Após um mês de ocupação das escolas, estudantes de SP continuam nas ruas

Um mês depois do início do movimento de ocupação das escolas da rede pública do estado de São Paulo, os estudantes secundaristas continuam nas ruas. Nesta quarta-feira (9), os alunos fazem nova manifestação, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), agora voltada à defesa de educação de qualidade e de maior participação da comunidade na gestão escolar. O ato também é contra o autoritarismo do estado e os cortes do governo na educação.
Iniciadas na Escola Estadual Diadema, na região do ABC, na noite do dia 9 de novembro, as ocupações começaram com o objetivo de combater a proposta de reorganização escolar do governo estadual. A ação, no entanto, extrapolou a intenção inicial: alcançou cerca de 200 escolas, levantou a discussão sobre a qualidade do ensino nas escolas públicas, derrubou o secretário da Educação, Herman Jacobus Cornelis Voorwald, e fez com que o governador Geraldo Alckmin revogasse o decreto que instituía a reorganização escolar em todo o estado.

Os estudantes assumiram o controle das escolas ocupadas, organizaram-se em equipes (de segurança, de limpeza, de atendimento à imprensa, de alimentação, de alojamento) e passaram a deliberar as ações do grupo por meio de assembleias. No lugar das aulas, eles desenvolveram uma rotina própria nos prédios ocupados, organizando aulas públicas e cursos.

O projeto da Secretaria da Educação do Estado previa o fechamento de 94 escolas e a transferência de cerca de 311 mil estudantes para instituições de ensino na região onde moram. O objetivo da reorganização, segundo a secretaria, era segmentar as unidades em três grupos, conforme a idade e o ano escolar. De acordo com o órgão, a segmentação melhora o rendimento dos alunos.

Os estudantes ressaltam que a comunidade escolar não foi ouvida pelo governo sobre as mudanças. Eles argumentam que as alterações e transferências, se colocadas em prática, causariam a ruptura, entre outras questões, da relação que os alunos desenvolveram com colegas e prejudicariam a logística dos pais, que muitas vezes se utilizam dos filhos mais velhos para levar os irmãos mais novos para a escola.
Novas reivindicações
Após conseguir a revogação da medida, os estudantes agora passaram a pressionar o governo por mais participação na gestão escolar, melhoria da infraestrutura das escolas e valorização dos professores.

“A nossa reivindicação agora, além da garantia de que os que participaram do movimento não serão retaliados, é pela melhoria da educação nas escolas e o aumento da participação na administração. A eleição do diretor pela comunidade é uma das propostas”, destaca Fabrício Ramos, que cursa o terceiro ano do ensino médio na Escola Caetano de Campos, região central da capital.

A presidenta do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado (Apeoesp), Maria Izabel Azevedo Noronha, acredita que o momento é de fazer um debate profundo sobre a qualidade do ensino público.
“Essas ocupações provocaram os alunos de tal forma que eles vão dizer: eu não quero mais sentar em frente à lousa. Eu vou querer sentar no chão, vou querer outro tipo de aula, e isso vai requerer nova dinâmica para organizar o tempo, o espaço escolar. Estamos falando da necessidade de ter biblioteca, de ter laboratório, para que os alunos sintam que são convidados a ir e a ficar na escola”.
Na última sexta-feira (4), horas antes do anúncio da revogação da proposta e da queda do secretário de Educação, a Apeosp contabilizava 205 escolas ocupadas e duas diretorias de ensino, a de Sorocaba e a de Santo André. Pela conta da secretaria, eram 196 escolas ocupadas.
Hoje, o número é menor. Gradativamente, desde a revogação do decreto, os alunos passaram a desocupar as unidades. A Diretoria de Ensino de Sorocaba já foi liberada pelos estudantes. Segundo a secretaria, 145 estavam ocupadas na noite de ontem (8); de acordo com o sindicato, eram 149.
Em meados de novembro, quando o movimento de ocupação começou a tomar corpo, o governo do estado, por meio de ações na Justiça, tentou retirar os estudantes das escolas. Recorrentes pedidos de reintegração de posse foram feitos. No entanto, na maioria das vezes, os juízes e desembargadores se posicionaram contrariamente ao pedido do governo estadual. Na capital paulista, o colégio de desembargadores do Tribunal de Justiça, que jugava a ação, decidiu por unanimidade contra a reintegração.
Manifestações na rua
A revogação pelo governo da reorganização escolar ocorreu uma semana depois que os estudantes, principalmente a partir do dia 30 de novembro, passaram a fazer manifestações nas ruas, com o fechamento de cruzamentos importantes da capital, assim como das marginais e de estradas. Em reação a essa movimentação, a polícia começou a reprimir os alunos que participavam dos atos. Foram registradas agressões com cassetetes, gás de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo. Alunos foram detidos e apoiadores, presos. A ação da polícia vai gerar uma denúncia na Organização dos Estados Americanos (OEA), segundo o advogado Ariel de Castro Alves, coordenador do Movimento Nacional de Direitos Humanos.
“Temos uma ação já em curso na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA que trata da criminalização da juventude no Brasil. E agora apresentaremos, na próxima semana, um informe sobre a criminalização e a violência contra os jovens que estão legitimamente se manifestando aqui em São Paulo”, destacou.
O Ministério Público (MP) estadual também passou a recolher dados e informações sobre a violência policial contra os alunos. O órgão ingressou com uma ação civil pública contra a reorganização proposta pela secretaria, pedindo a criação de uma agenda de debates sobre o tema em 2016. De acordo com o MP, o governo do estado não respeitou os princípios da legalidade e da publicidade na administração pública ao tentar implantar a reorganização.
“O governo não pode agir de forma a surpreender o governado. Repentinamente, vem uma decisão ao final do ano de que aqueles alunos vão para outro lugar, para outra escola, em outra organização, isso traz surpresa, não houve transparência”, disse o promotor Eduardo Dias Ferreira, um dos autores da ação. “Para fazer um paralelo, já imaginaram o que iria ocorrer se 311 mil alunos do ensino privado de São Paulo tivessem que deixar as escolas onde têm identidade e amigos há anos, para ser transferidos a outra escola?”.
A estudante Isabela Ramos da Silva, de 19 anos, aluna da Escola José Leandro de Barros Pimentel, em Barueri, disse que foi informada sobre o fechamento do curso noturno no fim do ano e que não recebeu nenhuma justificativa.
“Não recebemos nenhuma justificativa para o fato de o período noturno da minha escola ser fechado. Só ficamos sabendo: vai fechar o período noturno e não vai ter mais, e foi bem no final [do ano]. Fomos uns dos últimos a saber. E aí ficamos surpresos. A gente até pôde fazer rematrículas para as escolas mais próximas, mas elas já estão superlotadas. Então, como vai receber mais gente?”, questionou.
Em nota, a Secretaria de Educação do estado disse que tem atuado para entregar escolas melhores, com ambientes mais preparados para cada faixa etária e com profissionais capacitados para atender aos estudantes: “As manifestações, embora legítimas, não podem desinformar e alimentar em pais e alunos falsos temores. Também não podem sobrepor o direito dos estudantes paulistas por uma educação de mais qualidade”.
Segundo a secretaria, manter juntos os alunos da mesma idade é prática comum de alguns dos melhores colégios do país e de países-referência em educação. “As informações, ainda não oficiais, propagadas por um sindicato com claras pretensões políticas, tenta, mais uma vez, inviabilizar melhores condições aos alunos e também aos profissionais da rede estadual. A secretaria lamenta e garante que permanecerá atuando por meio do diálogo com os educadores e o compromisso com o ensino”, acrescenta a nota.
De acordo com a Secretaria de Educação, a intenção era que as unidades tivessem ciclos únicos, porque há estudos indicando que o aluno tem rendimento 10% maior nesse modelo. Além disso, a secretaria informou que, desde 1998, as escolas estaduais deixaram de receber 2 milhões de matrículas. Por isso, há necessidade de readequação.
O governador Geraldo Alckmin, que suspendeu a reorganização escolar, disse que fará debates em 2016 para ouvir a sociedade. “Decidimos adiar a reorganização e rediscuti-la escola por escola, com a comunidade, com os estudantes e, em especial, com os pais dos alunos. Acreditamos nos benefícios da reorganização, 2016 será um ano de aprofundarmos o diálogo”, afirmou Alckmin.
(do IG)
 

