IDEB E A “QUALIDADE” DA EDUCAÇÃO BÁSICA: PARA ALÉM DO FETICHE DA NOTA

A cada dois anos a comunidade educacional brasileira acompanha com expectativas a divulgação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). No dia 15 de setembro deste tumultuado ano letivo de 2020, em meio à pandemia de Covid-19 que levou à suspensão de atividades escolares presenciais de milhares de estudantes, mais uma vez, entre expectativas e frustrações vimos representantes de governos, entidades representativas dos profissionais da educação, universidades, gestores escolares, organizações sociais e veículos de impressa, ocupados com análises explicativas acerca do “sucesso” e do “fracasso” de redes de ensino e de escolas. Acerca de uma “qualidade” medida com a régua da nota.
Nessas análises emergem questões como: A quem atribuir a responsabilidade pelos resultados? O que foi realizado concretamente pelas redes de ensino e escolas para o alcance ou avanço do desempenho das escolas e redes?
Quais os impactos da estrutura física e material das escolas, das condições de trabalho docente, formação, carreira, salário no Ideb?
Pouco se fala sobre a ausência de políticas públicas para o cumprimento da meta 7 do Plano Nacional, Municipais e Distrital de Educação: fomentar a qualidade da educação básica em todas as etapas e modalidades, com melhoria do fluxo escolar e da aprendizagem de modo a atingir as seguintes médias nacionais até 2021: anos iniciais do ensino fundamental – 6,0; anos finais – 5,5; e, ensino médio – 5,2. A nota é vista como um fim em si mesmo, um fetiche, pois aspectos subjetivos são analisados objetivamente ou até, desconsiderados, como: as diversidades do sistema educacional; as particularidades das redes de ensino; as diferenças regionais; os projetos de escolas; as culturas; valores e princípios que embasam os processos educativos.
Objetivamente o Ideb é um indicador educacional que combina o desempenho dos estudantes na avaliação e o fluxo escolar, resultando em valor apresentado em escala de 0 a 10, que ambiciona refletir a qualidade educacional brasileira. O Ideb foi criado para medir a qualidade do ensino ofertado e estabelecer metas para a sua melhoria. O cálculo articula informações do Censo Escolar (fluxo escolar – aprovação/reprovação) com as médias de desempenho dos estudantes (proficiências/aprendizagens) aferidas pelas Avaliação Nacional da Educação Básica (Aneb) e Avaliação Nacional do Rendimento Escolar (Anresc).
O valor escalonado do Ideb lido de forma isolada, descontextualizada, acarreta entendimento limitado. É preciso analisar, questionar, criticar, refletir sobre o que ele quer dizer, explorá-lo qualitativamente. É primordial compreender os meandros do Ideb e, principalmente, que a sua leitura seja feita articulada com os contextos e as realidades intra e extraescolares.
O resultado do Ideb precisa ser lido integrado ao desempenho escolar e triangulado com outros dados, outras informações gerados por meio de outros instrumentos/processos como: a autoavaliação que a escola faz de seu trabalho/projeto pedagógico; a análise dos resultados dos estudantes a partir de avaliação de sala de aula; as avaliações diagnósticas da realidade escolar, dos estudantes e da própria escola; as avaliações feitas em conselhos de classe, coordenações pedagógicas, entre outras. Só assim, poderemos tirar proveito do resultado do Ideb para a reorganização das redes de ensino e das escolas – a avaliação gera ação.
O Ideb fornece informações que podem orientar ações como por exemplo, provocar a comunidade escolar a construir um diagnóstico das especificidades de sua realidade escolar, conhecer suas condições materiais, orientar revisão do projeto pedagógico da escola, apontar rumos, traçar suas próprias metas e estratégias, e definir intervenções alicerçadas na gestão democrática e na autonomia, condições para pactuar propostas para cobrar de gestores públicos investimentos e recursos que proporcionem a melhoria da qualidade referenciada também nos sujeitos sociais.
Às redes, o Ideb também oferece informações para subsidiar a elaboração de políticas públicas educacionais
voltadas à valorização dos profissionais da educação, formação continuada, financiamento da educação, projetos pedagógicos e curriculares, entre outras.
Assim, para além do fetiche das notas, do ranqueamento e da classificação, o Ideb gerará ações voltadas à melhoria da qualidade da educação básica. Porque não começarmos pela implementação do Plano Nacional de Educação?
 
