Em escolas ocupadas em SP, rotina de alunos inclui limpeza e aulas abertas

O fechamento de 93 escolas e a estimativa de que 311 mil alunos tenham de mudar de unidade escolar no ano que vem tem feito jovens e pais se mobilizarem na cidade de São Paulo. Os protestos contra proposta da Secretaria de Educação do estado de reorganização da rede de ensino tiveram início no dia 10.
Os alunos têm ocupado escolas estaduais na capital e no interior. De acordo com a secretaria, 151 estabelecimentos de ensino estão ocupadas hoje (25). O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo estima em 163.
Nas escolas ocupadas, os jovens criaram uma rotina de atividades. Eles se dividem em grupos para fazer a limpeza, garantir a alimentação, manter a segurança e atender às demandas da imprensa. Além disso, são programadas palestras, aulas abertas, debates e exibições de filmes.
Com o fechamento das escolas e a transferência de estudantes para outros estabelecimentos, o objetivo do governo é segmentar as unidades em três grupos (anos iniciais e finais do ensino fundamental e ensino médio).
A falta de diálogo sobre as mudanças e o apego à escola em que estuda desde o 6º ano levaram Fabrício Ramos, 17 anos, do 3º ano do ensino médio, a aderir ao movimento de ocupação da Escola Estadual Caetano de Campos, na Praça Roosevelt, centro da capital paulista. A escola funciona em um edifício de janelas amplas e pé direito alto, construído no século 19. A unidade foi tomada pelos jovens no dia 16.
Na ocasião, havia cerca de 30 escolas ocupadas. “É sempre assim. Engole! Aceita, aceita e aceita! Não somos obrigados a aceitar tudo”, reclamou o jovem sobre a forma como são tomadas as decisões no ambiente escolar.
Há também reclamações relativas ao excesso de alunos por sala e falta de professores. “Na 7ª série [8º ano], não tive professor de história e geografia. Um ano inteiro sem geografia e história. Em outros anos, fiquei sem matemática. A base para o ensino médio eu não tive”, afirmou Fabrício.
“Minha sala é muito cheia. Acho que tem 47 pessoas na lista. Pouquíssimas não aparecem. São sempre 35 ou 40 pessoas em uma sala. Muitas vezes os professores não conseguem nos alcançar da forma que gostariam”, acrescentou Aryel David, 17 anos, estudante do 3º ano.
Segundo Aryel, a sensação da fazer parte do movimento de ocupação é de empolgação e aproximação com a escola. “É surreal. A escola faz mais parte do meu dia a dia do que fazia antes. Estamos limpando a escola, fazendo comida. Parece que fazemos mais parte da escola do que antes.” Algumas salas foram transformadas em dormitórios. A secretaria e a diretoria foram lacradas com barricadas para evitar danos ou extravio de documentos.
O clima ordeiro surpreendeu a mãe de Fabrício, que, segundo ele, o repreendeu no início do movimento. “Minha mãe veio aqui e viu como está a situação. Mostrei para ela como o pessoal está organizado. Ela pediu desculpas.”
Aryel garante que a mobilização dos estudantes tem deixado em segundo plano organizações tradicionais, como o movimento estudantil institucional. “Eles estão somando com a gente, não estão liderando as coisas”, afirmou ao explicar que existe apoio externo, apesar do comando das ações ser dos alunos.
Na Escola Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros, zona oeste paulistana, primeira a ser ocupada, a cartunista Laerte Coutinho participou ontem (24) de uma conversa com os estudantes.
“É para saudar essa gente e dizer que estamos solidários. Conhecer o pessoal e entender como isso funciona”, acrescentou a chargista, que estudou na escola na década de 1960. “Há uma vizinhança. Somos vizinhos no tempo, porque também vivemos nesse espaço e tivemos problemas relativamente parecidos.”
Laerte ofereceu para os jovens um livro francês – Um Século de Desenhos de Contestação. “Se quiserem passar o livro para a biblioteca da [escola] Fernão, beleza. Se quiserem roubar, beleza. Não é mais meu”.
Cauê Borges, 16 anos, do 2º ano, disse que, desde o começo, a mobilização teve caráter horizontal. “Entramos e fizemos uma assembleia. Decidimos ocupar. O primeiro dia foi uma demonstração de poder descentralizado. Conseguimos nos agrupar fora de partidos e de organizações burocráticas do Estado”, informou Cauê.
A reação das autoridades à ocupação surpreendeu os estudantes. “Quando fomos para fora, tinha um monte de policiais”, lembrou Jéssica Lopes, 17 anos, sobre o cerco da Polícia Militar à escola.
O governo estadual tentou, sem sucesso, obter na Justiça a reintegração de posse das unidades ocupadas. O apoio recebido de moradores da região e de movimentos sociais incentivou os estudantes a manter a ocupação. “A solidariedade foi espetacular”, destacou Jéssica.
Segundo ela, as ocupações foram uma reação à intransigência do governo estadual que não abriu espaço para negociar com os estudantes mesmo após diversas manifestações contra a reorganização. “Não diria que foi do nada [que começaram as ocupações]. Fizemos sete atos. Tínhamos voz e não éramos ouvido. Estávamos na mídia, mas não tivemos nenhuma proposta de diálogo.”
Laerte ficou impressionada com a articulação dos estudantes. “Estou abismada. Acho que nunca teríamos feito uma coisa desse teor”, afirmou em referência à sua geração. “Não sei o que vai mudar. O que eu gostaria muito que ocorresse era uma resposta de abertura para negociações. Uma compreensão do governo de que não é possível fazer esse movimento sem ouvir a sociedade.”
Em entrevista à Agência Brasil, a diretora de Ensino da região centro-sul, Maria Izabel Faria, disse que foram feitas várias reuniões com diretores de escola e representantes dos estudantes para explicar a reorganização.
“A diretoria e a secretaria estão abertas ao diálogo, mas muitas vezes não conseguimos esse diálogo, porque eles não entendem o que é reorganização, não estão a par daquilo que foi realizado, dos estudos e do cuidado que a secretaria teve ao preparar isso.”
A diretora criticou a participação de pessoas de fora da comunidade escolar nas ocupações. “É legítima a reivindicação, a manifestação dos estudantes. Lamentável é a infiltração de pessoas que nada tem a ver com a educação.”
(Da Agência Brasil)

Câmara dos Deputados vai discutir fechamento de escolas em SP na quinta (26)

A Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados promove audiência pública na quinta-feira (26) sobre o impacto causado pelas demissões de professores e funcionários da rede pública estadual, decorrente do fechamento de mais de 90 escolas no estado de São Paulo. A audiência está marcada para as 10 horas. A audiência será realizada no Plenário 8.
Participarão do debate o secretário de Educação de São Paulo, Herman Jacobus Cornelis Voorwald; a presidenta do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo (Apeoesp), Maria Izabel Azevedo Noronha; o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara; e o presidente do Sindicato dos Funcionários e Servidores da Educação de São Paulo (Afuse), José Carlos Bueno do Prado.
O deputado Valmir Prascidelli (PT-SP), que solicitou o evento, lembrou que o governador do estado, Geraldo Alckmin (PSDB), anunciou um plano de reorganização escolar com o objetivo de dividir as escolas públicas do estado por ciclos.
“Essa reorganização resultará no fechamento de centenas de escolas públicas e demissões em massa de professores e funcionários, além de superlotar ainda mais as salas de aula. Quase uma centena de escolas já recebeu comunicados sobre o fechamento.”
O deputado ressaltou ainda que a mudança vai atingir milhares de estudantes que precisarão alterar o local de matrícula e, consequentemente, terão de estudar em uma escola bem mais distante de onde moram.
(do Portal Vermelho)

Estudantes mantêm ocupações de escolas contra reorganização de Alckmin

Representantes de 50 escolas paulistas ocupadas e de algumas escolas não ocupadas se reuniram na noite de ontem (24) na sede das entidades estudantis na Vila Mariana, na capital, para trocar experiências e planejar estratégias e passos para a movimentação dos secundaristas contra a reorganização proposta pelo governador Geraldo Alckmin.
Os estudantes aderiram a um manifesto que exige a revogação imediata da reorganização, que não admite nenhuma escola fechada ou dividida, demissão de funcionários ou professores bem como nenhuma perseguição à comunidade escolar.
O texto será debatido esta semana nas diversas assembleias que acontecerão nas escolas ocupadas. Depois disso, os estudantes voltarão a se reunir no domingo (29), às 14h, na Praça Roosevelt, em uma grande assembleia livre para a propor a assinatura de documento comum que servirá como pauta para pressionar o governo do Estado.
O encontro na sede das entidades estudantis, na região central da cidade de São Paulo, reuniu mais de 100 estudantes de diferentes regiões do estado. Eles compartilharam informações e atualizações sobre como está o movimento em cada instituição de ensino.
Alunos de escolas ocupadas há mais de uma semana puderam contribuir com estudantes que vão passar hoje pela primeira noite de ocupação.
Como Stephanie Mirely, do 3º ano da escola Professor Alberto Conte, da zona zul da capital. “Eu vim buscar ajuda aqui, lá está um pouco complicado ainda, porque é nosso primeiro dia de ocupação. Eu vim buscar informação, porque estou meio desesperada, não sei nem onde vamos dormir hoje, acho que essa noite vamos dormir num papelão”, contou.
Já Thais Caroline Rocha, do 2º ano da escola Dr. Heitor Penteado, de Americana, a 130 quilômetros de São Paulo, disse que a realidade de uma ocupação ainda está longe da sua instituição de ensino, que pelos planos do governador Geraldo Alckmin (PSDB) deixará de oferecer o ensino fundamental a partir do ano que vem. Mesmo assim, ela veio em busca de força para iniciar uma resistência.
Thais afirma que os estudantes da sua escola temem pelo emprego dos professores que não são efetivos, já que a instituição sofre com falta de docentes. “Também nos preocupamos com a superlotação, porque a nossa escola é muito central, e devem ser transferidos para lá muitos alunos”, ressaltou.
Estudantes X direção de escolas
Na escola Plínio Negrão, em Santo Amaro, que foi ocupada na segunda-feira (23), a polícia foi chamada quando os estudantes começaram a definir a ocupação. Para Rinaldo Silva, aluno do 2º ano, não há possibilidades de o movimento recuar agora. “A minha escola não vai ser fechada, mas a tal da reorganização afeta a todos. As ocupações são manifestações em defesa da educação de qualidade, contra a política do estado de São Paulo”.
Também da zona sul da capital, as estudantes Barbara Nicole, Jéssica Figueiredo e Ana Beatriz Cartola, todas da escola Miguel Maluhy, no Campo Limpo, já ocupada desde o dia 13, relataram que a diretoria ameaça de expulsão os alunos que estão se manifestando, porém a ocupação, conta com mais de 60 alunos segue resistindo.
“A direção fica sabendo quais são os alunos mobilizados por meio dos professores que são contra a manifestação e diz preparar uma punição. A nossa mobilização não tem data para acabar e estamos seguindo com doações da comunidade que nos apoia”, conta.
Já Ana Letícia Esteves Rodrigues, aluna do 3º ano da Major José Mariotto, em São José dos Campos, a 90 km de São Paulo, decidiu apoiar os protestos em outra instituição, a Major Miguel Naked, após sua escola ter vencido uma ação judicial que impedirá seu fechamento dentro do projeto de reestruturação.
Ela contou que, durante a mobilização para a ação na Naked, a primeira escola da cidade a anunciar ocupação (dia 18), a diretora trancou a cozinha, as quadras e outras dependências da escola. Professores que apoiaram o movimento liberaram a senha do Wi–fi para facilitar a mobilização os alunos, porém logo a ação sofreu boicote. “A diretora mandou desligar o sinal da escola e ainda registra boletins de ocorrência diariamente”, disse Ana.
A estudante denunciou que, na Mariotto, três alunas boicotaram a prova do Saresp, ontem (24). Ela escreveram em todo o gabarito manifestações contra o governo de São Paulo e, por isso, foram chamadas à direção e ameaçadas de expulsão.
Assessoria jurídica
O que é reintegração de posse? Posso ser preso? Podemos filmar abordagem truculenta da Polícia Militar? Professores e diretores podem sofrer processos administrativos se ajudarem alguma ocupação? Posso ser penalizado se boicotar o Saresp?
Essas e muitas questões foram a preocupação de grande parte dos jovens.
“Sabemos bem, como temos sido recebidos nas escolas. A PM nos aborda com fuzil na cabeça”, ressaltou a presidenta da UBES, Camila Lanes.
Os estudantes relatam a cobertura ostensiva na polícia na porta das unidades e que na maioria das vezes são acionados pela própria diretoria que também é violenta na pressão sobre os alunos.
O advogado da UNE e da UBES, Victor Grampa, estava presente na assembleia e ajudou os estudantes a esclarecer alguns pontos. Ele foi taxativo: “Uma escola ocupada não pode ser invadida pela PM. Nem o governador pode exigir isso por contra própria. Eles precisam de um mandato de reintegração de posse.”
Na cidade de São Paulo, o Tribunal de Justiça decidiu que as ocupações são legítimas e que as escolas são bens do povo e o povo está se manifestando por esse bem.
“Na capital nenhuma escola pode ser reintegrada. Isso significa que se a polícia invadir contra a ordem da Justiça ela pode punir esse comando”, afirmou.
Grampa esclareceu para diversos estudantes de outros municípios paulistas que a medida pode ajudar a impedir reintegrações no Estado todo.
A “nova escola”
Entre as ocupações surge um movimento que revela um desejo dos estudantes: um novo ensino, com diferentes atividades, que leve em consideração a vivência dos alunos e lhes dê protagonismo.
Sob a forma colaborativa de oferecer aulas, professores e voluntários comparecem nas unidades e apresentam uma programação diferente. Na Miguel Maluhy acontecem palestras, apresentação de teatro e oficina de grafites e quadrinhos. A estudante Ana Beatriz Cartola é enfática: “Estamos aprendendo muito mais do que com a grade de aulas comum, além de desenvolver muitas outras habilidades”
Na escola Maria Regina Machado, região leste da capital, ocupada há uma semana, cerca de 50 alunos resistem mesmo com o corte de luz da diretora e comemoram. “A nossa escola nunca foi tão bem cuidada e limpa. Todos os dias acordamos cedo para a organização do local, preparar comida e participar das atividades culturais que incluem até formação de coral de música. Está bem melhor assim”, disse Rodrigo Henrique Duarte, aluno de 2º ano.
A unidade tem sido uma referência na região, dividindo as doações para as novas ocupações, que já chegam a 10 nas redondezas, e mobilizando para o boicote ao Saresp.
(da Rede Brasil Atual)