Intelectuais lançam manifesto pela cassação do mandato de Cunha

Sob a coordenação do teólogo e escritor Leonardo Boff, intelectuais lançaram, nesta semana, manifesto em defesa das instituições democráticas, contra “a tentativa de golpe” imposta Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e pela cassação de seu mandato. O documento já foi assinado por nomes como Chico Buarque, Emir Sader, Frei Betto, Paulo Betti, Fernando Morais, Chico César e Jorge Mattoso.
Leia, abaixo, a íntegra do texto:

Manifesto em defesa das instituições democráticas

O Brasil vive um momento histórico em que a legalidade e as instituições democráticas são testadas, o que exige opinião e atitude firme de todos e todas que têm compromisso com a democracia.

Desde as eleições de 2014, vivemos um grande acirramento político que permeia as mais diversas relações humanas e sociais. Essa situação ganhou novos ingredientes a partir da eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados e, de forma especial, após este ser denunciado pelo Ministério Público Federal por seu envolvimento em atos de corrupção, possuindo contas bancárias no exterior e ocultando patrimônio pessoal.

Absolutamente acuado pelas denúncias, pelas fartas provas do seu envolvimento em atos ilícitos e enfrentando manifestações em todo Brasil contra a agenda conservadora e retrógrada do ponto de vista de direitos que lidera, Cunha, que já não tem mais nenhuma legitimidade para presidir a Câmara, decidiu enfrentar o Estado Democrático de Direito. A aceitação de um pedido de impedimento da Presidenta da República no momento em que avança o processo de cassação do deputado é uma atitude revanchista que atenta contra a legalidade e desvia o foco das atenções e das investigações.

Neste sentido, viemos a público repudiar a tentativa de golpe imposta por Eduardo Cunha, por não haver elementos que fundamentem esta atitude, a não ser pelo desespero de quem não consegue explicar o seu comprovado envolvimento com esquemas espúrios de corrupção. Não se trata neste momento de aprovar ou reprovar a administração nem a forma como a Presidenta da República governa, mas defender a legalidade e a legitimidade das instituições do nosso país.

Por outro lado, defendemos o cumprimento do Regimento da Câmara dos Deputados e da Constituição Federal, ambos instrumentos com fartos elementos que justificam a cassação do mandato de Eduardo Cunha. Caso contrário, toda a classe política e as instituições brasileiras estarão desmoralizadas, por manter no exercício do poder um tirano que utiliza seu cargo de forma irresponsável para manutenção dos seus interesses pessoais. Apelamos às e aos parlamentares, ao Ministério Público e ao Supremo Tribunal Federal, autoridades cuidadoras da sanidade da política e da salvaguarda da ordem democrática num Estado de Direito, sem a qual mergulharíamos num caos com consequências políticas imprevisíveis. O Brasil clama pela atuação corajosa e decidida de Vossas Excelências.

Não aceitamos rompimento democrático! Não aceitamos o golpe! Não aceitamos Cunha na presidência da Câmara dos Deputados!

(do Portal Forum)

Professores catarinenses são impedidos de acompanhar PL que institui plano de carreira do magistério