 

Texto elaborado pela professora Edileuza Fernandes Silva da Faculdade de Educação da UnB/PPGE e Cátia Maria Machado da Costa Pereira – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – Inep.

Sinpro-DF convida gestores(as) para reunião nesta sexta-feira (18)

A diretoria colegiada do Sinpro-DF convida todos(as) os(as) gestores(as) de escolas da rede pública de ensino para uma reunião, nesta sexta-feira (18/9), às 16h. A pauta é a organização do lançamento do coletivo de gestão democrática; pacotes de dados para acesso à plataforma; e Aprova Brasil.

A reunião será pela plataforma Zoom. Se você ainda não instalou o aplicativo Zoom, clique no link, a seguir, que ele lhe direcionará para a Play Store  (celulares Android) ou App Store (celulares iOS).

Para baixar em celulares Android, clique: https://play.google.com/store/apps/details?id=us.zoom.videomeetings  

Para baixar em celulares Apple, clique: https://apps.apple.com/br/app/zoom-cloud-meetings/id546505307

Os(as) interessados(as) em participar da reunião deverão confirmar participação pelo telefone 99685-4997 para receberem o link uma hora antes da abertura da sala virtual. Participe!

Sinpro encerra Semana Paulo Freire com Live em homenagem ao patrono da educação

O Sinpro prepara uma Live comemorativa para o encerramento da Semana Paulo Freire. Nesta sexta-feira (18), às 19h, o ator Richard Riguetti fará uma grande homenagem ao patrono da educação brasileira, e ainda participará de uma roda de conversas com o tema: Freiriando com Richard Riguetti e andarilhando com o Sinpro-DF. A programação também terá a participação do encenador Luiz Antônio Rocha e das diretoras do Sinpro Eliceuda França e Leilane Costa.

Durante toda a semana, em todas as atividades programadas, o sindicato ressaltou o legado deixado por este grande educador brasileiro, renomado e reconhecido internacionalmente. Sempre fizemos questão de reafirmar um legado de grandes feitos para a educação brasileira, com o exemplo de educador e de gestor, sempre com um olhar na educação para a emancipação da sociedade.

A semana tem reafirmado nossa admiração a Paulo Freire, e nada melhor que homenageá-lo com um diálogo com Riguetti. O ator vem fazendo apresentações em vários estados pelo Brasil com a peça Paulo Freire: o andarilho da utopia, e o sindicato o convidou para uma conversa, onde o ator responderá perguntas e em alguns momentos apresentará trechos da peça.

O evento será transmitido pelo Facebook e YouTube do Sinpro, ou Canal 12 da Net. Não deixe de participar!

Orientação da IE para reabertura de escolas e instituições educacionais

2020 09 16 destaque IE

Com as escolas e as instituições de ensino fechadas na maioria dos países, há questões críticas a serem consideradas pelos governos quando começarem gradualmente a reabrir instituições de educação infantil, escolas e estabelecimentos de ensino superior. É imperativo que os governos informem de maneira transparente e contínua os planos de reabertura da educação local e o quanto estão seguindo os conselhos dos especialistas em saúde. O diálogo social e político contínuo com os educadores e seus sindicatos é o pilar fundamental para qualquer estratégia educacional bem-sucedida.

1. Participar do diálogo social e político
As autoridades públicas devem participar do diálogo social e político contínuo com os educadores e seus sindicatos e organizações de representação para analisar as necessidades e seguir as medidas de saúde e segurança para os alunos e os funcionários, bem como a infraestrutura e os recursos para a transição de retorno ao ensino e aprendizado locais. Está sendo considerada a carga de trabalho adicional derivada da exigência paralela de ensino on-line e presencial durante a reabertura gradual das escolas. Os direitos trabalhistas dos trabalhadores em educação e da equipe de apoio educacional devem ser respeitados e devem ser mantidas condições de trabalho dignas.