Ocupação nas escolas desmascara o “mocinho” Alckmin criado pela mídia

O estado de São Paulo está vivendo a luta do tostão contra o milhão. Apesar das tentativas do governo Alckmin em desmobilizar os estudantes ocupados, o movimento de resistência contra o plano de reorganização escolar, que pretende fechar 92 escolas em todo o estado, vem ganhando mais força e adesão. Nesta terça-feira (24), já são contabilizados 125 colégios ocupados.

O plano, intitulado “Reorganização Escolar”, formulado e executado sem a mínima participação popular

O governo Alckmin, denunciado há anos pelo movimento social pela falta de democracia ao executar suas ações sem consulta popular, dessa vez encontrou pelo caminho a muralha do movimento secundarista.
O plano, intitulado “Reorganização Escolar”, formulado e executado sem a mínima participação popular ou consulta às instâncias estaduais, como exemplo o Fórum Estadual de Educação, gerou perplexidade em toda a sociedade paulista.
A Escola Estadual Diadema foi a primeira a ser ocupada, depois a Fernão Dias na zona Oeste e na sequência a Salvador Allende, em Itaquera. A partir disso, a preocupação começou a rondar a vida do Palácio dos Bandeirantes, pois o movimento de resistência ganhava, na segunda semana de novembro, maior musculatura e apoio de pais, professores, movimentos sociais e artistas. Afinal, como ser favorável ao fechamento de uma escola que, apesar do descaso e abandono, continua a educar gerações?
Por trás da imagem de um governador flexível e pronto para dialogar apresentada pelos grandes canais, o governo tucano pensou que seria simples desmobilizar o movimento e agiu com armas já conhecidas:
1-
A mídia hegemônica, onde Alckmin, há duas semanas, aparece em inserções fazendo a defesa do fechamento das escolas, com um sorriso de empreendedor de sucesso, usando argumentos rasos e pouco convincentes.
2- O apoio da Policia Militar para espancar alunos, professores e invadir os colégios, com o uso da truculência de praxe.
3- O recurso das armas jurídicas, com a solicitação da reintegração de posse dos colégios ocupados.
4- A não aplicação da prova do Saresp nos colégios ocupados, buscando, dessa forma, marginalizar os estudantes ocupados.
Apesar das ações citadas acima, o governo tucano vem sofrendo uma sequência de derrotas. Os estudantes não se intimidaram com o uso da violência da Polícia Militar, a mídia hegemônica não conseguiu frear a onda de denúncias sobre os reais danos que o fechamento de 92 escolas promoveria no estado e, a partir disso, o plano de reorganização escolar, que seria provado na calada da noite, começou a ter seu destino alterado.

A semana passada foi difícil para Alckmin. Recuando, foi obrigado a retirar do plano de reorganização as escolas estaduais Augusto Melega e Braz Cubas, localizadas em Piracicaba e Santos. Além disso, quem apostava em um movimento “fogo de palha” momentâneo se frustrou. As ocupações a cada dia se triplicavam e contagiavam outros estudantes que, por consequência do inexistente diálogo, pegavam os seus pertences e ocupavam novos colégios.
Na última quinta-feira (23), o que poderia ser comemorado pelo governo tucano com a tacada de mestre para acabar de vez a pedra no sapato do governador, foi prontamente denunciado pelas entidades estudantis. Em audiência pública, o governo se disponibilizou e pausar temporariamente o plano de reorganização escolar. Prontamente, os secundaristas se negaram a desocupar as escolas e disseram que só vão sair quando o governo encerrar por vez o plano de fechar os 92 colégios. “Não vai ter arrego!”, era a palavra de ordem que os estudantes gritavam.
Paralelamente, belas demonstrações de apoio da sociedade se somam ao movimento de ocupação. Professores se disponibilizando para dar aulas nos colégios, doações de alimentos vindas de todas as partes, atividades culturais. Os estudantes ocupados dão a sua demonstração de cidadania: Mutirões para capinar, cozinhar, limpar e organizar as escolas. Se a intenção do governo era marginalizar as ocupações, o tiro saiu pela culatra.
Nesta segunda-feira (23) os estudantes obtiveram uma grande vitória. A justiça negou a reintegração de posse dos colégios ocupados, por entender que o governo tucano não debateu com a sociedade o conteúdo do plano, restando aos estudantes, como última opção, as ocupações nos colégios.
Apesar da blindagem da mídia, a coragem desses estudantes vem conseguindo mostrar algo importante: Há algo de podre no reino na Dinamarca e a população, que reelegeu Alckmin com 57% dos votos, começa a perceber que há um tucano privatista em pele de cordeiro. E ele não representa o povo paulista.
(Do Portal Vermelho)