Mais um capítulo triste para o embate entre o governo de Santa Catarina e os(as) trabalhadores(as) do serviço público estadual. Não contente em impedir os servidores de acompanhar a Comissão de Constituição e Justiça, dessa vez o presidente da Assembleia Legislativa, Gelson Merísio do PSD (mesmo partido do governador Raimundo Colombo) colocou um forte aparato policial em frente do plenário e impediu professores, servidores da saúde e da segurança pública de acompanharem a comissão na manhã do dia 08 de dezembro. Como resultado, um triste confronto entre trabalhadores!
O plenário que tem capacidade para 240 pessoas, não estava ocupado nem por um quarto desse público. As cadeiras da galeria superior estavam vazias e apenas alguns trabalhadores conseguiram entrar para acompanhar a votação de projetos importantes, entre eles os Projetos de Lei – PL 517 e 518 que tratam, respectivamente, da instituição de um novo plano de carreira para o magistério público estadual e de novas regras para admissão de professores por prazo determinado – ACTs.
Barrados do lado de fora do plenário, os trabalhadores pediam para acompanhar a votação. Palavras de ordem tentavam sensibilizar os policias militares que a luta é para todos os servidores estaduais, mas o confronto foi inevitável! Na tentativa de entrar no plenário os trabalhadores do estado empurraram os outros trabalhadores do estado, os policiais militares, que para conter o grande número de pessoas, jogaram spray de pimenta em todos. Sem escolher alvo, sem pensar na distância entre o tubo e o rosto dos manifestantes. O tumulto foi grande e maior foi a ardência sentida por todos que estavam na Assembleia, só quem não sentiu os efeitos do gás de pimenta foram os deputados que, protegidos pelo vidro e pelo aparato policial, olhavam os trabalhadores brigando entre eles.
Ao final da Comissão a deputada Luciane Carminatti do PT, foi conversar com os trabalhadores que protestavam do lado de fora e pediu a eles muita união neste momento em que o governo do estado “tratora” o direito dos servidores estaduais.  Além desses projetos, a deputada Luciane alertou sobre a medida provisória – MP 205/2015, que altera a legislação que trata dos fundos especiais mantidos pelo Estado. “É uma medida que abre possibilidade ao governo do estado de pegar os recursos do caixa e investir para o pagamento de outras políticas, como por exemplo, pegar os recursos do Pré-Sal que são destinados à educação e saúde, como a legislação prevê, e direcioná-los para o pagamento da dívida do estado.”
Essa MP, apesar do apelo da deputada, foi aprovada e segue para análise em plenário. Os projetos de lei quetratam sobre o magistério não foram para votação e voltam para a pauta na próxima quarta-feira, dia 16 de novembro. De acordo com representantes do Fórum dos Servidores Estaduais, que reúne os sindicatos que representam trabalhadores do serviço público estadual, garantiram que continuarão mobilizados para conter a retirada de direitos do governador Raimundo Colombo.

Orientadora Francis

orientadora_educacional_08
Nome: Francisca das C. Teles do Nascimento
Escola: Centro de Ensino Fundamental (CEF) 507 de Samambaia
Tempo de Magistério: 7 anos
Mais conhecida por Francis, é Pedagoga – Orientadora Educacional e atua na Secretaria de Educação desde 2008. Atualmente trabalha no Centro de Ensino Fundamental (CEF) 507 de Samambaia.
Nesses sete anos de trabalho, a profissional viu de tudo um pouco, mas garante que vale à pena – apesar dos desafios que cercam a profissão.
Francis lamenta o pouco envolvimento que as famílias têm com a escola. “O trabalho precisa ser integrado, ou seja, é necessário haver uma parceria entre família e escola. A família faz parte do contexto escolar e deve acompanhar as nossas ações; acompanhar os filhos que lá estão. Infelizmente, não é bem isso o que acontece”, conta.
Outra situação difícil “para nós profissionais que estamos no chão da escola é a descontinuidade dos projetos educacionais e a ausência de responsabilidade social com a educação. Isto causa descrença e até adoecimento em nós, educadores”, diz Francis.
Outro problema apontado pela pedagoga é o envolvimento de estudantes, especialmente os menos favorecidos, em atividades ilícitas. Segundo Francis, “muitas vezes, pela própria condição socioeconômica e pela falta de estrutura familiar, esses jovens são compelidos a praticar pequenos furtos ou mesmo se envolver com drogas. Consequentemente se tornam estranhos na escola e colaboram para os índices de violência dentro e fora do âmbito escolar e, por fim, param de estudar. Nessas horas nos sentimos impotentes, mas temos que levantar a cabeça, seguir em frente e fazer o nosso melhor por esses estudantes”, diz Francis.
Porém, esses problemas não chegam a desanimar a orientadora e muito menos compromete a importância da profissional no CEF 507. “O que me motiva a sair de casa todos os dias e ir à escola é saber que, por meio do meu trabalho, eu posso ajudar a transformar esta realidade. Por menor que seja a mudança, ela é bem-vinda e necessária”.

Sem garantia de Alckmin, estudantes não desistem de ocupações de escolas

Os estudantes de São Paulo não definiram se as escolas serão ou não desocupadas depois de o governador Geraldo Alckmin (PSDB) revogar o decreto da reorganização escolar e suspender o projeto no ano de 2016, na última sexta-feira (4). Eles exigem que o governo do estado venha a público explicar como será a suspensão do projeto e como serão conduzidas as reuniões com as escolas. Até lá, os secundaristas prometem seguir mobilizados, nas instituições de ensino ou em protestos de rua.
“Nós queremos saber como será essa suspensão. O governador disse que vai ouvir a sociedade, mas que garantia temos que nossas reivindicações serão acatadas? Que garantia temos que no final do ano que vem ele não chegará com o mesmo projeto?”, disse o estudante Samuel Marques, da escola Pereira Barreto, na zona sul de São Paulo. “Nesta semana vamos continuar os protestos em busca de um pronunciamento público do governador sobre quais serão as medidas que envolvem a suspensão da reorganização.”
O Decreto 61.692 foi publicado sábado (5) no Diário Oficial do Estado de São Paulo, revoga a medida publicada no dia 30, pelo Decreto 61.672, que abria caminho para a “reorganização” escolar. Após 25 dias de luta dos estudantes, Alckmin veio a público na sexta-feira e disse que o que seria implantando em 2016 será debatido “escola por escola”. O secretário estadual de Educação, Herman Voorvald, pediu demissão da pasta no mesmo dia. A decisão foi comemorada pelos estudantes, professores e comunidade como a vitória parcial.
O governador afirmou hoje (7) que não vê razão para que as escolas estado continuem ocupadas pelos estudantes. “Não há razão nenhuma para ter escola hoje invadida. Se a causa era essa, agora é retomarmos as aulas para poder, o mais rápido possível, concluir o ano letivo. Esse é o objetivo”, disse em entrevista coletiva para anúncio da criação de um plano de combate à dengue, febre chikungunya e vírus Zika. “Nós vamos adiar (o projeto de reorganização) e vamos fazer esse diálogo, especialmente com os alunos, os pais dos alunos e o corpo docente.”
O próximo ato dos estudantes está marcado para quarta-feira (9), às 17h, no vão Livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na avenida Paulista. Na sexta-feira (11), será a próxima reunião do comando das escolas ocupas, na escola Antônio Manoel Alves de Lima, na zona sul, quando devem ser definidos os próximos passos do movimento.
Hoje, o total de escolas ocupadas chega a 189, sendo 76 na capital, segundo o último levantamento do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp). As Diretorias de Ensino de Sorocaba e Santo André também permanecem ocupadas.
A última reunião do comando das escolas ocupadas, realizada ontem, em Diadema, reuniu representantes de pelo menos 100 ocupações. Os alunos anunciaram que continuarão na luta contra a reorganização, “seja ocupando as escolas ou as ruas”, segundo nota publicada pelo movimento em sua página, no Facebook.
“Exigimos que o projeto da reorganização escolar seja permanentemente cancelado, e que o governador Geraldo Alckmin faça um pronunciamento claro e concreto através de uma audiência pública amplamente convocada”, continua o texto. “Exigimos punição aos policiais que agrediram ou ameaçaram os estudantes e o fim de todos os processos contra alunos, funcionários, professores ou apoiadores e que não sejam perseguidos ou criminalizados pela direção ou qualquer meio de repressão.”
A “reorganização” escolar, elaborada sem diálogo prévio com a comunidade escolar, previa o fechamento de pelo menos 93 escolas e a transferência de 311 mil estudantes. À revelia do clamor social e de críticas das principais universidades do país, o governador decretou no dia 30 a transferência de professores para a implementação da reorganização e começou uma onda de ataques violentos aos estudantes, com a Força Tática da Polícia Militar.
(da Rede Brasil Atual)

