Alunos de ocupação em SP reclamam de manipulações da mídia
Jornalista: Leticia
Os estudantes que ocupam a Escola Estadual Gavião Peixoto, em Perus, na zona noroeste da capital, gravaram hoje (1º) um vídeo em que mencionam o medo da violência policial e as manipulações da mídia, que com frequência os procura para entrevista.
“Há opressão da polícia e ameaças. E não é o que a mídia está passando, eles estão cortando tudo o que gravam. Chegam aqui, conversam com a gente, mas o que passam é muito diferente. Estamos tentando mostrar a verdade com panfletos, que é a nossa luta por uma educação melhor, uma escola digna”, diz a aluna Larissa.
Os alunos temem manipulações em reportagens como a mostrada pela Rede Globo, que induz o telespectador a acreditar que o quebra-quebra na Escola Estadual Comandante Sampaio, em Osasco, tenha sido promovido por estudantes da ocupação. Conforme a comunidade escolar, o prédio foi invadido e saqueado por estranhos.
Violência policial
Em entrevista ao portal Linha Direta, um aluno relatou que os jovens estão sendo oprimidos psicologicamente e fisicamente por policiais mesmo à paisana fazem blitze e que os levam para lugares afastados e escuros, onde os agridem verbalmente, chamando-os de “vagabundo, maconheiro, sem futuro, noia”. E que já aconteceu de colocarem entorpecentes nos bolsos dos alunos, para forjar um consumo na ocupação.
O aluno relatou ainda que no último final de semana foi levado, com mais dois outros alunos, para dependências do batalhão da polícia em Perus, que não possui câmeras, e que lá, foi levado para um quarto escuro onde sofreu todo tipo de violência.
Por causa do episódio, os estudantes estão redobrando a atenção, saindo da ocupação apenas na companhia de outros colegas. Pela manhã, eles preferiram não falar para a reportagem sobre o episódio envolvendo a polícia.
No bairro, o caso ainda é pouco conhecido. Porém, setores da comunidade querem a apuração dos fatos. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Cal, Cimento e Gesso (Sindicato Queixadas), Sidnei Fernandes Cruz, pediu ao conselho tutelar providências para garantir o direito dos alunos à manifestação e à integridade física.
“Entendemos que o conselho tem diversos direitos a zelar, mas violência física é grave e tem sido usada pela polícia para intimidar os alunos menores de idade”, diz.
O Conselho Tutelar afirma desconhecer o caso de violência.
(da Rede Brasil Atual)
Protagonismo jovem em ocupações é elogiado por educador
Jornalista: Leticia
Diretor por mais de 20 anos de uma escola pública de referência internacional em uma das maiores favelas de São Paulo, o professor Braz Rodrigues Nogueira dedicou a vida a propor alternativas ao atual modelo de ensino. Na Escola Municipal Campos Salles, em Heliópolis, ele ampliou a relação com a comunidade, acabou com as salas de aula, colocando os alunos para estudar juntos, transformou o professor em “facilitador” e criou um modelo de gestão em que estudantes, funcionários e professores, na mesma proporção, dão as ordens e resolvem conflitos.
Nogueira analisa o protagonismo dos alunos no movimento de ocupação de colégios, iniciado há cerca de 20 dias, contra a proposta de reorganização escolar do governador Geraldo Alckmin, que prevê o fechamento de unidades de ensino. De acordo com o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo, 193 escolas estaduais estão ocupadas por alunos. Na sexta-feira passada (27), a prefeitura de Sorocaba deu a primeira decisão para reintegração de posse de 17 escolas na cidade.
Antes, o Tribunal de Justiça de São Paulo, por entender que o movimento é legítimo, determinou que o governo insistisse no diálogo. “Ademais, (…) se constata a ocorrência de atividades culturais, o que é muito positivo para o debate e para o aperfeiçoamento intelectual da comunidade”, afirmou o desembargador Sérgio Coimbra Schmidt, em sua decisão.