Seminário "A luta dos povos pelo bem viver contra o imperialismo" começa nesta quarta (25)

O Projeto Permanente da UnB – Quintas Urbanas apresenta o seminário internacional “A luta dos povos pelo bem viver contra o imperialismo”, que será realizado nesta quarta (25) e quinta-feira (26), no Auditório do Beijódromo (Campus Darcy Ribeiro) e na sexta-feira (27) no auditório da FUB UnB – Planaltina.
A direção do Sinpro foi convidada para a Cerimônia Oficial de Abertura e está sendo representada pela diretora Iolanda Rodrigues Rocha.
As inscrições são gratuitas e as vagas, limitadas. Pré-inscrição e mais informações aqui.
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Chega a 114 o número de escolas ocupadas em favor da educação em SP

Segundo levantamento divulgado na tarde de hoje (23) pelo Sindicato do Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), chega a 114 o número de escolas estaduais ocupadas por alunos e professores, em protesto contra a “reorganização” imposta pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), que pretende separar as escolas por ciclos e fechar ao menos 93 unidades.
Pela manhã, mais 26 unidades foram ocupadas (23), cinco na capital e as demais no interior. Em São Paulo, os estudantes tomaram a E.E. Ciridião Duarte, na Lapa, zona oeste, a E.E. Plínio Negrão, na Vila Cruzeiro, zona Sul, e as E.E. Etelvina de Goes Marcucci e E.E. João XXIII, ambas na região sudoeste da cidade. Na zona norte, também foi ocupada a E.E. Capitão Pedro Monteiro do Amaral.
No interior, cinco escolas foram ocupadas hoje (23) pelos estudantes em Sorocaba. São Carlos teve duas escolas ocupadas, assim como em Campinas e em Iguape, no Vale do Ribeira. Outras ocupações ocorreram em Jundiaí, Caieiras e Itaquaquecetuba. No litoral, Santos e Guarujá tiveram unidades tomadas pelos estudantes. Guarulhos e Assis também registraram ocupações.
Confira a relação de escolas que estão ocupadas:
Rede Brasil Atual
(da Rede Brasil Atual)

Unesco divulga estudo sobre a repetência escolar na América Latina

Por sugestão do professor e pesquisador Alessandro Borges Tatagiba, é divulgado um estudo, publicado no site da Unesco, que compara a repetência escolar em diversos países da América Latina.
O PDF pode ser visualizado neste link (texto em espanhol).

Apoio ao movimento contra reorganização escolar em SP vem de todo o país

O movimento de ocupações de escolas, que teve início no último dia 9, contra a reorganização do ensino proposta pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), já chegou a 83 unidades, e o número cresce continuamente por conta da intransigência do estado. A proposta tucana é de separar os estudantes por ciclos e fechar 93 escolas, afetando a rotina de pelo menos 311 mil alunos.
À medida que as ocupações aumentam em todo o estado, os alunos começam a receber apoio de várias partes do país e até mesmo do exterior. Na página Não Fechem Minha Escola, no Facebook, os organizadores postam vídeos e fotos de apoios e também da rotina das ocupações, bem como da atuação da polícia, violenta em alguns casos.
Os vídeos postados têm milhares de acessos, como o enviado pelos alunos da Escola Estadual José Lopez Leite, do Rio de Janeiro, em que ressaltam que o bem “público” é de cada um, é de todo mundo. Enumeram as perdas para a comunidade quando uma escola é fechada: “A gente perde história, relações, momentos, estrutura, amigos, amores, conhecimento, beijo na boca, o agora, o futuro, a chance de poder se deslocar”. Os alunos aproveitam e mandam um aviso: “Se fecharem a nossa escola, a gente ocupa”.

Concilia?

Na segunda-feira (23), haverá nova audiência de conciliação entre o governo do estado e os representantes dos estudantes no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Na primeira tentativa, na quinta-feira (19), não houve acordo. Os alunos querem o cancelamento imediato da reorganização e a discussão das medidas durante todo o ano de 2016. O secretário da Educação, Herman Voorwald, não aceitou a proposta.
(Da Rede Brasil Atual)

Golpistas acampados em frente ao Congresso são retirados pela polícia

Cerca de 15 barracas do grupo de golpistas foram devidamente retiradas do gramado em frente ao Congresso Nacional, pela Polícia Legislativa. A polícia responsável pela segurança do Congresso tentou negociar com os acampados, mas, como não teve sucesso, retirou barracas e faixas, dispersando o grupo neste sábado (21).
O grupo foi obrigado a se retirar depois que, na semana passada, atacou integrantes da Marcha das Mulheres Negras. Um policial civil acampado com os manifestantes disparou quatro tiros para o alto e depois foi preso pela polícia.
Diante da evidente ameaça, dezenas de parlamentares exigiram da presidência da Câmara dos Deputados e do Senado a retirada do grupo. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que autorizou o acampamento, insistia em mantê-los, mesmo com a posição contrária de Renan Calheiros, presidente do Senado. Após o incidente, o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, reuniu-se com os dois presidentes e acertou um prazo até este sábado, para que os acampados deixassem a Esplanada dos Ministérios.
Mais cedo alguns integrantes do acampamento pró-intervenção ainda resistiam à desocupação e diziam que só iriam embora mediante a apresentação de um documento oficial determinando a retirada. Sem sucesso.
Percebendo que não adiantava mais insistir, o grupo mudou o discurso dizendo que deixaria o gramado mas permaneceria “mobilizado”. Eles cantaram o Hino Nacional e gritaram palavras de ordem como “Pátria, Família e Deus”.
O escritor Felipe Porto, 55 anos, prometeu novas ações. “Estamos prontos para fazer novos acampamentos, inclusive em frente à casa do governador”, disse, vestido com roupa de camuflagem e usando um broche em homenagem ao Exército.
(Do Portal Vermelho)