Orientadora Marcela Vietes Mendonça

image
Nome: Marcela Vietes Mendonça
Escola: Escola Classe Córrego Barrero, Zona Rural do Gama
Tempo de magistério: 19 anos
É preciso ir além da escola para ajudar um estudante
Um dos responsáveis pelo desenvolvimento pessoal, do suporte e da formação do estudante, o(a) orientador(a) educacional carrega, também, a responsabilidade de auxiliar a direção e o(a) professor(a) na compreensão de todos os comportamentos dos(as) alunos(as). Apesar de toda importância no contexto escolar, o profissional da área sofre com a falta de condições ideais de trabalho.
Segundo a orientadora Marcela Vietes Mendonça, os problemas começam pela precariedade nas escolas públicas do Distrito Federal. “Temos um trabalho muito importante e que requer um espaço adequado para realiza-lo. Infelizmente não temos este espaço nas escolas. A gestão da escola tenta disponibilizar um local, mas ainda estamos longe de ter condições ideais de trabalho”, analisa a orientadora da Escola Classe Córrego Barreiro, Zona Rural do Gama.
Outra preocupação destacada por Marcela é com o quadro reduzido de profissionais na rede pública de ensino do DF. De acordo com ela, a maioria das escolas conta com apenas um profissional, enquanto o ideal seriam quatro. A preocupação ganha sentido, já que na formação do estudante o orientador passeia por vários campos, desde a reflexão sobre valores morais e éticos, à tentativa de resolver conflitos sociais e familiares. “Hoje, temos um orientador por escola e o ideal seria um para cada 400 estudantes. Já trabalhei em escolas que tinham dois mil estudantes para acompanhar”, informa Marcela, complementando que “é importante que o estudante tenha a certeza que está escrevendo a história dele e temos participação direta nisto. Precisamos ir além da escola. Você não identifica uma dificuldade de aprendizado apenas com a parte cognitiva, mas também a social, afetiva e em outros aspectos que é preciso ter um olhar diferenciado para perceber isto”.
Mesmo com todos os problemas e dificuldades passados em sala de aula, Marcela afirma que o maior desafio é conquistar o reconhecimento profissional por parte do governo do Distrito Federal. “Já temos este reconhecimento do estudante e da comunidade escolar. É preciso que o governo reconheça o trabalho que desenvolvemos e nos ajude a contornar os problemas, para que possamos ajudar ainda mais”, finaliza Marcela.

Estudantes de SP refundam a cidade; Alckmin não é o único derrotado

O governador Geraldo Alckmin levou um xeque-mate já na primeira semana de ocupações em São Paulo. E demorou a perceber. Mais até do que a presidente Dilma Rousseff levou para perceber a dimensão da catástrofe em Mariana (MG). Os estudantes fizeram uma jogada de mestre. Ocupar as escolas que seriam fechadas levou ao governo estadual a imagem de truculento – que só seria agravada em caso de reintegrações de posse.

Foi uma alternativa aos protestos de rua, precocemente abortados pelos black blocs. Estes foram isolados pelos secundaristas, em frente do Palácio dos Bandeirantes, enquanto tentavam derrubar as grades. O método violento servia para o governo – e para a opinião pública – desqualificar o movimento. Mas a nova geração de adolescentes paulistanos mostrou-se mais madura que os militantes tradicionais. Não desistiu. Reuniu-se em assembleias e conquistou territórios.

E os territórios eram as próprias escolas. Inicialmente, as que seriam fechadas. O que levou a criminalização tradicional feita pela imprensa corporativa a soar ridícula: esta chegou a noticiar que os estudantes “invadiam escolas” – as próprias escolas. E mais: escolas que seriam fechadas. Como repetir que eles não queriam ter aulas, se era pelas escolas que eles estavam brigando? Geraldo Alckmin ficou sem saber o que fazer. Parecia apenas torcer para que o movimento não se alastrasse.

E se alastrou. Dobrou a meta. Até esta sexta-feira, quando o governador desistiu da “reorganização” e defenestrou o secretário de Educação, eram 196 escolas ocupadas, mais que o dobro das 93 escolas que ele queria fechar. Foi ficando tão desigual que parecia que os adolescentes jogavam um jogo de xadrez, como velhos enxadristas, enquanto Alckmin se aplicava ferrenhamente a um jogo de damas – binário. Esperando que alguma peça engolisse de uma vez todos os adversários. Essa peça não existia.

