônica e fortalecido as mídias ditas livres, ou alternativas.

Sandra Russo identificou a existência de um claro movimento de ampliação da cidadania em curso na América Latina, o que tem gerado resistências em setores da classe média e, sobretudo, na elite econômica. Mídias livres devem aproveitar esse momento histórico para influir política e culturalmente nesse novo contexto. Segundo Russo, a mídia tradicional não comunicou adequadamente a realidade da crise financeira internacional por viver fechada sobre si mesma.

Já o professor Marcos Dantas expressou temor de que a institucionalização do termo “mídia�? apague responsabilidades. Para o professor carioca, a mídia é feita por profissionais que diariamente fazem escolhas conscientes, e não por um ente abstrato que comanda suas ações. O mundo é visto pelos olhos de quem faz tais escolhas, donde a necessidade de se denunciar essa estrutura. Em função de sua natureza essencialmente antidemocrática, é preciso se buscar novos caminhos e espaços a fim de com ela disputar a agenda do debate público. Um desses caminhos seria a definição de políticas públicas capazes de financiar a multiplicação de vozes representadas pelo movimento de Mídia Livre.

As insatisfatórias explicações sobre a crise
Para Pascual Serrano, a mídia é um dos responsáveis pela recente crise internacional porque faz parte da estrutura financeira do modo de produção capitalista. A sociedade civil organizada sempre defendeu meios de controle sobre a economia, mas teria sido solenemente ignorada pela mídia tradicional, que estranhamente não ofereceu explicações satisfatórias diante da crise, muito embora seus “especialistas�? tenham estado sempre de prontidão quando o caso era legitimar a economia capitalista. A estratégia escolhida pela mídia diante da crise, afirmou Serrano, foi a de “vitimização�?, como se não existisse responsável algum pela bancarrota capitalista, mas somente vítimas.

Para Serrano, a crise financeira internacional também desvelou a crise do modelo de comunicação vigente: uma “crise de autoridade�?, diante da falência da dita objetividade jornalística, e uma “crise de informação�?, manifestada sobretudo pela superficialidade com a qual determinados temas são tratados. A Mídia Livre, finalizou Serrano, é o legítimo representante da sociedade civil.

Bernando Kucinski afirmou que a grande imprensa, em um primeiro momento, tentou naturalizar a recente crise internacional através de um discurso genérico, que não distribuiu responsabilidades. Depois, essa mesma imprensa teria tentado alimentar a crise através de um discurso sensacionalista e catastrófico, fato que, especialmente no Brasil, expôs com clareza os objetivos políticos de tal estratégia. Em grande parte isso se deve, continua o professor, à estratégia de “financeirização�? do jornalismo econômico brasileiro, patrocinada pelo capital financeiro e pelos grandes bancos, que teria domesticado os setores da imprensa encarregados das notícias sobre economia. Por mais contraditório que possa parecer, finalizou o professor, o melhor tratamento jornalístico dado à crise foi o da imprensa dos Estados Unidos, que vinculou sua origem ao neoliberalismo.

Para Joaquím Constanzo, ao diminuir responsabilidades, a grande mídia tentou ocultar o fato de que a recente crise financeira internacional significou o fracasso do modelo neoliberal. Segundo Constanzo, a Mídia Livre precisa propor novas pautas no debate público latino-americano, mas a disputa pela hegemonia só será possível se esse enfrentamento for profissionalizado.

A responsabilidade das corporações midiáticas perante a crise também foi destacado por Altamiro Borges. Odiscurso de desmonte do papel do Estado patrocinado pelo neoliberalismo foi abraçado por quase todas elas, lembrou. Ele observou ainda que já é possível se perceber um certo clima de pânico no tratamento dispensado pela mídia à recente crise, discurso que legitimaria prováveis “medidas de ajuste�? capitalistas como, por exemplo, a conhecida estratégia das demissões em massa. O combate a essas estratégias, acrescentou, passa necessariamente pelo fortalecimento do movimento de Mídia Livre, que não pode se contentar em ser pequeno. É preciso organizar os fóruns regionais de mídia livre, uma das decisões do encontro nacional de midialivristas ocorrido em junho do ano passado no Rio de Janeiro, e se organizar a disputa pelas verbas publicitárias oficiais, em função de seu caráter público.

Para Luis Hernández Navarro, a crise financeira internacional afetou a lógica de funcionamento da mídia tradicional, que antes disso já vivia sua crise particular, cujos principais sintomas seriam a crescente diminuição das vendas de jornais impressos, a monopolização do mercado, a informação tratada como mercadoria, e não como bem público, a incapacidade de lidar com as mudanças profundas que atualmente afetam a comunicação e a perda de prestígio da profissão. Os meios alternativos de comunicação, segundo Navarro, devem almejar a disputa da agenda do debate público com a mídia tradicional e não abrir mão de lutar pela definição de políticas públicas capazes de manter a informação como um bem público.

Os desafios políticos do movimento de Mídia Livre
Joaquim Palhares, diretor da Carta Maior, observou que o atual cenário político internacional parecia inimaginável há oito anos, quando o primeiro Fórum Social Mund
ial foi realizado sob o peso da então inquestionável hegemonia neoliberal. Na América Latina, particularmente, a mídia hegemônica sempre foi o sustentáculo de tal discurso, em função de sua inegável aliança com o capital financeiro internacional. Porém, destacou Palhares, o mundo mudou, e a internet teria cumprido um papel fundamental nesse processo, que fez de um negro o presidente dos Estados Unidos e de um metalúrgico o presidente do Brasil.

O Fórum de Mídia Livre, acrescentou, precisa construir e fortalecer espaços, sem jamais esquecer o fato de que o enfrentamento com a mídia hegemônica possui um caráter político. Daí a necessidade da articulação de iniciativas concretas de mídia livre tanto na América Latina quanto em nível mundial.

O Fórum Mundial de Mídia Livre é uma conseqüência do I Fórum de Mídia Livre, realizado no Rio de Janeiro em junho de 2008. Reunindo mais de 500 ativistas, jornalistas, professores, estudantes e empresários, o evento significou uma inédita união política entre os principais veículos independentes de mídia brasileiros, sistematizando formas conjuntas de atuação.
Marcelo da Silva Duarte, do site da Carta Maior

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