Educação em risco na onda privatizante do governo Rollemberg

Logo após tomar posse, o governador Rodrigo Rollemberg anunciou sua intenção de terceirizar a gestão dos hospitais públicos de Brasília e das escolas públicas do GDF. Em relação à saúde, deve lançar edital para detalhar e iniciar o projeto agora em dezembro.
Na educação, porém, Rollemberg encontrou forte resistência. No auge da greve dos professores contra os calotes no pagamento de reajustes previstos em lei, o governador quis aproveitar o impasse que criou para tentar empurrar goela abaixo dos professores a proposta de implantação da gestão de escolas de educação infantil (de 0 a 5 anos) por Organizações da Sociedade (OS’s) já a partir do 2016.
Conseguiu indignar ainda mais os educadores, que consideraram um insulto à categoria, à comunidade escolar e à população a ideia de abrir as portas para privatização da gestão da escola pública.
IMG-20151116-WA0012A proposta de OS na educação pública não é nova. Foi trazida ao Brasil por uma equipe tucana no governo FHC, sofrendo, na época, forte combate dos defensores da escola pública. A proposta é baseada na chamada charter school, muito praticada nos Estados Unidos. Nesse modelo, a escola é administrada por uma organização social que pode decidir a grade curricular, a gestão financeira, pedagógica e todas as diretrizes da escola, independentemente de Plano Nacional de Educação (PNE), ou qualquer política pública global de educação. Nesse modelo, o ensino público pode virar uma colcha de retalhos, com o Estado pagando para empresas privadas educacionais por um serviço básico e essencial, a educação do povo.
Em breve, esse modelo considerado privatizante será introduzido na rede pública do Estado de Goiás. O governador Marconi Perillo está em vias de execução desse projeto, atingindo muitas escolas estaduais no entorno do DF.
Para entender um pouco mais sobre esse modelo de OS na educação e os riscos para o ensino público e para os profissionais ligados à educação, veja a entrevista que o professor da rede pública do Distrito Federal, Cristino Cesário Rocha, concedeu à CUT Brasília. 
Cristino leciona Filosofia e Sociologia no Distrito Federal, é especialista em administração de educação, gestão escolar, estuda temas como culturas negras do Atlântico, histórias da África e Afro-brasileira, e se dedica ainda à pesquisa sobre Educação na Diversidade e Cidadania.
O professor entende ser bem preocupante a adoção das OSs porque tem a clareza de que a comunidade escolar e a sociedade não se beneficiarão. “É um modelo de gestão empresarial que não atende aos princípios de uma gestão democrático-participativa e à natureza da dimensão pública: pública, participativa, laica, democrática e de qualidade socialmente referenciada”, dispara.
Veja a íntegra dessa entrevista:
CUT: O que é essa Organização Social (OS) que passar a gerir uma escola pública no modelo pretendido por Rollemberg?
Cristino Cesário Rocha: De acordo com a Lei nº 9.637, de 15 de maio de 1998, OSs são pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, cujas atividades sejam dirigidas ao ensino, à pesquisa científica, ao desenvolvimento tecnológico, à proteção e preservação do meio ambiente, à cultura e à saúde, atendidos aos requisitos previstos nesta lei. Entendo a mesma como um engodo, uma ameaça e um perigo para os serviços públicos. Uma vez que a dimensão pública é amplamente distinta de uma entidade privada, que visa ao lucro, e não pode ser pensada sob uma falsa aproximação público-privado.
 
CUT: Quem é beneficiado com uma escola gerenciada por uma OS?
Cristino: A comunidade escolar e a sociedade em geral não serão beneficiadas por esse modelo de gestão. Em um contrato com a natureza da OS pode entrar o que mais atende aos interesses do contratante. Principalmente do ponto de vista ideológico e dos rumos que devem tomar a educação sem ouvir sindicatos e a comunidade escolar em parca preocupação com o acesso, permanência e qualidade social dos usuários/beneficiários. Eu me preocupo e vejo com desconfiança porque quem se beneficiará de fato serão os contratantes e não a comunidade. Primeiro pelo fato de não ser uma gestão democrático-participativa. Será um conselho de gestão e uma diretoria que tomarão as decisões sem a participação coletiva, como está assegurado na Lei Distrital de Gestão Democrática nº 4.751, de 07 de fevereiro de 2012. Precisamente nos mecanismos de participação e de modo particular no que diz respeito à Assembleia Geral Escolar. A Organização Social poderá beneficiar empresários, uma vez que nesse modelo a classe empresarial pode fazer parte da administração e mais do que isso: a composição que trata do poder público é curiosa, fala do poder Executivo, mas sem explicitar quem. Então é bem preocupante porque eu tenho uma clareza de que a comunidade escolar e a sociedade não se beneficiarão porque é um modelo de gestão empresarial que não atende aos princípios de uma gestão democrático-participativa e à natureza da dimensão pública: público, participativa, laica, democrática e de qualidade socialmente referenciada. A distribuição dos componentes revela o tipo de gestão das OS’s que tem um caráter privado, de modo a engolir o público. Pela lei a OS só terá de 20 a 40% de representação pública. Isso significa que 60% vão ser distribuídas para outros grupos sociais, então eu tenho impressão que não trará benefício pelo fato de ser o público gerenciado pelo privado com toda a sua perversidade e fabulação neoliberal.
 
556185530478CUT: Isso é a consolidação de um processo ideológico?
Cristino: Obviamente. A ideologia neoliberal age com muita sutileza, ela penetra na vida das pessoas e das instituições exatamente pela capacidade estratégica. A estratégia do neoliberalismo é entrar na educação pra fazer a cabeça exatamente do que eles chamam de cliente, que nesse caso é o estudante. Tanto é que eles estão começando pela educação infantil. Então não é por acaso que eles falam ‘vamos começar pela educação infantil de 0 a 5 anos; daí vamos fazer a cabeça dessas crianças’. Quando elas estiverem lá na frente acredito que pretendem trabalhar expandindo essas etapas nas demais modalidades de ensino. Tudo para que elas já tenham a cabeça pronta, feita pela ideologia neoliberal. É o estudante ajustado, adequado ao sistema de mercado, de competição. Porque a lógica é competitiva. E acredito que vão colocar meritocracia nesse projeto deles. Como eles vão formar um estatuto, um projeto de gestão, provavelmente vão colocar a meritocracia aí dentro. Aquele menino que conseguiu vislumbrar a qualidade vai ter uma premiação e o professor provavelmente também vai ser premiado, aquele que tiver um projeto melhor ou que está desenvolvendo uma coisa diferenciada. E quem não é classificado dentro do padrão não é exitoso no conceito neoliberal e vai ser punido. E aí o grande problema para os professores: eles podem ser demitidos. Se eles colocarem um dispositivo nesse contrato de gestão que pode demitir um professor que não corresponda ao padrão de produtividade, ele vai estar fora.
 