Em entrevista concedida à Agência Brasil, Braz Rodrigues observa que a sociedade está mudando e acredita que movimentos contestatórios vão emergir com mais frequência. Nos últimos anos, “foi gestado um novo cidadão ativo e participante”, disse. Agência Brasil: Em sua opinião, por que os alunos resolveram organizar ocupações contra a “reorganização” do ensino? Braz Rodrigues Nogueira: Isso é um fato novo. Enquanto educador, fico bastante feliz, bastante alegre. Isso vem comprovar que crianças, pré-adolescentes, adolescentes e jovens são seres competentes e têm que ser protagonistas. A primeira coisa que o governo tinha que ter feito era ter consultado essas crianças, esses adolescentes, esses jovens e isso não foi feito. Não está claro o que é está por trás [da proposta do governo], se é economia de recursos ou decisão de gestão. Agência Brasil: O que poderia ter sido feito? Nogueira: Acho que tinha que ter sido conversado com os diretores das escolas e os diretores promoverem discussão na comunidade escolar, com a participação dos alunos, com a participação dos pais. A educação de qualidade tem que ser uma demanda social, de todos. A educação não pode ser só dentro da escola e a escola já entendeu isso, ela não dá conta do monopólio da educação. Agência Brasil: Que consequências a reorganização das escolas pode trazer? Nogueira: Eu vejo que o governo do estado teve uma avaliação equivocada dos problemas. Enquanto temos educadores lutando para misturar as idades dentro da escola, para os alunos trabalharem juntos, com idades diferentes, o que está se fazendo é uma reorganização para separar, para ficar escolas de 1ª a 4ª série, de 5ª a 8ª série e de ensino médio. Mas a mistura é importante porque a vida é assim. As crianças não devem estar isoladas dos adolescentes, dos jovens. Na Campo Salles, é interessante porque é uma escola de ensino fundamental, e os alunos [mais novos] votavam nos maiores [para o conselho escolar] porque os menores admiravam os pré-adolescentes, os adolescentes. Para prefeito [do conselho escolar], sempre ganhavam os alunos mais velhos. Curiosamente, este ano, ganhou uma menina da 4ª série, pequenininha. Agência Brasil: As escolas permanecem ocupadas. O que podemos esperar daqui para a frente? Nogueira: Esse movimento pode ser um marco. As manifestações de 2013 ficaram um pouco [de lado]. Agora, pode ser [diferente]. Tenho uma hipótese e estou muito entusiasmado. O Brasil ficou 21 anos sob ditadura. A gente vê que nos últimos anos foi gestado um novo cidadão: ativo e participante [na sociedade]. Eu vejo os olhos dos jovens brilhando quando eles visitam a Campos Salles. Daqui para a frente, vamos ver uma explosão de manifestações no país, apesar dos setores conservadores. Agência Brasil: Que medidas poderiam ser propostas em vez da reorganização e do fechamento de escolas? Nogueira: Acho que as secretarias de Educação e os ministérios públicos tinham que detectar experiências positivas, diferentes – onde o professor está se realizando como profissional, onde o aluno está participando e se sente parte integrante – e articular tudo isso. Deixar nascer outro sistema, em outras bases, até desaparecer o sistema que está aí e que não resolve mais. Agência Brasil: Qual o papel da comunidade nisso? Nogueira: Se as escolas fossem da comunidade, se fossem também para as atividades da comunidade, esse desfecho [da ocupação] seria outro, totalmente diferente. Talvez, os alunos não precisassem ter ocupado. [É preciso] chamar os pais para dentro da escola – o que não significa ir para sacralizar as práticas da escola. A escola já deveria estar inserida dentro da comunidade, com os professores e a direção participando das atividades, abertos. Se tivesse isso [participação ativa da comunidade na escola], nenhuma coisa que vem de cima passaria.
Braz Rodrigues Nogueira se afastou da direção da Escola Campos Salles há seis meses, depois de 20 anos no cargo de diretor. Em 2002, depois que 21 computadores da escola foram roubados, ele bateu de porta em porta nas residências de Heliópolis, para conscientizar os moradores sobre a importância dos equipamentos na educação das crianças. Três dias depois, uma surpresa: todos os equipamentos haviam sido devolvidos. No mesmo período, com o apoio da comunidade, decidiu que as escolas não fechariam à noite e ficariam abertas para uso de todos, para lazer ou para estudo. Na época, prevalecia o toque de recolher imposto pelos traficantes de drogas da região.
Hoje, o professor atua na diretoria regional da Secretaria Municipal de Educação do Município de São Paulo, por onde já passou durante a gestão da ex-prefeita Marta Suplicy.
(da Agência Brasil)
O Centro Educacional 06 de Ceilândia realiza, no dia 4 de dezembro, o II Festival de Música do Centrão. As apresentações acontecerão a partir das 13h30, no auditório do CED 06, e os organizadores oferecerão sorvetes para a plateia presente.
O Festival premiará os três primeiros colocados. O primeiro lugar receberá R$ 1 mil, o segundo R$ 700 e o terceiro R$ 500.
Artistas visitam escolas ocupadas e apoiam movimento de resistência
Jornalista: Leticia
Nesta sexta-feira (27) a ocupação da Escola Estadual Caetano de Campos recebeu a visita do músico Tico Santa Cruz, fundador da banda Detonautas Rock Clube.
Entre as agendas de shows da banda ele aproveitou sua passagem pelo estado para conhecer a movimentação que tem sido conhecida como “Primavera dos Estudantes”. Enquanto os alunos apresentavam para o músico os espaços da instituição de ensino e comentavam da rotina da ocupação, que tem diversas aulas abertas, oficinas e debates, ele fez uma transmissão ao vivo na sua página pessoal do Facebook que teve mais de 250 mil visualizações.
O ator e escritor Gregório Duvivier, a cartunista Laerte Coutinho e o ator Pascoal da Conceição, conhecido pelo personagem Dr. Abobrinha, no programa Castelo Rá-Tim-Bum, estiveram presentes na Escola Estadual Fernão Dias Paes na última quarta-feira (25), no bairro de Pinheiros, zona oeste da capital paulista, para conversar e dar apoio aos estudantes que ocupam o local desde o último dia 10. “Não se dobrem às ameaças e nem às negociações baratas”, reforçou Duvivier.
Laerte, que estudou na escola na década de 1960, destacou a importância da mobilização dos estudantes. “Este movimento é absolutamente empolgante e positivo, e está ensinando tanto para o Brasil nos dias de hoje…”, disse.
Duvivier alertou os estudantes para a natureza do embate, que ultrapassa a questão da repressão policial. “O meu medo é de vocês serem silenciados, como em geral são os movimentos no Brasil. E não só com porrada, mas com a mídia. São silenciados no campo da narrativa e isso é um perigo”, afirmou lembrando da cobertura duvidosa do jornal Folha de S. Paulo sobre possível suspensão do fechamento das escolas por parte do governador Alckmin.