2. Garantir a saúde e a segurança das comunidades educacionais
Deve haver consenso e clareza sobre as medidas de higiene necessárias para manter crianças, alunos e funcionários seguros e saudáveis, bem como sobre as medidas de prevenção para conter a disseminação do vírus. Todas as escolas e instituições de ensino devem estar preparadas para garantir e manter práticas de higiene e limpeza aprimoradas e toda a equipe deve estar instruída e treinada para seguir as novas orientações. Os trabalhadores em educação devem ter acesso garantido aos equipamentos de proteção individual sempre que necessário. Além disso, deve ser garantido pelas autoridades públicas as verbas e funcionários adicionais para garantir as exigências de saúde e segurança.

Além disso, deve ser levada em consideração a situação dos alunos e funcionários vulneráveis e do grupo de risco e suas famílias.

3. Fazer da igualdade a prioridade máxima
A igualdade deve estar à frente e no centro de todos os planos de transição, reconhecendo que o impacto da pandemia não é igual e que os alunos e os trabalhadores em educação em situação de vulnerabilidade já devem estar sendo e talvez continuem a ser os mais afetados.

Deve ser implementada uma estrutura de apoio para todos os alunos e funcionários vulneráveis, para aqueles que estão enfrentando maiores dificuldades e para os alunos que não têm condições de acessar os estudos on-line ou em casa. Deve ser desenvolvida uma estratégia para lidar com possíveis aumentos nas taxas de abandono escolar, com atenção especial para meninas e mulheres e para o risco de trabalho infantil.

4. Apoiar o bem-estar físico e emocional e a recuperação
Devem ser implementados sistemas de apoio ao bem-estar e à saúde mental das crianças, alunos e profissionais de ensino, inclusive com suporte psicossocial dedicado e aconselhamento.

Além do estresse e da ansiedade causados por esta pandemia, muitas crianças, alunos e profissionais de ensino terão ainda de lidar com a dificuldade em voltar à escola e em adaptar-se às novas rotinas, bem como em lidar com as restrições de interação social. Deve ser disponibilizado apoio dedicado aos que tiverem vivenciado luto, abuso, violência ou qualquer outro trauma emocional.

5. Confiar no profissionalismo dos educadores
As autoridades educacionais devem trabalhar em conjunto com os educadores e seus sindicatos para determinar e analisar o impacto causado pelo fechamento das escolas no ensino, no aprendizado e no bem-estar dos alunos. Toda a estrutura desenvolvida para o retorno da educação aos seus locais deve ter por base a confiança no profissionalismo e na prática pedagógica da força de trabalho do setor de educação. A clareza em quaisquer requisitos de avaliação deve ser alcançada por meio do diálogo com educadores e seus sindicatos a fim de garantir tratamento justo e igualitário a todos os alunos e a autonomia profissional contínua dos educadores.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) destacou seis condições que devem ser atendidas para que os governos comecem a suspender as atuais restrições de distanciamento social e físico relacionadas à disseminação da COVID-19:

1. A transmissão da doença deve estar sob controle.
2. Os sistemas de saúde devem ter condições de “detectar, testar, isolar e tratar todos os casos e rastrear todo contato”.
3. Os riscos em pontos críticos devem estar reduzidos em locais vulneráveis, como em casas de repouso para idosos.
4. Escolas, locais de trabalho e demais locais essenciais devem ter estabelecido medidas de prevenção.
5. O risco de importação de novos casos “precisa ser gerenciado”.
6. As comunidades devem estar totalmente instruídas, envolvidas e comprometidas em viver segundo as novas condições de normalidade.