CUT: As políticas públicas de educação nacional e estaduais podem ser afetadas pelas OS? Elas podem existir ou serem comprometidas nessa conjuntura?
Cristino: Na verdade dentro de uma OS não cabe uma política pública de educação, cabe um contrato. Como vai ser um contrato de gestão, o que pode ocorrer é que se pode ter uma política pública um pouco mais decente se tiver um grupo inteligente no governo que perceba que esse contrato tem de ter gente em maioria que pensa diferente, no bem público. Caso contrário, esse contrato de gestão vai encobrir a política de educação, a política de governo. As OSs vão acabar manobrando a educação de acordo com o viés neoliberal de mercado, eu não tenho dúvidas. Se um governo aceita esse tipo de gestão é porque ele acredita no projeto, acredita na proposta de terceirização. Então provavelmente acabará quebrando com uma política de educação emancipatória, voltada para direitos humanos, para diversidade. Acabará com tudo isso. Porque são lógicas diferentes, são naturezas diferentes. Por mais que eles falem de aproximação de público-privado, não tem como conciliar. A coisa racharia, não tem como misturar essas duas naturezas.
 
CUT: como está o projeto de terceirização no Goiás?
Cristino: Pelo que tenho acompanhado a terceirização em Goiás está em andamento sob a liderança do Marconi Perillo e a secretária de educação do estado, porque os dois estão muito próximos. E pelo que consta a OS já está funcionando na Saúde. Alguns hospitais já estão sob esse gerenciamento e na educação está em avaliação. Mas pelo que consta o governador já está pedindo para que se façam alguns encaminhamentos táticos para implantar em 30% das escolas. Está muito forte o movimento de inserção desse tipo de modelo de gestão em Goiás. 
 
CUT:  O modelo de charter schools dos Estados Unidos que está prestes a ser implantado no Goiás provoca mudanças  pedagógicas nas escolas?
Cristino: Seguramente. As localidades vivem com dinâmicas diversas na cultura, no lazer, na forma de ver o mundo, na religiosidade, na etnia e na raça, em como se vê o gênero. E, quando se implanta um modelo padrão dentro de um contrato, isso se perde. Aqui no DF, por exemplo, nós temos um currículo chamado de ‘currículo em movimento’; então provavelmente um currículo dentro dessa gestão de OS vai ser um currículo fechado. Vai voltar o conteudismo e quebrar justamente com esse contexto regional e com a riqueza que tem o regionalismo, as culturas, as lutas sociais e os movimentos pelos direitos humanos. O que me preocupa mais, saindo do currículo e da plataforma de gestão, é que essas demandas vão enfraquecer a educação pública. Na verdade essa é a lógica do sistema neoliberal. É enfraquecer o sentido do público para privatizar. Não é por acaso que se precariza tudo nessa forma de gestão. Eu também vejo um grande problema que é a proletarização do magistério público. Quando você congela salários e desvaloriza o magistério público, você está criando proletários para um sistema que na frente vai te dizer ‘olha você não serve mais, vamos privatizar porque você não responde mais aos anseios do consumo e da produtividade do mercado capitalista neoliberal’.
 
imagesCUT: No Goiás existirão três modelos de escolas: a militar, as charter schools e as públicas. Ter esses três modelos, é uma maneira de descaracterizar a necessidade de uma educação pública?
Cristino: Sim, porque o projeto de desmonte da educação pública, e na verdade da coisa pública em geral, começa com a desqualificação. Primeiro se desqualifica para depois dizer que não presta. Por que muitas pessoas aprenderam que o público não presta, que é ruim, deplorável e tem que ser quebrado? Alguém colocou pra elas isso e imprimiu um senso comum de que o público não presta. Então essa é a tentativa de governos neoliberais. Eles imprimem um senso comum na sociedade de que o público não é bom. Eles mesmos produzem a precariedade para depois ter o álibi de dizer que é preciso privatizar porque ela [a escola] não presta, não funciona. É essa a ideologia. Você desmonta a importância colocando que ela não está boa e precisa mudar. Então qual a solução possível pra essa coisa que não está funcionando? É exatamente a privatização. E eles trazem os especialistas, os experts neoliberais, para compor essa gestão. Então provavelmente essa OS vai ser composta por gente que responde ao ideário neoliberal. Não será gente boba que não entende [de administração e educação]. Eles entendem, mas são tecnocratas e entendem de mercado. Vão trazer gente da escola privada, às vezes até aposentado. E cada um deles vai ser um testa de ferro lá dentro, primeiro porque ele já tem tempo de gestão e vão dizer que ele tem experiência, que ganhou um projeto em algum lugar. Sempre usam pessoas que já ganharam projeto fora do Brasil. ‘Ah, ele já ganhou projeto internacional; cara bom para ser o presidente desse conselho’. E aí vai encaminhando a privatização. Não é?
 
CUT: Esse modelo até o momento não deixou muito explícito como ficará o repasse de verbas para as escolas. Mas temos repasse de verba para merenda, livros didáticos, verba direta enviada pelo MEC. Como você imagina que ficará esse repasse, já que terá tanto o repasse de dinheiro do estado para pagar o contrato, quanto do governo federal. Como você faz essa leitura?
Cristino: Aí que está uma questão interessante, o financiamento da OS é um financiamento público. Está dado na lei, embora eles digam que é sem fins lucrativos. É sem fins lucrativos, mas quem financia é o público. Então o que acontece, eles colocam que é o poder público que vai financiar independente de ser federal ou estadual. O dinheiro vem para o financeiro e recursos materiais. Todos os recursos financeiros para materiais, mobiliário, tudo vai ser por conta do público. O grande problema que eu vejo nesse gerenciamento do financeiro é exatamente porque a gente tem um PDE (Plano de Desenvolvimento da Escola). A grande discussão que nós colocamos por meio dele é: o financiamento público tem que ser do público e não vejo como ser diferente para a gestão pública. Por meio da terceirização, não. Embora o serviço seja público, a gestão estará composta por uma empresa privada. Para mim preocupa mais o fato de gerenciar esses três pilares (o financeiro, o administrativo e o pedagógico) sob os ditames de uma administração de caráter privado. Nós sabemos que repasse público para empresas hoje em dia no que dá. Eles não pagam direito, atrasam salários, não fazem investimento adequado. Então tudo isso corrobora a desconfiança e eu desconfio que o gerenciamento da parte financeira desses recursos não será transparente e vai ter muita falcatrua.
 