Como toda batalha política, trata-se também de uma batalha de comunicação. E quem costuma defender o governo estadual e sua polícia truculenta viu-se, de repente, tão derrotado quanto o governador. O milagre de multiplicação da palavra “invasões” nos títulos foi sendo progressivamente percebido como algo extraterrestre. Só nossos jornalões mesmo para manter criminalizado o método político das ocupações – como se fossem seres perigosíssimos a ameaçar pessoas ou o patrimônio público. Não colou.

O jornalismo morreu; viva o jornalismo

É por isso que a vitória histórica dos estudantes significa também uma vitória contra um certo modo de se fazer jornalismo político. Ainda que um jornalismo político disfarçado, escondido em nome de um noticiário “isento” que não é mais percebido como tal. O Datafolha desta semana – que mostrou a queda da popularidade de Alckmin e o apoio popular às ocupações – mostrou que também a imprensa foi uma grande derrotada. E, por isso, precisa se repensar.

As implicações são muitas. Mas vale insistir na carga política de se chamar ocupações de “invasões”, como escrevi no domingo (29/11): “Invasões” x “Ocupações”. Por um curso intensivo para jornalistas. Se ficou demonstrado (com o aval do Judiciário) que as ocupações são legítimas, como continuar perpetuando a criminalização discursiva – ela que antecede a repressão – nos títulos sobre sem-teto, sem-terra, estudantes universitários?

Enquanto isso, o jogo de xadrez dos secundaristas tratava a comunicação de forma contemporânea. Tomando a cidade como uma das peças. Ocupar a EE Fernão Dias Paes, em Pinheiros, significou trazer para o centro expandido, mais visível, uma disputa que talvez ficasse amortecida nas periferias – estas que costumam ser criminalizadas sem que a classe média paulistana se sinta culpada. Os estudantes catapultaram, a partir dali, suas demandas: Algo acontece em São Paulo, na #OcupaFernão.

E se comunicaram. Entre si, por meio de grupos no WhatsApp, com a ajuda das redes sociais, da imprensa contra-hegemônica (pronta a noticiar abusos do governo e da polícia), e sabendo usar a própria cobertura da grande imprensa. Esta não conseguiria distorcer os fatos o tempo todo, por muito tempo – e se viu obrigada a ser testemunha da maior manifestação urbana em rede de que se tem notícia no século 21, neste país que se acostumou a enxergar as cidades como apenas algo pulverizado.

Uma nova cidade

A cidade de São Paulo acaba de ser reinventada. Estudantes dos quatro cantos da cidade ocupando escolas com política, arte, cultura e capacidade de autogestão mostraram a todo o país – e não somente a esse governador subitamente letárgico – que existem outras formas de se pensar o urbano, não apenas como uma sucessão de prédios isolados. Mas em rede, de forma que prédios escolares das zonas sul, leste, norte, oeste se tornem, todos eles, centrais.

A cidade tem um novo Centro. Ele está em todas as partes e tem nos estudantes secundaristas a assinatura de sua alforria. Acaba de ser inaugurada em São Paulo a reterritorialização da luta política. As ruas plenamente liberadas para que a direita exponha sua despolitização (ao ponto de tirar selfies com PMs) não costumam ser liberadas para quem tenha uma pauta de reivindicações à esquerda. Por isso os estudantes buscaram as ruas virtuais e se entrincheiraram; e as trincheiras eram um território incontestável: as escolas. Públicas.

(do Portal Forum)

Em assembleia, alunos paulistas decidem manter luta contra reorganização

Cerca de 100 representantes de escolas ocupadas de todo o estado de São Paulo se reuniram na tarde de hoje (6) na Cefam Diadema, a primeira das escolas ocupadas por alunos em protesto contra o projeto de reorganização do ensino proposto pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), no dia 9 de novembro.
O encontro definiu a continuidade do movimento, que exige a revogação permanente do projeto, bem como a punição dos agentes de segurança envolvidos em episódios de agressão a estudantes e também convoca um ato público para a tarde de quarta (9), em local a ser divulgado.
Os estudantes querem que Alckmin declare a revogação da reorganização em “um pronunciamento claro e concreto”, em uma audiência pública.
Ao fim da reunião, estudantes leram em conjunto um pronunciamento em que firmaram sua posição. Leia a íntegra:
“Nós, estudantes secundaristas, após o encontro estadual das escolas ocupadas, no dia 6 de de dezembro, anunciamos que continuaremos na luta, seja ocupando as escolas ou as ruas
“A força dos estudantes já foi provada, uma vez que o governador teve de recuar do projeto e o secretário teve de deixar o cargo. Uma grande derrota, imposta pelos estudantes.
“Exigimos que a reorganização escolar seja permanentemente cancelada, que o governador Geraldo Alckmin faça um pronunciamento claro e concreto, através de uma audiência pública amplamente convocada.
“Exigimos punição dos policiais que agrediram ou ameaçaram estudantes e o fim de todos os processos contra estudantes, funcionários, professores ou apoiadores. Que não sejam perseguidos ou criminalizados pela direção ou qualquer meio de repressão.
“Convocamos todas as unidades para um grande ato em apoio às escolas ocupadas, quarta-feira, dia 9, às cinco horas da tarde.”
O resultado da reunião reafirma a posição declarada na sexta-feira (4), logo após o governador declarar a suspensão do plano. “Antes de desocupar, precisamos de outras garantias importantes, como a liberdade de todos os manifestantes atualmente presos e a não punição de ninguém envolvido na luta (…) Consolidando nossa vitória, nada será como antes para nossa luta em 2016, que deve continuar”, mostrava um post da página  Não Fechem Minha Escola, no Facebook.
Os estudantes secundaristas de São  Paulo estão mobilizados desde setembro, quando o governo estadual anunciou o projeto, que envolve fechamento de 93 escolas, transferências compulsórias de cerca de 311 mil alunos, superlotação e demissão de professores.
Após uma série de atos e passeatas, em que pediam a abertura de um canal de diálogo com a secretaria de Educação, uma série de escolas passaram a ser ocupadas pelos próprios alunos. Atualmente, o número de unidades ocupadas passa de 200, segundo balanço da Apeoesp, o sindicato dos professores da rede pública estadual.
Assista o vídeo do pronunciamento dos estudantes secundaristas de São Paulo, que seguem em luta contra o projeto de reorganização do ensino.
(da Rede Brasil Atual)