Fonte: CNTE

Atualidade de Paulo Freire na pandemia do novo coronavírus

A pandemia do novo coronavírus tem reforçado a atualidade da filosofia paulo-freiriana não só na educação e na pedagogia, mas também na vida. Do ponto de vista da educação libertadora de Paulo Freire, a pandemia evidenciou o agravamento, cada vez mais, das desigualdades sociais produzidas pelo modo de produção capitalista na sua filosofia neoliberal e de Estado mínimo.

A condução das políticas de saúde e de combate à pandemia no Brasil afeta a vida da população trabalhadora. A prova está nos números: no início da tarde desta quarta-feira (16), o Brasil, segundo lugar em contaminações em mortes no mundo, apresenta 4,3 milhões de contaminados confirmados e mais de 13o mil mortes em apenas 6 meses. A matemática do governo federal, ainda que com método de contagem duvidoso e grandes subnotificações para omitir a dimensão da tragédia, revela um país à deriva com seus recursos financeiros públicos sendo canalizados para os interesses privados de uma minoria.

A gestão da pandemia desmascara a má gestão da economia, que tem levado ao aprofundamento das desigualdades já existentes. A crise é anterior à pandemia. Ela já estava instalada por meio de uma geopolítica de disputa muito forte entre EUA e China, com repercussões graves e bastante invasivas, de tentativas de intervenção na América Latina, já evidenciada na Venezuela e em outros países, como o Brasil no governo atual. 

Uma vez que essas desigualdades sociais, que já estavam agravadas por causa dessa nova geopolítica neoliberal, foram evidenciadas pela Covid-19, o Brasil se viu preso num quadro de crise que afeta os oprimidos, que seriam, para Paulo Freire, a população mais carente, e, sobretudo, os trabalhadores: os que sustentam as riquezas do País.
 
“A atualidade de Paulo Freire nos ajuda a perceber e nos dá a possibilidade de compreender que a luta continua na disputa entre o projeto da elite conservadora e o dos trabalhadores. Ele nos ajuda a assumir a educação política mesmo dentro das condições objetivas que estamos vivendo”, afirma Cláudio Antunes, diretor do Sinpro-DF.

Ele explica que o Brasil vive um desprezo total com um sistema público que está atendendo precariamente as demandas. Na visão de uma educação libertadora, o que Paulo Freire traz para os dias de hoje é aprofundar as condições estruturais e conjunturais do problema e, nessa medida, assumir a organização dos trabalhadores, compreendendo esse fato para, exatamente, ter uma elevação de consciência política e, nesse contexto, fazer uma resistência mais forte ao governo, portanto engajar à palavra de ordem do #ForaBolsonaro.

Nesse sentido, uma visão de educação libertadora freiriana conduz para o fato de que, na pandemia, precisamos trazer as razões pelas quais o Estado brasileiro não tem cuidado de seu povo, diferentemente de Cuba, onde o movimento do Estado foi o de fortalecer a imunidade da população para que o coronavírus não tivesse espaço de contaminação, enquanto no Brasil foi justamente o contrário”, denuncia a professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), Maria Luiza Pereira.

Através do tempo
A teoria Paulo-freiriana atravessa o tempo. Ele foi o mentor da educação para a consciência. Muito mais do que um método de alfabetização de adultos, ele elaborou uma filosofia da educação adotada nas melhores escolas e universidades ao redor do mundo. Ele é o terceiro teórico mais citado em trabalhos acadêmicos no planeta. Considerado um dos mais notáveis pensadores da pedagogia da humanidade.

A ferramenta de pesquisa para literatura acadêmica Google Scholar apontava, em 2018, que Freire havia sido citado 72.359 vezes ao redor do mundo, ficando atrás somente do filósofo Thomas Kuhn e do sociólogo Everett Rogers, ambos estadunidenses. Ele foi perseguido pela elite empresarial brasileira e estadunidense. Por causa dos métodos inovadores e da filosofia pedagógica que ele havia criado, com foco na transformação social foi exilado por 16 anos.