“As negociações servem para silenciar e a mídia também está neste papel, como por exemplo, aquela notícia vergonhosa da Folha que dizia: ‘Alckmin suspende o fechamento’, depois, ‘Alckmin propõe talvez uma suspensão do fechamento’, e ainda, ‘Alckmin pensa na reorganização do fechamento e a suspensão da mobilização do fechamento’. É uma batalha de palavras”, comentou Duvivier.
Neste domingo (29), os alunos do colégio Caetano de Campos receberam a visita dos produtores do filme Osvaldão, que foi exibido no local. O longa-documentário narra a trajetória de Osvaldão, campeão de boxe e comandante da Guerrilha do Araguaia.
(do Portal Vermelho)
Professores fazem manifesto em defesa das ocupações das escolas em SP
Jornalista: Leticia
Manifesto de apoio ás ocupações e à luta por uma educação pública, gratuita e democrática
Nós, educadores, educadoras e cidadãos abaixo assinados, manifestamos nosso apoio às/aos estudantes que ocuparam centenas de escolas do estado de São Paulo, em protesto contra a “reorganização escolar” e o fechamento de 94 escolas, que está sendo imposto pelo governador Geraldo Alckmin.
Não é de hoje que o governo paulista age de forma autoritária. Vamos recordar a história para entender o presente, e tentar evitar uma tragédia. Trata-se de um estado governado pelo PSDB desde 1995. Em outubro desse ano, o governador Mário Covas e a então secretária de Educação, Rose Neubauer, anunciaram uma reorganização similar a que vemos em 2015. Um mês depois, tudo estava pronto. Houve muita resistência da população, mas a secretaria de Educação foi rígida, sem diálogo algum. Resultado: cerca de 150 escolas fechadas, 60 mil docentes demitidos, salas de aula com mais de 55 alunos, desorganização e transtornos nas famílias dos estudantes e uma série de outros prejuízos à educação pública estadual.
À época, anos de crise, o governo ressaltava que a reorganização permitiria economizar recursos. Hoje, os argumentos são: (1) escolas de ciclo único têm melhor desempenho nas avaliações do Saresp e Prova Brasil; (2) é preciso um novo modelo de escola que se adeque à redução da população em idade escolar (Segundo a Secretaria Estadual de Educação, entre os anos de 1998 e 2015, a rede estadual de ensino teria perdido cerca de 2 milhões de alunos.) O primeiro argumento não é acompanhado de demonstração. Quanto ao segundo, além da motivação demográfica, a carência de sustentação estatística permite nos perguntar: será que a redução do número de alunos não é justamente resultado da má qualidade da educação oferecida a eles?
O governo do estado insiste, há 20 anos, em ignorar a necessidade de reverter dois fatores causadores da péssima qualidade da educação oferecida às crianças e jovens: (1) o baixo investimento em educação pública e (2) a desvalorização dos profissionais da educação. Atualmente, o governo investe entre R$ 300 e R$ 400 por mês por aluno na educação básica (valor que inclui gastos com salários, contas, livros, merenda, manutenção, etc). Que escola conseguiria oferecer educação de qualidade a um custo tão baixo? E que professor é capaz de educar de forma desejável centenas de alunos, dando mais de 50 aulas por semana, em duas ou mais escolas, nas condições de trabalho e de salário a que está submetido?
Felizmente, nem todos baixaram a cabeça perante decisões tão descabidas como a de fechar escolas públicas, quando é evidente a necessidade de construir mais, de cuidar adequadamente das já existentes, de equipá-las e destrancar seus laboratórios e bibliotecas empoeirados, etc. Jovens capazes de seguir a razão vibrante em seus cérebros e a coragem pulsante em seus corpos, se uniram no enfrentamento de um governo acostumado a, diante do primeiro imprevisto relacionado a direitos sociais, recorrer a sua tropa da polícia militar. Nem todos saíram ilesos nessa história. Até que a liminar da Justiça (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/11/tj-nega-recurso-do-governo-de-sp-que-pedia-reintegracao-de-escolas.html) impedindo a reintegração de posse acontecesse, e mesmo após ela, jovens e profissionais da educação, em pleno exercício de cidadania e do diálogo, foram gravemente feridos, fisicamente, psicologicamente e moralmente. Pior, feridos pelo mesmo estado que afirma, tanto em suas leis quanto em suas cartilhas escolares, a importância da democracia e da cidadania, do diálogo, da ética e da autonomia, da participação social, do protagonismo juvenil, para a “construção e ampliação de uma sociedade mais justa, posicionada contra as desigualdades sociais e a qualquer forma de opressão, que garanta a todos as mesmas oportunidades de desenvolvimento de suas potencialidades” (Resolução SE 52, de 14-8-2013). Será que esses valores só importam na hora de responder ao Saresp? Que nota será que o governador Geraldo Alckmin e seu secretário de educação, Herman Voorwald, obteriam? Talvez tivessem um bom desempenho, se antes frequentassem as salas de aula de algumas das centenas de escolas hoje ocupadas, graças a ele e em protesto contra ele.