Governador Alckmin, a escola é nossa

Contra o fechamento de 94 escolas em todo o estado, a extinção do ensino médio noturno em centenas de unidades e o desemprego de professores e demais servidores, a comunidade protagonizou um movimento inédito. E resistiu à tentativa do governo de Geraldo Alckmin (PSDB) de reduzir a presença, e os investimentos, do Estado no setor – por meio de um pacote que tentou empurrar à população sem debate com nenhum setor afetado.
Na terceira semana de novembro, quando os alunos estavam envolvidos com trabalhos, provas e exames para ingresso na faculdade e as férias, a defesa da escola ganhou importância maior. Organizados em comissões de limpeza, preparo das refeições, contato com a imprensa, controle dos portões e organização de atividades culturais, todas constituídas a partir de assembleias, eles cuidavam das mais de 115 escolas ocupadas em várias regiões.
De proporções surpreendentes, as ocupações incomodaram o governo. Em reunião de conciliação em 19 de novembro, no Tribunal de Justiça, o secretário da Educação, Herman Voorwald, chegou a propor a suspensão da reorganização do ensino paulista até 4 de dezembro, mediante a desocupação imediata dos prédios. Pela proposta, as instituições receberiam, em até 48 horas, um material explicativo sobre o projeto e sobre como ele atingiria as unidades.
Depois disso, pais, alunos e professores discutiriam com a diretoria de ensino e apresentariam uma nova proposta. Questionado pela Defensoria Pública, Voorwald não garantiu que as propostas de estudantes, pais e professores seriam acatadas pelo governo. “Se surgir alguma proposta melhor que a nossa, por que não?”, limitou-se a dizer, admitindo que a política de reorganização não será suspensa. Foi a senha para que as organizações estudantis decidissem não recuar, mantendo o movimento.
Neste 4 de dezembro, o governo estava acuado pela repercussão negativa tanto da “reorganização” quanto da “guerra” declarada pelo Palácio dos Bandeirantes na tentativa de intimidar o movimento – o que a incluiu a intensificação da violência policial contra manifestações e o endurecimento de diretorias de ensino contra ocupações.
Antes mesmo de essas medidas “antipáticas” repercutirem na opinião pública, uma pesquisa feita pelo Datafolha indicava que a aprovação à gestão Alckmin estava em queda livre, com a maioria da população se manifestando contrária à “reorganização” e a favor dos movimentos dos estudantes.
Alckmin anunciou, então o adiamento do projeto, com o compromisso de debater mas escolas envolvidas o processo, ao longo de 2016. E o secretário Voorwald pediu demissão, numa manobra que procurava transferir a ele o ônus da impopularidade.
Ocupações

Na ocupação da escola Ana Rosa Araújo, na Vila Sônia, zona oeste de São Paulo, havia sessões de cinema ao ar livre, shows, teatros, saraus e leituras de poesias – uma vida cultural inédita por ali. “Ocupar era nossa única alternativa de conseguir continuar estudando aqui. Foi o que fizemos”, conta o estudante do primeiro ano do ensino médio José Vinicius Soares, lembrando da extinção do ensino médio na escola e a transferência compulsória e automática dos alunos para outras unidades.
“Precisamos sim de uma reorganização, mas que ela seja discutida com a comunidade escolar, e não imposta”, completa a colega Marissol Dias, interrompida por uma moradora do bairro, que de dentro do carro encostado em frente gritava: “De que vocês estão precisando na ocupação?”.
Os estudantes, que logo pediram produtos de limpeza, contam com a solidariedade de vizinhos, professores e ex-alunos, que fazem doações muitas vezes compartilhadas com outras ocupações. “Os pais, que apoiam desde o início, são bem-vindos. Podem comprovar a ordem aqui e incentivar a resistência, já que também não querem nossa mudança de escola”, diz José Vinicius.
Na escola Godofredo Furtado, em Pinheiros, também na zona oeste, os alunos começavam a organizar as doações, ainda sobre as mesas. “A diretora não entregou as chaves da cozinha, nem do banheiro que tem chuveiro, mas nossa escola está ocupada”, diz uma jovem, que preferiu não se identificar. “Temos medo da superlotação. Como vão colocar mais gente nas salas de aula que já estão tão cheias?”, questiona outro aluno. Enquanto ele limpava uma mesa, uma mulher chegava com uma sacola com produtos de higiene. “Obrigada, meninos! Vocês estão dando uma lição para todos nós.”
Na escola Oscavo de Paula e Silva, em Santo André, na região do ABC, os saraus também se incorporaram a uma rotina que os alunos classificaram de “manter a educação”. Pelo termo, em resposta a versões que atribuíam aos ativistas o interesse em depredar a escola, entenda-se uma troca lúdica de conhecimentos e leituras, a divisão de tarefas para manter a casa em ordem, a divisão de papéis em igualdade de condições entre meninos e meninas, o veto ao sexismo, ao machismo, ao preconceito. “Estamos aqui não só em reação à desorganização que o estado quer impor, mas em defesa da escola que queremos”, dizia um aluno.
Dignidade à frente