“Evidentemente, eu fui preso e exilado por causa da ditadura. A ditadura militar de 1964 não só considerou, mas disse por escrito e publicou que eu era um perigoso, subversivo internacional, um inimigo do povo brasileiro e um inimigo de Deus”, disse Freire numa entrevista concedida à TV Cultura, em 1989.

Breve histórico
Em 1964, ano em houve o golpe civil-militar no Brasil, apoiado e financiado pelos EUA, que depôs João Goulart da Presidência da República, Paulo Freire foi cassado e preso por 70 dias. Na época, ele residia com a família em Brasília porque estava a serviço do então Ministério da Educação e Cultura (MEC) e desenvolvia um trabalho de formação de professores em Goiânia e o Programa Nacional de Alfabetização.

Esse programa foi extinto pela ditadura militar em 14 de abril de 1964. Pau mandado da elite empresarial conservadora do País e da Embaixada dos EUA, os militares acusaram o programa e o próprio Paulo Freire de subversivo e de ser contrário aos interesses da nação.  Acusaram seus autores de quererem implantar o comunismo no País.

Com esse golpe na educação, a elite, sobretudo a latifundiária, os EUA e os militares deram fim ao projeto de Goulart de lançar 60.870 Círculos de Cultura para alfabetizar 1,8 milhão de brasileiros ainda no ano de 1964. Desse total, 8,9% estavam na faixa etária entre 15 e 45 anos. Eram brasileiros que nunca tiveram o direito à educação e não sabiam ler nem escrever.

Diante do tema da pandemia do novo coronavírus e da história da educação brasileira, nesta terceira matéria da “Série Paulo Freire: vida e obra”, que integra a Semana Paulo Freire – 99 anos, o Sinpro-DF indica os livros “Pedagogia da Esperança”, de autoria de Paulo Freire (1992) e o livro “Medo e ousadia: o cotidiano do professor”, cujos autores são Paulo Freire e Ira Shor (1986).

Confira, a seguir, a primeira matéria da série:

Sinpro-DF inicia Semana Paulo Freire com série sobre vida e obra

Paulo Freire cria método e alfabetiza adultos em 45 dias

O IDEB E A AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DA EDUCAÇÃO BÁSICA

Por Júlio Barros*

O IDEB é um mecanismo inacabado para avaliar a qualidade da educação básica. Pior que classificar a escola como ruim é subtrair a autoestima da comunidade usuária e colocá-la em confronto com a instituição. Transferir a baixa qualidade da educação básica para estudantes e educadores é uma grande injustiça! Não dá para comparar escolas cuja origem social dos estudantes é tão distinta, pois existe uma correlação entre o desenvolvimento acadêmico e o nível sócio-econômico dos estudantes.

O processo de avaliação é importante para mensurar e diagnosticar os problemas da qualidade de ensino. Porém, ao restringir elementos que integram ou interagem com os conceitos de qualidade na educação, o IDEB fica extremamente limitado e fornece resultados duvidosos.

Para aferir com maior eficácia os níveis de qualidade de ensino, é necessário observar conceitos como políticas pedagógicas, financiamento, currículo, formação, salário, saúde e fundamentalmente a gestão democrática das escolas e do sistema.

Entendemos que há outros fatores que devem ser considerados na avaliação da qualidade da educação: as condições de realização do trabalho docente, questões de formação profissional, avaliação rigorosa das instituições de ensino que formam professores, entre outras que demandam um constante repensar sobre as práticas educativas, com fins a uma formação integral e humanizadora do sujeito. Cair no discurso do ranqueamento, assim como a mídia comercial tem repetidamente feito, como se esta fosse a solução dos problemas da educação, só faz aumentar a difusão de uma concepção equivocada dos objetivos que devem ter uma avaliação de larga escala.

A avaliação da educação requer conceito diverso ao posto em prática em escala mundial, sob a orientação anacrônica do Banco Mundial e outros organismos multilaterais que privilegiam conteúdos mínimos voltados para as exigências do mercado e se expressa em rankings entre nações ou estados e municípios de um mesmo país, como também entre as escolas de uma mesma unidade da Federação.