“Você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar a todas por todo o tempo”. Essa frase de Abraham Lincoln cabe aqui. Hoje, sabemos que a reorganização escolar por ciclos não passa de uma reforma administrativa que visa reduzir gastos com educação e abrir espaço para parcerias com o setor privado, sobrepondo-se interesses empresariais (privado) a direitos da população, (público). Lembremos que em Goiás, luta semelhante está acontecendo. Marconi Perillo, governador de Goiás, também do PSDB, em seu quarto mandato, apresenta mais uma de suas propostas para dilapidação da educação pública e precarização dos direitos trabalhistas, através da aprovação de leis que autorizam a privatização da educação. Goiás seria a cobaia da gestão da educação por Organização Sociais (Oss) ou, mais diretamente, empresas. Contrários a estas medidas, professores da rede estadual, junto com estudantes secundaristas e universitários, pais e toda a comunidade escolar se organizam para enfrentar a perversidade do governador e de sua secretária, Raquel Teixeira. E também o governador já enviou suas tropas militares para o “diálogo”. Esperaremos que a Educação de todo um país esteja completamente infestada de “pragas”? Ou nos uniremos no enfrentamento e defenderemos a educação pública, de qualidade, igualitária e inclusiva?
“Toda esta política já foi utilizada em outros países pelos reformadores empresariais da educação e não resolveu a questão da educação por lá. Os Estados Unidos estão na média do Pisa há dez anos e não saem daí. Na “Prova Brasil” deles, pela primeira vez em muitos anos, as médias caíram em quase todas as avaliações e anos. A Suécia privatizou e caiu no Pisa. A adoção de políticas similares na Austrália resultou em queda no Pisa. O Chile está dando marcha à ré nestas políticas. Essas políticas destroem a escola pública e não produzem avanço. Portanto, não resolverá aqui também. Perderemos uma ou mais décadas para depois voltarmos ao ponto inicial, ou seja, ao que temos hoje piorado, pois teremos deixado de apostar em outras vias que poderiam nos levar mais longe.” diz o professor Luiz Carlos Freitas, diretor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Por fim, queremos alertar à sociedade paulista sobre a tramitação de três propostas do Plano Estadual de Educação (PEE) na Assembleia Legislativa, documento que norteará a educação paulista nos próximos dez anos. Entendemos que o poder público tem o dever de informar a sociedade sobre essa lei, e possibilitá-la de participar diretamente de sua construção, não apenas por intermédio de representantes políticos, uma vez que afetará diretamente a ela. Ora, é evidente que a Escola é o canal mais apropriado para promover o debate com a população sobre esse assunto, e que se a comunidade escolar não está esclarecida sobre isso, deve-se a uma omissão proposital por parte do governador e seu secretário. Deploravelmente, ao contrário desse esclarecimento, o que vemos é o gasto de R$ 9 milhões com propaganda de uma “reorganização” que só nos sinaliza as intenções de um projeto sistêmico de venda da Educação Pública Paulista aos setores privados, com aparência de inovação. Será somente a educação paulista?
“Tenho dúvidas se o governo vai recuar. Está em jogo 2018. Alckmin não pode chegar lá sem nada. Além disso, a Secretaria da Educação está cercada pelos empresários que querem a adoção dessas políticas. Note que na negociação com os estudantes, Herman Voorwald, o secretário de Educação, disse que levaria a demanda dos alunos “para o governador”. Ou seja, a questão é de Estado para Alckmin e só ele poderia ordenar um recuo. Já não é o secretário que está conduzindo a implantação. Tudo depende do crescimento do movimento estudantil e do desgaste imposto ao governo.” (Luiz Carlos Freitas).
O caminho está aberto, chegou o momento de fazermos história. Não podemos permitir que uma reunião de domingo (29/11), com 40 dirigentes de ensino, onde o chefe de gabinete do secretário Herman anunciou que o decreto da ‘reorganização’ sai na terça (01/12), intimide estudantes e desmoralize nossas ocupações. Nada apagará o discernimento, a coragem e a ousadia que as/os estudantes continuam a imprimir na história da educação.
Segunda-feira, 30 de novembro de 2015.
Escrito por professores de Escola Estadual da zona oeste de São Paulo, unidos na luta por uma Educação Pública, Gratuita e Democrática.
(Do Portal Forum)
Seminário "A Cidade e seu Patrimônio" se inicia nesta terça-feira
Jornalista: sindicato
Apropriação social do espaço, educação patrimonial e gestão do patrimônio urbano são alguns dos temas escolhidos para debate do seminário A Cidade e seu Patrimônio, promovido pela Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Distrito Federal (Iphan/DF), entre os dias 1 e 3 de dezembro, no auditório da Escola Parque 307/308 Sul. O evento integra a agenda de atividades anuais do órgão e em 2015 tem o objetivo de promover a reflexão sobre a importância do conhecimento e valorização do patrimônio cultural do DF, que vai além do Plano Piloto, evidenciando a importância da gestão integrada, inclusiva e participativa.
Parte das atividades das Jornadas de Brasília Patrimônio Cultural da Humanidade, o seminário foi incluído no calendário oficial de eventos do Distrito Federal e busca disseminar, valorizar e promover o patrimônio cultural do DF.
O seminário terá cinco temas que nortearão as discussões: Gestão do Patrimônio Urbano; A cidade, sua alma, sua cultura!; Apropriação Social do espaço; O Patrimônio que vai além do Plano Piloto; e Educação patrimonial – propostas e ações.
Além dos debates, o evento homenageará ações culturais voltadas à preservação e valorização do patrimônio cultural de Brasília. Este ano serão homenageados: Luiz Amorim – T-Bone, pelos trabalhos desenvolvidos em defesa da Cultura no Distrito Federal; e Gloria Bomfim Yung, por seu trabalho Preservartepatrimônio – Ações pedagógicas em educação patrimonial (experiência desenvolvida com alunos da Escola Parque 307/308 Sul). Também se apresentam o músico Sérgio Wunderlich, o Teatro de Bonecos de Jorge Crespo, os repentistas João Santana e Valdenor de Almeida e a Roda de Capoeira do mestre Tiago Baldez.