imagesCUT: Em relação à militarização das escolas no Goiás: como está funcionando?
Cristino: No Goiás a ideia é colocar o militar para ser uma espécie de gestor nas escolas. Segundo eles, o militar consegue disciplinar o estudante. Eles acham que o alunado público é muito indisciplinado, que o aluno precisa ter um comportamento padrão. E isso não é muito diferente daqui [DF], não. Eu trabalhei lá na L2 Norte, no antigo Centro Educacional CAN, que mudou para o nome de Paulo Freire.  Tive uma aluna que saiu do Colégio Militar e estava lá na sala. Comentei com os colegas [professores] que tinha uma menina que veio do Colégio Militar totalmente diferente. Até para falar era de maneira formal, muito bem recatada, preocupada e com medo de abrir a boca. Eu fazia pergunta pra ela e ela se fechava e não se sentia à vontade para fazer certos debates. Senti que ela tivesse sido “formatada” dentro de um padrão militar. E o que me preocupa é que esse pensamento de Goiás, de que o militar será solução ao comportamento dito ‘anormal e desajustado’, acabe amesquinhando o espírito que fala, age, contesta, propõe e decide. A solução nesse modelo é para amordaçar o estudante, professores, pais, mães e responsáveis. Quando eles perceberem que o estudante e o profissional da educação estão fazendo uma reflexão crítica, vão começar a fechar o cerco e falar que ‘estudante veio para a escola para estudar e professor para ensinar e ponto final’. Na verdade o militar pela própria formação e pela própria cultura é fechado e truculento. Eles não têm a dimensão humana que tem a relação de um gestor público que atua com outra formação. A minha preocupação é que, ocorrendo em Goiás a militarização da escola e chegando a outros entes federados, será um perigo. Se nós queremos é a desmilitarização da polícia, você imagina como é que vai ser colocar dentro das escolas a polícia pra fazer um trabalho de gestão de crianças, adolescentes, jovens e adultos? Aí que vai ser o dano maior.
 
CUT: E esse processo tanto da charter schools quanto da militarização da educação pode ser implantado no DF?
Cristino: Eu vejo uma grande cópia. Um querendo copiar do outro. Eu acho pouco inteligente essas cópias, porque toda pessoa que copia sem avaliar profundamente a sua localidade, as suas possibilidades, as suas potencialidades e apenas copia pode estar fazendo por ingenuidade mesmo, por burrice, ou por atrelamento a um modelo que se impõe dos Estados Unidos pra cá como um pacote neoliberal. E a gente sabe que os nossos governos tanto estaduais quanto federal ainda estão bebendo nessa fonte neoliberal. Tanto é que acabam indo visitar os EUA e até Washington, onde se deu o ‘Consenso de Washington’. E eles trazem essas sugestões que na verdade não são sugestões, são coisas amarradas de um falso consenso, uma imposição. Existe algo muito sutil de imposição dos Estados Unidos de polo dominador do mundo. Acho que ainda está na cabeça do brasileiro e do latino americano que os Estados Unidos funcionam dessa forma. O que eles ditam está bom para ser copiado, está bonito. É aquele estilo hollywoodiano que eles divulgam como uma coisa muito bonita nos filmes, e a América Latina engole como se fosse algo bom, algo verdadeiro de ser copiado. Acho que é um grande erro, um grande equívoco de governos, e aí eu volto a dizer. Não é só conspiração, o governo brasileiro, os governos latino-americanos, eles têm a condição de dizer ‘não’. De dizer não, e de dizer ‘basta’ de autoritarismo e de imposição. E aí eu retomo o pensamento de Sartre: ‘nós somos aquilo que fazemos do que fazem de nós’. Significa que nós temos uma missão de reverter essa história, de não aceitar o que já está posto por uma imposição. Nós temos condição de pensar a nossa história, refazer aquilo, daquilo que fizeram de nós. Da colônia, da ditadura, do nazismo, neonazismo, da guerra mundial. Muitas pessoas se refizeram, outras estão ainda com o ranço desses modelos.
 
CUT: Partindo da cultura local do DF, quais seriam os malefícios da implantação desse modelo aqui?
Cristino: O DF tem uma cultura muito diversa. É um caldeirão de culturas. Acho que na verdade não existe uma cultura. Existem várias culturas do país que estão aqui dentro. Agora, enquanto localidade eu diria que faz parte da luta, e eu acho que é uma cultura da luta. A luta é uma cultura, um tipo de cultura, e dentro da educação, da particularidade, ela vem crescendo. Essas assembleias que nós tivemos esse ano, na educação, mostram que houve um crescimento da consciência do professor e do gestor público. Tanto que houve gestores públicos de escolas que fecharam a escola, coisa que nunca tinha acontecido em outros governos. A consciência começou a melhorar. Lotaram as assembleias, diretores fechando escolas. Antes o diretor ficava com receio. A Regional mandava um documento falando para arrochar os professores que estavam na greve. Hoje, não. O pessoal está fechando escola. Na Ceilândia fecharam escolas e ainda fizeram manifestos protestando contra a violência contra a categoria no Eixão sul. Eu vejo que a afronta da OS a essa cultura local é uma afronta ao que já temos de conquista. A lei de gestão democrática já conquistou minimamente uma gestão participativa. E isso seria uma grande afronta a essa cultura da luta, da resistência da cultura participativa e da tomada de decisão. Uma coisa que me lembra no documento, a lei de gestão democrática quem decide quem fica ou não, é a chamada assembleia geral escolar. Na gestão da OS é o executivo quem tira: ‘você não está dando certo, vai sair’. A militarização vem como pacote dentro do contexto do estatuto e do contrato de gestão, como eu disse antes: no contrato de gestão privado cabe tudo. E aí os espertalhões neoliberais vão falar “vamos colocar aqui os militares, eles vão ser interessantes pra isso, da disciplina, acabar com esses problemas de bagunça na escola”. Porque eles chamam tudo de bagunça. Não vai ter grêmio estudantil, eu acredito que já era. Dentro desse modelo qual é o grêmio que vai conseguir ter voz em uma escola tendo um militar como gestor? O cara vai intimidar, vai chamar o cara em uma salinha. A polícia lá dentro; vai ser isso também; vai ser um desastre, vai ser uma coisa de louco se isso ocorrer.
 