Mãe de uma estudante de 17 anos, da ocupação da escola Fernão Dias Paes­, em Pinheiros, a socióloga e professora universitária Rosemary Segurado não esconde o orgulho apesar do “coração na mão” durante o período mais tenso, com a escola sitiada por Força Tática e Tropa de Choque da Polícia Militar. “A gente sabe de outras experiências que a truculência da polícia é o diálogo que o governo conhece. Como cidadã e como professora, vejo jovens contra o fechamento de escolas. Uma aula de cidadania para nós ao defender o direito a educação pública. Isso de maneira organizada, pacífica. Só tenho a ficar feliz num momento em que a escola pública ocupa o debate.”
Em Mauá, também no ABC, na escola estadual Maria Helena Colônia, um pai visivelmente emocionado, visita a ocupação, afirmando não aceitar que tirem alunos de uma escola a 600 metros da porta de casa para jogá-los dois quilômetros e meio mais longe. “E também não posso aceitar o que uma diretora vem falar para mim, que ela tem 13 anos de serviço e que a preocupação no momento é com sua aposentadoria. A minha é com ele”, diz, olhando para o filho, do ensino médio. “Como vai ser o futuro dele e dos outros é a minha preocupação.”
Na Saúde, bairro da zona sul da capital, a dona de casa Márcia Clemente acompanhava os dois filhos até a porta da Escola Estadual Raul Fonseca quando foi informada da decisão da ocupação, em 17 de novembro. “Eles merecem o nosso apoio. Estou muito orgulhosa do meu filho. Ele disse que vão separá-lo dos amigos, transferir para outra escola onde não conhece ninguém. Chega de engolir tudo o que vem do governo. Esses jovens vão ser os eleitores de amanhã. A gente tem uma esperança, e a nossa esperança são eles. Vamos apoiar”, afirma.
Conhecido pela atuação em defesa dos direitos humanos, o padre Julio Lancellotti estendeu a solidariedade aos alunos. “Nós temos um modelo de ensino que perpetua as desigualdades, mas esses jovens estão lutando pelo direito de poder conviver. Estão indo contra este modelo. Essa foi a aula mais importante que eles tiveram no ano: a aula de desobedecer, de enfrentar o poder, de questionar e de descobrir a força que têm.”
A solidariedade entre os estudantes foi outra marca da jornada de ocupações. Presidente do grêmio estudantil e repórter do Saboia News, Pedro Vieira, aluno do segundo ano do ensino médio na Escola Estadual Padre Saboia de Medeiros, na Chácara Santo Antônio, zona sul da capital, esteve no Fernão Dias e na Cefam Diadema. “Fui levar o apoio e solidariedade do Saboia a todos esses colegas que vão resistir até o governador voltar atrás”, diz o estudante.
Os 800 alunos do Saboia, a maioria trabalhadores, moradores da favela Real Parque, Capão Redondo e Guarapiranga, foram alguns dos primeiros a ir às ruas, com apoio da direção. “Devemos continuar mobilizados, alertas a quaisquer manobras do governo”, diz a diretora Denise Elisei. Para Denise, o temor se justifica pelo fato de a escola estar no centro de uma luta de classes. Moradores antigos ou que herdaram suas casas naquele que foi um bairro operário defendem a escola e matriculam ali os seus filhos. “Para os que se mudaram depois da valorização da região, com prédios de alto padrão, melhor fechar e fazer aqui um shopping”, diz.
A desativação de cursos noturnos, uma das principais críticas dos alunos, fere o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que garante a estudantes trabalhadores ou aprendizes o direito de acesso ao ensino noturno. O estatuto prevê ainda que irmãos não sejam separados em abrigos nem na escola – o princípio do direito à convivência familiar –, um outro aspecto presente na separação das escolas por ciclos únicos de ensino. Assim, irmãos maiores não estudarão com os menores nem poderão mais acompanhá-los, criando um problema para os pais. O projeto de Alckmin desrespeita ainda a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), espécie de constituição do setor, que determina que todo processo de reorganização deve envolver a participação de alunos e pais no processo de construção de politicas educacionais.
Além do direito à educação, os alunos querem também o direito à participação. “Muitos diretores de escola não incentivam nem respeitam os grêmios estudantis. Além disso, o movimento estudantil nem sempre consegue autorização para entrar na escola”, diz o advogado Ariel de Castro Alves, consultor em direitos humanos, infância e juventude e segurança pública, que acompanha de perto a reação da comunidade ao pacote supostamente pedagógico de Alckmin.
No final de setembro, quando já tinham vazado listas das escolas que seriam extintas, os alunos perceberam que, em 2016, estariam sendo transferidos compulsoriamente para outras unidades, longe de suas casas, e que seriam separados de seus professores. Surgiram então manifestações a princípio externas, que logo se espalharam por ruas e praças, até tomar grandes avenidas, como a Paulista, na capital, chegando às portas da sede do governo estadual, no Morumbi.
Reação