O evento é voltado a gestores, servidores públicos, estudantes, pesquisadores, educadores e público em geral. Serviço
Seminário: A Cidade e seu Patrimônio
Data: 1 a 3 de dezembro de 2015, das 8h30 às 18h
Local: Escola Parque 307/308 Sul
Endereço: EQS 307/308
Email: eventos.df@iphan.gov.br
Telefones: (61) 2024 6180 / 2024 6190
Frente realiza ato em apoio às ocupações nas escolas paulistas
Jornalista: Leticia
Diversos movimentos sociais, reunidos na Frente Povo Sem Medo, realizaram nesta quinta-feira (26) caminhada até a sede da Secretaria de Estado de Educação, no centro de São Paulo, e protocolaram uma carta com as reivindicações do movimento estudantil. O alvo dos protestos é o projeto de reorganização escolar do governo Alckmin (PSDB).
De acordo com levantamento divulgado também nesta quinta pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), 191 escolas estaduais estão ocupadas por estudantes em repúdio ao projeto de reorganização que prevê o fechamento de 92 escolas no Estado.
Josué Rocha, da coordenação estadual do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), afirmou que a luta dos estudantes de São Paulo é histórica.
“A Frente Povo Sem Medo está incorporada à luta dos estudantes. É necessário que toda a sociedade esteja mobilizada e apoiando o movimento”, afirmou.
Na tarde de quarta-feira (25) em ato no dia Internacional pela eliminação da violência contra a mulher, movimentos de mulheres também se posicionaram em apoio às ocupações.
Para Tássia Almeida, do movimento RUA Juventude Anticapitalista, as ocupações trouxeram o debate sobre educação em São Paulo para o centro das atenções.
“Depois de toda a movimentação há uma percepção geral da centralidade da escola como espaço da comunidade, espaço de socialização”, concluiu Tássia. Abalo na hegemonia tucana
“Enquanto a gente tá conversando aqui uma escola pode estar sendo ocupada. É um movimento que se potencializou”, lembrou Camila Lanes, presidenta da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), que acompanhou o ato e também protocolou a carta com as demais entidades.
Segundo ela, o movimento dos
estudantes é uma resposta aos 23 anos em que a população de São Paulo vem amargando a falta de política pública.
“(o governador) Alckmin mexeu com água, mexeu com o metrô, é acusado de envolvimento em corrupção e nada disso colocou a governabilidade dele em xeque. Agora isso está acontecendo depois do movimento dos estudantes”, comparou Camila.
Angela Meyer, presidenta da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes), disse que o sentimento de “manter as escolas vivas” fez o movimento dos estudantes ganhar proporção inédita. “Começou nas escolas e se espalhou entre a população, ganhou apoio popular”, avaliou.
Caetano de Campos
Na escola estadual Caetano de Campos na Consolação aconteceu nesta quinta uma reunião entre pais, professores e representantes da secretaria de educação. Os pais que foram a escola puderam passear pelas dependências do equipamento e ver como os estudantes estão zelando pelo prédio e realizando saraus e atividades de formação.
Também nesta quinta a Caetano de Campos receberá a pré-estreia do filme Osvaldão, líder comunista temido pela ditadura militar e um dos combatentes da Guerrilha do Araguaia, movimento que ocorreu no início dos anos 70 no sul do Pará.
(Do Portal Vermelho)
Casa do machismo virtual caiu com a campanha #meuamigosecreto
Jornalista: Leticia
A campanha eletrônica #primeiroassédio, proposta pelo blogue feminista Think Olga, deflagrou o processo de libertação da voz de milhares de homens e mulheres na internet, relatando a primeira experiência ou lembrança de assédio sexual.
O evento ocorreu em resposta ao assédio sofrido por Valentina, criança de 12 anos, participante do reality televisivo Master Chef Júnior. Na ocasião, a menina foi tratada como presa de pedófilos que, por meio de trocadilhos, memes e piadas, faziam previsão do tempo de maturação de seu corpo para estuprá-la. Os depoimentos foram doloridos, mas libertadores para as pessoas que depuseram e, principalmente, para as leitoras, vítimas de abusos.
Campanha subsequente, #meuamigosecreto, cuja maternidade ainda não foi reivindicada, propôs que as mulheres expusessem situações desagradáveis vivenciadas com um homem ou presenciadas de forma direta ou indireta, trocando o nome do sujeito pela hashtag. Houve tanta participação de artistas, parlamentares, intelectuais, ativistas políticas e, acima de tudo, gente comum sem maiores adjetivações, que a campanha viralizou nas redes sociais.
Um meme bastante representativo criou um amigo secreto para a presidenta Dilma: #meuamigosecreto ainda não aceitou que perdeu a eleição. E quer o poder a todo custo, completaria.
Correntes contrárias à campanha se insurgiram. Ora vindas de mulheres, ora de homens. As primeiras acusaram as protagonistas de #meuamigosecreto de “não terem o que fazer.” Definiram-se também como mulheres diretas e guerreiras demais para participar de brincadeira tão insignificante. Mas os homens, principalmente, culpabilizaram as mulheres e as aconselharam a escolher melhor seus amigos.