escola_privadaCUT: Essa terceirização da educação pode ser entendida como um processo de diminuição do estado, e que retira direitos?
Cristino: O Estado mínimo não veio para garantir direitos, mas privilégios. E quando garante o faz de modo amplo para as classes dirigentes e dominantesÉ que na verdade existe uma grande contradição. O Estado mínimo é mínimo para quem? É Maximo para quem? Penso que o Estado mínimo é mínimo na hora de garantir os direitos: direitos humanos, educação pública de qualidade, investimento público no público, mas é máximo, absoluto, na defesa da classe dominante, da elite empresarial, dos latifundiários, banqueiros e lideranças políticas. Tanto é que a ideia de Estado mínimo é melhor para o crescimento das empresas e das demais estruturas de poder. Porque eles [neoliberais] pensam que o Estado é um ente que dificulta a qualidade dos serviços públicos, sendo a intervenção no Estado um mal necessário. Tanto é que eles querem menos Estado intervindo nas políticas sociais. Ou se intervém, intervém em favor das empresas privadas. Aí eu tomo como base o Pablo Gentili [teórico e doutor em educação], quando ele coloca essa questão: a ideia de Estado mínimo é o Estado regulador de ações mínimas dentro da esfera pública. Então, por exemplo, o Estado que recua nas políticas sociais é um estado bom para o neoliberalismo. Então ele acha que se o Estado promovesse uma disputa com punição e recompensa seria um Estado melhor. Na verdade eu vejo o seguinte: o Estado mínimo é mínimo para essas questões reais de defesa dos direitos humanos. Você vê aí o Judiciário, o que fez na greve [dos professores]? Declarou ilegal. O Estado máximo acoplado ao judiciário age em defesa do status quo do Estado e de suas lideranças políticas. Isso é o que beneficia o liberalismo. É isso, o jurídico, a grande mídia e os tribunais todos a favor do Estado. Enquanto isso o Estado é absoluto para promover a defesa do status quo dos governantes e dos empresários, mas é mínimo no sentido de defender os interesses da população. Essa é a grande contradição do Estado mínimo. Então eu não vejo que ele seja apenas mínimo, na concepção genérica que se imprimiu. Ele é Estado absoluto e forte na defesa do patrão, do empresário.
 
CUT: Esse pacote neoliberal tem origem no Consenso de Washington?
Cristino: O Consenso eu digo que é um falso consenso. Porque ele foi colocado em Washington quando o Banco Mundial, o FMI, e o banco do Tesouro dos Estados Unidos por meio dos especialistas ditaram regras a serem seguidas por governos da América Latina. John Willianson que era um dos representantes do ideário neoliberal escreveu 10 regras que seriam cumpridas pelo restante das nações, especialmente da América Latina. Entre elas a privatização, disciplina fiscal, a liberalização do setor financeiro, a desrregularização da economia e etc. Usou-se “Consenso” significando que todo mundo concordou com aquele pacote de princípios formulado. Então, por acontecer em Washington com o aval dos agentes internacionais que estavam financiando aquela proposta foi chamado de “Consenso de Washington”. O dito consenso foi considerado como imposição. Segundo estudiosos foi ali que começou o grande projeto neoliberal para a América latina. Inclusive o Fernando Henrique Cardoso se ajustou a esse pacote de 10 princípios ditados por bancos. Mas foi tão perverso que o formulador John Willianson ficou preocupado com a extensão que tomou aquele pacote. Feito nos Estados Unidos como princípio norteador do mundo, assumido por nós, pelos governos brasileiros e da América Latina. Então quer dizer, significa que houve uma imposição de um pacote enquanto princípio, mas houve também uma subserviência dos países em desenvolvimento. Você não precisa assumir uma imposição. Faltou uma avaliação mais rigorosa quando se aplicou todo aquele pacote no Brasil. E aí veio o desastre. O Governo do Fernando Henrique Cardoso foi um desastre exatamente por isso: porque ele assumiu na íntegra o pacote de princípios do consenso de Washington. Tanto é que o Pablo Gentili e o renomado geógrafo e pensador Milton Santos colocam o seguinte, que o pacote neoliberal aprofundou as crises econômicas, a pobreza e o desemprego. Aprofundou com esse pacote os problemas educacionais. Então em vez de melhorar, cresceram os problemas. Significa que aquele pacote é inadequado às realidades locais da América Latina. Em questão de como ficaria a aplicação de uma OS dentro de uma cultura regional, a globalização e o neoliberalismo gera todo esse problema para as localidades por ser um pacote homogêneo e hegemônico, um pacote que homogeniza todos os pensamentos, todas as ideologias. E ainda hoje nós vivemos um pouco disso, dos bancos ditando o que devemos fazer. A política do FMI continua interferindo na América Latina por meio do MEC. Então o MEC eu não tenho dúvida: bebe na fonte neoliberal e repassa isso para o Brasil por meio do discurso, da ideologia de consultores, por meio dos programas que eles implementam, tudo com base no que o banco mundial, FMI e o Banco interamericano de desenvolvimento pretendem, então não é a política própria brasileira, a política local. É uma política baseada em banco.
 
CUT: O Consenso de Washington então tem uma influência muito forte no Brasil?
Cristino: Muito forte. E continua influenciando fortemente. Tanto é que a secretária de Educação em Goiás foi pra lá [Estados Unidos] ver o modelo das escolas charter. Então eles continuam com muita força, continuam vendo a gente como periferia. Eu acho que o grande equívoco dos Estados Unidos é de ainda perceber muitos países da América Latina como periferia. Eles acham que nós somos periferia e eles são sempre o polo da economia, do militar e da receita. Então eles acham que tem sempre a receita. E o pior é que nós e o governo brasileiro ainda pensamos que a receita está lá, que tem que ser copiada, que ela é boa. Embora você aplique ali o ingrediente deles e o bolo possa sair ruim. Mas veio dos Estados Unidos é bom, porque vem de um grande polo, de uma grande nação. Acho até que é uma forma de idolatria. Como tem a idolatria do mercado, existe a idolatria religiosa, eu vejo que existe uma idolatria aos Estados Unidos. E acho que a gente precisa desarticular essa idolatria para que possamos caminhar para a soberania. Se não vamos ficar copiando sempre essas experiências que ninguém sabe se deu certo ou não, e se temos as mesmas condições de fazer as mesmas coisas.

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