Castro Alves considera que o movimento que culminou com a ocupação das escolas em várias regiões do estado, ameaçadas ou não de fechamento – sem contar escolas técnicas, em apoio – foi uma das mais importantes reações da sociedade à postura autoritária que sempre pautou a atuação do governo de Geraldo Alckmin. “A reação veio assim que tomaram conhecimento das mudanças. Embora tenham contado com apoio dos pais, professores, movimentos e sindicatos – nem teria como ser diferente, já que precisavam de transporte e outros recursos –, os alunos são os protagonistas.”
Para ele, a falta de diálogo levou à ocupação da escola Diadema, no município do ABC, e o movimento começou a crescer a partir da Fernão Dias. “Quando o estado cerca uma escola, impondo um estado de sítio, o movimento começou a se alastrar. Na tarde do primeiro dia de ocupação, a polícia queria invadir a escola e levar alguns adolescentes para a delegacia. Só não levaram porque recorremos a diversas instâncias, inclusive à ouvidoria da polícia”, diz.
Em 13 de novembro, o juiz Luís Felipe Ferrari Bedendi, da 5ª Vara da Fazenda Pública, não acatou pedido do governo para reintegração de posse da Fernão Dias, deixando claro que a reivindicação dos estudantes configurava política pública e não disputa pela posse do espaço. Além de suspender a reintegração, Bedendi estendeu a decisão para todas as escolas da capital paulista, atendendo a um recurso impetrado pelos advogados do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado (Apeoesp), da Defensoria Pública e do Ministério Público.
Na tarde do dia seguinte, houve violência policial contra alunos e professores que ocupavam a Escola Estadual José Lins do Rego, no Jardim Ângela, zona sul da capital. Sem mandado expedido pela Justiça, policiais ignoraram decisão judicial da véspera e ordenaram a desocupação. Um professor foi agredido, machucado e levado preso para o 47º Distrito Policial, no Capão Redondo. As agressões ocorreram no chamado “Dia E”, dedicado a reuniões em todas as escolas para esclarecer a comunidade sobre as mudanças, as transferências de alunos e até mesmo sobre o eventual fechamento da unidade.
A princípio, a data incluía a participação dos professores. Porém, com o apoio aos estudantes e às manifestações, o governo mudou de ideia. As diretorias de ensino soltaram circular no meio semana, desconsiderando o dia como letivo, razão pela qual alunos e professores não poderiam participar da reunião. A cobertura dos atentados em Paris chamou a atenção de muita gente, mas não escondeu a violência na zona sul. Naquele mesmo sábado, a Escola Estadual Mary Moraes, no Morumbi, havia sido ocupada. E na segunda-feira seguinte, foram 13 novas unidades espalhadas pela capital, Região Metropolitana e interior.
O governo que não consultou pais, estudantes, professores, diretores, conselhos tutelares e outras instâncias de defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes na elaboração de seu projeto, continuou intransigente. Na noite de 9 de novembro, quando perceberam que não poderiam renovar matrículas na Escola Estadual Diadema, os alunos deram início à ocupação. Foi a primeira. Na manhã seguinte, a Fernão Dias Paes, em Pinheiros. Para o estudante Júlio César Máximo, da unidade do ABC, nada havia sido combinado. Mas também não se podia falar em coincidência. Os estudantes, que seguiam sem ser ouvidos pelo governo, precisavam apenas de um “gatilho” para a ocupação.
“Os pais estão apoiando a nossa manifestação, que é contra o fim do ensino médio aqui, que vai prejudicar estudantes e muitos professores. A maioria deles não vai seguir para a outra escola. Ninguém sabe para onde vão. Temos um elo com nossos professores”, diz Júlio. Durante a entrevista, ele era interrompido por pais que vieram trazer colchões e alimentos. Outros vinham saber se os estudantes precisavam de algo, e havia ainda os que queriam se juntar ao movimento.
O impulso para mais ocupações veio da presença ostensiva da PM na Fernão Dias, que impediu a
entrada de advogados e observadores de direitos humanos, sob a alegação de garantir a integridade de todos. “Só quem não conhece escolas e estudantes pode dizer um absurdo desses para quem tem experiência no acompanhamento aos direitos humanos da população carcerária”, diz Ariel de Castro Alves. Para ele, os excessos demonstram o despreparo do estado autoritário para lidar com situações em que é confrontado pela sociedade. “Um governo que abre cadeia, defende a redução da maioridade penal, a ampliação do tempo de permanência de jovens infratores nos sistemas socioeducativos e que criminaliza a juventude.”
No dia 17, o juiz Bedendi suspendeu novamente as liminares que ameaçavam as escolas Salvador Allende Gossens e Fernão Dias Paes, agendando a negociação para dois dias depois. A medida, considerada mais uma vitória importante do movimento, abriu precedente para todas as demais ocupações. No dia 23, os desembargadores da 7ª Câmara de Direito Público desautorizaram quaisquer pedidos de reintegração por entenderem que a questão é muito mais ampla.
Para Castro Alves, o juiz deixou claro que se decidia pelo direito da criança e do adolescente e não pela posse da escola ao Estado. “Esperamos que a decisão seja parâmetro para os juízes de outras cidades. Verdadeira aula de direitos humanos, foi um tapa na cara do governador”, diz. “Além disso, decidiu que a Tropa de Choque da polícia não poderia ser usada em nenhum processo de reintegração de escolas”. Outra vitória foi o recuo do governo ao anunciar que a Escola Estadual Augusto Mélega, na zona rural de Piracicaba, no interior, continuaria em atividade, e a decisão do Tribunal de Justiça de proibir o fechamento da Braz Cubas, em Santos, no litoral sul, especializada no atendimento de alunos com deficiência.
Durante as ocupações, houve tentativas de intimidação, como telefonemas de dirigentes de ensino para os pais acusando alunos de quebrar escolas e colocar diretores em cárcere privado, quando nenhum dano ou ameaça foi registrado. Ou mesmo proibição de advogados na escola ocupada. O que se assistiu, até aqui, foi a luta pelo que é dos estudantes. “Além da família, eles têm a escola”, diz Castro Alves.
(do Portal Vermelho)

“Mulheres Inspiradoras” ganha 1º lugar no Prêmio Ibero-Americano de Educação e Direitos Humanos

IMG-20151204-WA0041O projeto “Mulheres Inspiradoras”, de autoria da professora Gina Vieira Ponte de Albuquerque, desenvolvido em uma escola pública de Ceilândia, conquistou, nessa quinta-feira (3), o primeiro lugar no Prêmio Ibero-Americano de Educação em Direitos Humanos “Óscar Arnulfo Romero”, promovido pela Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI). Ele concorreu com 17 projetos de 18 países participantes. A posição lhe rendeu US$ 20 mil para ser investido no projeto.
A cerimônia de premiação ocorreu durante encerramento do I Seminário de Educação em Direitos Humanos, o qual foi organizado pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), pela Fundação SM e pelo Ministério da Educação do Peru, com apoio da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e do Ministério da Justiça e Direitos Humanos do Peru.
Paulo Speller, secretário geral da OEI, inaugurou o seminário juntamente com o secretário geral da Unasul, o colombiano Ernesto Samper; do ministro de Justiça e Direitos Humanos do Peru, Aldo Vásquez; o vice-ministro de Gestão Pedagógica do Peru, Flavio Figallo; e do diretor da Fundação SM, Javier Palop.
No momento da premiação, Gina Albuquerque afirmou que “uma educação que não transforma e não emancipa não é educação e que quando um ser humano é violado toda a humanidade deve sofrer por isso”. Inspirado em conteúdo divulgado na primeira edição da revista Sinpro Mulher, em 2014, e aplicado no Centro de Ensino Fundamental 12 (CEF 12), em Ceilândia, o projeto Mulheres Inspiradoras é o tipo de iniciativa estimulada pelo Sinpro-DF e que recebeu sua primeira premiação no próprio sindicato, o Prêmio Mulher Educadora – Cidadã do Mundo, em 2015, durante o  V Encontro de Mulheres Educadoras, realizado pela Secretaria para Assuntos e Políticas para Mulheres Educadoras do Sindicato.
No Brasil, ela recebeu vários prêmios nacionais e, agora, a premiação prossegue no exterior. Inovador, o projeto Mulheres Inspiradoras propõe o combate ao ‘cyberbulling’, ao assédio sexual e à difusão de modelos de comportamento inadequados entre adolescentes mulheres, com a busca e divulgação da trajetória de vida de mulheres inspiradoras em suas comunidades. Confira matéria consolidada no próximo Quadro Negro (em elaboração).
Confira aqui, matéria sobre a premiação nacional:
CEF 12 Ceilândia ganha Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos
Revista Sinpro Mulher
Confira as imagens da premiação.


 
 

Acessar o conteúdo