É preciso inovar nas concepções pedagógicas, deixar pra trás métodos cartesianos e economicistas que insistem em empregar fórmulas exatas à educação, desconsiderando sua essência humana e filosófica – as quais condicionam os sistemas de ensino a priorizarem currículos de competências, desprezando fatores de qualidade social, e isso demanda em constante repensar sobre as práticas educativas.

Assim como defendemos uma avaliação diagnóstica e processual no ambiente escolar, fazemos a defesa de uma avaliação do sistema. O objetivo central seria o diagnóstico das deficiências nas redes de ensino e, a partir dessa análise, a necessidade de se repensar as políticas educacionais elaboradas por meio de Conferência Distrital de Educação orientada pela Lei de Gestão Democrática, sempre dando centralidade ao Plano Distrital de Educação/PDE e estando voltadas para cada etapa da educação básica.

Fatores negativos tais como sucateamento das unidades de ensino, tentativas de privatização da educação pública (militarização das escolas), educação domiciliar, OS’s e terceirização dos serviços escolares, bem como congelamento salarial e precarização do trabalho dos educadores, além da vigência da Emenda Constitucional 95 (que congela investimentos sociais por 20 anos), da não prioridade da educação nas leis orçamentárias, da restrição do acesso da população a diversas etapas do ensino e do não investimento em tecnologias de informação e comunicação/TIC’s, são ingerências que, além de comprometer os compromissos sociais da educação, expressam a ausência de uma visão sistêmica que concilie, simultaneamente, as políticas estruturantes de financiamento, de currículo, de formação e valorização dos profissionais da educação. Não se faz educação de qualidade sem valorização dos professores, e essa política pública precisa deixar de ser promessa de políticos em campanha eleitoral para se transformar em realidade efetiva.

Sobre financiamento, por exemplo, até hoje não foi instituído o custo aluno qualidade (CAQ) – conceito previsto na Constituição Federal e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional para apontar os investimentos necessários em cada etapa e modalidade de ensino –, além de não ter sido cumprida a meta 20 – e outras mais – do PDE, que trata de dobrar os investimentos na educação, tendo como parâmetro o PIB local. Tais cumprimentos são primordiais para orientar os orçamentos públicos diante das metas dos planos educacionais.

Na questão do currículo, percebe-se que a base nacional (nova BNCC, reforma do ensino médio e outros), orientada pelo Ministério da Educação e seguida pelos sistemas de ensino, tem se pautado com maior ênfase na pedagogia das competências, introduzidas no Brasil pelas reformas neoliberais dos anos 90. Ou seja, a visão de mercado tem prevalecido frente a um currículo questionador, criativo e amparado na realidade do sujeito social (histórico), a exemplo do que ensinou Paulo Freire.

Entendemos que a qualidade da educação pública reflete as políticas e o compromisso do Estado e da sociedade para com essa prática social, assim como na participação social nas instâncias de decisão dos sistemas de ensino e das escolas. Essas são políticas de caráter sistêmico, que precisam ser urgentemente ampliadas e aprofundadas para romper com as discriminações e exclusões, além de garantir a efetiva oportunidade para todos/as.

Enfim, a gestão democrática precisa ser assumida como fator de melhoria da qualidade da educação e de aprimoramento e continuidade das políticas educacionais como políticas de Estado (para além das mudanças de governo). Para o professor Genuíno Bordignon, a gestão democrática das instituições educacionais e do sistema é colocada como fundamento, condição essencial, da qualidade social da educação defendida pela CONAE 2010, na qual a educação é um direito subjetivo de todos/as, devendo voltar-se à formação integral do/a cidadão/ã e ao desenvolvimento com inclusão social e sustentabilidade. Diferentemente da gerência de qualidade total que é baseada na lógica econômica e empresarial, em que o objetivo central limita-se a atender exigências do mercado. Como vimos, a qualidade da educação é um conceito em disputa na sociedade!