Eles não compreenderam ou não quiseram compreender que as duas campanhas em tela superam as inócuas #somostodosmaju/taís, entre outras. Aquelas abriram espaço para a manifestação de um eu coletivo, potencialmente mobilizador de mudanças, mesmo no plano simbólico. Possibilitaram a constituição e exposição de arquétipos opressores. Escancararam as atitudes de homens em situação de poder, professores, sindicalistas, diretores de escolas, de programas midiáticos, de blocos carnavalescos, de políticos, bandas, entre outros que oprimem as mulheres desse lugar.
A meu ver, a hashtag #meuamigosecreto constituiu-se como movimento internáutico divertido e criativo. Primou pela ironia de denúncia das relações de poder assimétricas implícitas em certas práticas e atitudes. Uma proposta abrangente, pois abriu espaço para vozes opositoras ao racismo, à misoginia, à LGBTfobia e à heteronormatividade também.
Gerou ainda uma hashtag complementar, #minhaamigasecreta. Pudemos ler textos interessantes como: “#minhaamigasecreta e #meuamigosecreto têm a pele branca e nunca abrem mão do protagonismo. Acreditam que, na música ‘Olhos coloridos’, ‘todo brasileiro’ realmente antecede o trecho ‘tem sangue crioulo’. Na Vila Madalena (bairro cult de São Paulo), usam turbante e aumentam o volume do cabelo pra dizer que são negros, ainda que tenham todas as vantagens sociais de ter a pele clara. Descobriram a mitologia africana e acham que Orixá é horóscopo. Acham justo, sem nunca ter sofrido racismo, se inscrever como cotista em concursos públicos. Podem também ser vistos na versão cosplay indígena, isso depende das vibrações do dia”.
Houve também os que acusaram a campanha de transformar a web em mar de indiretas. Ora, ora, o clima catártico é norma nas redes sociais, ou não? Deixou de ser e não percebi? Por que a catarse contra o racismo, a misoginia, a LGBTfobia é tão incômoda? Por óbvio, as mulheres quando exercem o poder da palavra, de maneira autônoma, sem tutela, desconstroem o poder dos machos, machistas e heteronormativos de plantão.
Os homens poderiam se sentir convidados ao autoexame de próstata a partir das tags, ao invés de se defenderem como meninos mimados que deixaram o pirulito cair no chão. Convido-os a ouvir este sujeito lúcido: “Galera (outros homens), cês tão ligado que esses #meuamigosecreto que as mina tão falando e vocês tão dizendo ‘arranjem amigos melhores’, são a gente né? É a gente. Nós tudo. Os homens. Nas suas mais variadas formas. A gente é machista, galera. É racista também. E homofóbico. É bom virem lembrar a gente porque dá pra esquecer quando você se coloca como aliado e tal. Mas se você ler cada relato com calma não duvido que vai encontrar um ou outro (ou vários) que remetam a alguma coisa que você já fez mas acha que não faz. A treta não é só pro outro cara não. É pra você e eu também”.
Para finalizar, a campanha #meuamigosecreto anunciou em neon outra, vigorosa há 24 anos, o que elimina a acusação de “modinha” da internet. Falamos dos 16 Dias de Ativismo Pelo Fim da Violência Contra a Mulher, iniciada em 1991, em 130 países. O dia 24 de novembro, marco de lançamento da hashtag #meuamigosecreto, antecedeu o Dia Internacional da Não-Violência Contra as Mulheres (25 de novembro), data de abertura do período de 16 dias a ser finalizado no Dia Internacional de Direitos Humanos (10 de dezembro).
E depois do destaque em neon, convocamos a placidez de um poeta para fechar esta crônica: “O mais lindo desse #meuamigosecreto é que, no fundo, ele propõe um diálogo, dá uma oportunidade para quem oprime se olhar no espelho e refletir. O opressor que vive em mim lê e é todo ouvidos. Nada a postar, só a refletir. Obrigado, amigas.”
(*) Cidinha da Silva é escritora. Publicou, entre outros, Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê, 2013) e Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014). Despacha diariamente em sua fanpage
Presidenta da CUT-MG é convocada para esclarecer críticas sobre políticos
Jornalista: Leticia
A presidenta da Central Única dos Trabalhadores de Minas Gerais (CUT/MG) e coordenadora do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE/MG), Beatriz Cerqueira, foi convocada para prestar esclarecimentos sobre “referentes às acusações feitas” à comissão extraordinária das Barragens, criada pela Assembleia Legislativa de Minas para acompanhar o caso do rompimento da barragem de rejeitos Fundão, da mineradora Samarco, em Mariana.
A proposta inicial era a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar os crimes da mineração, mas, por falta de assinaturas e devido ao período de recesso parlamentar, foi criada a comissão, que tem realizado audiências públicas e se propõe a recolher elementos sobre o assunto.
Em artigo assinado no Portal Viomundo, Beatriz criticou a demagogia dos políticos, em audiência pública realizada em Mariana, no dia 17 de novembro. “Após 12 dias do rompimento das duas barragens de rejeitos da Samarco/Vale/BHP, em Mariana, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizou a primeira audiência pública, em Belo Horizonte, para debater o assunto. Em tese, seria o momento para que deputados estaduais ouvissem os atingidos pela tragédia e órgãos do governo e de fiscalização colhessem informações para os trabalhos da Comissão Especial recém-criada. Mas a audiência se transformou na mais demagógica atividade protagonizada por nossos políticos. Era uma audiência conjunta com a Câmara dos Deputados. Mas estes, após tirar fotos, dar entrevistas à imprensa e falar primeiro, foram embora”, disse, na abertura do texto.