*Júlio Barros é professor de História do CEF 25 Ceilândia, mestre em Educação pela UnB, diretor de Organização do Sinpro/DF e coordenador do Fórum Distrital de Educação/FDE

PEC 32/2020 acaba com as férias do magistério público

A proposta de reforma administrativa do governo Jair Bolsonaro determina que nenhum servidor público poderá ter mais de 30 dias de férias. Com isso, acaba com as férias dos professores e dos operadores de raio-X, que trabalham com substância radioativas. Nesta primeira matéria da série sobre a reforma administrativa, o Sinpro-DF esclarece sobre o direito às férias.

No texto da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 32/2020, o governo Bolsonaro elimina o direito aos 45 dias de férias dos professores e, os 40 dias, dos técnicos em raio-X. Além disso, essa proposta só atinge os(as) servidores(as), ou seja, ela deixa de fora membros dos altos escalões dos Três Poderes, como parlamentares, magistrados (juízes, desembargadores, ministros dos tribunais superiores), promotores e procuradores, e militares.

Os magistrados, por exemplo, têm direito a 60 dias de férias por ano. No Congresso Nacional, deputados e senadores têm dois períodos de recesso no ano: de 23 de dezembro a 31 de janeiro e de 18 a 31 de julho. Nesse período, de 54 dias no total, não há sessão nem atividade legislativa.

O objetivo da A PEC 32/2020 é privatizar os serviços públicos que atendem aos direitos fundamentais e sociais contidos na Constituição Federal. “Essa proposta, relacionada às férias, mostra, mais uma vez, que o objetivo final do governo ultraliberal de Bolsonaro, portanto, é contratar no setor privado para executar os serviços e produtos prestados ou produzidos, atualmente, por instituições estatais”, alerta Rosilene Corrêa, diretora do Sinpro-DF.

A diretora informa que, após a aprovação da reforma administrativa, os serviços públicos serão, inicialmente, prestados por meio de organizações sociais e serviços sociais autônomos, “sem fins lucrativos”, e, posteriormente, por empresas privadas, com fins lucrativos.

“Setores como educação e saúde, que estarão no grupo de cargo por vínculo indeterminado, poderão dispensar a própria contratação direta, resolvendo-se o problema mediante a criação de Organização Social ou Serviço Social Autônomo ou, no futuro, mediante a distribuição ou o fornecimento de voucher à população carente, para que decida de quem comprar o serviço”, esclarece a diretora.

Confira, a seguir, matérias relacionadas à série Reforma administrativa

Câmara dos Deputados abre consulta sobre reforma administrativa

Sinpro-DF realiza live sobre impactos da reforma administrativa no serviço público

Reforma administrativa de Bolsonaro e Guedes ataca as carreiras de servidores e o atendimento público à população

Paulo Freire cria método e alfabetiza adultos em 45 dias

Entre 1959 e 2000, o educador Paulo Freire publicou muitas obras. Por causa de sua pesquisa e trabalhos na área da educação, ele recebeu 48 prêmios concedidos por organizações nacionais, internacionais e por vários países. Freire dizia que “a educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa”. Nesta segunda matéria da série “Paulo Freire: vida e obra”, que faz parte da “Semana Paulo Freire – 99 anos”, o Sinpro-DF registra seus primeiros passos na transformação da educação brasileira.
 
Considera-se como sua primeira obra, o livro intitulado “Educação como prática da liberdade”. Nessa obra, Freire expõe seu método de alfabetização de adultos minuciosamente, contextualizando-o, historicamente, com pressupostos filosóficos e políticos. Publicado em 1967, o livro foi antecedido por sua experiência de Angicos e por sua tese, de 1959, intitulada “Educação e atualidade brasileira”, escrita para o concurso público na cadeira de História e Filosofia da Educação na Escola de Belas Artes da Universidade de Recife.
 
Nessa tese, ele aponta princípios para a educação, tais como a ação dialógica, a organicidade da educação (contexto histórico-social), a práxis refletiva (ação-reflexão-ação) e a criticidade (consciência crítica). O ingresso na universidade, local em que iniciou a construção de sua carreira de professor, possibilitou-lhe realizar as primeiras experiências de alfabetização de adultos. Essas experiências resultaram na denominada “experiência de Angicos”, em 1963, que causou alvoroço na cidade. Ele ensinou 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias. O método foi adotado pelo Estado de Pernambuco. Com o método criado e desenvolvido por ele, foi possível a alfabetização de jovens e adultos em cerca de 40 horas e com baixos custos.
 
Esse método inspirou o Plano Nacional de Alfabetização, que começou a ser executado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) no governo de João Goulart (1961-1964), um governo abreviado pelo golpe civil-militar de 1964, que resultou em 21 anos de ditadura e no exílio de Paulo Freire. Paulo Reglus Neves Freire era pernambucano. Nasceu no dia 19 de setembro de 2021, em Recife. De família pobre, era filho de um policial militar e uma dona de casa, experimentou, juntamente com seus três irmãos, todas as dificuldades de sobrevivência. Com bolsa de estudo, conseguiu superar por meio da educação.
 
Nesta segunda matéria da série, o Sinpro-DF indica dois livros. Primeiramente, sua tese “Educação e atualidade brasileira”. Segundamente, sua primeira obra: “Educação como prática da liberdade”. Boa leitura!

Confira, a seguir, a primeira matéria da série:
Sinpro-DF inicia Semana Paulo Freire com série sobre vida e obra

Semana Paulo Freire continua com Live nesta quarta (16)

O Sinpro dá continuidade à Semana Paulo Freire com a realização de uma Live às 19h desta quarta-feira (16). Trazendo como tema Educação em tempos de pandemia, o professor doutor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luiz Carlos de Freitas; e a professora da rede pública de ensino do Distrito Federal e diretora do Sinpro Letícia Montandon abordam um pouco mais sobre o assunto, extremamente relevante e atual nos dias de hoje.

A atividade fará um diálogo com a questão da pandemia da Covid-19; a importância de não termos aulas presenciais neste momento de alta na curva de mortos e infectados; as pressões que a Educação já sofria antes da pandemia e que se aprofunda nos dias atuais; a necessidade de se pensar a educação no pós-pandemia; as consequências do uso de tecnologias no ensino remoto; bem como o desenvolvimento destas no pós-pandemia.

 O palhafessor Jonas Freire fará uma participação especial na abertura da Live, homenageando o educador Paulo Freire.

O evento terá prosseguimento na sexta-feira (18) e será transmitido pelo Facebook e YouTube do Sinpro, ou Canal 12 da Net. Não deixe de participar!

Doação de alimentos para funcionários dos Correios começa nessa segunda (14), na sede do Sinpro

O Sinpro já está recebendo as doações de alimentos que serão destinados para os(as) funcionários(as) dos Correios, em greve há 27 dias. Lutando pela manutenção de seus direitos, os(as) trabalhadores(as) tiveram seus salários cortados pela direção do órgão, intransigência que tem gerado uma série de transtornos.

Diante desta situação, o Sinpro aderiu a uma ação solidária que tem como objetivo arrecadar alimentos não perecíveis para a montagem de cestas básicas, que serão distribuídas aos(às) funcionários(as) dos Correios.

Os(as) professores(as) e orientadores(as) educacionais poderão entregar suas doações na sede do Sinpro (SIG) dessa segunda-feira (14) ao dia 18 de setembro, das 8h às 12h e das 13h às 17h. Os(as) interessados(as) ainda podem entregar os alimentos no Setor Hospitalar Sul, QD 01, Bloco A, Loja 14/17, Galeria do Hotel Nacional, ou fazer doação em dinheiro para a conta abaixo:

 

Caixa Econômica Federal

Agência 002

Operação: 003

Conta Corrente: 4667-7

CNPJ: 60.563.731/0004-10

 

Participe!

 

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