Beatriz criticou o “convite” da Assembleia. “Aqui em Minas Gerais continua a máxima do PSDB e amigos de que ‘quem fala a verdade merece castigo’! Ou uma tentativa de intimidação! Pelo menos é o que pensam os deputados estaduais da Comissão especial que “investiga” o crime da Samarco/Vale/BHP que aprovaram hoje um “convite” para que eu preste esclarecimentos sobre o artigo que escrevi! A idéia original era que eu fosse “convocada”. Estou aguardando ansiosamente o dia! Tenho muito mais a dizer! Ou a escrever!”, disse.
O Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, também citado no requerimento da ALMG, ainda não foi notificado. Seu presidente, Kerison Lopes, diz que não entendeu o motivo da convocação, mas afirma que comparece à reunião “com prazer”. “Será uma oportunidade de denunciar o absurdo que continua sendo cometido no caso da Samarco/Vale. O silêncio, o impedimento das apurações, o abandono às famílias que foram prejudicadas direta e indiretamente pelo crime ambiental”, afirma Kerison.
Ele considera um absurdo a convocação de Beatriz, que estava exercendo seu direito de liberdade de expressão. Sind-UTE processado por criticar governo tucano
Em outubro do ano passado, sete diretores do Sind-UTE/MG, entre eles Beatriz Cerqueira, foram processados por veicularem uma campanha denunciado a situação da educação no estado. A coligação “Todos por Minas”, encabeçada pelo PSDB, entrou com 17 ações contra o sindicato, alegando “propaganda eleitoral negativa”.
Leia sobre isso aqui: http://www.brasildefato.com.br/node/29957
Leia os artigos de Beatriz sobre o caso de Mariana: http://www.brasil247.com/pt/247/minas247/206160/’Vale-comanda-a-apura%C3%A7%C3%A3o-do-crime-que-cometeu-controlando-pol%C3%ADticos-v%C3%ADtimas-e-jornalistas’.htm http://observatoriodacomunicacao.org.br/clippings/tragedia-ambiental-e-social-em-minas-gerais-promiscuidade-entre-poderes-politico-e-economico-no-brasil/ http://www.viomundo.com.br/denuncias/beatriz-cerqueira-samarco-comanda-a-apuracao-do-crime-que-cometeu-controlando-politicos-vitimas-e-jornalistas.html http://www.brasildefato.com.br/node/33444
(Do Brasil de Fato)
Contra Alckmin, estudantes realizam sua própria reorganização escolar em SP
Jornalista: Leticia
“O Raul Fonseca é escola de luta”. Esse é o recado que pode ser lido a metros de distância na grande faixa que preenche boa parte do muro da tradicional escola estadual, no Jardim da Saúde, na zona sul de São Paulo. Há mais de uma semana o prédio está ocupado por cerca de 100 estudantes que são contra a proposta do governador Geraldo Alckmin (PSDB) de “reorganização” escolar, que pretende fechar 94 instituições de ensino no estado, afetando mais de 311 mil alunos.
Foto: Elaine Campos
No entanto, o que era pra ser uma protesto estudantil tem se transformado também em um processo de aprendizado, que pode levar à lembrança do ensinamento de Paulo Freire, de que é preciso saber “ler o mundo”. “Trata-se de aprender a ler a realidade (conhecê-la) para em seguida poder reescrever essa realidade (transformá-la)”, anunciava Freire.
Segundo o último balanço realizado pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo (Apeoesp), até o fim desta terça-feira (24), 148 escolas estavam mobilizadas pelos estudantes que estão, agora, por eles mesmos aproximando a instituição à sua realidade e protagonizado a sua própria reorganização escolar.
No Raul Fonseca, são os próprios alunos que monitoram quem entra e sai. Para quem para na frente do portão na Avenida Inhaiba, número 92, é preciso se identificar à “comissão de segurança” estudantil e, uma vez aprovada a permanência no local, nomes e horário são devidamente anotados em uma prancheta. Todo cuidado tem um motivo: deixar a escola exatamente como estava no primeiro dia da ocupação.
“Está todo mundo organizado desde o início. Não tem briga, não tem bagunça. A gente lava o banheiro, a gente limpa a escola. O diretor ‘deu a louca’ de tirar foto de todos os cantos da escola para que a gente não começasse a sujar, sendo que a gente não vai fazer isso. Se a gente quer ficar na escola a gente não vai vandalizar! No começo, ele tirou foto e não queria sair e alegou que a gente estava mantendo ele em cárcere privado. Isso não tem como! Então, se for assim quando o aluno quer sair da escola e não deixa, ele mantém em cárcere privado também”, explicou a estudante do primeiro ano do ensino médio, R.R., de 15 anos.
Antes não tinha, agora tem
Para Felipe Alencar, estudante de pedagogia que acompanha os alunos desde o primeiro dia da ocupação, realizada na terça-feira passada (17), a mobilização tem ressignificado o lugar. “Estas ocupações estão dando muita vida para as escolas e estão ajudando a mobilizar uma nova camada de jovens. A gente no Raul Fonseca está no terceiro dia de ocupação e está indo para a segunda apresentação de teatro, por exemplo. Coisa que a gente não tem nunca durante o ano”, pontuou o estudante, após as atividades promovidas na escola durante o Dia da Consciência Negra.
Foto: Elaine Campos
Além das ações no feriado, o quadro de atividades exposto na entrada do prédio escolar evidencia a nova rotina dos ocupantes. Organizada pela “comissão de atividades”, a primeira semana contou com saraus, apresentações teatrais, oficinas de stencil, além de debates sobre racismo, aborto e capitalismo.
Na mesma semana, um campeonato de futebol foi promovido. Mas sua realização não não foi apenas para o divertimento dos alunos: ela teve um propósito político. A estudante R.R. conta que o machismo dentro da instituição é recorrente e que, por isso, alguns alunos impediam que garotas participassem das partidas. A saída da direção foi impedir as meninas de jogarem.
“Campeonato quando tem aqui na escola é vôlei para as meninas e futebol para os meninos. Porém, tem muita menina que não sabe jogar vôlei e sabe jogar mais futsal. A gente, muitas vezes, briga por conta disso e ele [diretor] fala que a gente vai jogar somente vôlei. O machismo dele também incomoda muita gente”, relata.
No sábado, quinto dia de ocupação, um campeonato para alunas e alunos foi realizado na escola.
Inspiração
Longe de ser um caso isolado, as experiências no Raul Fonseca, e nas mais de escolas ocupadas, têm inspirado muitas pessoas. “Às vezes a gente se sente meio sozinho na multidão enquanto militante. A gente vê a direita avançando tanto e muitos [sujeitos] periféricos com visões retrógradas que, às vezes, a gente se sente desanimado. Aí, de repente, vem esta juventude fazer este levante, que enche nossos corações esperança”, comenta Ana Fonseca, integrante do Coletivo Perifatividade, grupo cultural que tem acompanhado e realizado atividades com os alunos.
Segundo Dimitri Silveira, professor de geografia, muitos professores também têm visitado a escola e prestando sua solidariedade. “Os professores vêm também de outras escolas para ver como está acontecendo tudo aqui”, disse. Ele informou que, embora nem todos os professores apoiem a ocupação, todos os dias, ao menos um professor acompanha o dia a dia dos alunos desde a terça-feira passada.
Sarau realizado na escola no Dia da Consciência Negra. Foto: Elaine Campos
A alimentacão dos alunos tem contado com a colaboração da Apeoesp, de pais e doações solidárias, como a realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que doou leite, suco e achocolatados.
Alunos, professores e pais pela educação
Além dos professores e movimentos populares, muitos pais tem apoiado a mobilização dos secundaristas. Com dois filhos matriculados no Raul Fonseca – um no terceiro ano e outro no primeiro – Márcia Regina Clemente, condutora de transporte escolar, tem acompanhado diariamente a rotina da escola e lamentou a falta de diálogo do governo com os pais.
“Eu acho que não dá pra ficar engolindo todas as decisões do governo, porque a gente coloca os governantes lá para que nos representem. Uma vez que eles tomam uma decisão sem consultar a comunidade escolar, que são os pais e os professores, eu já era contra”, disse.
Márcia conta que a direção da escola nunca a procurou para informar sobre o fechamento da instituição e que ficou sabendo que o filho mais novo estava matriculado em outra escola três dias antes da ocupação dos estudantes. “Eu fiz a rematrícula aqui na escola [Raul Fonseca] na data que eles pediram para eu comparecer e assinei a ficha aqui na escola – a ficha que eu assino há quatro anos porque ele já estuda aqui desde a 5ª série – e quando eu fui puxar no registro dele, no site, ele já estava matriculado em outra escola”, contou.
A mudança arbitrária mudaria a rotina da família de uma hora para outra. Mesmo que a distância entre a Raul Fonseca e a escola na qual o filho mais novo seria transferido não fosse tão grande, Márcia observa que para chegar à nova escola o filho teria que passar por duas travessias perigosas na região, a avenida Vergueiro e Tancredo Neves. Em ambas não há ônibus para chegar à escola.
Resistência
“De vez em quando passam uns carros aqui na escola bem devagar com vidro todo preto, não dá pra ver quem é. Estão rondando aqui a ocupação o que levanta preocupação aqui para os alunos”, observa Silveira, professor de geografia. Ele alerta para as estratégias de boicote contra a ocupação que acontecem, geralmente, à noite, quando cerca de 30 estudantes que dormem na escola estão presentes.
Na sexta-feira (20), os estudantes foram surpreendidos com garrafas de coquetel molotov que foram jogadas acessas para dentro do gramado da escola por volta das 23 horas. Os alunos que estavam de vigia no momento não conseguiram identificar qual origem dos objetos, mas assim que viram um “clarão” se organizaram para apagar o fogo que atingiu o estacionamento.
“A gente correu e pegou água para apagar o fogo antes que alastrasse. Depois deste evento, a gente fez uma ronda na escola e reforçou colocando mais pessoas para a segurança da escola e dos alunos aqui dentro”, afirmou Guilherme Cordovil, de 18 anos, aluno desde a 5ª séria na unidade escolar.
Dimitri Silveira avalia que, apesar desses casos, a comissão de segurança formada pelos alunos vai resistir. “A gente está preparado!”, disse. Segundo o professor, a última proposta do governador, anunciada no dia 19, de suspender por dez dias o processo de reorganização, foi rechaçada pelos estudantes e foi uma forma de alimentar a resistência.
“O que o governo quer com isso? Tirar os alunos da ocupação e depois implementar o programa que eles querem. O que estamos discutindo agora? Como fortalecer esta luta das ocupações. Então esta luta vai continuar!”, disse.